6 de dezembro de 2008

Wikicensuras

Verifiquei agora que o texto reformulado do Desidério no Wikipedia (ver post anterior) foi novamente censurado. Desta vez não o apagaram, pois isso entraria em contradição gritante com a existência de uma entrada inglesa no mesmo site. A técnica usada corresponde às minhas expectativas: usar directamente o termo inglês, para tentar suavizar o impacto. Contudo, o que salta mais à vista é a perda significativa de conteúdo e o português de cortar à faca, com frases mal construídas e uma «espansão» para traduzir «expanding» (De uma banda chamada «Incredible Expanding Mindfuck»).

O argumento do censor, segundo o qual "psicofoda" peca por referir um mero acontecimento mental é refutado pelos exemplos de palavras "consagradas": psicotrópico - substância que altera estados mentais e não "mudança mental" (seguindo a sua lógica). Nada há de "imaginário" ou "meramente mental" na "psicologia" ou na "psiquiatria". O "psicossocial" não é uma sociedade imaginária e as doenças "psicossomáticas" não são ficcionais. O "psicofísico" não é meramente psíquico e as "psicopatias" não são inventadas por romancistas.

Para equilibrar os exemplos em que o segundo componente da palavra composta é um substantivo: "psicoterapia" não é uma terapia "dentro da cabeça", é algo que se faz no mundo exterior e que tem efeitos nos estados mentais do paciente.

Além disso, o poema de William Blake "The Mind Traveller", foi traduzido para português com o título "O Psiconauta" (não se trata de um viajante imaginário, embora viaje mentalmente) - isto para atestar a flexibilidade de formação de palavras compostas. Se o inglês tem essa flexibilidade, por que razão o português não pode ter?

O censor afirma que não há conotação assexual para "foda" em português. Os dicionários Houaiss e Aurélio afirmam o seguinte:
Foda (Houaiss)
n substantivo feminino Uso: tabuísmo. 1 m.q. cópula ('ato sexual') v substantivo masculino Uso: tabuísmo. 2 aquilo que se suporta com dificuldade; dureza Ex.: o f. é ter de trabalhar no feriado
Foda (Aurélio) [Dev. de foder.] Substantivo feminino. Chulo 1.Cópula (2). 2.Coisa desagradável ou difícil de executar ou suportar: Trabalhar 15 horas por dia é foda.
Porto Editora:
substantivo feminino 1. vulgarismo relação sexual, cópula;
2. vulgarismo coisa desagradável, coisa insuportável;

O censor distingue arbitrariamente "baixo calão" de "alto calão". Isto é simplesmentei incompreensível e incientífico. A etimologia do termo, que é mais clara do que "fuck" atesta-o: "terram fodere", o latim para "escavar". O termo germânico de que deriva "fuck" não parece ter uma etimologia tão clara, à parte uma ressonância com o latim "pugnus" - "punho" (segundo o Oxford Dic).


De resto, o "fuck" em "mindfuck" não só não elimina como pressupõe a conotação sexual. McGinn di-lo diversas vezes no seu livro.


Não há qualquer bom argumento que sustente a «correcção» a não ser um vago puritanismo linguístico, fruto de um salazarismo residual. 

Como é que o nosso censor conciliaria o seu eufemismo «atrapalhar» com as referências do McGinn ao «significado sexual do termo»:

Há locuções relacionadas que ajudam a esclarecer o significado do nosso termo e também destacam a suposição de negatividade. A mais próxima é talvez «foder a cabeça a alguém». Temos mais uma vez a ocorrência de «foder», só que neste caso usamos «cabeça» como variante idiomática de «psique», embora isto tenha uma conotação mais corpórea e sugira sem dúvida a felação. A felação é pura e simplesmente um tipo de foda cefálica (como na expressão inglesa «giving/getting head»)

(do primeiro capítulo do livro)

Se algum leitor conseguir compatibilizar isto com uma objecção que não seja meramente baseada no pudor ou nas nossas psicofodas linguísticas inargumentativas... Peço-lhe que nos esclareça.

23 comentários:

  1. De facto, o português do tipo é de fugir. Até parece o tradutor automático do computador a traduzir do inglês.

    Martelar, martelar... até lhe doer a cabeça!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. abri uma discussao sobre o assunto na entrada do termo na wikipedia.

    aqui:

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o:Psicofoda

    usei a argumentacao deste seu post,

    vamos a ver o q e' que os tipos dizem...

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  4. pa', agora estou mesmo a ficar fodido da cabeca, porque pelos vistos um robot da wikipedia considerou de forma automatica o meu/seu comentario como lixo e removeio-o automaticamente...

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  5. estou numa luta ingloria de homem contra a maquina, o robot da wikipedia vai vencer...

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  6. a versao original do desiderio e a comparacao com a versao do caramelo da wikipedia esta' neste link:

    http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Psicofoda&diff=13363596&oldid=13360133

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  7. Groucho,

    obrigado pelo link e pela diligência. É preciso chatear estas bestas. Não me importaria tanto não fosse o alarde da "enciclopédia livre" e todas aquelas tangas comuintárias... psicofódicas, como se vê.

    A verdade é que as razões que as pessoas invocam para "suavizar" o "fuck" são tão cogentes como a resposta do jerónimo na "grande entrevista" à pergunta da judite de sousa: "o que vê de positivo na Coreia do Norte?".

    Se alguém viu, sabe do que estou a falar. Não percebo é como a senhora o deixou safar-se tão facilmente com aquilo. Contudo, é um exemplo útil para vermos no concreto o que é ser psicofodido pela própria mente.

    Estas "razões", quer se apresentem em forma "heterodoxa" ou "conservadora", relevam todos do mesmo salazarismo residual que faz da cultura portuga o que já era mesmo antes do regime salazarista.

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  8. Foda-se, já não há pachorra para os puritanismos...

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  9. groucho:

    larguei isto na tal discussão apagada. Vamos ver quanto tempo levam a apagá-lo:

    "OK, agora venham argumentos a sustentar a opinião dos censores. Os argumentos a favor da tradução portuguesa estão aqui: http://criticanarede.com/mindfucking.html

    Não bastam afirmações peremptórias, há que justificá-las argumentativamente.
    Se fosse um artigo a comentar um filme porno estou certo de que não o censurariam. Não se entende.

    Ou então sejam honestos e não chamem "comunitário" ou "aberto" a isto.

    Vitor Guerreiro"

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  10. adivinhem a resposta do méne: apagou-me.

    E voltei a pôr lá o repto.

    Até que lhes doa...

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  11. acrescentei o seguinte à discussão, que foi apagado de seguida. Ao voltar a entrar recebo a ameaça de me impedirem de escrever no wikipedia.

    Ao que parece, consideram isto "vandalismo":

    "O próprio site da Wikipedia tem entradas para a palavra "foda", que de resto tem uma etimologia aparentemente mais clara do que "fuck". Não percebo por que raios teríamos de traduzir "mindfucking" por "psico-escangalhar" ou "psicocoisar".

    Talvez a questão seja esta: se escreveres um texto desconexo, sem ideias, podes até lá meter pornografia e abusar de todos os vulgarismos. O problema está no facto de "psicofoda" não ser uma inanidade mas ter pensamento por trás. O calão só ofende num livro de filosofia, não num clip da MTV.

    Vitor Guerreiro"

    Estou a ser incorrecto, por acaso?

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  12. desculpe lá qualquer coisinha ó parente.

    De facto, é isso: é uma conspiração a ver se fico rico. Depois vou gastar tudo em propaganda maquiavélica anti-teísta.

    mãezinha... se é chato não leia. Tem bom remédio, embora alguns filósofos discordem que exista: chama-se «livre-arbítrio». Mas mesmo que seja determinado por causas naturais, continua a funcionar - basta não clicar na caixa de comentários, ou passar à frente.

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  13. é curioso: fui muito mais insistente na discussão do falibilismo e no entanto não houve queixas. A sua atitude parece replicar a dos senhores do wikipedia: basta fazer um post sobre o assunto de quinze em quinze dias para ser insuportavelmente chagas.

    ... estava a contar os dias até começar a levar com o mesmo tipo de insinuações que o Rolando tem de aturar apenas por fazer recensões a manuais escolares.

    Estou francamente devastado com o seu protesto. Proteste muito, porque assim faz mais publicidade à coisa e eu entro em delírio febril, a mexer nos cordelinhos da bolsa... porque "está na cara" que a maneira de enriquecer neste país é fazer divulgação de filosofia.

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  14. Não vou protestar mais. Só quis que percebesse que os seus leitores não são tolos. Quanto ao resto, a minha decisão já estava tomada antes de ler o seu comentário: decidi deixar de ler este blog. Passe bem.

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  15. «decidi deixar de ler este blog. Passe bem.»

    É um país livre.

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  16. Caro Parente,
    O que está em causa é saber se é moralmente correcto ou não censurar o trabalho dos outros e, no caso, a tradução para psicofoda. E não me parece que seja moralmente correcto pura e simplesmente esconder, censurar, omitir. Isso não é próprio de pessoas livres. As pessoas livres analisam o trabalho dos outros e a forma de os fazer esquecer não é escondê-los mas argumentar mostrando publicamente as insuficiências de tal trabalho, que não foi o que aconteceu com o censor da wiki. Não vejo razão alguma para pensar aqui que o Vitor pretendia promover-se a si e ao seu trabalho. Mas se o fez também não o fez à toa, sem justificação do seu trabalho. De resto que mal tem que o Vitor, que é tradutor profissional, divulgue o seu trabalho? Por acaso não me parece que tenha sido essa a sua preocupação? E mais Parente: vamos lá ser justos: se a Bizâncio vai lançar o livro, o que ganharia comercialmente o Vitor em divulgar a tradução muito antes do lançamento. E também não me parece que o Parente tenha sido muito correcto ao divulgar essa informação que, apesar de tudo, recebi com bom grado, a informação de que alguma editora vai lançar o livro.
    abraço

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  17. Rolando: tal como as pessoas não encaixam a noção de que as ideias competem livremente no mercado das ideias (isto soa tão... "mercantil" não é?) também continuam agarradas a resíduos salazaristas. A ideia de que a virtude e a moral são avessas a tudo o que é "promoção" é uma delas.

    Basta pensar no seguinte: para que raios escreves um blogue senão para divulgar e, num certo sentido, venderes as tuas próprias ideias?

    Mas todos estes espasmos verbais que leste aqui e que no abundam no de rerum natura, por parte de alguns comentadores, não passam disso mesmo: tentativas de pressão psicológica a ver se as pessoas se calam. A ideia é que eu fico muito sensibilizado com a imoralidade de estar a autopromover-me e com isso vou parar de falar num assunto tão "chato" - afinal, que importância tem que tenham censurado a "ordinarice" da psicofoda?

    A única razão pela qual os wikipédicos me irritaram foi o alarde comunitarista de "abertura" que vem com aquilo tudo. Senão nem me dava ao trabalho. Já lá apanhei artigos em que o autor, a propósito de batatas, começa a falar no clube preferido. E de certeza que se o desidério tivesse comentado uma inanidade qualquer cheia de vulgarismos, ninguém se chateava por isso mesmo: as inanidades não incomodam quem se incomoda com estas coisas.

    Resumindo: só mudo de ideias, na coisa mais comezinha ou no mais importante, quando confrontado com argumentos melhores. Sugestões e ninhos atrás da orelha de nada adiantam. No dia em que me apresentarem (ou no dia em que eu descobrir) um argumento melhor que me obrigue a traduzir de outra maneira: em boa hora feito feito.

    É curioso mas por vezes chateio as pessoas pelo motivo contrário: ficam admiradas por mudar de opinião muito vincadamente num assunto em que antes defendi uma posição oposta. É a mesma incompreensão virada do avesso: não tenho problema algum em mudar de ideias com um argumento melhor ou reconhecer erros e disparates. Qual o problema?

    E esta conversa da promoção do livro é simplesmente suja: se eu quisesse promover o livro fazia-o, pois é precisamente isso que faço no meu blogue pessoal. Divulgo o meu trabalho. Que mal tem? Não preciso de fazer referências laterais para esse fim. Simplesmente acho de bom senso guardar essa divulgação para o lançamento do livro.

    Mas pá, rolando... é nestas coisas que a gente conhece as pessoas. Olha eu andar a dar-me ao trabalho de escarafunchar ou fazer inferências macacas a partir do que os outros fazem... sobre datas e prazos e editoras. É de loucos. isto só de quem não tem onde gastar o tempo e se entretém assim.

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  18. Parente, está de volta. Pensei que nos fosse abandonar.

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  19. Há uma coisa curiosa no pudor de traduzir "fuck" por "atrapalhar" (pensando talvez em "fuck things up") que é o tiro sair pela culatra, ora vejamos:

    A coerência obrigaria a que não censurássemos quaisquer ocorrências de "foda-se" e "não fodas isso" e "vai-te foder", em que "foder" não tem necessariamente uma conotação sexual, embora se use o termo vulgar.

    Ora, voltamos ao mesmo: se não temos razão para censurar "foda-se" nesses exemplos, não temos razão para o censurar em geral, pois é óbvio que daí resulta o mesmo ridículo que resulta da censura original.

    Engraçado

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  20. Caro Parente,
    Somente agora, após o meu comentário, reparei onde foi buscar a informação da edição do Psicofoda, que foi precisamente ao que o Desidério postou na wiki. Peço, portanto, desculpa, por parte do meu comentário já que a informação parece ser publica.
    abraço

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  21. Quando me referi ao sentido de oportunidade da divulgação, falava apenas a respeito da ideia de que estou a fazer promoção do livro no blogue. Não da informação propriamente dita de que o livro vai sair em português.

    Fá-lo-ei sim oportunamente, como tenho feito com o meu trabalho em geral, sejam artigos para a crítica ou outras coisas. Nunca foi para mim problema admitir isso porque nunca me passou pela cabeça que isso tivesse algum mal. Se quisesse promover o livro tê-lo-ia feito directamente, mas isso não faz muito sentido ainda.

    Estes artigos referem-se apenas ao impacto bizarro que o termo tem nas pessoas. Sei que é um termo forte, mas essa é precisamente a sua função: agitar complacências. Não foi feito para ser melódico ou consonante.

    De resto, nada tenho materialmente a ganhar com a promoção dos livros. O McGinn também promove os seus próprios livros no blogue pessoal e não vejo lá o tipo de queixas que se espalham aqui, no de rerum e no site do rolando. Aliás, todos os filósofos que traduzimos fazem isso nos seus blogues pessoais e nunca vemos nas suas caixas de comentários as zaragatas e tolices que sempre ocorrem nos sites tugas.

    Por mais voltas que dê à cabeça não consigo ver a imoralidade de divulgar o próprio trabalho. Aliás, se todos os tradutores fizessem o mesmo isso apenas serviria os consumidores, pois as pessoas tornam-se mais conscientes dos problemas e dificuldades das traduções e vão tornar-se mais críticos e exigentes em termos de qualidade. Eu divulgo estas coisas porque quero melhorar aquilo que faço. Quero receber objecções interessantes às ideias que me parecem melhores num ou noutro momento. Não tenho qualquer interesse em perder energia com estes debates fúteis que se geram por causa das manias portugas de descambar tudo para o ad hominem.

    É mais fácil dizer que ando aqui a fazer x ou y, a autopromover-me, ou que sou muito chato, do que apresentar um bom argumento contra a ideia em causa.

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