17 de novembro de 2008

Popper e a verdade


Há dias estava eu de viagem quando apanhei alguém na rádio a dizer o seguinte: «como Popper mostrou, uma teoria científica é verdadeira até se provar que é falsa». Não é primeira vez que ouço alguém atribuir isto a Popper.

Trata-se, contudo, de uma grande incompreensão daquilo que Popper defende e Popper não poderia ter afirmado uma coisa tão manifestamente falsa. É daqueles comentários que revelam falta de subtileza filosófica e que consiste em tratar uma questão epistémica como se fosse uma questão metafísica. O que Popper defende é que temos boas razões para acreditar que uma teoria é verdadeira enquanto não se provar que ela é falsa, caso o tentemos fazer seriamente. Ora, ter boas razões para acreditar que P não é o mesmo que P ser verdadeiro. Popper nunca diria que a teoria geocêntrica foi verdadeira enquanto não se provou que era falsa. A teoria geocêntrica sempre foi falsa, mesmo quando acreditávamos justificadamente que era verdadeira.

Custa entender por que razão este tipo de confusão é assim tão persistente.


10 comentários:

  1. Aliás, porque Popper até nunca fala em "verdade" nesse contexto. Fala, isso sim, em verosimilhança.

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  2. Interessante essa distinção entre epistemologia e metafísica na maioria das vezes não ser percebida!

    Não só nesta questão popperiana, mas principalmente nas questões que envolvem algum tipo de relação entre epistemologia e metafísica.
    Por exemplo, na discussão de conceitos vagos é equivocado raciocinar dizendo que não há limites definidos das extensões dos conceitos vagos porque somos incapazes de conhecer esses limites nesses conceitos.
    Ora, o fato de não identificarmos ou conhecermos algum objeto não justifica a crença metafísica de que esse mesmo objeto não exista.

    Esse é um equívoco muito recorrente na filosofia.

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  3. As pessoas tendem a não ser capazes de separar aquilo que pensam das coisas e as próprias coisas. Talvez seja por isso que o relativismo é tão popular e ubíquo e que o pós-modernismo tem um sex-appeal tão desgraçadamente forte.

    Qualquer tese que nos diga que sem o nosso pensamento a realidade não pode existir ou pelo menos não sem grandes prejuízos para a realidade, é muito atraente... talvez tenha uma raiz biológica, não sei. Uma consequência lateral do instinto de preservação? Queremos tanto preservar-nos que vemos o nosso pensamento atrás de todas as coisas?

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  4. aires, apontas bem a incompreensão, mas tenho reservas quanto à tua interpretação de popper. o que popper defende realmente, parece-me, é que nunca temos razões para acreditar que uma teoria seja verdadeira. podemos, claro, encontrar razões para acreditar que uma teoria é falsa. e se, apesar dos esforços feitos para refutar uma teoria, permanecermos sem razões para crer na sua falsidade, tudo bem, podemos continuar com a esperança de que ela seja verdadeira. mas ainda assim não teremos razões (nem mesmo razões inconclusivas) para acreditar que é verdadeira. eu acho que isto é um enorme disparate, mas é o que popper defende -- de forma pouco clara, talvez -- e é o que ele tem de defender, dado que rejeita a indução e a confirmação.

    abraço,
    pedro

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  5. Sim, Pedro, o que dizes faz sentido. Obrigado pela precisão. Reconheço que o meu comentário é demasiado caridoso com Popper, que se deixa embrulhar de forma pouco clara nesta questão. Até porque, como refere o Peter of Pan, ele não fala mesmo de verdade, mas de verosimilhança. Só não vejo por que razão ele teria de defender isso, mesmo rejeitando a indução e a confirmação. Não podemos rejeitar a indução e, mesmo assim, ter boas razões para acreditar que uma dada teoria é verdadeira? Podemos, por exemplo, não ter qualquer razão de tipo indutivo para acreditar que P e ainda assim ter boas razões para acreditar que P é verdadeiro; podemos justificar a nossa crença na verdade de P argumentando a favor da melhor escolha, por exemplo. Não achas?

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  6. É que ter boas razões para acreditar que P é verdadeira não exclui a possibilidade ou o facto de haver razões para acreditar que P não é verdadeiro. E nem todas as razões tÊm de ser excelentes razões. Podem ser apenas indícios, melhores ou piores.

    Isto faz confusão, normalmente, porque as pessoas tendem a pensar que ter razões para acreditar que P é exactamente o mesmo que P ser verdade. É por isto que a nossa falibilidade é tão mal compreendida. (o que em si é mais um indício da nossa falibilidade).

    Há uma diferença entre ter razões para acreditar que P e decretar veementemente que P. Normalmente há confusão porque não nos libertamos da mania dos decretos.

    Outra razão porque o PROCESSO da discussão racional, que não tem fim à vista, o da confrontação de razões e teste permanente das crenças, afirmações, indícios, argumentos, métodos...

    Tudo variações de uma confusão básica: entre a verdade, o mundo, e o que pensamos acerca de ambos.

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  7. olá, aires!

    «Não podemos rejeitar a indução e, mesmo assim, ter boas razões para acreditar que uma dada teoria é verdadeira?»

    Repara: estamos a falar de teorias (portanto, de afirmações estritamente universais) das ciências empíricas. Se rejeitas a indução, dizes que nenhuma afirmação observacional poderá alguma vez apoiar, por pouco que seja, uma teoria científica. E não vejo como podes ter razões suficientemente fortes para acreditar que uma teoria científica é verdadeira se não te baseares minimamente em dados empíricos. (A mera consistência lógica de uma teoria, por exemplo, nunca é razão suficientemente forte para acreditar na sua verdade.) Portanto responderia negativamente à tua pergunta -- mantendo o corolário de que o falsificacionismo de Popper é um disparate neste aspecto crucial, que é o seu aspecto mais distintivo. Abraço,
    Pedro

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  8. Então,em uma breve resposta...
    o que seria a verdade para Popper ??

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