17 de dezembro de 2008

Da miséria da vida estudantil

Apesar de não constituir o propósito principal deste blog, acontece que ocasionalmente, principalmente nos comentários, acabamos por referir a nossa experiência de licenciatura em universidades portuguesas. Para mim essa questão está já um pouco consolidada mas reveste-se de particular interesse se pensar que a licenciatura em filosofia constitui na maioria dos aspectos uma forte desilusão para as expectativas que eu tinha do curso. Não foram raras as vezes em que me convenci que não conseguia ler os textos dos filósofos já que eles só eram acessíveis ao professor, que até lia alemão, e àquela meia dúzia de alunos que frequentavam o seminário de alemão. Normalmente quando abordava um ou outro aspecto do filósofo “o tal”, respondiam-me que não era nada disso, que eu não estava a compreender o problema. Parecia que existia sempre algo mais profundo que eu era incapaz de alcançar. Naturalmente resvalei para outros quadrantes com alguma facilidade, nomeadamente com a hipótese bastante plausível de aquela malta sofria de um pedantismo insuportável e que existia ali algo infantil de afirmação social e pessoal. Curiosamente quando conversava com estudantes de outros cursos ficava na dúvida: 1) ou eles também são como eu e não passam a tal barreira só ultrapassável pelos eleitos, como os fulanos que até aprendem alemão e dinamarquês ou 2) afinal os que aprendem alemão e dinamarquês são mesmo uns pedantes. Bem, por nenhum passo de mágica passei a saber mais filosofia. O que futuramente me haveria de acontecer foi pegar num manual escolar escrito para adolescentes e perceber que me tinha escapado todo um mundo. Desde então a caminhada tem sido 1) lenta, 2) difícil e 3) não fosse a internet, muito solitária. Hoje mesmo estava a pensar nisto tudo e, sobretudo, nas dificuldades que tenho sentido. Estava também a pensar como é que tanta e tanta gente prefere viver na fantasiosa mentira e não admitir a sua deformação de base e recordei que, pelo segundo ano de faculdade, tinha eu uns 19 anos de idade, andava a distribuir em fotocópia um libelo que me tinham passado e que era a pedrada no charco daquilo que eu sentia em relação à universidade e aos estudantes. Trata-se de um libelo da Internacional Situacionista e que foi traduzido do francês por Júlio Henriques, publicado pela Fenda. Ainda guardo comigo dois exemplares originais impressos em folhas cor-de-rosa. Uma busca na internet e encontrei esse libelo. Estive a relê-lo e sob muitos aspectos ele ainda diz algo sobre a realidade dos estudantes universitários e o meio académico, pese embora os anos o tenham já politizado e desactualizado em alguns pontos. Mas vale a pena lê-lo, sobretudo para quem anda ainda nas universidades, que já não é o meu caso. Para aceder basta clicar AQUI.

5 comentários:

  1. Rolando

    interessante como o mesmo aconteceu comigo aqui no Brasil. E olha que eu estudei grego durante seis meses, hein? Mas não adiantou nada, continuava a não conseguir captar o que a minha professora dizia. Hoje eu sei que eu não conseguia compreender o que ela dizia, porque ela não dizia nada: eram frases sem sentido, portanto não haviam proposições para levar em consideração. Mas esses professores, que criam uma espécie de culto religioso em torno de um filósofo estrangeiro, são apenas um dos tipos de anti-filósofo que encontramos nos departamentos de filosofia - há outros tipos também.

    O pior nessa história toda não é apenas o fato dos anti-filósofos atrairem pessoas que têm um raciocínio de homem das cavernas e abominam discussão filosófica, mas o fato de espantarem dos cursos as pessoas que realmente gotam de fazer filosofia. E depois impedirem que os poucos que não desistem consigam algum espaço na academia.


    Você mencionou o manifesto da Internacional. Algo que me ajudou muito a "engolir" as picaretagens na graduação foram as críticas de Schopenhauer ao idealismo alemão - praticamente todas as críticas dele se aplicam a esse estado de cosias lastimável que é a pseudo-filosofia que se ensinam nas universidades atrasadas.

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  2. Matheus,
    O que eu acho espantoso é que as pessoas não assumem estas coisas como o Matheus o fez. É que é assumindo que começamos a trabalhar mais seriamente.
    abraço

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  3. Rolando

    aqueles que não assumem tais deficiências estão contentes com elas porque ou detestam a filosofia ou não levam jeito pra coisa. Mas o que me preocupa não é isso, o que me preocupa é saber que muitas vezes as seleções de professores nas universidades utilize critérios absurdos que não têm qualquer relação com competências filosóficas. E que tais seleções tendem a criar um circulo vicioso nas universidades: selecionando pessoas que não possuem competências filosóficas mínimas e excluindo filósofos, no verdadeiro sentido do termo.

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