16 de dezembro de 2008

Avaliar argumentos indutivos

Gostaria de lançar aqui um desafio muito simples, que é avaliar cada uma das seguintes previsões indutivas, tendo em conta as regras de avaliação de argumentos indutivos. A primeira previsão é a seguinte:

José Sócrates nunca teve uma dor de cabeça até hoje.
Logo, José Sócrates não terá uma dor de cabeça amanhã.


A segunda é a seguinte:

No último ano José Sócrates teve todos os dias dor de cabeça.
Logo, José Sócrates terá dor de cabeça amanhã.


Vamos supor que as premissas dos argumentos são verdadeiras e que, portanto, não há contraexemplos. O curioso é que a amostra indicada na premissa do primeiro argumento é maior do que a do segundo. Contudo, aceitamos mais facilmente o segundo argumento do que o primeiro. Ou não? Porquê?

10 comentários:

  1. Aceitamos mais facilmente o primeiro, porque é (ou parece) mais provável que alguém nunca tenha tido uma dor de cabeça do que tenha tido dor de cabeça todos os dias durante um ano, a menos que tenha uma doença. Para além disso, se passasse duas semanas com dor de cabeça todos os dias provavelmente iria ao médico que lhe receitaria a lgo e, sendo primeiro-ministro, logo tendo acesso aos melhores cuidados de saúde, seria operado se algum mal maior houvesse. Embora seja pouco provável que alguém com cerca de 50anos nunca tenha tido uma dor de cabeça. São os dois improváveis. Mas sim, se calhar o segundo é menos improvável porque podemos imaginar que Sócrates tinha uma doença incurável que lhe provocava dores de cabeça diárias.

    E, dada a confusão do meu comentário, concluo que:

    teríamos de ter a opinião de um especialista em dores de cabeça para termos sequer a possibilidade de avaliar seriamente a probabilidade de um e de outro argumento, tal como precisamos de especialistas em aeroportos e ambiente e assim por diante para analisar a proposta do aeroporto da OTA.

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  2. Olá Aires,
    Bom exercício. Confesso que tenho dúvidas mas a razão parece-me ser que no segundo argumento há uma vantagem que é partir duma premissa afirmativa. Mas ainda vou pesquisar aí os meus manuais de lógica informal.

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  3. Como aluno do 11º ano, responderia que o 1º argumento é mais forte.

    Vejamos:
    Podemos dizer que as duas conclusões têm a mesma generalidade, pois se referem apenas a "amanhã" e, se não nos dissessem mais nada, a probabilidade de J.S. ter dor de cabeça ou não ter seria a mesma.

    Portanto, a diferença entre a força dos argumentos estará nas premissas. Como a premissa do 1º argumento é bastante mais ampla, o 1º argumento será, na minha opinião, mais forte.

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  4. Como aluno do 11º ano, responderia que o 1º argumento é mais forte.

    Vejamos:
    Podemos dizer que as duas conclusões têm a mesma generalidade, pois se referem apenas a "amanhã" e, se não nos dissessem mais nada, a probabilidade de J.S. ter dor de cabeça ou não ter seria a mesma.

    Portanto, a diferença entre a força dos argumentos estará nas premissas. Como a premissa do 1º argumento é bastante mais ampla, o 1º argumento será, na minha opinião, mais forte.

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  5. O duplo post não foi propositado.

    Cumprimentos
    João Silva

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  6. Por pensar que é mais provável, não se segue que o seja.

    Resultados passados não justificam que a probabilidade de um ou outro resultado seja diferente de 50%.

    Por isso, precisamos de uma justificação que justifique por que é que nunca teve desde sempre ou por que teve durante todo o ano passado.

    Logo,

    chamem o especialista em dores de cabeça.

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  7. Bem, a conclusão da segunda hipótese corre menos riscos de falhar.

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  8. O colega João Paulo Maia está com dificuldades em aceder à área de comentários do blog e pediu para que o seu comentário fosse aqui colocado. aí está:

    "Aires,


    Aceita-se mais facilmente o segundo argumento do que o primeiro. Uma das razões é esta: uma amostra maior não significa que seja mais significativa ou representativa, para mais no caso em apreço. Sabem-se coisas (ou presume-se saber) que tornam o segundo argumento mais plausível do que o primeiro.



    Tento explicar melhor isto depois, logo que tenha tempo.

    João Paulo Maia"

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  9. A meu ver, é possível considerar a conjunção dos dois argumentos premissas da própria questão levantada, que nesse caso culminaria em duas conclusões: "aceitamos (mais facilmente) o segundo argumento(concl. 1). Ou não (concls. 2)? Porquê?". Qualquer que seja a resposta à pergunta feita, ela também será resultado de um raciocínio indutivo, pq em ambos os casos as premissas não garantem a verdade lógica das conclusões. Não há nada nos argumentos, aqui considerados "premissas", que faça com que aceitemos mais facilmente o segundo ao primeiro, pq a aceitação de um em detrimento do outro resulta de um raciocínio indutivo.Assim, eu tanto posso aceitar o primeiro, qto o segundo, pq ambos podem estar certos.É perfeitamente possível que alguém sofra de uma doença crônica e sofra sempre de dor de cabeça o que me permite inferir indutivamente que amanhã ela terá(não sendo necessário que isto seja verdadeiro). Mas também é perfeitamente possível que uma pessoa nunca tenha sofrido de dor de cabeça e eu infira indutivamente que ela não terá. Os argumentos possuem a mesma forma, não há razão de se comprometer com a verdade das afirmações(mas isso é outra questão). Eu acredito que ela terá ou não, isso nao se segue que de fato ela terá ou não.

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  10. Na minha forma de ver, a amostra é maior no segundo argumento é não no primeiro. Ter dor de cabeça é evento raro, na minha vida tive poucas dores de cabeça, mas as tive.

    Ilustrando, se digo que uma lancei um dado 6000 vezes e obtive sempre 6, espero que no próximo lançamento obtenha 6, pois certamente há algo errado com o dado, e no caso com o José Socratés.
    O problema portanto não está nas premissas, mas no nosso conhecimento prévio do mundo, que sabe que um dado deveria dar 6 apenas 1/6 das vezes, como a dor de cabeça deveria ser um evento raro.

    Abs.
    Carlos Lavieri
    Obs: Adorei o blog.

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