26 de novembro de 2008

Determinismo



Se o determinismo fosse verdadeiro, tal que todas as acções estivessem fixadas desde o momento inicial do universo pelas leis da natureza, estaria a moralidade posta em causa? Seria Hitler moralmente equivalente a Gandhi, na medida em que ambos foram determinados para agir como agiram? Deve esta constatação afectar a indignação que sentimos por pessoas «imorais»?

R
PETER LIPTON: É uma grande questão, mas vou contar-lhe apenas uma história familiar a aos filósofos que trabalham nesta área. Um homem é acusado e condenado por ter cometido um crime, sendo-lhe permitido fazer um pequeno discurso antes de ser decidida a sentença. Ele admite ter cometido o crime, mas alega ser não só criminoso, como também filósofo, um filósofo que está plenamente convencido da verdade do determinismo. Uma vez que tudo o que faz é determinado por causas que decorreram antes de ele próprio ter nascido, segue-se que não poderia ter feito outra coisa que não cometer o crime, o que faz com que, seguramente, não mereça ser punido. A juíza, tendo ouvido atentamente estas palavras, confessa ter, também ela, uma inclinação filosófica e que, à semelhança do criminoso, é também uma determinista. Como tal, não pode deixar de o punir.
Quando consideramos as relações entre determinismo e responsabilidade, a nossa tendência é não sermos totalmente consistentes. Assim, podemos pensar que não devíamos punir criminosos, que não nos devíamos indignar com eles. Qual é, porém, a «força» deste «não devíamos», tendo em conta que nós também somos determinados? Limitamo-nos simplesmente a fazer o que fomos determinados para fazer. Dado que não poderíamos agir de outra maneira, «devíamos» e «não devíamos» não parecem desempenhar qualquer papel.


Alexander George (org.), Que Diria Sócrates? Lisboa: Gradiva, 2008.


6 comentários:

  1. Se ser responsável é responder pelos seus actos um agente determinado é tão responsável como um agente possuidor de livre-arbítrio. Ambos respondem pela autoria dos seus actos.

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  2. A melhor solução para este enigma foi proposta por um determinista: Espinosa. Ele afirmava algures que "quando um cão contrai raiva, não o consideramos culpado do facto, mas ainda assim temos de o abater".

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  3. A resposta de Espinosa não resolve o enigma, apenas mostra que é incoerente impor aos polícias e aos juízes aquilo que o determinismo parece impedir que se imponha ao homicida ou ladrão: escolhas morais. Optar por não punir seria uma escolha moral. Mas isto é incoerente com a defesa do homicida.

    gostaria de salientar ao comentário do Rui o seguinte aspecto: se o agente não for determinado, parece que não pode ser autor de coisa alguma. Se não houver determinismo, parece faltar a consistência necessária para sermos responsáveis por uma acção. É que nós queremos que as leis da natureza não intervenham na mente até ao momento da decisão, mas depois queremos que se mantenha a eficácia determinista no que diz respeito à passagem da nossa decisão para a acção. É que sem essa eficácia, da nossa decisão para fazer x tanto pode resultar x, como y, como batatas.

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  4. O problema de Espinosa é mais profundo e vai reflectir-se também em Nietzsche: o "zaratustra" começa com o herói a descer a montanha, mas o problema desta porra é o seguinte - como raios é que ele subiu, em primeiro lugar?

    Espinosa trata as acções "imorais" como uma doença, tão determinada pelas leis da física como os germes e bactérias... Assim, temos de castigar homicidas tal como temos de combater a gripe. Mas isto é problemático porque para Espinosa há uma janela de liberdade que continua tão inexplicada na Ética como nos seguidores tardios, silenciosos, de Espinosa: o momento em que o gajo decide subir a montanha, isto é, saltar da "tristeza" para a "alegria", etc.

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  5. Um libertista diria que a verdadeira autoria de um acto apenas existe num mundo não determinista, pois entende-a como criação, invenção. A causa não determinada que por sua vez determina um acontecimento.

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  6. Mas o problema é que o indeterminismo também mina a possibilidade da acção criativa.

    Já imaginou um acto de criação musical em que se suspende a eficácia determinista dos fenómenos acústicos? O indeterminismo é um inimigo ainda pior do acto criativo.
    Por vezes imaginamos a criatividade como pura efusão de emoções anárquicas, mas a verdade é que um pianista só consegue ter "intuições" ao fim de imenso tempo a estudar com muita disciplina.

    Quase que apetece dizer: fora da necessidade não há liberdade. Tenho de ser determinado para poder criar.

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