19 de novembro de 2008

Padres, revolucionários de esquerda e poetas lunáticos


Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega mais velho de Matemática, entretanto reformado, me disse na sala de professores da escola onde ainda ensino. Esse colega era conhecido por assumir frequentemente uma atitude provocadora e até politicamente incorrecta, como agora se diz. Estava então eu a lamentar-me baixinho pelo facto de tantas pessoas pensarem que os filósofos são aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega se virou para mim e disse: «olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres, dos revolucionários de esquerda ou dos pseudo-poetas lunáticos.» Leia mais aqui.

14 comentários:

  1. Infelizmente Aires é algo comum encontrar licenciados em filosofia que, ou são padres, ou intelectuais de esquerda ou poetas malditos. Mas não é menos comum encontrar colegas de todas as áreas que não tem a meno5r disposição intelectual para discutir racionalmente o que quer que seja. À parte dos da filosofia e literatura dizerem mais tolices, a generalidade parece perder o tino com muita facilidade. Hoje em dia felizmente temos acesso a bons livros introdutórios até em língua portuguesa. E como eu leio os de biologia ou física para aprender, também os colegas de biologia ou física poderiam ler os de filosofia. Senão pode acontecer um episódio real como este que te vou contar: um destes dias falava de Richard Dawkins e Stephen J. Gould a duas colegas de biologia. E sabes o que me disse uma delas: bolas, é escusado falares de filósofos que eu não conheço nenhum. Respondi: mas são biólogos e não filósofos. Ela virou-se para a outra e perguntou: E tu, conheces? Ao que a outra respondeu: Não, não devem ser gajos bons. Aproveitei e fiz-lhe ver que o Dawkins é um galã muito elegante e bem visto. Portanto, a miséria anda aí á solta, tanto na matemática, física ou biologia.
    abraço e parabéns pelo texto

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  2. Caro Aires:

    Há passagens do seu texto que me parecem pouco claras. Se as interpretei bem são também falsas.

    É verdade que “a melhor filosofia se manifesta na discussão directa com os filósofos”. No entanto, a filosofia não é o estudo dos filósofos. A filosofia é o estudo (a análise, a discussão…) de certos problemas. Os textos de um filósofo são meios para chegar a esses problemas. Não faz sentido falar-se de filosofia caso não haja reflexão pessoal acerca dos problemas. Por isso, os textos dos filósofos têm – por chocante que pareça dizê-lo – um carácter instrumental. Têm valor se me ajudarem a pensar – eventualmente contra as opiniões que expressam. Se um texto filosófico for tão obscuro que, em vez de uma ajuda para eu pensar acerca da existência de Deus ou da diferença entre ciência e não ciência, se constitua ele próprio como o objecto de estudo isso significa apenas que não vale a pena lê-lo. Heidegger, Derrida, Deleuze, entre infelizmente muitos outros, são autores que normalmente não leio - pois o que escrevem é tão opaco que, em vez de ser uma análise do assunto X, se torna o tema do estudo. Em filosofia muitas vezes analisamos textos, mas a filosofia não é hermenêutica.

    Como é óbvio, isso não significa que fácil de ler seja equivalente a filosoficamente interessante e útil. Há filósofos difíceis de ler e compreender (por exemplo devido ao estilo da prosa) mas cujo estudo é compensador – pois se vencermos as barreiras iniciais da linguagem encontraremos ajuda para pensarmos por nós próprios acerca dos assuntos em foco. Kant é um bom exemplo disso.

    Onde estão os problemas filosóficos? Onde podemos encontrar os problemas filosóficos? Nos textos dos filósofos, claro. Mas só? Claro que não. Antes de haver textos de filósofos já havia problemas filosóficos. Pessoas que nunca leram textos de filósofos podem reflectir acerca de problemas filosóficos (de modo mais superficial que as pessoas que leram, certamente). Por outro lado: os próprios filósofos que escreveram esses textos referem outras “fontes”: acontecimentos da vida quotidiana, episódios históricos, descobertas científicas, erros científicos, mitos e lendas, obras de arte diversas: pintura, poesia, romances, etc.

    O Aires Almeida afirma: “A filosofia não precisa de se tornar literatura, poesia ou outra coisa qualquer para ter dignidade. Só quem não vê valor intrínseco na filosofia precisa de o ir buscar a outro lado.”

    Quando Platão refere mitos ou cita Heródoto e Homero está a negar o valor intrínseco da Filosofia? Quando Santo Agostinho cita a Bíblia e tenta justificar racionalmente uma qualquer passagem está a negar o valor intrínseco da Filosofia? Quando Kant refere Copérnico e Newton está a negar o valor intrínseco da Filosofia? Ao fazerem isso estarão a tentar tornar a Filosofia em mitologia, poesia, história, física, etc?

    Outro exemplo. Quando um professor de filosofia do ensino secundário (mas porque não do ensino superior?) ilustra o que é uma generalização através de uma banda desenhada ou de um anúncio publicitário, em vez de se limitar ao monótono exemplo dos corvos, estará a tentar transformar a filosofia em banda desenhada ou em publicidade? Implicará essa metodologia uma negação do valor intrínseco da Filosofia?

    Claro que pode haver em Filosofia utilizações inadequadas de mitos, poemas, referências históricas e científicas, etc. Mas poder-se-á dizer que todas as utilizações desse género são inadequadas? Parece óbvio que não: seria uma das falácias indutivas (poder-se-ia discutir se a Amostra tendenciosa se a Generalização precipitada).

    Ilustrar os problemas filosóficos através da apresentação de mitos, poemas, bandas desenhadas, excertos da Bíblia ou de qualquer outro livro “Sagrado”, vídeos, etc., não constitui uma diminuição da Filosofia. Não constitui uma secundarização dos problemas filosóficos e do seu interesse. Pelo contrário: mostra que esses problemas são tão reais, tão efectivos, tão universais, que se podem encontrar (sem que por vezes as pessoas envolvidas se apercebam) nas situações mais prosaicas: circunstâncias do quotidiano, anúncios publicitários, vídeos humorísticos, etc. Fazê-lo não significa que estejamos a ir “buscar a outro lado” o valor da Filosofia.
    Só teria esse significado se a Filosofia se limitasse a estudar-se a si própria. Mas os problemas que a Filosofia estuda são problemas do mundo, que se podem encontrar em inúmeros contextos – nas regras acerca do sigilo bancário, nas tradições tauromáquicas de Barrancos, nos livros de Sade ou nos textos de Kant. Como é óbvio, os textos de Kant têm um estatuto diferente desses outros contextos – tal como ver uma maça é diferente de um texto explicativo da fisiologia do olho.

    Tendo em conta que os livros religiosos, a publicidade, o humor, etc., podem ser altamente manipuladores, a sua análise filosófica (mostrando por exemplo que contêm falácias) parece ser promotora da autonomia intelectual e capacidade crítica dos alunos. Se isso é uma negação do valor intrínseco da Filosofia…
    Pensar isso parece-me um preconceito injustificável, diria mesmo irracional e … anti-filosófico.

    Como já foi dito, é claro que os mitos, poemas, bandas desenhadas ou vídeos não têm o mesmo estatuto de um texto filosófico. Este contém argumentos e explicações e aqueles contêm exemplos.

    Diferenciados esses dois planos, o que mais haverá a dizer que não seja um mero preconceito? Num contexto didáctico, pelo menos duas coisas:

    A utilização desse género de exemplos deve ser parcimoniosa e feita em função dos problemas que se quer ilustrar e esclarecer – e não como um meio em si mesmo.

    A escolha do exemplo deve ser cuidadosa para evitar exemplos excessivamente complicados que, em vez de ilustrações dos problemas filosóficos, se tornem eles próprios os objectos da análise.

    Quem tem essa parcimónia e esse cuidado na escolha não merece ser considerado um "poeta lunático". Tal como o Pedro Galvão e a Teresa Marques - que em conferências de Filosofia apresentaram powerpoints recentemente elogiados neste blogue - não merecem ser confundidos com aqueles patéticos professores que assustados com a avaliação e querendo mostrar serviço mostram powerpoints com meros scans de paginas do manual dos alunos. Fazê-lo seria claramente falacioso - falsa analogia, se não estou em erro.

    Cumprimentos.

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  3. Carlos Pires,
    Desculpe intrometer-me na conversa mas queria só fazer uma chamada de atenção a um pequeno ponto. Lembvrei-me de fazer esta nota quando li a sua referência ao "exemplo monótono dos corvos". A maioria dos exemplos clássicos da filosofia contemporânea infelizmente não são assim tão monótonos. São é completamemte desconhecidos da maioria dos estudantes do ensino superior em filosofia. Em seu lugar aparecem místicos conceitos de autores menos centrais e pseudo investigações profundas daquele pontinho em que Kant afirma X. Esses exemplos só são monótonos para quem se mete na aventura de ler uns livritos de filosofia. Se quer um exemplo muito prático, faça um questionário a recém licenciados em filosofia nas nossas universidades e pergunte quais os argumentos usados na fil da religão para discutir a existência de deus. Apesar de monótonos, é provél que a maioria dos estudantes os desconheçam, ao mesmo tempo que conhecem os poetas todos envenenados no holocausto nazi.
    obrigado

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  4. Foto na capa da Visão, hein? Um luxo! Parabéns!

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  5. Sim,
    (desculpe o off-topic) foi uma surpresa vê-lo na banca das bombas de gasolina da minha zona. embora usemos os meios electronicos para filosofar compartilho consigo o que diz acerca do plano tecnologico para a educação: ajuda sim ( e o aires mostrou-o no encontro de professores de filosofia em Setembro ultimo) mas não é o essencial.

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  6. É verdade, António Parente. Obrigado. A partir de agora acho que vou começar a ganhar mais no fim do mês :-)

    Caro Carlos Pires, fiquei surpreendido por algumas das ideias que me atribui. Talvez não tenha conseguido ter sido claro. Responderei amanhã ao seu comentário, dado que só agora cheguei e amanhã cedo tenho aulas.

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  7. Caro Carlos,

    «Há passagens do seu texto que me parecem pouco claras. Se as interpretei bem são também falsas.»

    Talvez sejam pouco claras, mas acho que não a interpretou bem.

    «É verdade que “a melhor filosofia se manifesta na discussão directa com os filósofos”. No entanto, a filosofia não é o estudo dos filósofos.(...)»

    Se acha a minha afirmação verdadeira, então estamos de acordo. O que vem a seguir não se aplica a nada do que eu tenha dito. Sinceramente não percebo, Carlos. Claro que a filosofia não é o estudo dos filósofos. Tenho-o afirmado publica e repetidamente em diversas ocasiões.

    «Os textos de um filósofo são meios para chegar a esses problemas. Não faz sentido falar-se de filosofia caso não haja reflexão pessoal acerca dos problemas. Por isso, os textos dos filósofos têm – por chocante que pareça dizê-lo – um carácter instrumental.»

    Chocante? Bom, isso a mim parece-me óbvio e não posso estar mais de acordo. Estou de tal modo de acordo que nem sequer me lembro da última vez que utilizei um texto nas minhas aulas de filosofia. Só não percebo onde foi o Carlos buscar a ideia de que eu pensava que os textos dos filósofos é que eram importantes.

    «Em filosofia muitas vezes analisamos textos, mas a filosofia não é hermenêutica.»

    Bom, ando a dizer e a escrever precisamente isso há anos. Pode confirmá-lo, por exemplo, no livro Renovar o Ensino da Filosofia, coordenado por A. P. Costa, sobre aquele que veio a ser o actual programa de Filosofia.


    «Onde estão os problemas filosóficos? Onde podemos encontrar os problemas filosóficos? Nos textos dos filósofos, claro. Mas só? Claro que não. Antes de haver textos de filósofos já havia problemas filosóficos. Pessoas que nunca leram textos de filósofos podem reflectir acerca de problemas filosóficos (de modo mais superficial que as pessoas que leram, certamente).»

    Ao ler isto até parece que me estou a ler, pois já o escrevi variadíssimas vezes.

    «O Aires Almeida afirma: “A filosofia não precisa de se tornar literatura, poesia ou outra coisa qualquer para ter dignidade. Só quem não vê valor intrínseco na filosofia precisa de o ir buscar a outro lado.”

    Quando Platão refere mitos ou cita Heródoto e Homero está a negar o valor intrínseco da Filosofia? Quando Santo Agostinho cita a Bíblia e tenta justificar racionalmente uma qualquer passagem está a negar o valor intrínseco da Filosofia? Quando Kant refere Copérnico e Newton está a negar o valor intrínseco da Filosofia? Ao fazerem isso estarão a tentar tornar a Filosofia em mitologia, poesia, história, física, etc?»

    Claro que não! Mas onde disse eu tal coisa? Creio que o Carlos está aqui a fazer uma confusão. Imagine que em vez de dizer que para a filosofia ter dignidade não precisa de se tornar poesia eu dizia antes o seguinte: para se ser um bom futebolista não é preciso ter um bom pé esquerdo. Será que estou a dizer (ou sequer que daí se infere) que se uma pessoa tiver um bom pé esquerdo não pode ser um bom futebolista? Isso não faz qualquer sentido. Dizer que a filosofia não precisa de recorrer à poesia para ter dignidade não equivale a dizer que se recorrer à poesia a filosofia deixa de ter dignidade.

    Quanto ao resto, não chego a perceber qual das minhas afirmações está a ser negada pelo Carlos, mas posso estar a ver mal, claro.

    Um abraço

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  8. Caro Renato,

    A propósito dessa minha afirmação é curioso que já fui apontado como mais um daqueles professores que têm horror a tudo quanto cheire a tecnologia. Até que achei graça. Ele há coisas!

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  9. Um problema que via afectando os nossos dias, é o de se ligar em demasiado à pessoa em vez de se dar atenção ao que esta defende.
    Por isso, quando nos manifestamos muito, é porque somos "revolucionários de esquerda", se adoptamos uma maneira de observar os factos com um tom mais calmo e conservador, somos "padres" ou até "reaccionários", ou por outro lado, se decidimos ter uma ideia mais extravagante e com um aspecto surrealista, somos "poetas lunáticos"...
    Ou seja, o argumento vale por quem o profere em vez de por si mesmo!

    Cumprimentos

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  10. Na primeira frase deve-se ler "vai" em vez de "via"...Erro de escrita. Cumprimentos

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  11. Já pensaram numa coisa curiosa: Platão nunca leu Kant nem James Joyce nem Oscar Wilde nem ouviu Bach...

    Segundo os cânones portugas, como raios poderia ele ser um filósofo?!

    Há aqui algo errado.

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  12. Boa noite, Vitor Guerreiro:

    é mesmo muito curioso, ...

    E tem sentido de humor!

    Helena Ribeiro

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  13. (Tentei postar isto há n dias; não o consegui. E apesar de não ser um comentário relevante como, por vezes, sou teimoso... vamos lá ver se agora com atraso de mais de uma semana -- e o problema é exclusivamente meu -- isto sai)

    O texto para mim é claro e recomendo-o. Não como um fim em si, mas pelos problemas reais que levanta. E deve-nos fazer pensar nas vezes em que muitos de nós andámos -- e por vezes continuamos a andar -- armados em pelo menos uma destas coisas: padres, revolucionários de esquerda, poetas lunáticos, enquanto leccionávamos a disciplina. E claro que quando assim é, prestamos um mau serviço à filosofia. Mais, isso também não dignifica o papel dos bons padres, dos bons revolucionários (deixo cair o "de esquerda" propositadamente) e dos bons poetas. É um mau serviço duplo: à filosofia e às outras áreas. Nem mais, nem menos. E o inverso.

    Uma segunda coisa -- nunca comprei a Visão, que me lembre, devido a uma foto. Mas confesso que comprei a Visão devido à tua foto e devido àquilo que presumia dizeres lá dentro. Afinal, fui enganado :) Lá dentro vi uma coisa muito bem feita e que deve fazer concorrência às melhores reportagens tipo foto-diariografia (lá estou eu numa de lunático!), por ex., de uma qualquer miss universo. E isto de a uma garina se lhe atribuir esse predicado de “miss do universo” é algo que dá muito que pensar, caso por ex. haja ET’s que também promovam concursos do género.

    Mas podes estar descansado: não mudei entretanto de orientação sexual, mas também não vejo as fotos de misses universo ou de misses do meu bairro que, por sinal, não sei se tem alguma :)

    Abraço!

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  14. Aires:

    Reli o seu texto, o meu comentário e a sua resposta e acho que tem razão: critiquei-o por coisas que não disse realmente.

    Julgo que li o seu texto pensando numa discussão travada há tempos atrás nos comentários a já não sei que post do Blog da Crítica. Defendi que a utilização parcimoniosa de recursos não filosóficos (banda desenhada, textos literários, etc.) nas aulas de Filosofia é vantajosa em termos didácticos. O Aires exprimiu algumas reservas.
    O que distorceu a minha interpretação.

    Desculpe responder tão tardiamente. A explicação para o atraso não é o excesso de trabalho nem sequer a dificuldade de reconhecer uma precipitação, mas sim aquilo que os psicólogos designam pelo feio nome de procrastinação.

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