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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2008

Rui Daniel Cunha: Dicionário de Filosofia da Educação, de Cristopher Winch e John Gingell

De que falamos quando falamos de ensino, aprendizagem, avaliação, sucesso, disciplina, autoridade, por exemplo, em educação? A clarificação de tais conceitos fundamentais é uma tarefa cuja relevância é óbvia e que compete, no essencial, à filosofia da educação. Um guia inteligente e fiável, que nos ilumina na compreensão adequada destes e de outros conceitos, é este livro de Cristopher Winch e John Gingell. São 152 entradas que, no seu conjunto, abrangem todo o campo conceptual da filosofia da educação e constituem um instrumento de referência indispensável para quem se interessa pelos problemas filosóficos inevitavelmente envolvidos na educação. [Ler mais...]

Livros novos

Acabo de receber notificação de novos livros da Oxford University Press, e três chamaram-me a atenção:

The Development of Ethics: A Historical and Critical Study, vol. II: de Suaréz a Rousseau. Da autoria de Terence Irwin e com 936 páginas, este é o segundo volume de um trabalho muitíssimo ambicioso. O primeiro volume foi publicado há um ano, tem 840 páginas e abrange a história da ética até Maquiavel e a Reforma; uma recensão deste primeiro volume pode ser lida aqui e um excerto em PDF aqui.

Was Jesus God?, de Richard Swinburne, um dos mais importantes filósofos contemporâneos da religião. Com 192 páginas, apresenta as doutrinas cristãs centrais e explica por que razão pensa que são verdadeiras. O livro tem como público-alvo os leitores comuns, sem preparação prévia em filosofia, à semelhança do seu bem-sucedido Será Que Deus Existe? Uma entrevista, em inglês, que lhe fiz há uns meses está disponível aqui; procurei na entrevista dar-lhe todo o espaço para explicar algumas das suas idei…

Factivo, facticidade, factício e factitivo

Subsistem por vezes algumas confusões com respeito ao termo "factivo", confundindo-se com facticidade. Para efeitos de completude aproveito para esclarecer também outros termos relacionados. A factividade é um termo da linguística. Um verbo, por exemplo, é factivo quando a oração encaixada representa algo como um facto. Ou seja, quando esse verbo implica o facto expresso pela oração encaixada. Por exemplo, o verbo "sonhar" não é factivo porque "O Asdrúbal sonhou com uma árvore" não implica a existência da árvore; mas "ver" é factivo porque "O Asdrúbal viu uma árvore" implica a existência da árvore. Ler mais...

Nova Crítica igual

O código da Crítica foi alterado. As alterações são puramente técnicas e deverão ser invisíveis para o leitor. Mas se a revista parecer totalmente desformatada, faça "reload" ou "refresh" no seu navegador (geralmente, com a tecla F5 ou control-R, no PC). Caso persistam problemas, estou aqui para os resolver.

Autocontradição, auto-refutação e paradoxo

Faz-se por vezes alguma confusão com os conceitos de autocontradição, auto-refutação e paradoxo. Vejamos se ajudo a esclarecer as coisas.

Uma autocontradição não é uma afirmação paradoxal, mas antes uma mera falsidade lógica (tomando este conceito no seu sentido mais amplo, incluindo portanto falsidades conceptuais ou analíticas). Uma proposição é uma autocontradição quando... é uma contradição. Não há diferença entre os conceitos. Apenas popularmente se diz que alguém entrou em autocontradição quando se contradiz a si mesmo. Assim, uma autocontradição é algo como “Asdrúbal é lisboeta e Asdrúbal não é lisboeta”.

Uma afirmação é auto-refutante quando a sua verdade implica a sua falsidade. Afirmar que não há verdades é auto-refutante porque implica que o que acabámos de dizer não é verdade. Contudo, afirmar que todas as nossas crenças podem ser falsas não é auto-refutante porque não implica que esta afirmação é falsa, mas apenas que pode ser falsa, ainda que acreditemos que é verdadeira. …

Julian Baggini

Julian Baggini vai estar no Birmingahm Book Festival (clicar na imagem) a mostrar como é que argumentamos mal em muitas discussões quotidianas, falando do seu livro,The Duck That Won the Lottery: And 99 Other Bad Arguments. O trabalho de Baggini é exemplo de como bem divulgar a filosofia a um público mais alargado. Em Portugal não temos livros do autor traduzidos, mas no Brasil temos Para Que Serve Tudo Isso? (Jorge Zahar, 2008), O Porco Filosófico (Relume Dumara, 2006), O Que os Filósofos Pensam (Idéias & Letras, 2005) e As Ferramentas dos Filósofos (Loyola, 2008). Todos estão à venda aqui.

Thomas Nagel

Não se trata apenas de eu não acreditar em Deus e de, como é natural, esperar ter razão ao ter essa crença. Trata-se de eu esperar que não exista Deus! Não quero que exista Deus; não quero que o universo seja dessa maneira.

D. H. Mellor

A filosofia [...] é lida por pessoas estranhas a ela, que não querem avaliá-la, mas antes confiar nela e usá-la, como os físicos usam a matemática. Mas não há muitas pessoas estranhas à filosofia que a queiram para fazer física; na sua maior parte, querem que a filosofia forneça uma espécie de substituto secular para a religião. Por outras palavras, querem que os seus filósofos sejam gurus. E a última coisa que os discípulos querem dos gurus é que tenham sentido de humor; o sentido de humor é contrário ao ar de autoridade que faz os gurus atrair discípulos. Assim, quando os gurus filosóficos levantam poeira ao dizerem coisas sem sentido que parecem importantes, os seus discípulos, longe de se queixarem de que não podem ver, ficam ainda mais impressionados pela obscuridade profunda da visão oferecida. Em filosofia, portanto, tal como na religião e na medicina, um público crédulo dará muitas vezes fama e fortuna aos adoradores de mistérios.

Ética pela rádio

Public Ethics Radio é um novo serviço filosófico na Internet que apresenta discussões de temas centrais de ética pública. O primeiro desses programas está já publicado e discute o modo como actualmente se financia a investigação farmacêutica; o filósofo Thomas Pogge argumenta que o sistema de financiamento precisa de ser reformado porque desfavorece as pessoas mais pobres, e propõe uma alternativa viável. Aqui.

Orwell dia a dia

Os diários de George Orwell estão a ser publicados num blog. Clicar na imagem para aceder.

Loren Lomasky

Juntamente com o ensino especializado e a investigação de ponta, o discurso sem peias é a razão de ser que distingue a universidade. Estas três funções não devem ser entendidas como coisas separadas, mas antes como aspectos integrados da tarefa de criar e disseminar o conhecimento. Para chegar a novas ideias os investigadores precisam de ter a liberdade de testar novas hipótese corajosas que serão depois criticadas sem medo ou favorecimento pelos seus colegas. Qualquer secretismo neste contexto impede o fluxo de ideias.

A possibilidade da metafísica

Acabei de publicar o capítulo "A Possibilidade da Metafísica", de E. J. Lowe, com tradução de Vítor Guerreiro e revisão minha.

Este capítulo não é propriamente introdutório, dado que envereda por alguns temas complexos da metafísica, nas últimas secções (a discussão das ideias de Bob Hale), que implicam já um certo domínio da metafísica da modalidade.

Contudo, as primeiras secções são razoavelmente introdutórias e é nelas que Lowe ataca várias formas de relativização da metafísica, incluindo os idealismos, linguísticos e conceptuais. É um bom antídoto para quem pensa que a metafísica foi "superada" por Kant ou refutada por Quine ou pelos filósofos da linguagem corrente, como Strawson.

Apelo à sua subscrição da Crítica, pois neste momento a revista deve mais de 300 euros a tradutores e está sem dinheiro para pagar. Subscreva a Crítica, por meros 4 euros por mês, ou 10 reais; se não quiser subscrever, pelo menos clique todos os dias na publicidade da Crítica.

Naturalismo, matemática e Reichenbach

Acabam de ser publicados dois novos artigos na SEP, dedicados ao naturalismo na filosofia da matemática, de Alexander Paseau, e a Hans Reichenbach, de Clark Glymour e Frederick Eberhardt.

D. H. Mellor

Uma insistência na compreensão discursiva explicita onde esta pode ser alcançada, por contraste com intimações obscuras à argúcia inefável, é um grande dissuasor de todos os tipos de charlatanismo. Um comprometimento com a verdade, e portanto com a fundamentação das nossas crenças em indícios e não no sonhar alto (por mais elevados que sejam os sentimentos), é essencial não apenas para a boa ciência, mas para todas as tentativas sérias de adquirir conhecimento e compreensão sobre seja o que for, incluindo nós mesmos.

Crença, conhecimento e justificação

Um leitor anónimo levanta várias perguntas no post do Rolando com respeito à definição tradicional de conhecimento como crença verdadeira justificada. Vale a pena fazer alguns esclarecimentos, apesar de geralmente os alunos não terem qualquer dificuldade com estas coisas perfeitamente básicas (mas é preciso estudar, claro: não se aprende filosofia apenas a dançar o samba e a beber cerveja).

O que é uma crença? Usa-se este termo em filosofia para falar de qualquer representação do mundo que qualquer agente cognitivo faz. A confusão é que popularmente usa-se “crença” como sinónimo de crença religiosa. Mas crença religiosa é apenas um tipo peculiar de crença.

O que é a justificação? É a actividade de fundamentar uma qualquer crença. Se alguém disser que há fadas só porque era engraçado que houvesse fadas, isso é uma má justificação. O que distingue a boa da má justificação? Não se sabe claramente, mas há casos claros de boas e de más justificações.

Por que razão a justificação e a crença pa…

J. S. Mill

Por pouco disposta que esteja uma pessoa que tem uma opinião forte a admitir a possibilidade de que a sua opinião seja falsa, tem de ser tocada pela consideração de que por mais verdadeira que seja, se não for frequentemente discutida por inteiro e sem medos, será mantida como um dogma morto, e não como uma verdade viva.

Subjectividades

Recordo uma conversa muito informal entre um aluno e um professor de filosofia na qual o aluno coloca a questão:
- Acha que a tese CVJ é ainda uma tese insuperável na filosofia do conhecimento?
Ao que o professor responde:
- A minha formação não se inscreve na tradição analítica.
Esta resposta, a ser levada a sério, pode sugerir que existem filosofias ao gosto de cada um. Escolhe-se a filosofia que mais convém e parte-se para a sua investigação. A realidade é que se torna difícil expressar de um modo claro o que é a filosofia e qual o seu objecto de estudo. Mas a resposta a esta questão, o que é a filosofia?, só não é mais clara porque, tal como todo o problema filosófico, não é passível de demonstração empírica. Em regra parece ser esta particularidade que define a filosofia que faz confusão às pessoas. Acontece que os filósofos devem estar habituados a essa circunstância e não se devem mostrar afectados por ela, pois a prova empírica nem sempre constitui uma vantagem em termos de estudo…

Humor e filosofia

Um sinal seguro de que estamos perante uma mentira intelectual, política ou social é a exigência de “respeito”: a ideia de que há certas coisas com as quais não se deve brincar nem fazer humor. A propósito disto, estive a rever um bom texto de Mellor, que procura mostrar a importância do humor na filosofia e na vida social. O texto tinha sido publicado em 2004, mas apenas parcialmente. Revi a tradução e traduzi o resto do texto. Espero que a sua leitura seja estimulante. Está aqui.

DEF

O DEF, Dicionário Escolar de Filosofia (org. Aires Almeida, Plátano, 2003) é uma ferramenta de trabalho para professores e alunos indispensável. Trata-se de um pequeno dicionário com as principais referências dos mais modernos métodos da filosofia, bem como dos filósofos. Disponível em edição on line está já em preparação a 2ª edição.

É a democracia defensável?

Acaba de ser publicada uma pormenorizada recensão de David Hildebrand do livro A Pragmatist Philosophy of Democracy, de Robert B. Talisse.

O que justifica a democracia? Desde as críticas clássicas de Platão à democracia que este é um tema central da filosofia política. Há diferentes maneiras de defender a democracia, tal como é diferentes maneiras de procurar refutar a democracia. Este livro apresenta uma defesa pragmatista da democracia, mas começa por clarificar o que realmente é o pragmatismo.

Brand Blanshard

Swift, Macaulay e Shaw diriam que André foi enforcado. Bradley diria que foi morto. Bosanquet diria que morreu. Kant diria que a sua existência mortal alcançou o seu término. Hegel diria que uma determinação finita do infinito foi sobredeterminada pela sua própria negação.

O carcereiro libertário

A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Há quem pense que a racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação são opressoras — meros artifícios de poder. Quando se pede argumentos a favor de tal ideia, atiram-nos à cara a autoridade última de um ou outro autor — um sinal de que essa pessoa foi vítima de estupro intelectual, pois nem se apercebe que ficou numa tal posição de inferioridade perante esse autor que a possibilidade de ele estar pura e simplesmente enganado não lhe ocorre.

A racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação não são opressoras. Se alguém me perguntar o que é um argumento dedutivo válido, eu explico que é um argumento no qual é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, e dou exemplos triviais, como «Alguns autores são palermas; logo, alguns palermas são autores». Se a pessoa duvidar seja do que for, pode verificar por si mesma. E pode continuar a fazer perguntas, que terá sempre respostas que nunca in…

Retórica e argumentação no início do século XXI

Colóquio Internacional Comemorativo (1958-2008)

Cinquenta anos depois da publicação de o Traité de l’argumentation: La nouvelle rhétorique, de C. Perelman e L. Olbrechts-Tyteca, e de The Uses of Argument, de S. Toulmin

Visa-se com este colóquio, para além do estudo sobre o impacto desses livros na retórica e teorias da argumentação contemporâneas, fazer o balanço sobre o estado destas disciplinas na actualidade.

Data: 2, 3 e 4 de Outubro de 2008

Local: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal
Mais informações: http://www1.ci.uc.pt/lif/retoricanoseculoxxi/

Uma confusão comum

Os comentários do leitor Pedro Sargento aos testemunhos de Rolando Almeida e Vítor Guerreiro revelam um aspecto interessante que por vezes se confunde, pelo que vale a pena pensar nisto outra vez. Os ex-alunos e os alunos têm tendência para relatar as piores experiências relacionadas com a chamada “filosofia continental” nas universidades por onde passaram. Eu também tive experiências dessas.

Estas experiências, contudo, tendem a confundir um mau ensino da filosofia com a filosofia continental propriamente dita. Nunca li uma linha de Benjamin, nem sequer sobre ele, mas não duvido que é possível fazer um trabalho de excelência quer no estudo deste autor, quer no ensino das suas ideias. E para a qualidade do ensino é irrelevante se Benjamin é um bom filósofo da arte ou não: lixo é lixo, mas trabalho académico sobre o lixo não tem de ser um lixo.

O que isto significa é que pugnar pelo ensino de qualidade é independente das nossas preferências filosóficas. Eu estudo filosofia analítica e nã…

George Orwell

É perfeitamente óbvio que a nossa conversa de “defesa da democracia” não tem sentido enquanto for um mero acidente de nascimento que decide se uma criança dotada terá ou não a educação que merece.

Pragmatismo, de Christopher Hookway

Christopher Hookway acaba de publicar na SEP um novo artigo sobre pragmatismo. Nas palavras imortais de Hankinson,
A contribuição originalmente americana para a filosofia foi o pragmatismo, que não é, como na política, uma designação alternativa para uma rejeição esfarrapada e indulgente de quaisquer princípios, mas antes a crença de que a verdade e a falsidade não são absolutas mas sim uma questão de convenção, ou que, como alguns filósofos modernos gostam de dizer, «estão em aberto.» Pensando melhor, talvez o pragmatismo tenha afinal qualquer coisa a ver com a política.

Introdução à Estética, de George Dickie

Deverá sair já em Setembro a tradução portuguesa de Vítor Guerreiro desta excelente introdução sintética mas abrangente à estética e à filosofia da arte, de George Dickie. Sendo um dos mais importantes filósofos actuais a trabalhar nesta área, esta obra é ideal para quem desejar conhecer melhor a estética e a filosofia da arte, de Platão aos nossos dias.

Fiz a revisão deste livro com muita dedicação, pois parece-me uma contribuição fundamental para estudantes, professores e quaisquer outras pessoas interessadas em conhecer uma área hoje em dia pujante da filosofia, mas que é relativamente desconhecida em Portugal e no Brasil. Em 2006 divulguei este livro no Público, e essa pequena apresentação pode ser lida na Crítica, aqui. O livro será publicado na colecção Filosoficamente, da Bizâncio.

Introdução à metafísica

Outra das minhas traduções para a Crítica, a introdução de Michael J. Loux à obra, Metaphysics a Contemporary Introduction. A sua leitura é um excelente complemento ao texto de E. J. Lowe que já apresentei. Como o texto de Lowe, esta introdução de Loux foca-se nas principais objecções ao empreendimento metafísico tradicional, mas com uma orientação mais histórica. Dá-se uma caracterização do projecto metafísico tradicional, nas suas vertentes aristotélica e racionalista clássica, os principais ataques a este projecto por parte da crítica kantiana e os desenvolvimentos desta no idealismo alemão e nas «superações» de cunho teológico da metafísica, que são impecavelmente caracterizadas, sem interlúdios suporíferos nem exercícios de lana caprina dialéctica. Loux explica também em que consiste a tarefa da metafísica contemporânea e a crescente complexidade dos debates metafísicos das últimas décadas, usando exemplos práticos. Explica-se o que une e o que diferencia o projecto aristotélico …

O valor da filosofia

Um dos problemas que o leigo comummente levanta, no que diz respeito à disciplina, é o seguinte: os filósofos procuram alcançar a verdade, mas se a verdade é inalcançável, o projecto morre à partida e a tarefa dos filósofos não passa de entretenimento. Esta ideia é desprestigiante para a filosofia. A razão é que ela goza de alguma fama injusta, pois trata-se de uma ideia falsa. Colecciono aqui alguns textos que podem sintetizar e explicar ao leitor comum para que serve e o que é a filosofia bem como da relação com a verdade.

O que é a filosofia, Nigel Warburton

A especificidade da filosofia, Desidério Murcho

O valor da filosofia, Bertrand Russell

Para que serve a filosofia, Desidério Murcho

O que é a filosofia, Thomas Nagel

10 falsas questões sobre a filosofia, Rolando Almeida

O que é isso de investigação em filosofia, Miguel Amen

Claro que o problema da verdade é um problema mais complexo, mas deixo aqui um texto que expõe muito bem as expectativas que temos face à verdade:

Acesso privilegiad…

Filosofia da música 2

O musicólogo deixou no seu comentário à posta anterior algumas sugestões de leitura sobre filosofia da música. Aproveito para acrescentar outras e fazer um ou outro comentário sobre o que disse, começando pela referência a Eduard Hanslick.

Hanslick foi um famoso crítico musical vienense do século XIX, tendo sido caricaturado pelo próprio Wagner – muitas vezes vítima da crítica de Hanslick – na sua ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga. O livrinho de Hanslick Sobre o Belo Musical – a tradução portuguesa é Do Belo Musical– dá início à filosofia da música. É datado? Claro que é, pois foi escrito há mais de um século. Mas é o único livro de filosofia da música que conheço traduzido para português e é filosofia de boa qualidade. É, em minha opinião, muito melhor do que a maioria dos livros de filosofia que se podem encontrar nas prateleiras das livrarias portuguesas, mesmo para quem não tem um interesse especial por filosofia da música.

E em português, estamos conversados. Não há mais filo…

Filosofia da música

Na sequência das sugestões apresentadas pelo Matheus Martins Silva, fui verificar os textos online e reuno aqui uma lista dos endereços onde podem ser lidos:
O QUE SE PODE APRENDER COM A MÚSICA? (Aires Almeida)

Teorias essencialistas da arte (Aires Almeida)

O Valor Cognitivo da Arte (Aires Almeida)

MAU GOSTO OU OBRA ERRADA? Porque é que Glenn Gould nunca tocou realmente Bach(António Lopes)

Execução Musical e “Ontologia” da Obra Comentário a “Mau Gosto ou Obra Errada?”, de António Lopes (LUÍS DUARTE D’ALMEIDA)

Relativismo na Avaliação de Execuções Musicais (António Lopes)

Platonismo em Música : Duas variedades (António Lopes)

E. J. Lowe: "The Possibility of Metaphysics"

A resposta do relativismo — por exemplo, na sua mais recente inclinação «desconstrucionista» — a esta questão [como é a metafísica possível?] é, muito simplesmente, que a metafísica não é possível, porque é o produto ilegítimo da soberba intelectual do ocidente, a busca equivocada por uma inexistente verdade «objectiva» e «total», orientada por princípios lógicos supostamente intemporais e universais. A verdade e a razão, segundo esta perspectiva, são conceitos ligados à cultura e cuja utilidade é estritamente limitada. Considera-se absurda e paradoxal a noção de que possa haver uma «estrutura fundamental da realidade» para a discernirmos, porque aquilo a que chamamos «realidade» é sempre (supostamente) apenas uma construção humana, saturada de interpretações motivadas pelo interesse. A minha resposta a afirmações antimetafísicas deste género é a seguinte: Em primeiro lugar, na medida em que não passam de meras asserções, insustentadas por argumentos racionais, não merecem ser levados…

O som da música e o sabor das hóstias

Poderá um ateu ser apreciador de música religiosa?

Há quem pense que há algo errado em um ateu gostar muito de música religiosa, alegando que só quem está imbuído do sentimento religioso está também em condições de apreciar verdadeiramente a Paixão Segundo S. Mateus de Bach, a Missa em Dó Menor de Mozart ou o Te Deum de Bruckner.

Se estas pessoas tiverem razão, os ateus (e os agnósticos, já agora) não estão em condições de apreciar uma parte muito substancial da música ocidental. Mas terão essas pessoas razão?

Será que o palato do ateu e do agnóstico também não estão em condições de apreciar o sabor das hóstias? São coisas diferentes, poder-se-á dizer: a analogia não funciona porque o crente não toma a hóstia para apreciar o seu sabor; não é o deleite das suas papilas gustativas que o leva a comungar. Mas esta resposta não mostra que analogia não funciona. Isto porque podemos também dizer que o crente não está realmente interessado na música, mas na função simbólica que esta desempenha n…

Lógica de Aristóteles e lógica aristotélica

Acabei de publicar no site de apoio do meu manual A Arte de Pensar dois pequenos textos de apoio sobre a silogística, com tradução de Rui Daniel Cunha: um clássico, de Lukasiewicz, e outro de Robin Smith, retirado do excelente Cambridge Companion to Aristotle.

Poucos professores e estudantes sabem que a lógica aristotélica que se encontra em muitos manuais escolares pouco corresponde à lógica que Aristóteles realmente escreveu. É, antes, o resultado de diversos tratamentos escolares feitos ao longo de séculos, quase todos desastrosos. Por isso, esta lógica, que é muitíssimo simples, é muitas vezes leccionada com complicações desnecessárias, sem que o fundamental fique claramente compreendido. O simples facto banal de a lógica de Aristóteles original não poder trabalhar com classes vazias é muitas vezes ignorado. Algumas dessas deficiências básicas foram apresentadas brevemente no meu livro O Lugar da Lógica na Filosofia.

Hoje em dia, é possível — e desejável — simplificar a lógica arist…

Natureza da metafísica

Uma das minhas traduções recentes na Crítica: a Introdução da obra A Survey of Metaphysics, de E. J. Lowe, autor de The Possibility of Metaphysics: Substance, Identity and Time. Nesta introdução, Lowe dá uma caracterização do objecto de estudo da metafísica, respondendo às principais objecções levantadas contra a ideia tradicional, de raiz aristotélica, de metafísica — «a perspectiva de que a metafísica se ocupa da estrutura fundamental da realidade no seu todo» —, como sejam o relativismo, a epistemologia naturalizada, a crítica kantiana, a relação entre a metafísica e o conhecimento empírico, a concepção semântica de metafísica, oferecendo ainda um esboço do que seja a ontologia, das categorias ontológicas fundamentais e uma cartografia provisória das mesmas.A metafísica é uma das disciplinas mais fascinantes e importantes da filosofia e tem sido objecto de uma incrível revitalização nas últimas três décadas, ao contrário da imagem deturpada e passadista que muitas vezes nos é veicu…

Pós-modernismo e fistfucking

Na sequência do post do Aires, e para todos rirmos mais um pouco, decidi repescar uma pérola que encontrei há já alguns anos, durante uma pausa para almoço na Fnac (na altura trabalhava eu como caixeiro de tintas, um emprego onde o devir-animal, ou o devir-besta, era coisa que não faltava): Organs Without Bodies: On Deleuze and Consequences. Trata-se de um excerto que nos fala de Foucault, Deleuze e fistfucking.E, para dar um passo em frente, não será a prática de fistfucking o modelo daquilo a que Deleuze chamou «expansão de um conceito»? Dá-se um novo uso ao punho; expande-se a noção de penetração na combinação da mão com a penetração sexual, na exploração do interior de um corpo. Não admira que Foucault, o Outro de Deleuze, praticasse fisting: não será o fistfucking a invenção sexual do século XX, o primeiro modelo do erotismo e prazer pós-sexuais? Não é mais genitalizado mas foca-se apenas na penetração da superfície, com a mão, o objecto parcial por excelência, usurpando o papel …

George Orwell

O intelectual católico consegue, para enfrentar controvérsias, entrar numa espécie de jogo de prestidigitação, repetindo os artigos do Credo exactamente nos mesmos termos que os seus antepassados, ao mesmo tempo que se defende da acusação de superstição explicando que está a falar por parábolas.

O que é uma análise?

Há duas maneiras de entender uma análise, o que pode parecer surpreendente. Deparei-me recentemente com este aspecto ao trabalhar na segunda edição do Dicionário Escolar de Filosofia.

Podemos entender uma análise de um dado conceito como uma apresentação de outros conceitos mais básicos que captem inteiramente o primeiro. O exemplo típico é algo como a análise do conceito de virgem como pessoa que nunca teve relações sexuais. Esta é a concepção fraca de análise. Na concepção forte, o que resulta da análise, para ser realmente uma boa análise, terá de ser uma frase analítica. Realmente, “Uma pessoa virgem é uma pessoa que nunca teve relações sexuais” é uma frase analítica. As tentativas de análise filosófica são tipicamente vistas como tentativas de análise no sentido forte: se fosse realmente verdade que o conhecimento é crença verdadeira justificada, essa afirmação seria analiticamente verdadeira.

Isto colide com a ideia de que não só a filosofia, mas também as ciências como a física o…

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Ontologia contingente, cinema e sexo

Lacrimae Rerum é o título de uma compilação de ensaios do esloveno Slavoj Zizek, recentemente traduzidos para português. Não li o livro, mas li a propósito disso uma entrevista com o autor no Ípsilon — o suplemento das sextas-feiras do jornal Público — que me deixou razoavelmente esclarecido.

A conversa é, tal como o livro, sobre filmes — que Zizek classifica como objectos pensantes — e é conduzida por Luís Miguel Oliveira. Zizek começa por ser apresentado como um dos grandes pensadores do momento: filósofo, psicanalista lacaniano e cinéfilo.

Este pensador muito em voga revela-se um porreiraço que não se assusta com as palavras. Dá a impressão de poder falar de tudo com o mesmo à vontade do fadista que canta à desgarrada. Qual mágico das palavras, na boca dele qualquer termo ou expressão pode significar o que ele bem entender, sem qualquer necessidade de explicação. Por isso pode dizer que os filmes são objectos pensantes e outras coisas do género.

Que os filmes são objectos que dão que …

Wishful thinking

Estamos a trabalhar no Dicionário Escolar de Filosofia, segunda edição, e uma vez mais procuramos uma boa expressão portuguesa que capte "wishful thinking". Até agora, a melhor candidata é "falácia da esperança".

A forma lógica desta falácia é a seguinte: "Era bom que fosse verdade que P; logo, é verdade que P".

A maravilha da expressão inglesa é que é popularmente usada nos países de língua inglesa e ao mesmo tempo é um termo técnico de lógica informal. É significativo que na mentalidade portuguesa, que prima pela falácia da esperança -- uma espécie de pensamento mágico -- não se use comummente uma expressão para esse mesmo hábito mental deletério.

Todas as sugestões são bem-vindas!

Mestres e discípulos

Costuma-se afirmar que Sócrates foi mestre de Platão, e Platão mestre de Aristóteles. Há uma acepção, contudo, em que tal afirmação é falsa, e por isso enganadora. A relação paradigmática entre mestre e discípulo é iniciática; o mestre é o pretenso detentor de um acesso privilegiado à verdade, recusa-se a ensinar explicitamente o discípulo, obrigando-o a segui-lo como um cachorrinho, tentando absorver um ensinamento pretensamente indizível e feito de gestos e máximas, poucas explicações e nenhuns argumentos.

Não era esta a relação que Sócrates mantinha com Platão e Platão com Aristóteles, pela simples razão de que eram todos filósofos e como filósofos passavam a vida a pôr em causa as ideias uns dos outros — o que é incompatível com a reverência que os mestres exigem dos discípulos. Basta ler algumas obras de Platão ou Aristóteles para verificar que estes homens não tinham o tipo de atitude reverencial necessária para serem mestres ou discípulos, pois passam a vida a argumentar. A disc…

É importante divulgar

No meu post anterior falei de um livro de divulgação da filosofia a um público mais amplo. Esse público é aquele que compra livros, gosta de aprender mas que pura e simplesmente não tem formação específica em filosofia. Isso acontece comigo em relação à física ou biologia. Quando pretendo aprender um pouco mais de biologia dificilmente comprarei um livro que resulta de um estudo sofisticado de um biólogo. E por que razão não o compro? Pela razão que não o entendo, não domino o léxico específico da biologia. Faltam-me as bases para compreender o mais específico. Com a filosofia esta realidade é a mesma coisa. Alguém que não domina a filosofia pela base terá poucas possibilidades de compreender um problema mais específico desenvolvido em 400 páginas. Mas isso não significa que a filosofia não interessa às pessoas. Interessa tanto como a matemática ou a física. A filosofia, tal como os outros saberes possui níveis de aplicação nas nossas vidas mais intuitivos e imediatos e outros mais so…

Divulgação

Os livros de divulgação são importantes uma vez que é com eles que o público mais jovem contacta pela primeira vez com as diversas áreas do conhecimento. O livro, Que diria Sócrates, Gradiva, 2008, colecção Filosofia Aberta, é o resultado da síntese que Alexander George fez do site do qual é o principal criador, o Askphilosophers. Desde médicos a gente com as mais variadas profissões e afazeres, colocam questões que os filósofos procuram responder. Este tipo de obras lança também alguma discussão sobre a necessidade da divulgação da filosofia e do melhor modo de o fazer. Uma leitura recomendável!

Heidegger, José Mourinho e o Todo (Gato Fedorento)

«HEIDEGGER e o 4-4-2: Foi, ontem, apresentado o livro “Liderança – As Lições de José Mourinho” de Luís Lourenço, baseado na sua tese de mestrado. Segundo o autor, José Mourinho "é diferente por partir de um novo paradigma de pensamento, preconizado por Heidegger ou Morin, por exemplo, e o operacionalizar. Trata-se de um novo olhar para o Todo, que põe de parte a divisão e análise das partes e o pensamento cartesiano de há quatro séculos". Cada vez que leio isto (e faço-o várias vezes ao dia, na esperança de o vir a compreender), gosto de imaginar a seguinte conversa entre dois adeptos, à saída de Stanford Bridge:

- Eh pá, o Chelsea não merecia ter empatado este jogo.
- Pois não. Mas a primeira parte foi tão má que parecia que o Mourinho não tinha lido “O Ser e o Tempo”.
- Quantas vezes é que o Heidegger avisou que o 4-4-2 só resulta se o trinco compensar a subida dos laterais?
- Exacto. Meu amigo, se é para ver a nossa equipa voltar ao pensamento cartesiano, não contes mais comi…

Ferramentas para exercícios de lógica

Ao fazer uma pesquisa no site do Desidério Murcho, encontrei algum software que pode interessar quem quer dar uns passos de lógica. Engracei-me principalmente com o Tree proof generator, um programa que permite testar a validade de argumentos formais. Um óptimo auxiliar para professores prepararem exercícios para as aulas. O Tableau III é um pouco mais elaborado e permite não só conhecer as regras de diferentes níveis de aplicação da lógica bem como construir árvores semânticas. O Tableau III é disponibilizado pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Oxford. No site encontrará tutoriais e instruções de uso muito completas. Duas ferramentas a explorar.

Ligações: Tree Proof Generator
Tableau III

Ensinar filosofia: Portugal e Brasil

A propósito do alargamento no Brasil, a todos os estados, do ensino obrigatório da filosofia para estudantes pré-universitários, muitos colegas me têm perguntado como são as coisas em Portugal, já que lá este ensino obrigatório existe desde há séculos. Agora, a propósito do post do Miguel, o leitor Alex pergunta por que razão em Portugal os cursos de filosofia são todos licenciaturas e não bacharelados, como no Brasil.

A razão é esta: chama-se em Portugal “licenciatura” ao que no Brasil se chama “bacharelado” e não temos nome para o que no Brasil se chama “licenciatura”. No Brasil uma licenciatura é um bacharelado numa dada área, com ênfase no ensino dessa área, para capacitar o aluno para dar aulas. Em Portugal há apenas o que chamamos “licenciaturas” mas no Brasil se chama “bacharelado” e depois em algumas delas há “vias de ensino” ou “vias científicas”, que correspondem à diferença que se faz no Brasil entre a licenciatura e o bacharelado. Noutros casos, e isso é mais comum em filos…

Tradução de «supervenience»

Tenho vindo a alimentar uma discussão a propósito da tradução do termo «supervenience», para a qual contribuí com um texto algo mordaz e intencionalmente cómico, publicado na Crítica — Sobreveniência, superveniência e o quarto português. Humorismos à parte, gostaria agora de resumir alguns detalhes desta discussão, uma vez que influirá na tradução do dicionário Mautner.

Razões por que prefiro o termo «sobreveniência»:

a) em inglês, «supervene» é usado em diversos contextos afilosóficos, além de em contexto filosófico. O termo inglês mantém a continuidade com o uso corrente e isto quanto a mim é uma vantagem.

a.1) a forma verbal em português, equivalente a «supervene», caso mantivéssemos «superveniência», seria «supervém» (x supervém a y). O que parece um pouco tolo.

a.2) «x sobrevém a y» é a opção mais natural, elegante, económica, indolor.

b) elimina-se uma série de confusões comuns como «x é superveniente sobre y», como vejo escrever-se bastantes vezes. Há uma ideia falsa de que «x sobre…

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