13 de novembro de 2008

contra a psicofoda linguística

Hoje apresento uma proposta simples para obviar à manipulação mental tácita que se transmite através da linguagem, nem sempre conscientemente (aliás, na maioria dos casos não é consciente, creio). Hoje venho embirrar com uma palavrinha que há muito faz carreira no modo ideológico de oprimir o pensamento das pessoas, forçando-as a concordar implicitamente com coisas que elas, caso pensassem claramente no assunto e sem fantasmas na imaginação, jamais aceitariam. Essa palavrinha é a expressão "povo" e o seu plural, "povos".

Na sequência do texto do Desidério, sobre a linguagem mistificadora do "Outro", com que se transformam as pessoas em anúncios de uma etnia, credo ou instituição, venho aqui partilhar um hábito que adoptei há algum tempo: evito à força toda a palavra "povos" a menos que a omissão implique infidelidade gritante com o original. Ao invés, uso a palavra "população" e "populações". Passo a explicar.

Um "povo" remete precisamente para uma etiqueta, um anúncio de credo, instituição ou etnia, para os costumeiros berloques místico-nacionais que desumanizam as pessoas e as transformam em rótulos com pernas de uma religião. Veja-se o exemplo triste da ex-Jugoslávia, em que se pode nascer em Zagreb e ainda assim ser "sérvio": basta ser ortodoxo. Conversamente, pode-se nascer em Belgrado e ser "croata": basta ser católico. Já conhecemos sobejamente o que destas oposições tem saído ao longo dos anos. Faz-nos desejar que a próxima geração de miúdos pudesse crescer livremente sem apanhar com os popes de um lado e os padres do outro. Tão-pouco com os líderes demagógicos que prontamente se aliam aos primeiros.

Uma população é algo diferente. Numa população pode haver de tudo: alentejanos, americanos, ingleses, escoceses, croatas, sérvios, russos, ciganos, pretos, brancos, amarelos, travestis, transsexuais, vendedores de enciclopédias de meia-idade, jogadores de xadrez, filatelistas, poetas embriagados, professores de piano, tradutores armados em filósofos... enfim! É uma festa. A expressão "população portuguesa" ou a "população da Nova Zembla" (seja o que for) não remete para uma "ideia" de indivíduo, donde se retirou toda a individualidade e já só restam tolices nacional-religiosas ("o judeu", "o americano", o...", "o...") referências obscuras a um mítico paraíso perdido que em tempo algum existiu.

Assim: a menos que estejamos a traduzir um autor xenófobo, racista ou nacionalista, um platónico religioso ou um místico pós-moderno... Ponhamos de parte a palavra "povo" e usemos antes "população". Deixemos de ser "recursos humanos" de ideologias e tentemos ser pessoas, para variar.

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