4 de Dezembro de 2008

Generalizações e previsões


Descobri hoje numa aula do 11º ano que alguns alunos, ao avaliar argumentos, confundiam sistematicamente os argumentos indutivos por generalização com as previsões (que também são argumentos indutivos). Na verdade, eles sabiam distinguir perfeitamente generalizações de previsões. O problema surgia quando se tratava de os avaliar. Por exemplo, a generalização

Até hoje o Sol nasceu todos os dias.
Logo, o Sol nasce todos os dias.

foi por eles avaliada como um mau argumento, o que considero correcto. Mas também a previsão

Até hoje o Sol nasceu todos os dias.
Logo, o Sol irá nascer amanhã.

foi por eles avaliada como um mau argumento, o que é incorrecto. Diziam alguns deles que ambos os argumentos eram maus pelas mesmíssimas razões. Mas o conhecimento científico disponível mostra que a premissa da generalização é irrelevante para o que se quer concluir, ao passo que não o é para a conclusão da previsão.

O que acha o leitor?

18 comentários:

  1. Olá Aires, os nossos leitores estão silenciosos em relação ao problema, mas gostaria também de compreender como é que intuitivamente as pessoas avaliam estes argumentos já que a dúvida dos teus alunos é mais ou menos comum.
    abraço

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  2. Julgo que irei afirmar o óbvio, mas os alunos esqueceram a extensão da conclusão. O 2º argumento é melhor do que o 1º pois compromete-se com menos acontecimentos. A probabilidade do 1º ser verdadeiro é menor do que o 2º.
    (Aliás o 2º é um mau argumento também se aceitarmos que tudo tem um fim, e aí sabemos que é impossível que o Sol nasça todos os dias, pois irá surgir o dia em que ele não nascerá. Assumo aqui que uma generalização não distingue presente e futuro, isto é, que se estende aos acontecimentos conhecidos e aos ainda não verificados)

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  3. Nem sempre é fácil avaliar argumentos indutivos e frequentemente é preciso procurar algo mais do que contraexemplos ao que é afirmado nas premissas e do que saber se os casos em que se baseia a indução são representativos.

    No caso da generalização, e apesar de a premissa ser verdadeira, sabemos pela ciência que o Sol é uma estrela de meia-idade e que há-de morrer um dia, daqui a muito tempo. Portanto, o facto de ter nascido todos os dias até hoje é irrelevante (uma pessoa também acorda todos os dias até morrer). No caso da previsão, as coisas já são diferentes: apesar de sabermos que o Sol vai morrer um dia, não temos boas razões para não acreditar que vai morrer amanhã, sabendo nós que até hoje tudo tem corrido como de costume (o sol não se vai apagar de um dia para o outro; vai-se extinguindo pouco a pouco). Por isso mesmo é que ninguém deixa de achar realmente improvável que o sol não nasça amanhã, dado que até hoje tudo correu como de costume.

    Acho que a resposta do Rui também capta esta diferença, embora o diga de maneira diferente. No fundo, tenho boas razões para achar altamente improvável (embora não impossível) que a Maria de Lurdes Rodrigues esteja de boa saúde amanhã, se for verdade que ela tem estado de boa saúde até aqui. Mas já não tenho boas razões para acreditar que ela vai estar sempre de boa saúde, mesmo que tenha estado de boa saúde até aqui.

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  4. «...apesar de sabermos que o Sol vai morrer um dia, não temos boas razões para não acreditar que vai morrer amanhã»

    Oops, queria dizer antes: «...não temos boas razões para não acreditar que NÃO vai morrer amanhã».

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  5. Exactamente.
    Não sendo especialista em Lógica, acrescento apenas a esta discussão o «problema da projecção» (Nelson Goodman, Facto ficção e previsão). A premissa pode ser projectada até onde? A dita Si... Ministra goza de boa saúde até hoje. Esta premissa pode ser projectada até «onde»?
    Analisar esta questão costuma resultar com o «aluno médio» de forma a mostrar a diferença de validade entre argumentos indutivos

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  6. Quero aproveitar para parabenizar o autor pelo interessante exemplo transmitido.
    Eu sou um aluno do 11º ano e acabei de dar precisamente essa matéria.Concordo com a avaliação do autor.
    Gostava, também, que o autor me esclarecesse quanto à diferença entre previsões e generalizações.Parece-me que as previsões têm um carácter mais específico e prescritivo do que as generalizações, sendo que estas se referem mais ao estabelecimente de conceitos a partir da experiência.
    Queria também aproveitar para expressar o meu espanto relativamente às minhas aulas de filosofia:o tema dos argumentos indutivos foi apresentado única e exclusivamente com recurso a dois trabalhos de grupo, realizados por alunos como eu, que apesar de trabalhadores e voluntariosos, não detêm uma licenciatura de filosofia. Gostava de saber a opinião do autor e de outros leitores acerca destas ideias.

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  7. Caro João,

    Sim, a diferença entre generalizações e previsões é basicamente como sugere. Enquanto a conclusão de uma generalização é, como o próprio nome indica, uma afirmação geral ou universal, a conclusão de uma previsão é uma afirmação particular.

    Acho espantoso que se ensine isto com trabalhos de grupo. Já agora, quais foram as indicaões e as orientações para os trabalhos de grupo? E o trabalho consistia exactamente em quê?

    Pessoalmente, não me recordo de pedir aos alunos trabalhos de grupo, nem estou a ver qual a utilidade disso, a não ser em casos muito excepcionais, que não estou neste momento a ver quais.

    Isto faz-me lembrar um colega que me contou uma vez que, quando andava no sexto ou sétimo ano, teve uma professora de Português que mandou fazer um trabalho de grupo intitulado "A minha relação pessoal com a escola".

    Sempre achei que estava a inventar.

    Cumprimentos

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  8. Caro Aires Almeida,

    Muito obrigado pela sua resposta.

    Relativamente ao trabalho de grupo, vou narrar a epopeia que testemunhei:
    "Numa aula do meu último tempo,a minha professora chega à aula (na aula seguinte a nos ter leccionado a lógica dedutiva)e dá a escolher à turma uma de duas opções:ver um filme (intitulado "A Time to Kill") com a condição de se voluntariarem dois grupos para nas aulas seguintes leccionarem a lógica indutiva;ou então assistir a uma aula regular na qual a professora leccionaria o referido tema.Obviamente, gerou-se um burburinho no qual a turma gritava a plenos pulmões que queria o filme.4 pessoas voluntariaram-se e formaram-se dois grupos:um que leccionaria os tipos de argumentos indutivos e outro as falácias.Até hoje continuo sem perceber o que é que o filme tinha a ver com o trabalho de grupo.
    Nas duas aulas seguintes em que este tema foi leccionado, a professora (apesar de ter presenciado a aula) fez questão de nos dizer para colocar as dúvidas às nossas colegas apresentadoras, apenas intervindo em situações muito específicas."
    É impossível esperar um ensino de qualidade desta forma.No meu entender, é uma situação completamente absurda!
    A professora chegou a perguntar se alguém se opunha à sua resolução:apesar de não me orgulhar da minha posição, não disse nada pois tenho 16 anos e se dissesse algo seria considerado pior do que o Anticristo, acredtite!
    De tão absurdo, poderá achar o meu relato falso.De facto, os relatos juvenis são em 99% das vezes exagerados ou até mentirosos.No entanto, falo a verdade!
    Além disso, tenho a certeza que se me queixasse a outro professor, ele discordaria e me repreenderia:em vez de se ensinar a filosofia, pretende-se educar para a cidadania (para a cooperação entre alunos?) e para um ligeiro enriquecimento da cultura geral individual negligenciando-se o ensino verdadeiro.
    Na minha opinião, não vejo o interesse em fazer trabalhos de grupo, quer a filosofia, quer a outra disciplina:nunca aprendo nada com os trabalhos de grupo;se o objectivo é promover a cooperação, também não faz sentido pois eu não preciso da Escola para cuidar da minha vida social.
    No final do período, quando tiver que avaliar os alunos, a professora não se guiará exclusivamente pelos seus desempenhos nas fichas de avaliação, mas por ninharias destas.
    Não se promove a verdadeira aprendizagem, havendo um total desinteresse pelo ensino correcto.

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  9. Caro João,
    A experiência que me conta parece não encaixar em lado algum mas, por princípio, como professor, não me oponho ao trabalho de grupo. É verdade que o trabalho de grupo quando bem orientado desenvolve competências de cooperação social. Se esse não for o objectivo principal do trabalho, nada há de mau à partida para a decisão de o propor. O problema surge quando se substitui os objectivos da disciplina a ensinar pelos das competências sociais e afectivas, como se tal fosse o mais relevante. Pessoalmente, como professor de filosofia do ensino secundário, só recorro ao trabalho de grupo para uma actividade extra curricular que temos na escola e para a qual temos de constituir equipas. Mas o trabalho de grupo é recorrente em novas disciplinas muito vagas como cidadanias e outras semelhantes. O que quero dizer com isto? Para uma disciplina como filosofia não existe especial interesse no trabalho de grupo, o que existe é ineteresse em discutior activamente os argumentos na aula, depois de estudados e conhecidos, mas daí não decorre que não se possa desenvolver um conteúdo em trabalho de grupo. A sua experiência parece-me uma infelicidade de lanificação de aulas.
    Até breve

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  10. Caro prof.Aires Almeida:

    Antes de mais, obrigado pela sua resposta.
    Foi de facto um episódio infeliz, que ilustra a forma leviana como a filosofia me é ensinada.No entanto, não quero, nem devo generalizar...
    Queria também saber a sua opinião sobre o seguinte assunto:o que acha de perguntar definições nos testes?Estou a falar de perguntas do estilo:"define x" e não perguntas do estilo "explique z".
    Digo isto, pois é recorrente no universo estudantil o acto do "decorar", permitindo que no teste se faça um "copiar-colar".
    A avaliação das respostas (como que aprovando esta moda), faz-se penalizando-se muitíssimo qualquer desvio do script oficial da professora, sendo esse um dos aspectos que mais me desagradam nas aulas de filosofia.Obviamente, dever-se-à penalizar erros científicos, não me interprete mal.

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  11. O que penso sobre isso está em parte aqui:
    http://dererummundi.blogspot.com/2008/11/escolher-contedos.html

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  12. Desidério Murcho, congratulo-o pelo seu texto.
    A ele pouco há a acrescentar.Como um comentador indica, a larga maioria dos estudantes estuda não pelo gosto de aprender, mas sim para tirar boas notas.Mais grave é para mim a aprovação destas mesmas práticas por parte dos professores.
    Ter-se-à gerado nos últimos tempos no mundo estudantil uma nova tribo que eu denominado "proto-médicos". Estes constituem (90% + 9%) dos bons alunos. Esta tribo já resolveu o problema do sentido da vida:ser médico!O que interessa é tirar boas notas a qualquer preço (como frequentar escolas privadas obtendo média interna 19,1 + 0,9).
    Enfim, estes constituirão os "macacos" mais eficientes!

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  13. Caro João,

    Há pouco confundiu-me com o Rolando Almeida, que lhe respondeu e não eu. Não faz mal.

    Quanto ao que me pergunta, acho que depende do que se quer avaliar. Se se quiser avaliar a capacidade de memorização, ainda que não se compreenda o que se diz, tudo bem. Decorar matrículas de automóveis ou números de telefone também é um bom exercício para testar isso.

    O único problema que vejo ai é o seguinte: qual o interesse filosófico disso? Eu posso decorar a definição de validade, não fazer a mais pequena ideia do que é a validade e não saber distinguir um argumento válido de um inválido.

    Neste caso, o que se faz com a definição? Nada.

    Cumprimentos

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  14. Peço desculpa pelo equívoco, ele não foi propositado.Fico bastante satisfeito por conhecer as opiniões abertas de outros professores.Digo abertas, pois apenas conheço professores da minha zona de residência, o que leva a que estes não sejam totalmente imparciais.

    Queria também questionar outra coisa. Tal como no ano passado, este ano penso que não vamos dar a matéria toda contida no livro de filosofia, como fazemos a matemática ou física. É suposto haver conteúdos opcionais ou não?

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  15. Obrigada caro professor pelo esclarecimento desta matéria que me deixava com algumas duvidas e hesitaçoes...
    Tou no 11ºano num colégio mas tenho alguma dificuldade em perceber a falácia da falsa analogia...de certo será algo de fácil compreensao mas nao consigo chegar ao raciocinio

    Muito obrigada
    Margarida

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  16. p.s. - será que alguem aqui me pode explicar? obrigada

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  17. Olá Margarida,

    a Crítica tem um "guia das falácias" (aqui) e a falácia da falsa analogia é abordada aqui.

    Espero que seja útil!

    Té,

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