8 de dezembro de 2008

Sugestões musicais



Eis, para variar, algumas sugestões musicais. Sugiro três discos que me parecem exemplificar diferentes tipos de beleza musical. Nenhum deles apresenta música que possa ser considerada revolucionária ou inovadora; trata-se antes de música que foi capaz de levar fórmulas já bem conhecidas quase ao seu mais alto grau de perfeição. E isto não está ao alcance de todos.

A primeira sugestão é a gravação das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss, por Jessye Norman, acompanhada pela Gewandhausorchester de Leipzig, dirigida pela maestro Kurt Masur. Richard Strauss escreve para orquestra como poucos conseguiram fazer, dando brilho a todas as suas secções sem dar a impressão que está a abrir um mostruário. A sua música é incrivelmente melodiosa, mas as melodias são quase sempre imprevisíveis e sinuosas - por vezes parece até que vão descambar e que nos estamos quase a perder, o que faz parte do seu encanto. As Quatro Últimas Canções são o exemplo mais perfeito disso e são das canções mais belas que alguma vez se criaram. É-me muito difícil dizer qual das quatro prefiro. Por vezes prefiro a segunda, September, que começa com as cordas a acriciar-nos o ouvido e termina com um longo pianíssimo de Jessye Norman, rematado com o som quente e suave da trompa a fazer-nos quase levitar. É música do outro mundo. Outras vezes prefiro Beim Schlafengehen, a mais empolgante de todas. E, por vezes, a que mais me apetece ouvir é Im Abendrot, que começa com uma longa, lenta e planante melodia nas cordas, em que estas se desdobram num colorido irresistível, com os metais muito suavemente no fundo. De todas parece ser a mais introspectiva. Os entendidos dizem que a interpretação de Elizabeth Schwarzkopf é imbatível. Mas eu, que não sou entendido, já a ouvi várias vezes e prefiro esta de Jessye Norman. O som é simplesmente espectacular e é para ser ouvido bem alto.

Outro disco que sugiro é Largo, do pianista de jazz Brad Mehldau. Largo é um disco de jazz que consegue a leveza e a ingenuidade da melhor pop, sem deixar de ser jazz, e em que se encontra frequentemente a energia do rock, sem ser rock - tem uma versão de Paranoid Android, dos Radiohead, que é um bom exemplo disso e onde não falta o improviso controlado do melhor jazz. Outras músicas excelentes são When It Rains, Franklin Avenue e Dusty Mc Nugget, as minhas preferidas.

A minha terceira sugestão é de um songwriter pop como há muito não aparecia: Rufus Wainwright. O disco Release the Stars, é do melhor que Wainwright fez e tem canções pop estranhamente lânguidas, como Not Ready to Love - a lembrar o injustamente esquecido songwriter inglês Roy Harper - muito fora dos padrões habituais, além de ter uma voz poderosa e invulgarmente musical. Pode vir a ser um clássico da pop.

5 comentários:

  1. Muito boa noite

    Estou a ler o livro Introdução à Estética de George Dickie e tenho uma dúvida sobre o conceito "forma de finalidade" de Kant que coloquei ao Desidério Murcho. O Desidério aconselhou-me a reencaminhar a minha dúvida para si, dado que é um especialista em estética. Não encontrei outro meio de o contactar a não ser através desta caixa de comentários...
    A dada altura, leio:
    "[Kant] afirma ser o reconhecimento da FORMA da finalidade , e nao o reconhecimento da própria finalidade , o que evoca a experiencia de beleza"
    Pode dar-me um exemplo de uma finalidade de um dado objecto, e a dita "forma" dessa finalidade? Sinceramente não consigo perceber essa ideia… Neste caso a "forma da finalidade" é função de uma "finalidade" de um dado objecto? É que eu só consigo imaginar "formas" de objectos… não consigo conceber "formas" das finalidades de objectos…

    Não conseguindo perceber esta "forma" no seu sentido comum, tentei pensar na "forma da finalidade" como uma espécie de categoria. Como existe a “humanidade” para todo o ser humano, ou a “cavalidade” para todo o cavalo, ou mesmo o símbolo “5” para todo o conjunto de cinco elementos iguais, existiria então uma “forma de finalidade” para todo o objecto que tivesse alguma finalidade… Mas a dúvida aumenta quando mais adiante no livro se fala que Kant deu exemplos de "formas" de papagaios e aves do paraíso, e diz que uma coisa é a cor (que segundo kant faz parte do conteúdo), outra é a forma... qual é o sentido de falar das "formas" dos papagaios quando o que está em jogo é apenas uma categoria? Que eu saiba a "forma" de um papagaio é algo como os contornos, a conjugação de cores, as proporções, etc.
    Se se tratasse de uma mera categoria, porque daria Kant o exemplo de um papagaio como sendo "belo" e não o de uma barata? a "categoria" não é a mesma? em que se baseia kant para distinguir a beleza do papagaio da beleza de uma barata se a ÚNICA coisa que está em jogo é se conseguimos "sentir" ou tomar algum tipo de consciência que "o papagaio tem uma finalidade"? Mas o mesmo também podemos sentir ao olhar uma barata ("a barata tem uma finalidade").

    Pode explicar-me isto melhor, por favor?

    Muito obrigado
    Tiago Sousa (tiagomrsousa@gmail.com)

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  2. Caro Tiago,

    Antes de mais, deixe-me dizer-lhe que a interpretação que Dickie faz de Kant a este propósito não é consensual - nomeadamente a forma como Dickie interpreta a integração kantiana de forma da finalidade no juízo estético, que parece bastante frágil. Acho, aliás, que esta secção sobre Kant do excelente livro de Dickie é a menos conseguida, embora concorde completamente com uma coisa que aí diz, a saber, que o ponto alto das teorias do gosto setecentistas é Hume e não Kant.

    Indo directamente às suas dúvidas, pergunta:

    «Pode dar-me um exemplo de uma finalidade de um dado objecto, e a dita "forma" dessa finalidade?»

    Por exemplo, a forma de uma faca é função da sua finalidade, que é cortar objectos. Daí a aquela forma da folha, do cabo, etc.

    «Sinceramente não consigo perceber essa ideia… Neste caso a "forma da finalidade" é função de uma "finalidade" de um dado objecto?»

    Se percebo o que quer dizer, a resposta é: depende. Depende de encarar a finalidade subjectivamente ou objectivamente. Para Kant, o juízo estético é um juízo subjectivo. Isto significa que netse tipo de juízos não se procura aplicar conceitos a objectos (ou antes, aos dados da percepção), apesar de as nossas faculdades cognitivas entrarem em jogo. Aplicar conceitos aos dados da percepção é fazer juízos objectivos e aí sim, o propósito ou finalidade do objecto do juízo é determinante.

    Em suma, no juízo estético as nossas faculdades cognitivas detêm-se apenas na forma perceptual dos objectos sem referência a qualquer finalidade. É por isso que Kant diz haver um livre jogo das nossas faculdades cognitivas (que é o que causa em nós o prazer que caracteriza o juízo estético), pois estão libertas da necessidade de aplicar conceitos a objectos em vista do conhecimento: é o puro prazer das formas, independentemente de tudo o resto que conta na beleza. Continuando a falar de finalidade, Kant chega mesmo a falar de uma finalidade sem fim, isto é uma finalidade que se esgota na pura contemplação das formas.

    Assim, se a faca for objecto de apreciação estética e se, portanto, retirarmos prazer da sua beleza, estamos a apreciar a mera forma da faca por si mesma e não a forma em função da sua finalidade enquanto faca.

    «É que eu só consigo imaginar "formas" de objectos… não consigo conceber "formas" das finalidades de objectos…»

    Bom, simplificando um pouco, podemos falar antes de tipos de finalidade. A haver finalidade quando apreciamos esteticamente um objecto, essa finalidade é, nas palavras de Kant, uma finalidade sem fim.

    «Não conseguindo perceber esta "forma" no seu sentido comum, tentei pensar na "forma da finalidade" como uma espécie de categoria. Como existe a “humanidade” para todo o ser humano, ou a “cavalidade” para todo o cavalo, ou mesmo o símbolo “5” para todo o conjunto de cinco elementos iguais, existiria então uma “forma de finalidade” para todo o objecto que tivesse alguma finalidade… Mas a dúvida aumenta quando mais adiante no livro se fala que Kant deu exemplos de "formas" de papagaios e aves do paraíso, e diz que uma coisa é a cor (que segundo kant faz parte do conteúdo), outra é a forma... qual é o sentido de falar das "formas" dos papagaios quando o que está em jogo é apenas uma categoria?»

    Se bem percebi o que diz, esse sentido de «forma» é mais platónico do que kantiano. Aliás, Kant fala da forma percebida no juízo estético ou das propriedades formais de um objecto em contraste com os conceitos que lhe possam eventualmente ser aplicados. A beleza não é, para Kant, um conceito nem é uma questão de aplicação de conceitos. Aplicar conceitos é o que se faz nos juízos práticos ou objectivos; não no juízo de gosto, que é um juízo subjectivo.

    Claro que haverá objecções a isto e Dickie apresenta algumas, de resto sugeridas também pelo Tiago.

    Espero ter ajudado e não confundido ainda mais.

    Cumprimentos

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  3. Agradeço imenso a sua ajuda. E não resisto em tentar mais uma vez perceber isto com mais algumas perguntas que me surgiram… talvez algumas delas sejam redundantes, mas ainda assim prefiro mantê-las …

    Disse:
    “Por exemplo, a forma de uma faca é função da sua finalidade, que é cortar objectos. Daí a aquela forma da folha, do cabo, etc.”
    “Em suma, no juízo estético as nossas faculdades cognitivas detêm-se apenas na forma perceptual dos objectos sem referência a qualquer finalidade.”
    “Assim, se a faca for objecto de apreciação estética e se, portanto, retirarmos prazer da sua beleza, estamos a apreciar a mera forma da faca por si mesma e não a forma em função da sua finalidade enquanto faca.”
    “Bom, simplificando um pouco, podemos falar antes de tipos de finalidade. A haver finalidade quando apreciamos esteticamente um objecto, essa finalidade é, nas palavras de Kant, uma finalidade sem fim.”

    Imaginemos um objecto X em tudo idêntico à faca no que toca ao modo de percepção (o modo como esse objecto X afecta os sentidos é igual), mas que não tenha poder de corte. Acho que no que toca ao estímulo visual, pelo menos, é possível imaginar um objecto X de outro material qualquer que seja igual a uma faca… E do ponto de vista hipotético penso ser concebível tal objecto...

    1 - Esse objecto X não vai ter nenhuma finalidade. Se podermos contemplar esse objecto X, retiramos prazer da sua beleza tal como retiramos de uma faca? O juízo estético é o mesmo?

    2 - Se as faculdades cognitivas se detêm apenas na “forma perceptual” do objecto sem referencia a qualquer finalidade, então porque é que se diz “forma da finalidade” e não “forma independente da finalidade”, ou “forma da finalidade sem fim”, ou “forma sem referência à finalidade”, ou um termo do género, mas pelo menos não contraditório com o conceito que quer definir?
    O termo “forma da finalidade” sugere justamente forma da… finalidade!…(?) … … e não forma perceptual do objecto sem referencia a qualquer finalidade… Parecem conceitos tão radicalmente diferentes que eu juraria que são opostos… …

    3 - No caso da faca, a finalidade “cortar faca” não seria a finalidade em jogo no juízo estético, porque esta finalidade não é uma “finalidade sem fim”, certo?

    4 - Se ao ajuizar esteticamente uma faca tivéssemos consciência da sua finalidade (cortar objectos), então nunca poderia ser um juízo estético, porque estaríamos a criar um conceito objectivo, “com fim”?
    Por isso um objecto estético é aquele que tem uma finalidade, mas essa finalidade não é tida em conta como tal na apreciação estética?
    Ou essa finalidade é tal que, embora não tenhamos um conceito para a definir, ela age nos mecanismos cognitivos?
    Então como conclui Kant que essa finalidade existe e é actuante sempre que existe prazer estético, se o que está me jogo ou é a pura percepção da forma independente da percepção dessa finalidade, ou essa finalidade é uma finalidade sem conceito?

    Eu não tenho formação filosófica, mas isto parece-me tudo tão obtuso…

    Obrigado

    Tiago

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  4. Caro Tiago,

    Não vou estar aqui a fazer a defesa de Kant, até porque também partilho algumas das críticas que sugere. Tentarei apenas esclarecer, dentro dos meus conhecimentos o que Kant quereria dizer (se bem que a exegese dos textos dos filósofos não me entusiasme muito).

    "1 - Esse objecto X não vai ter nenhuma finalidade. Se podermos contemplar esse objecto X, retiramos prazer da sua beleza tal como retiramos de uma faca? O juízo estético é o mesmo?"

    Bom, acho que Kant diria que esse objecto deve ter sido feito com algum propósito. Talvez seja um adereço numa peça de teatro, um brinquedo de criança, um objecto decorativo, etc. Se a mera percepção visual da sua forma lhe der prazer e se o seu juízo tiver apenas isso em conta, independentemente do propósito com que foi concebido, então o seu juízo será estético.

    "2 - Se as faculdades cognitivas se detêm apenas na “forma perceptual” do objecto sem referencia a qualquer finalidade, então porque é que se diz “forma da finalidade” e não “forma independente da finalidade”, ou “forma da finalidade sem fim”, ou “forma sem referência à finalidade”, ou um termo do género, mas pelo menos não contraditório com o conceito que quer definir?
    O termo “forma da finalidade” sugere justamente forma da… finalidade!…(?) … … e não forma perceptual do objecto sem referencia a qualquer finalidade… Parecem conceitos tão radicalmente diferentes que eu juraria que são opostos…"

    Talvez seja esclarecedor, do ponto de vista kantiano, pensar assim: o que tenho em vista (i.e. qual a finalidade) quando aprecio esteticamente um objecto? Se tenho simplesmente em vista a forma perceptual desse objecto, então a minha finalidade ao apreciá-lo esteticamente é uma finalidade sem fim. Os defensores da chamada 'atitude estética' diriam, na linha de Kant, que se trata do modo (leia-se: a forma) como encaro (leia-se: da finalidade) os objectos que estão diante de mim.
    Eu também não aprecio lá muito a terminologia kantiana, mas parece-me que a ideia é esta.

    "3 - No caso da faca, a finalidade “cortar faca” não seria a finalidade em jogo no juízo estético, porque esta finalidade não é uma “finalidade sem fim”, certo?"

    Não estou certo de ter compreendido a pergunta, mas acho que a resposta é sim.

    "4 - Se ao ajuizar esteticamente uma faca tivéssemos consciência da sua finalidade (cortar objectos), então nunca poderia ser um juízo estético, porque estaríamos a criar um conceito objectivo, “com fim”?
    Por isso um objecto estético é aquele que tem uma finalidade, mas essa finalidade não é tida em conta como tal na apreciação estética?
    Ou essa finalidade é tal que, embora não tenhamos um conceito para a definir, ela age nos mecanismos cognitivos?"

    Não, essa finalidade não age nos nossos mecanismos cognitivos. É o inverso, os nossos mecanismos cognitivos (sensibilidade, imaginação e entendimento) agem libertos dessa finalidade.

    Diz o Tiago que isto lhe parece tudo muito obtuso. Eu acho apenas que Kant complica as coisas porque tem um sistema filosófico onde elas têm de encaixar. Dentro do sistema kantiano tudo isto faz o seu sentido, mas pessoalmente estou-me um bocado nas tintas para o sistema kantiano. As coisas são mesmo assim, Tiago, não temos de concordar com os filósofos e podemos e, por vezes, podemos até achar o que dizem bastante obtuso.

    Espero não ter sido obtuso :-)

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  5. Obrigado pelo esclarecimento
    Foi agradável, esta conversa

    Cumprimentos

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