29 de dezembro de 2008

John Shand: O que é a filosofia?


Há uma anedota recorrente entre muitos filósofos profissionais, que envolve um deles a ser encurralado durante uma festa por alguém que ao saber que se trata de um filósofo lhe pergunta: "Bom, o que é então a filosofia?" A piada reflecte na verdade o desconforto de muitos filósofos e a desconfortante consciência de não serem capazes de dar uma resposta directa e clara. Mais...

6 comentários:

  1. Excelente texto, embora certas partes (sobretudo os primeiros parágrafos) tenham um tom que me parece demasiado passionato na defesa da filosofia. Não sei se esse tom estava já presente no autor ou se se deve à tradução do V.G. Pode este último esclarecer?

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  2. Caro Peter,

    Desculpe se respondo com atraso, estes dias tenho andado ausente da Internet.

    Creio que fui isento na tradução do Shand e que este tom apaixonado se deve ao próprio. De resto, nada vejo de mal nessa defesa apaixonada. Só tenho mesmo pena que os nossos professores universitários, na sua maioria, não tenham dois avos desta paixão pelo seu objecto de estudo.

    Um abraço

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  3. Bem, ao reler o texto vejo algumas coisas que gostaria de mudar e aperfeiçoar (mas isso não é novidade, acontece de cada vez que releio um texto), mas não fui, seguramente, parcial. O tom apaixonado é mesmo do Shand e não meu.

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  4. Caro Vítor: obrigado pelo esclarecimento. Pessoalmente, também não tenho nada contra o tom apaixonado em si, apenas considero - e foi essa a sensação que fiquei ao ler o texto da primeira fez - que demasiada "paixão" tende a tornar o discurso algo panfletário. O que me chamou mais à atenção, em termos estilísticos, no texto, foi justamente isso: uma primeira parte muito apaixonada e um restante mais objectivo e fleumático.

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  5. É uma boa questão. O que temos a fazer é ver se o tom apaixonado faz jus à realidade ou se é mero panfleto ideológico. Vejamos:

    "A filosofia dá corpo àquilo que há de mais nobre na nossa espécie."

    Parece a afirmação mais "passionata" destes parágrafos.

    Agora podemos reflectir no que é afirmado e saber se exprime uma verdade ou se é mera efusão de emoções favoráveis à filosofia. Se exprimir uma verdade, o tom passionato é irrelevante e não prejudica a afirmação.

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  6. A primeira frase é talvez a mais discutível: o objecto de discussão da filosofia é uma das coisas mais importantes que podemos fazer com as nossas vidas.

    Não concordo, de facto. Quer dizer, concordo e não concordo. Tomemos o exemplo de um argumento contra a eutanásia: ao tirar a sua própria vida por se encontrar nas circunstâncias intoleráveis x, um ser humano está automaticamente a afirmar que toda a vida humana nas circunstâncias x não vale a pena ser vivida.
    Na verdade, penso, o que esse ser humano afirma é que a SUA vida não vale a pena ser vivida naquelas circunstâncias e essa sua escolha não impõe quaisquer vínculos ao que outros indivíduos devem fazer nas mesmas circunstâncias.

    De igual modo, do facto de para Fulano o objecto de estudo da filosofia ser uma das coisas mais importantes que podemos fazer com as nossas vidas não se segue que assim seja para todos.

    Por outro lado, a frase parece infirmada pelo facto de a humanidade ter vivido durante mais tempo sem filosofia do que com filosofia. Por outro lado, nada disto impede que, uma vez descoberta e praticada, a filosofia seja uma das coisas mais importantes que podemos fazer.

    Pessoalmente, estou convencido de duas coisas fundamentais:

    a) pensar pela própria cabeça e estar imune a ideologias e psicofodas é algo bom em si mesmo.

    b) a democracia é algo que acontece espontaneamente entre agentes racionais, em paridade moral e cognitiva, que pensam pela própria cabeça e procuram cultivar essa "aventura intelectual" juntos. Por isto ser algo mais raro do que devia é que muitas vezes a democracia é apenas uma macacada da democracia: estamos convencidos de que a democracia é algo bom mas continuamos a pensar em termos ideológicos - queremos proibir o que nos ofende ou que achamos grosseiramente falso, etc. O Desidério falou sobre isto na crónica sobre papas e bichas, bichas que se papam e papas que se bicham com as bichas que gostavam de papar o papa.

    Se alguém se ofender com o termo "bicha", pense outra vez: creio que seria muito mais "radical" poder usar a palavra "preto", por exemplo, tal como usamos "branco" (sem lhe anexar um sentido ofensivo) do que ao usar "afro-americano" ou "euro-africano", que apenas denotam, denunciam, o racismo implícito na nossa linguagem. O que raios seria um amero-americano ou um euro-português?!

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