18 de dezembro de 2008

O Pai Natal e a filosofia


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“É moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe? Independentemente da imensa alegria e excitação de que os miúdos usufruem por acreditar no mito do Pai Natal, trata-se de uma mentira descarada! Quando estão crianças em causa, devemos colocar-nos sempre num patamar moral superior, ou devemos contemplar a possibilidade de excepções? Quando eles descobrem a verdade, não estaremos a ensinar aos nossos filhos que não se pode confiar em ninguém, nem mesmo nos próprios pais?”

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MARK CRIMMINS: É uma pergunta interessante, sobre a qual não tenho uma posição definitiva: fiquei aliviado quando o nosso filho cedo, e com ardil, nos levou a admitir a verdade. É provável que quando os miúdos descobrem a Grande Mentira do Pai Natal a disposição deles para partir do princípio de que os pais lhes dizem sempre a verdade completa e literal sofra um certo abalo. Mas decerto a grande questão da confiança não se coloca ao nível de saber se se pode contar com o facto de os pais dizerem sempre a verdade completa e literal, mas sim se se pode contar com o facto de agirem de acordo com os melhores interesses dos seus filhos. Faltar deliberadamente à verdade com as crianças, de um modo tal que é certo que, mais cedo ou mais tarde, elas acabarão por descobrir o logro pode, em circunstâncias normais, minar a confiança delas nos pais (razão pela qual fazê-lo parece ser, em regra, má ideia), mas não vejo razão para partir do princípio de que seja sempre má ideia. Na verdade, estou convencido de que é frequente os miúdos reagirem à sua própria percepção crescente de que a magia não existe, de que o Pai Natal não existe, e assim por diante, não com ressentimento por terem sido levados a acreditar no contrário, mas tentando, com secreta esperança, manter a ficção só mais um bocadinho. Desde que o pai ou mãe em questão seja, em regra, um pai/uma mãe em quem o filho possa confiar, especialmente quando é de facto importante que possa confiar nele/a, transmitir-lhe uma crença falsa cujas consequência nefastas são irrisórias e que gera, como diz, alegria e excitação, pode ser perfeitamente aceitável. Pessoalmente, posso garantir que não guardo qualquer ressentimento contra os meus pais por causa disso.

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LOUISE ANTONY: Tenho uma opinião bastante vincada sobre este assunto, uma opinião que dá azo a grandes discussões com alguns dos meus melhores amigos: penso que não há bons argumentos para que se ensine uma criança a acreditar no Pai Natal, nem para que não se lhe diga a verdade da primeira vez que ela pergunta se ele existe.

Prima facie, uma pessoa não deve mentir aos seus filhos. Mais grave ainda, uma pessoa tem o dever de não tentar convencê-los positivamente de coisas que estão para lá de falsas – de coisas que são absurdas. Agora, que razão é suposto poder invocar-se para que inculcar a crença no Pai Natal seja uma excepção a esta proibição? O facto de a criança experienciar alegria durante o período em que acredita no Pai Natal? Regra geral, não se pode recorrer a este argumento para inculcar crenças absurdas, dado que há muitas crenças absurdas que trariam alegria a uma pessoa, estivesse ela disposta a acreditar nelas: a crença em que é a pessoa mais inteligente do mundo, em que vai viver para sempre, ou em que não há calorias nem colesterol no fettucine alfredo. Mais ainda, o facto de acreditar em coisas absurdas expõe aqueles que nelas acreditam a certos riscos, alguns das quais já apontadas pelo Mark Crimmins. No caso do Pai Natal, o risco de perder a confiança no testemunho dos próprios pais não é, em minha opinião, um risco de somenos. Por último, quando um pai (ou uma mãe, bem entendido) tenta activamente que a criança não tome em linha de conta argumentos perfeitamente correctos contra uma determinada proposição, esse pai/essa mãe corre o risco de a própria racionalidade vir a ser desvalorizada, e de que a criança apreenda a mensagem de que fazer sentido não é um elemento crucialmente importante. “Mas as renas voam?” “É magia!”

Portanto, não é líquido que a alegria de que as crianças beneficiam por acreditar no Pai Natal compense os eventuais resultados negativos induzidos põe esta crença. No entanto, o ponto decisivo desta questão reside no facto de as crianças não precisarem de acreditar no Pai Natal para experienciar a “alegria” que refere na sua pergunta. As crianças podem retirar enorme prazer de fingir que o Pai Natal existe, do mesmo modo que retiram grande alegria de fingir que o Poupas, ou o Super-Homem, existem. Tenho fortes suspeitas de que não é a alegria dos miúdos, mas sim a alegria dos graúdos, que está aqui em questão. São os pais que se comprazem com o facto de os filhos serem suficientemente “inocentes” para acreditar em tudo o que lhes é dito, ou que se deleitam com as coisas “amorosas” que os miúdos dizem e fazem quando acreditam em coisas que os adultos sabem ser absurdas. Ora, os adultos não têm direito a tais prazeres, e deviam abdicar deles.
Não, Virginia, o Pai Natal não existe. E é muito bom que o tenhas descoberto.
Alexander George, Que Diria Sócrates? (Gradiva)

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