31 de agosto de 2008

Rui Daniel Cunha: Dicionário de Filosofia da Educação, de Cristopher Winch e John Gingell

De que falamos quando falamos de ensino, aprendizagem, avaliação, sucesso, disciplina, autoridade, por exemplo, em educação? A clarificação de tais conceitos fundamentais é uma tarefa cuja relevância é óbvia e que compete, no essencial, à filosofia da educação. Um guia inteligente e fiável, que nos ilumina na compreensão adequada destes e de outros conceitos, é este livro de Cristopher Winch e John Gingell. São 152 entradas que, no seu conjunto, abrangem todo o campo conceptual da filosofia da educação e constituem um instrumento de referência indispensável para quem se interessa pelos problemas filosóficos inevitavelmente envolvidos na educação. [Ler mais...]

30 de agosto de 2008

Livros novos

Acabo de receber notificação de novos livros da Oxford University Press, e três chamaram-me a atenção:

The Development of Ethics: A Historical and Critical Study, vol. II: de Suaréz a Rousseau. Da autoria de Terence Irwin e com 936 páginas, este é o segundo volume de um trabalho muitíssimo ambicioso. O primeiro volume foi publicado há um ano, tem 840 páginas e abrange a história da ética até Maquiavel e a Reforma; uma recensão deste primeiro volume pode ser lida aqui e um excerto em PDF aqui.

Was Jesus God?, de Richard Swinburne, um dos mais importantes filósofos contemporâneos da religião. Com 192 páginas, apresenta as doutrinas cristãs centrais e explica por que razão pensa que são verdadeiras. O livro tem como público-alvo os leitores comuns, sem preparação prévia em filosofia, à semelhança do seu bem-sucedido Será Que Deus Existe? Uma entrevista, em inglês, que lhe fiz há uns meses está disponível aqui; procurei na entrevista dar-lhe todo o espaço para explicar algumas das suas ideias centrais.

Our Knowledge of the Internal World, de Robert C. Stalnaker. Com 156 pp., este livro chamou-me a atenção porque me parece que numa parte importante da história os filósofos pressupuseram a tese cartesiana da transparência da consciência sem se darem conta disso. Esta é a tese segundo a qual os nossos conteúdos mentais nos são inteiramente transparentes: quando pensamos algo, sabemos exactamente tudo o que estamos a pensar. Por outro lado, há mais de vinte anos que Stalnaker nada publicava, pelo que pensava que já tinha parado de filosofar.

Factivo, facticidade, factício e factitivo

Subsistem por vezes algumas confusões com respeito ao termo "factivo", confundindo-se com facticidade. Para efeitos de completude aproveito para esclarecer também outros termos relacionados. A factividade é um termo da linguística. Um verbo, por exemplo, é factivo quando a oração encaixada representa algo como um facto. Ou seja, quando esse verbo implica o facto expresso pela oração encaixada. Por exemplo, o verbo "sonhar" não é factivo porque "O Asdrúbal sonhou com uma árvore" não implica a existência da árvore; mas "ver" é factivo porque "O Asdrúbal viu uma árvore" implica a existência da árvore. Ler mais...

Nova Crítica igual

O código da Crítica foi alterado. As alterações são puramente técnicas e deverão ser invisíveis para o leitor. Mas se a revista parecer totalmente desformatada, faça "reload" ou "refresh" no seu navegador (geralmente, com a tecla F5 ou control-R, no PC). Caso persistam problemas, estou aqui para os resolver.

29 de agosto de 2008

Autocontradição, auto-refutação e paradoxo


Faz-se por vezes alguma confusão com os conceitos de autocontradição, auto-refutação e paradoxo. Vejamos se ajudo a esclarecer as coisas.

Uma autocontradição não é uma afirmação paradoxal, mas antes uma mera falsidade lógica (tomando este conceito no seu sentido mais amplo, incluindo portanto falsidades conceptuais ou analíticas). Uma proposição é uma autocontradição quando... é uma contradição. Não há diferença entre os conceitos. Apenas popularmente se diz que alguém entrou em autocontradição quando se contradiz a si mesmo. Assim, uma autocontradição é algo como “Asdrúbal é lisboeta e Asdrúbal não é lisboeta”.

Uma afirmação é auto-refutante quando a sua verdade implica a sua falsidade. Afirmar que não há verdades é auto-refutante porque implica que o que acabámos de dizer não é verdade. Contudo, afirmar que todas as nossas crenças podem ser falsas não é auto-refutante porque não implica que esta afirmação é falsa, mas apenas que pode ser falsa, ainda que acreditemos que é verdadeira. O que seria auto-refutante seria acreditar que todas as nossas crenças são falsas. O operador de modalidade (“pode”) faz uma diferença crucial, mas para se compreender a diferença seria necessário conhecer um pouco a lógica modal.

Por outro lado, uma afirmação é paradoxal quando a sua verdade implica a sua falsidade e a sua falsidade implica a sua verdade. A afirmação “Esta frase é falsa” é paradoxal porque se for verdadeira, ocorre o que ela diz e portanto é falsa; e se for falsa, a sua negação ("Esta frase é verdadeira") é verdadeira pelo que a frase é verdadeira. Já a afirmação “Todas as frases são falsas” não é paradoxal — é auto-refutante — porque a sua falsidade não implica a sua verdade: se a frase for falsa, isso significa que algumas frases são verdadeiras, o que não nos obriga a concluir que a frase original é verdadeira.

Espero ter ajudado a esclarecer os amáveis leitores que ficaram algo perplexos com a minha afirmação de que a plena assunção da nossa falibilidade implica aceitar que todas as nossas crenças, por mais arreigadas que sejam, podem ser falsas. A minha afirmação não implica duas coisas: 1) que não podemos ter certezas (eu tenho muitas), nem 2) que todas as nossas crenças são falsas. Esclarecer em que sentido podem todas as nossas crenças ser falsas fica para outra altura, pois envolve uma ambiguidade no uso do operador de modalidade, "pode". Por exemplo, se houver verdades necessárias, e se P for uma dessas verdades, e se um agente falível acreditar que P é verdade, é óbvio que apesar de P ser objecto da crença de um agente falível P não pode ser falsa.

Julian Baggini

Julian Baggini vai estar no Birmingahm Book Festival (clicar na imagem) a mostrar como é que argumentamos mal em muitas discussões quotidianas, falando do seu livro,The Duck That Won the Lottery: And 99 Other Bad Arguments. O trabalho de Baggini é exemplo de como bem divulgar a filosofia a um público mais alargado. Em Portugal não temos livros do autor traduzidos, mas no Brasil temos Para Que Serve Tudo Isso? (Jorge Zahar, 2008), O Porco Filosófico (Relume Dumara, 2006), O Que os Filósofos Pensam (Idéias & Letras, 2005) e As Ferramentas dos Filósofos (Loyola, 2008). Todos estão à venda aqui.

28 de agosto de 2008

Thomas Nagel

Não se trata apenas de eu não acreditar em Deus e de, como é natural, esperar ter razão ao ter essa crença. Trata-se de eu esperar que não exista Deus! Não quero que exista Deus; não quero que o universo seja dessa maneira.

27 de agosto de 2008

26 de agosto de 2008

D. H. Mellor

A filosofia [...] é lida por pessoas estranhas a ela, que não querem avaliá-la, mas antes confiar nela e usá-la, como os físicos usam a matemática. Mas não há muitas pessoas estranhas à filosofia que a queiram para fazer física; na sua maior parte, querem que a filosofia forneça uma espécie de substituto secular para a religião. Por outras palavras, querem que os seus filósofos sejam gurus. E a última coisa que os discípulos querem dos gurus é que tenham sentido de humor; o sentido de humor é contrário ao ar de autoridade que faz os gurus atrair discípulos. Assim, quando os gurus filosóficos levantam poeira ao dizerem coisas sem sentido que parecem importantes, os seus discípulos, longe de se queixarem de que não podem ver, ficam ainda mais impressionados pela obscuridade profunda da visão oferecida. Em filosofia, portanto, tal como na religião e na medicina, um público crédulo dará muitas vezes fama e fortuna aos adoradores de mistérios.

25 de agosto de 2008

Ética pela rádio

Public Ethics Radio é um novo serviço filosófico na Internet que apresenta discussões de temas centrais de ética pública. O primeiro desses programas está já publicado e discute o modo como actualmente se financia a investigação farmacêutica; o filósofo Thomas Pogge argumenta que o sistema de financiamento precisa de ser reformado porque desfavorece as pessoas mais pobres, e propõe uma alternativa viável. Aqui.

Orwell dia a dia

Os diários de George Orwell estão a ser publicados num blog. Clicar na imagem para aceder.

Loren Lomasky

Juntamente com o ensino especializado e a investigação de ponta, o discurso sem peias é a razão de ser que distingue a universidade. Estas três funções não devem ser entendidas como coisas separadas, mas antes como aspectos integrados da tarefa de criar e disseminar o conhecimento. Para chegar a novas ideias os investigadores precisam de ter a liberdade de testar novas hipótese corajosas que serão depois criticadas sem medo ou favorecimento pelos seus colegas. Qualquer secretismo neste contexto impede o fluxo de ideias.

24 de agosto de 2008

A possibilidade da metafísica

Acabei de publicar o capítulo "A Possibilidade da Metafísica", de E. J. Lowe, com tradução de Vítor Guerreiro e revisão minha.

Este capítulo não é propriamente introdutório, dado que envereda por alguns temas complexos da metafísica, nas últimas secções (a discussão das ideias de Bob Hale), que implicam já um certo domínio da metafísica da modalidade.

Contudo, as primeiras secções são razoavelmente introdutórias e é nelas que Lowe ataca várias formas de relativização da metafísica, incluindo os idealismos, linguísticos e conceptuais. É um bom antídoto para quem pensa que a metafísica foi "superada" por Kant ou refutada por Quine ou pelos filósofos da linguagem corrente, como Strawson.

Apelo à sua subscrição da Crítica, pois neste momento a revista deve mais de 300 euros a tradutores e está sem dinheiro para pagar. Subscreva a Crítica, por meros 4 euros por mês, ou 10 reais; se não quiser subscrever, pelo menos clique todos os dias na publicidade da Crítica.

Naturalismo, matemática e Reichenbach

Acabam de ser publicados dois novos artigos na SEP, dedicados ao naturalismo na filosofia da matemática, de Alexander Paseau, e a Hans Reichenbach, de Clark Glymour e Frederick Eberhardt.

D. H. Mellor

Uma insistência na compreensão discursiva explicita onde esta pode ser alcançada, por contraste com intimações obscuras à argúcia inefável, é um grande dissuasor de todos os tipos de charlatanismo. Um comprometimento com a verdade, e portanto com a fundamentação das nossas crenças em indícios e não no sonhar alto (por mais elevados que sejam os sentimentos), é essencial não apenas para a boa ciência, mas para todas as tentativas sérias de adquirir conhecimento e compreensão sobre seja o que for, incluindo nós mesmos.

23 de agosto de 2008

Crença, conhecimento e justificação

Um leitor anónimo levanta várias perguntas no post do Rolando com respeito à definição tradicional de conhecimento como crença verdadeira justificada. Vale a pena fazer alguns esclarecimentos, apesar de geralmente os alunos não terem qualquer dificuldade com estas coisas perfeitamente básicas (mas é preciso estudar, claro: não se aprende filosofia apenas a dançar o samba e a beber cerveja).

O que é uma crença? Usa-se este termo em filosofia para falar de qualquer representação do mundo que qualquer agente cognitivo faz. A confusão é que popularmente usa-se “crença” como sinónimo de crença religiosa. Mas crença religiosa é apenas um tipo peculiar de crença.

O que é a justificação? É a actividade de fundamentar uma qualquer crença. Se alguém disser que há fadas só porque era engraçado que houvesse fadas, isso é uma má justificação. O que distingue a boa da má justificação? Não se sabe claramente, mas há casos claros de boas e de más justificações.

Por que razão a justificação e a crença parecem elementos necessários do conhecimento? Porque o conhecimento é um tipo peculiar de representação do mundo, mas parece absurdo dizer que alguém sabe seja o que for só porque por acaso isso é verdade, ainda que a pessoa não tenha qualquer boa justificação a favor disso.

O que é a factividade do conhecimento? É o mesmo que a factividade da visão. Seria estranho dizer que o João, quando está a sonhar com árvores, está a ver árvores. Ele não está a ver árvores, está a sonhar com árvores. E no sonho pode pensar que está a ver árvores, mas não está porque não está perante árvores. O mesmo acontece com o conhecimento: temos de distinguir entre conhecer realmente algo e pensar que se conhece realmente algo. Conhecer falsidades é impossível do mesmo modo que é impossível dar um aperto de mão ao Pai Natal: dado que o Pai Natal não existe, não lhe podemos apertar a mão, e dado que ele não existe não podemos saber que existe, mas é claro que podemos pensar (erradamente) que existe.

Valerá a pena estudar a definição tradicional de conhecimento, dado que depois de a termos compreendido se vai estudar todos os muitos contra-exemplos que a falsificam? Esta questão é muito interessante porque mostra até que ponto algumas pessoas não percebem o que é estudar filosofia. Elas querem estudar filosofia como quem estuda religião ou física ou história: querem estudar resultados, teorias Absolutamente Verdadeiras, Verdades Insofismáveis Maravilhosas e Inspiradoras... e em filosofia tudo o que temos são teorias presumivelmente falsas, que enfrentam um batalhão de contra-exemplos e dificuldades. Estudamos essas teorias para sabermos o que não se sabe, para podermos teorizar nós mesmos sobre esses problemas sem termos de trilhar os mesmos caminhos. Mas quem não tem qualquer interesse na teorização filosófica — na teorização especulativa — é óbvio que não vê qualquer interesse no estudo da filosofia. E ainda bem, pois o mundo seria muito aborrecido se todos gostássemos de tudo. Eu aborreço-me de morte, por exemplo, com conversas frívolas e ambientes de cerveja, com as infantilidades da televisão e o barulho das discotecas e dos bares. Se todos fossem como eu o mundo era uma chatice. O meu conselho a quem não consegue ver interesse algum na teorização especulativa da filosofia é fazer outra coisa qualquer. Há muitas coisas para fazer na vida além de estudar filosofia.

J. S. Mill

Por pouco disposta que esteja uma pessoa que tem uma opinião forte a admitir a possibilidade de que a sua opinião seja falsa, tem de ser tocada pela consideração de que por mais verdadeira que seja, se não for frequentemente discutida por inteiro e sem medos, será mantida como um dogma morto, e não como uma verdade viva.

22 de agosto de 2008

Subjectividades

Recordo uma conversa muito informal entre um aluno e um professor de filosofia na qual o aluno coloca a questão:
- Acha que a tese CVJ é ainda uma tese insuperável na filosofia do conhecimento?
Ao que o professor responde:
- A minha formação não se inscreve na tradição analítica.
Esta resposta, a ser levada a sério, pode sugerir que existem filosofias ao gosto de cada um. Escolhe-se a filosofia que mais convém e parte-se para a sua investigação. A realidade é que se torna difícil expressar de um modo claro o que é a filosofia e qual o seu objecto de estudo. Mas a resposta a esta questão, o que é a filosofia?, só não é mais clara porque, tal como todo o problema filosófico, não é passível de demonstração empírica. Em regra parece ser esta particularidade que define a filosofia que faz confusão às pessoas. Acontece que os filósofos devem estar habituados a essa circunstância e não se devem mostrar afectados por ela, pois a prova empírica nem sempre constitui uma vantagem em termos de estudo. Na filosofia não apresenta mesmo qualquer vantagem. E esta circunstância não devia dar a liberdade de pensar que a filosofia é o que nos aprouver segundo o plano de estudos que elegemos, mas a verdade é que é esta circunstância que abre espaço a todo o tipo de respostas malabaristas. Ainda que o problema seja difícil de analisar, independentemente de qualquer filiação a tese da CVJ aparece na obra de Platão, teeteto e não temos qualquer razão para pensar que não está lá.

Humor e filosofia

Um sinal seguro de que estamos perante uma mentira intelectual, política ou social é a exigência de “respeito”: a ideia de que há certas coisas com as quais não se deve brincar nem fazer humor. A propósito disto, estive a rever um bom texto de Mellor, que procura mostrar a importância do humor na filosofia e na vida social. O texto tinha sido publicado em 2004, mas apenas parcialmente. Revi a tradução e traduzi o resto do texto. Espero que a sua leitura seja estimulante. Está aqui.

DEF

O DEF, Dicionário Escolar de Filosofia (org. Aires Almeida, Plátano, 2003) é uma ferramenta de trabalho para professores e alunos indispensável. Trata-se de um pequeno dicionário com as principais referências dos mais modernos métodos da filosofia, bem como dos filósofos. Disponível em edição on line está já em preparação a 2ª edição.

É a democracia defensável?

Acaba de ser publicada uma pormenorizada recensão de David Hildebrand do livro A Pragmatist Philosophy of Democracy, de Robert B. Talisse.

O que justifica a democracia? Desde as críticas clássicas de Platão à democracia que este é um tema central da filosofia política. Há diferentes maneiras de defender a democracia, tal como é diferentes maneiras de procurar refutar a democracia. Este livro apresenta uma defesa pragmatista da democracia, mas começa por clarificar o que realmente é o pragmatismo.

20 de agosto de 2008

Brand Blanshard

Swift, Macaulay e Shaw diriam que André foi enforcado. Bradley diria que foi morto. Bosanquet diria que morreu. Kant diria que a sua existência mortal alcançou o seu término. Hegel diria que uma determinação finita do infinito foi sobredeterminada pela sua própria negação.

19 de agosto de 2008

O carcereiro libertário

A minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Há quem pense que a racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação são opressoras — meros artifícios de poder. Quando se pede argumentos a favor de tal ideia, atiram-nos à cara a autoridade última de um ou outro autor — um sinal de que essa pessoa foi vítima de estupro intelectual, pois nem se apercebe que ficou numa tal posição de inferioridade perante esse autor que a possibilidade de ele estar pura e simplesmente enganado não lhe ocorre.

A racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação não são opressoras. Se alguém me perguntar o que é um argumento dedutivo válido, eu explico que é um argumento no qual é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, e dou exemplos triviais, como «Alguns autores são palermas; logo, alguns palermas são autores». Se a pessoa duvidar seja do que for, pode verificar por si mesma. E pode continuar a fazer perguntas, que terá sempre respostas que nunca invocam a minha autoridade. A experiência que tenho como professor de lógica, e antes como aluno de lógica, é que nesta disciplina a autoridade do professor não conta, pois para cada afirmação, definição ou conteúdo há razões que o aluno pode pôr em causa e discutir abertamente.

Quando estudamos autores que acusam a razão e a lógica de serem autoritárias, a experiência é totalmente diferente. Neste caso, nenhuma razão é dada para aceitar o que afirmam; temos de o aceitar com base unicamente na sua autoridade, dos autores por eles citados e do professor que ajuda ao estupro intelectual. Pensar que os autores que acanalham a razão e a lógica são libertadores é como pensar que os nossos mais perversos carcereiros são afinal os nossos mais benévolos libertadores. O simples esforço de decifração dos textos de tais autores é suficiente para adormecer o nosso sentido crítico, e o objectivo dessas bestas é precisamente provocar o adormecimento do intelecto.

Em contraste com estes autores e com os seus métodos de estupro intelectual, a racionalidade, a verdade, a lógica, a ciência e a argumentação têm esta característica única: não são seja de quem for. O mau argumento do mais autoritário dos autores cai com estrondo se for mau e se for visível que é mau, porque a racionalidade não é dele nem de qualquer outra pessoa.

Se declararmos que a argumentação e a racionalidade são opressoras, estaremos a desviar as atenções do que é realmente opressor: a autoridade arbitrária e sem qualquer razão de ser excepto a “razão” da força e do interesse próprio. Precisamos de mecanismos que limitem o poder dos políticos; que limitem os usos militares da ciência; que limitem os usos propagandísticos da psicologia cognitiva, da sociologia e do marketing, que permitem eleger políticos inaptos. Mas não daremos atenção a qualquer destas coisas enquanto continuarmos com a ilusão de que é a racionalidade e a ciência que oprime, e não os políticos desonestos, os intelectuais rançosos e o pensamento obnubilado em geral.

18 de agosto de 2008

Retórica e argumentação no início do século XXI

Colóquio Internacional Comemorativo (1958-2008)

Cinquenta anos depois da publicação de o Traité de l’argumentation: La nouvelle rhétorique, de C. Perelman e L. Olbrechts-Tyteca, e de The Uses of Argument, de S. Toulmin

Visa-se com este colóquio, para além do estudo sobre o impacto desses livros na retórica e teorias da argumentação contemporâneas, fazer o balanço sobre o estado destas disciplinas na actualidade.

Data: 2, 3 e 4 de Outubro de 2008

Local: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal
Mais informações: http://www1.ci.uc.pt/lif/retoricanoseculoxxi/

Uma confusão comum

Os comentários do leitor Pedro Sargento aos testemunhos de Rolando Almeida e Vítor Guerreiro revelam um aspecto interessante que por vezes se confunde, pelo que vale a pena pensar nisto outra vez. Os ex-alunos e os alunos têm tendência para relatar as piores experiências relacionadas com a chamada “filosofia continental” nas universidades por onde passaram. Eu também tive experiências dessas.

Estas experiências, contudo, tendem a confundir um mau ensino da filosofia com a filosofia continental propriamente dita. Nunca li uma linha de Benjamin, nem sequer sobre ele, mas não duvido que é possível fazer um trabalho de excelência quer no estudo deste autor, quer no ensino das suas ideias. E para a qualidade do ensino é irrelevante se Benjamin é um bom filósofo da arte ou não: lixo é lixo, mas trabalho académico sobre o lixo não tem de ser um lixo.

O que isto significa é que pugnar pelo ensino de qualidade é independente das nossas preferências filosóficas. Eu estudo filosofia analítica e não continental porque tanto quanto sei os filósofos continentais não discutem os problemas tradicionais da filosofia que eu estudo. Mas defendo a excelência do ensino da filosofia, quer se estude as ideias Kripke quer se estude as ideias Benjamin.

É por isso que o comentário do Pedro Sargento é interessante: exibe uma compreensão das ideias dos autores referidos por Rolando e Vítor que, a julgar pelos seus relatos, os seus professores evidentemente não tinham. E isso é que interessa.

Saber agora se as ideias de Benjamin funcionam ou são interessantes é outra discussão: é a discussão normal em filosofia, que consiste em avaliar criticamente as ideias, argumentos e perspectivas dos filósofos estudados.

Quando vemos as coisas assim, percebe-se que quando se ensina filosofia analítica mal as coisas não são muito diferentes: fala-se vagamente das coisas, sem que se compreenda realmente o que os filósofos estão a dizer, e elege-se o filósofo que é objecto de estudo como um Santo Padroeiro que não pode ser posto em causa.

Em duas palavras, o problema do ensino da filosofia é pura incompetência e falta de sentido crítico. E isto tanto se aplica ao ensino das ideias de Nietzsche como das ideias de Quine.

George Orwell

É perfeitamente óbvio que a nossa conversa de “defesa da democracia” não tem sentido enquanto for um mero acidente de nascimento que decide se uma criança dotada terá ou não a educação que merece.

16 de agosto de 2008

Pragmatismo, de Christopher Hookway

Christopher Hookway acaba de publicar na SEP um novo artigo sobre pragmatismo. Nas palavras imortais de Hankinson,
A contribuição originalmente americana para a filosofia foi o pragmatismo, que não é, como na política, uma designação alternativa para uma rejeição esfarrapada e indulgente de quaisquer princípios, mas antes a crença de que a verdade e a falsidade não são absolutas mas sim uma questão de convenção, ou que, como alguns filósofos modernos gostam de dizer, «estão em aberto.» Pensando melhor, talvez o pragmatismo tenha afinal qualquer coisa a ver com a política.

15 de agosto de 2008

Introdução à Estética, de George Dickie

Deverá sair já em Setembro a tradução portuguesa de Vítor Guerreiro desta excelente introdução sintética mas abrangente à estética e à filosofia da arte, de George Dickie. Sendo um dos mais importantes filósofos actuais a trabalhar nesta área, esta obra é ideal para quem desejar conhecer melhor a estética e a filosofia da arte, de Platão aos nossos dias.

Fiz a revisão deste livro com muita dedicação, pois parece-me uma contribuição fundamental para estudantes, professores e quaisquer outras pessoas interessadas em conhecer uma área hoje em dia pujante da filosofia, mas que é relativamente desconhecida em Portugal e no Brasil. Em 2006 divulguei este livro no Público, e essa pequena apresentação pode ser lida na Crítica, aqui. O livro será publicado na colecção Filosoficamente, da Bizâncio.

14 de agosto de 2008

Introdução à metafísica

Outra das minhas traduções para a Crítica, a introdução de Michael J. Loux à obra, Metaphysics a Contemporary Introduction. A sua leitura é um excelente complemento ao texto de E. J. Lowe que já apresentei. Como o texto de Lowe, esta introdução de Loux foca-se nas principais objecções ao empreendimento metafísico tradicional, mas com uma orientação mais histórica. Dá-se uma caracterização do projecto metafísico tradicional, nas suas vertentes aristotélica e racionalista clássica, os principais ataques a este projecto por parte da crítica kantiana e os desenvolvimentos desta no idealismo alemão e nas «superações» de cunho teológico da metafísica, que são impecavelmente caracterizadas, sem interlúdios suporíferos nem exercícios de lana caprina dialéctica. Loux explica também em que consiste a tarefa da metafísica contemporânea e a crescente complexidade dos debates metafísicos das últimas décadas, usando exemplos práticos. Explica-se o que une e o que diferencia o projecto aristotélico original do projecto metafísico contemporâneo. Um excelente texto introdutório.

O acesso a este texto implica a subscrição na Crítica. O equivalente mensal a oito cafés dá acesso a uma revista online de filosofia em português com artigos, recensões e textos introdutórios a todas as áreas da filosofia. As subscrições incentivam-nos a produzir mais textos como estes e a prestar um melhor serviço aos leitores.

O valor da filosofia

Um dos problemas que o leigo comummente levanta, no que diz respeito à disciplina, é o seguinte: os filósofos procuram alcançar a verdade, mas se a verdade é inalcançável, o projecto morre à partida e a tarefa dos filósofos não passa de entretenimento. Esta ideia é desprestigiante para a filosofia. A razão é que ela goza de alguma fama injusta, pois trata-se de uma ideia falsa. Colecciono aqui alguns textos que podem sintetizar e explicar ao leitor comum para que serve e o que é a filosofia bem como da relação com a verdade.

O que é a filosofia, Nigel Warburton

A especificidade da filosofia, Desidério Murcho

O valor da filosofia, Bertrand Russell

Para que serve a filosofia, Desidério Murcho

O que é a filosofia, Thomas Nagel

10 falsas questões sobre a filosofia, Rolando Almeida

O que é isso de investigação em filosofia, Miguel Amen

Claro que o problema da verdade é um problema mais complexo, mas deixo aqui um texto que expõe muito bem as expectativas que temos face à verdade:

Acesso privilegiado à verdade, Desidério Murcho

Um ou outro artigo é de acesso restrito para assinantes da Crítica. Após a leitura destes curtos textos o leitor comum está já capaz de iniciar uma discussão plausível sobre o valor da filosofia.

13 de agosto de 2008

Filosofia da música 2

O musicólogo deixou no seu comentário à posta anterior algumas sugestões de leitura sobre filosofia da música. Aproveito para acrescentar outras e fazer um ou outro comentário sobre o que disse, começando pela referência a Eduard Hanslick.

Hanslick foi um famoso crítico musical vienense do século XIX, tendo sido caricaturado pelo próprio Wagner – muitas vezes vítima da crítica de Hanslick – na sua ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga. O livrinho de Hanslick Sobre o Belo Musical – a tradução portuguesa é Do Belo Musical – dá início à filosofia da música. É datado? Claro que é, pois foi escrito há mais de um século. Mas é o único livro de filosofia da música que conheço traduzido para português e é filosofia de boa qualidade. É, em minha opinião, muito melhor do que a maioria dos livros de filosofia que se podem encontrar nas prateleiras das livrarias portuguesas, mesmo para quem não tem um interesse especial por filosofia da música.

E em português, estamos conversados. Não há mais filosofia da música (não estou a falar de crítica musical, de musicologia, de história ou de sociologia da música, bem entendido). Temos, pois, de ler inglês, dado que também não nos vamos conseguir safar com francês nem com o espanhol.

Assim, sugiro duas curtas e acessíveis introduções à filosofia da música, uma de 2002 e outra de 2004, respectivamente:

Peter Kivy, Introduction to a Philosophy of Music (OUP)
R. A. Sharpe, Philosophy of Music, An Introduction (Acumen)

Os autores são ambos bons filósofos profissionais e Peter Kivy é mesmo um dos mais importantes e discutidos filósofos da música, além de ter uma formação musical avançada. Outros dos nomes sonantes da filosofia da música, além de Kivy, são Jerrold Levinson (ambos americanos) Stephen Davies (neo-zelandês), Roger Scruton e Malcolm Budd (ingleses).

Mas há outros filósofos, alguns dos quais exploram áreas mais restritas da filosofia da música, como Dianna Raffman (filosofia da música, filosofia da linguagem e da mente), John Fisher (filosofia da música rock e pop) e Lydia Goehr.

E tem de se referir um clássico da filosofia da música dos anos 50, embora o autor seja primariamente musicólogo, que é Emotion and Meaning in Music, de Leonard Meyer.

Só mais um comentário à seguinte passagem do musicólogo:

«Pensando bem até há muita coisa sobre música. O defeito: a maioria dos músicos não são filósofos. E a maioria dos filósofos percebe muito pouco de música. Esse é o principal dilema que encontrei em tudo o que li. Uma discrepância entre os dois mundos.»

É verdade que há muita coisa sobre música, mas que não é realmente filosofia da música. E isto é que se pode ler na maior parte dos textos dos compositores que referiu. Mas acho que, neste caso, a tarefa está mais facilitada para os filósofos do que para os músicos, pois é possível fazer boa filosofia da música sem saber muito de música (Scruton, por exemplo é compositor, mas Levinson não é e está muito longe disso; prefiro Levinson a Scruton como filósofos), ao passo que não é possível fazer boa filosofia da música sem saber filosofia.

Mas a verdade é que quase todos os autores que referi têm formação musical muitíssimo avançada e são filósofos. Em suma, os mundos talvez não sejam assim tão discrepantes como afirma.

Filosofia da música

Na sequência das sugestões apresentadas pelo Matheus Martins Silva, fui verificar os textos online e reuno aqui uma lista dos endereços onde podem ser lidos:

E. J. Lowe: "The Possibility of Metaphysics"

A resposta do relativismo — por exemplo, na sua mais recente inclinação «desconstrucionista» — a esta questão [como é a metafísica possível?] é, muito simplesmente, que a metafísica não é possível, porque é o produto ilegítimo da soberba intelectual do ocidente, a busca equivocada por uma inexistente verdade «objectiva» e «total», orientada por princípios lógicos supostamente intemporais e universais. A verdade e a razão, segundo esta perspectiva, são conceitos ligados à cultura e cuja utilidade é estritamente limitada. Considera-se absurda e paradoxal a noção de que possa haver uma «estrutura fundamental da realidade» para a discernirmos, porque aquilo a que chamamos «realidade» é sempre (supostamente) apenas uma construção humana, saturada de interpretações motivadas pelo interesse. A minha resposta a afirmações antimetafísicas deste género é a seguinte: Em primeiro lugar, na medida em que não passam de meras asserções, insustentadas por argumentos racionais, não merecem ser levados a sério. O facto de os seus defensores amiúde desprezarem a própria argumentação racional — sendo esta um dos principais alvos do seu ataque — não obriga de modo algum os defensores da metafísica a levá-los a sério. Se os relativistas desejam denunciar a noção de argumentação racional como artefacto cultural provinciano, então negam a si próprios qualquer suporte para as suas afirmações que não seja o preconceito entranhado, e devia bastar-nos deixá-los chafurdar aí à vontade, se isso lhes dá satisfação. Em segundo lugar, se alegadamente há indícios que sustentam estas afirmações — de género sociológico ou antropológico, por exemplo — então tem de se chamar a atenção para que na verdade tais indícios, como estão disponíveis, nada sustentam de tão extremo: não mostram nem podem mostrar que os seres humanos são incapazes de superar concepções do seu mundo, ligadas à cultura e motivadas por interesses, mas, quando muito, que por vezes não o conseguem fazer. Na verdade, o próprio facto de alguns seres humanos terem descoberto que muitos seres humanos não conseguem fazer isto não mostra senão que somos capazes de tal superação. Em terceiro lugar, é característico do ataque relativista à metafísica o distorcer deliberadamente aquilo que procura denunciar. Representa os metafísicos com pretensões a vislumbres infalíveis sobre verdades eternas e universais, isentas de qualquer perspectiva humana. Mas só o metafísico mais ingénuo e dogmático faria afirmações tão grosseiras. Um dos principais objectivos da metafísica é precisamente compreender, até certo ponto, a nossa própria relação com o resto da realidade e inevitavelmente compromete-se a fazer isto a partir da posição em que nos encontramos. O facto de não podermos sair de nós próprios para estudar essa relação não implica forçosamente que não a possamos estudar de todo em todo.

O som da música e o sabor das hóstias

Poderá um ateu ser apreciador de música religiosa?

Há quem pense que há algo errado em um ateu gostar muito de música religiosa, alegando que só quem está imbuído do sentimento religioso está também em condições de apreciar verdadeiramente a Paixão Segundo S. Mateus de Bach, a Missa em Dó Menor de Mozart ou o Te Deum de Bruckner.

Se estas pessoas tiverem razão, os ateus (e os agnósticos, já agora) não estão em condições de apreciar uma parte muito substancial da música ocidental. Mas terão essas pessoas razão?

Será que o palato do ateu e do agnóstico também não estão em condições de apreciar o sabor das hóstias? São coisas diferentes, poder-se-á dizer: a analogia não funciona porque o crente não toma a hóstia para apreciar o seu sabor; não é o deleite das suas papilas gustativas que o leva a comungar. Mas esta resposta não mostra que analogia não funciona. Isto porque podemos também dizer que o crente não está realmente interessado na música, mas na função simbólica que esta desempenha nas celebrações religiosas e que é semelhante à da hóstia.

12 de agosto de 2008

Lógica de Aristóteles e lógica aristotélica

Acabei de publicar no site de apoio do meu manual A Arte de Pensar dois pequenos textos de apoio sobre a silogística, com tradução de Rui Daniel Cunha: um clássico, de Lukasiewicz, e outro de Robin Smith, retirado do excelente Cambridge Companion to Aristotle.

Poucos professores e estudantes sabem que a lógica aristotélica que se encontra em muitos manuais escolares pouco corresponde à lógica que Aristóteles realmente escreveu. É, antes, o resultado de diversos tratamentos escolares feitos ao longo de séculos, quase todos desastrosos. Por isso, esta lógica, que é muitíssimo simples, é muitas vezes leccionada com complicações desnecessárias, sem que o fundamental fique claramente compreendido. O simples facto banal de a lógica de Aristóteles original não poder trabalhar com classes vazias é muitas vezes ignorado. Algumas dessas deficiências básicas foram apresentadas brevemente no meu livro O Lugar da Lógica na Filosofia.

Hoje em dia, é possível — e desejável — simplificar a lógica aristotélica e mudá-la de modo a permitir o uso de classes vazias. Foi esta a opção que vi na bibliografia mais recente que consultei, e que adoptei no Arte de Pensar, assim como nas minhas aulas na UFOP.

A propósito: muitas pessoas ficam surpreendidas com isto, mas dedico apenas uma aula de quatro horas à apresentação da lógica aristotélica aos meus alunos, depois de dominarem os elementos centrais da lógica de predicados clássica. E eles não têm qualquer dificuldade.

Natureza da metafísica

Uma das minhas traduções recentes na Crítica: a Introdução da obra A Survey of Metaphysics, de E. J. Lowe, autor de The Possibility of Metaphysics: Substance, Identity and Time. Nesta introdução, Lowe dá uma caracterização do objecto de estudo da metafísica, respondendo às principais objecções levantadas contra a ideia tradicional, de raiz aristotélica, de metafísica — «a perspectiva de que a metafísica se ocupa da estrutura fundamental da realidade no seu todo» —, como sejam o relativismo, a epistemologia naturalizada, a crítica kantiana, a relação entre a metafísica e o conhecimento empírico, a concepção semântica de metafísica, oferecendo ainda um esboço do que seja a ontologia, das categorias ontológicas fundamentais e uma cartografia provisória das mesmas.

A metafísica é uma das disciplinas mais fascinantes e importantes da filosofia e tem sido objecto de uma incrível revitalização nas últimas três décadas, ao contrário da imagem deturpada e passadista que muitas vezes nos é veiculada na universidade portuguesa, onde há anos fui sistematicamente doutrinado com toda o género de disparates, inclusive a crença acrítica e inargumentada de que a metafísica como disciplina cessou de existir no século XIX. Outra forma de matar a metafísica é através das inanidades que sob essa rubrica (no meu tempo a cadeira chamava-se «ontologia» e normalmente nela se falava de tudo, menos de ontologia ou metafísica, excepção honrosa feita às aulas do professor J. Branquinho, que me deu a conhecer o primeiro livro de metafísica a sério que li e cuja introdução em breve publicarei na crítica em versão portuguesa) se transmitem aos estudantes, muitas vezes não passando de uma colectânea de proposições avulsas ou os aforismos preferidos de um ou outro docente, que por sua vez foi vítima da psicofoda nacional. Uma breve inspecção ao índice deste livro seria o suficiente para fazer a generalidade dos alunos de filosofia nas universidades portuguesas desesperarem da perda de tempo e do absurdo que lhes é infligido, como sucedeu comigo. Pelo que farei os possíveis para que os estudantes de filosofia hoje tenham acesso a textos de cuja existência eu não suspeitava, quando há uma década atrás decidi estudar filosofia. Para que pessoas com gosto pela filosofia e competência para pensar não se deixem cilindrar pelas idiotices da academia nacional, acabando por abandonar a disciplina.

O acesso a este texto implica a subscrição na Crítica. Uma subscrição mensal equivale ao preço de oito bicas / cimbalinos para ter acesso a uma publicação onde metade das páginas não são publicidade, mas artigos de interesse, recensões de livros e traduções de textos introdutórios, como este. Também é um incentivo a que se produza mais textos, que levam horas de trabalho e dedicação a produzir.

Pós-modernismo e fistfucking

Na sequência do post do Aires, e para todos rirmos mais um pouco, decidi repescar uma pérola que encontrei há já alguns anos, durante uma pausa para almoço na Fnac (na altura trabalhava eu como caixeiro de tintas, um emprego onde o devir-animal, ou o devir-besta, era coisa que não faltava): Organs Without Bodies: On Deleuze and Consequences. Trata-se de um excerto que nos fala de Foucault, Deleuze e fistfucking.
E, para dar um passo em frente, não será a prática de fistfucking o modelo daquilo a que Deleuze chamou «expansão de um conceito»? Dá-se um novo uso ao punho; expande-se a noção de penetração na combinação da mão com a penetração sexual, na exploração do interior de um corpo. Não admira que Foucault, o Outro de Deleuze, praticasse fisting: não será o fistfucking a invenção sexual do século XX, o primeiro modelo do erotismo e prazer pós-sexuais? Não é mais genitalizado mas foca-se apenas na penetração da superfície, com a mão, o objecto parcial por excelência, usurpando o papel do falo.
Repare-se como este pequeno excerto caracteriza na perfeição o modo de raciocínio da psicofoda pós-moderna (ou pós-qualquer coisa; o appeal vem mesmo é do ser-se pós, suponho): Imagine o leitor que é pós-moderno e quer falar mal de alguma coisa. O que faz? Simples, pergunta: «Não será o x de y realmente o z de m?» Ficou no ar a alusão, o resíduo suficiente para o leitor crédulo se autopsicofoder durante muito tempo. Quer dizer bem de alguma coisa? Simples, afirma: «o x de y é na verdade o z de m». Fantástico, não? Não precisa de argumentar, não precisa de fazer sentido, não precisa de ser coerente. Basta que tudo isto pareça muito irreverente, heterodoxo, bad-boy, «ontologicamente contingente», whatever!

A argumentação? O conteúdo? Pensamento? Ideias? Tudo isso são epifanias burguesas, coisas do passado, do tempo em que o mundo não tinha pensadores vigorosos como estes para o iluminar. Na verdade, é curioso como toda esta escrita, segundo o critério do próprio autor, é ela mesma «deleuziana»: não é verdade que esta mal descobriu um novo uso para o cérebro? Não é verdade que expandiram a noção de pensar de modo a incluir tudo menos o pensamento?

Agora um pequeno passatempo: quem consegue arranjar a melhor tradução para fistfucking? Seria embaraçoso conseguir traduzir mindfucking e não isto.

11 de agosto de 2008

George Orwell

O intelectual católico consegue, para enfrentar controvérsias, entrar numa espécie de jogo de prestidigitação, repetindo os artigos do Credo exactamente nos mesmos termos que os seus antepassados, ao mesmo tempo que se defende da acusação de superstição explicando que está a falar por parábolas.

10 de agosto de 2008

O que é uma análise?

Há duas maneiras de entender uma análise, o que pode parecer surpreendente. Deparei-me recentemente com este aspecto ao trabalhar na segunda edição do Dicionário Escolar de Filosofia.

Podemos entender uma análise de um dado conceito como uma apresentação de outros conceitos mais básicos que captem inteiramente o primeiro. O exemplo típico é algo como a análise do conceito de virgem como pessoa que nunca teve relações sexuais. Esta é a concepção fraca de análise. Na concepção forte, o que resulta da análise, para ser realmente uma boa análise, terá de ser uma frase analítica. Realmente, “Uma pessoa virgem é uma pessoa que nunca teve relações sexuais” é uma frase analítica. As tentativas de análise filosófica são tipicamente vistas como tentativas de análise no sentido forte: se fosse realmente verdade que o conhecimento é crença verdadeira justificada, essa afirmação seria analiticamente verdadeira.

Isto colide com a ideia de que não só a filosofia, mas também as ciências como a física ou a química, analisam conceitos fundamentais das suas áreas respectivas. Assim, a química analisa a noção de água em termos de H2O, mas esta não é uma análise no sentido forte do termo, dado que “A água é H2O” não é uma verdade analítica. O mesmo acontece com as análises da física (electrão, velocidade, massa, etc.).

Isto é curioso e mostra até que ponto o famoso argumento da questão em aberto de Moore resulta de uma ênfase excessiva no sentido forte de análise. No sentido forte é verdade que qualquer análise terá de “fechar a questão” (não faz sentido perguntar se uma pessoa que nunca teve relações sexuais é virgem), mas no sentido fraco uma análise pode ser bem-sucedida e não fechar a questão (faz sentido perguntar se a água é H2O ou se a massa é a medida da resistência de um corpo às mudanças de velocidade e à força sentida num campo gravítico). Assim, o teorizador que é o alvo da crítica de Moore, como Mill com a sua definição de bem (o bem é a felicidade), parece ter uma resposta pronta: “A minha análise não é uma análise no sentido forte do termo”.

Mas Moore também tem uma boa réplica. Se a sua análise não é analítica, diria Moore, é sintética. Mas se for sintética, tem de resultar da investigação empírica do mundo, que é precisamente o que acontece com as análises sintéticas da física. Mas em ética, como nas restantes áreas da filosofia, seria de esperar que as análises fossem analíticas, precisamente porque são filosóficas e os filósofos raramente levantam o traseiro da cadeira para fazer investigação empírica. Logo…

Bom, Mill teria uma boa resposta. Ele não considerava que a sua definição de bem era analítica, e ficaria espantado se alguém pensasse tal coisa. Mill apresenta o que lhe parece a concepção de bem que realmente as pessoas têm, ou que podemos inferir da nossa observação assistemática das pessoas. Mill não veria com desagrado a ideia de naturalização da ética — na verdade, ele até naturalizou a lógica!

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Ontologia contingente, cinema e sexo

Lacrimae Rerum é o título de uma compilação de ensaios do esloveno Slavoj Zizek, recentemente traduzidos para português. Não li o livro, mas li a propósito disso uma entrevista com o autor no Ípsilon — o suplemento das sextas-feiras do jornal Público — que me deixou razoavelmente esclarecido.

A conversa é, tal como o livro, sobre filmes — que Zizek classifica como objectos pensantes — e é conduzida por Luís Miguel Oliveira. Zizek começa por ser apresentado como um dos grandes pensadores do momento: filósofo, psicanalista lacaniano e cinéfilo.

Este pensador muito em voga revela-se um porreiraço que não se assusta com as palavras. Dá a impressão de poder falar de tudo com o mesmo à vontade do fadista que canta à desgarrada. Qual mágico das palavras, na boca dele qualquer termo ou expressão pode significar o que ele bem entender, sem qualquer necessidade de explicação. Por isso pode dizer que os filmes são objectos pensantes e outras coisas do género.

Que os filmes são objectos que dão que pensar ou que estimulam o pensamento é algo que qualquer pessoa sabe. Mas não é isso que Zizek diz. Ele diz que os filmes são coisas que pensam, que é mais ou menos o mesmo que dizer que as pedras sonham e que os cheiros têm cor. Perante uma afirmação tão improvável, seria de esperar que o entrevistador o interrogasse sobre isso. Mas não! Como qualquer oráculo, Zizek não precisa de explicar o que diz e ninguém lhe pede tal coisa.

No início da entrevista Zizek descreve assim o modo como encara os filmes:

«Em primeiro lugar, focamo-nos na noção lacaniana do Real, não o “real” da “realidade”, mas o Real como um ponto traumático ausente».

Entendido? Vejamos, o pensador em voga diz-nos que há dois reais, o real da realidade e o real ausente. Este é um ponto traumático que, por estar ausente, não está ali. Mas ali, onde? No filme, certamente. Portanto, quando vemos o filme focamo-nos no que não está no filme.

Ok, vamos interpretar isto caridosamente e vamos imaginar que os realizadores decidem fazer filmes porque têm alguma coisa para esconder. Bom, até é divertido, tentar descobrir no filme o ponto traumático que não está lá, apesar de ser naturalmente muito difícil de encontrar. No fundo é uma espécie de jogo das escondidas, em que o que se procura é o trauma que nos leva para um outro real.

Mas como é que isso se faz? Zizek exemplifica de forma magistral:

«Como é que esse Real se estrutura numa narrativa cinematográfica? Vou dar um exemplo: Short Cuts, de Robert Altman, um dos melhores filmes de Hollywood das últimas décadas. Como é que costuma ser lido? Como uma descrição das vidas desesperadas e alienadas da classe média suburbana. Isto é a narrativa. Mas se olhar com atenção para a textura do filme, vê outra coisa: umas sete ou oito linhas paralelas, uma espécie de ontologia contingente e aberta.»

Ah, afinal o Real ausente estrutura-se na narrativa cinematográfica. Portanto, não está ausente, está ali no filme. Talvez esteja ali disfarçado, pois só aparece quando olhamos para a textura do filme. Bom, mas a textura é o mesmo que a trama ou o enredo. Mas, nesse caso, continuamos no domínio da narrativa, mesmo que se descubram sete, oito ou uma dúzia de linhas, sejam elas paralelas ou perpendiculares. Ou será que Zizek usa a palavra «textura» num sentido peculiar?

Talvez queira dizer que num filme não conta só a história que está a ser contada, mas também a forma como é contada e aspectos como o uso da cor e o contraste, o tipo de planos, a montagem, o som, os ambientes criados, etc. Mas isso é uma banalidade e podia tê-lo dito de forma bem mais simples e directa, sem precisar de falar de texturas e de linhas paralelas.

Mas os oráculos são mesmo assim: enigmáticos, mesmo quando declaram banalidades.

A propósito, se as linhas fossem perpendiculares em vez de paralelas, a ontologia contingente passaria a ser fechada em vez de aberta? É uma questão que Zizek não esclarece na entrevista, o que pode comprometer a compreensão de tudo o resto. Ficamos, contudo, a saber uma coisa: quando nos dizem que Short Cuts de Robert Altman descreve as vidas desesperadas e alienadas da classe média suburbana, não ficamos a saber grande coisa acerca do filme de Altman, ao contrário do que acontece quando nos explicam que o filme revela uma espécie de ontologia contingente e aberta.

Isto é que tem interesse, pois não deve ser assim tão fácil observar espécies de ontologias contingentes e abertas. Só quem não souber o que é uma espécie de ontologia contingente e aberta é que não vai reconhecer isto, o que duvido que aconteça com o leitor destas linhas.

Claro que há outros tipos de ontologias interessantes, como as ontologias precisas, como nos revela Zizek a propósito de Hitchcock:

«Há toda uma teologia negativa em Hitchcock: Deus é mau, estúpido, ignorante. É uma ontologia precisa, que é também o que me interessa em David Lynch. O princípio de Veludo Azul: a câmara mergulha na relva e vemos a textura nojenta da superfície da realidade... agora vou parecer um velho estalinista... o que me interessa, como problema filosófico, é a estreita linha entre materialismo e idealismo. Materialismo não no sentido vulgar, mas como aceitação da contingência do mundo, emergindo daí o sentido, como em Altman.»

Mais uma vez, Zizek utiliza o vocabulário filosófico de forma criativa. Verificamos que, para ele, uma teologia negativa é uma concepção de Deus em que Deus é o diabo. Bom, é ainda pior do que o diabo, pois é suposto este ser mau, mas não propriamente estúpido e ignorante.

Verificamos também que uma ontologia precisa é o mesmo que uma teologia negativa. E um exemplo de uma ontologia precisa é uma câmara a mergulhar na relva e a mostrar a textura nojenta da realidade, como nos mostra Veludo Azul, de David Lynch. Note-se que aqui a textura já nada tem que ver com linhas paralelas; agora trata-se de algo visual.

Seja o que for, é isso que interessa a Zizek nos filmes de Lynch. E se interessa a Zizek, deve ser simplesmente interessante, pelo que deve interessar ao mundo inteiro. Caso contrário não precisava de o referir, tal como não refere se se interessa por filatelia ou se prefere antes a numismática. Tudo o que interessa ao oráculo tem interesse cósmico, como é óbvio.

E também é óbvio que a textura nojenta da realidade ilustra perfeitamente o problema filosófico que, mais uma vez, interessa Zizek, a saber, a linha estreita entre materialismo e idealismo. Mas como Zizek detesta utilizar as palavras no seu sentido filosófico vulgar, o materialismo de que fala não é outra coisa senão a aceitação da contingência do mundo. Isto torna evidente a necessidade de um bom dicionário filosófico zizekiano, caso contrário não seremos capazes de usufruir completamente dos filmes de Altman.

Aliás, esta aversão de Zizek ao sentido comum do vocabulário filosófico não é gratuita. Zizek detesta também escrever sobre o que os outros escrevem. Isso parece diminuí-lo como pensador e como artista das ideias. Ele quer falar do que lhe interessa e não do que interessa aos outros. Envergonha-se mesmo de escrever sobre o que interessa a muita gente, como confessa:

«Toda a gente fala de Hitchcock, já quase tenho vergonha de escrever sobre ele...»

E não se pense que é por snobeira. Ele não vai à bola com os snobes, que também não compreendem nada:

«Alguns artistas contemporâneos um bocado snobs dizem: “Está bem, Hitchcock é isto tudo e tal e tal, mas se era assim tão bom porque é que não fez directamente objectos de arte? Porque é que se camuflou por baixo de simples histórias de crime?” A minha ideia é que o tipo de tensão dos filmes de Hitchcock só funciona se ficar ao fundo da superfície. Se ele dissesse “vou-me livrar da história dos detectives e fazer arte”, perdia-se tudo.»

É curioso que, para Zizek, os snobes que se referem assim aos filmes de Hitchcock são artistas e não críticos de cinema. Não admira que não percebam grande coisa, pois são macacos em galho alheio.

O que, contudo, deixa uma mente linear como a minha intrigada é Zizek dizer que afinal sem a narrativa se perde também o Real ausente. Mas se ele é ausente, como pode perder-se? Ok, talvez Zizek queira dizer que, sem as histórias de detectives, Hitchcock não teria feito os filmes que fez. E se não tivesse filmado histórias de detectives, não poderíamos saber como os filmou, montou, como usou a cor, os sons, etc. Nisso concordo sem reservas com Zizek: se Hitchcock se tivesse livrado de fazer filmes, Hitchcock não teria feito filmes. Zizek é genial!

Quem não gostaria de ser amigo de alguém tão genial como Zizek?

Na verdade, até parece não ser assim tão difícil. Basta dizer, como o entrevistador, que Lubitsch é um grande realizador e que os seus filmes ilustram tudo aquilo que Zizek diz, para se abrirem as portas do mundo pessoal de Zizek:

«Ah, agora tenho a certeza que podemos ser amigos [ri-se e estende a mão]. Lubitsch é sagrado.»

Isto parece confirmar que nada pode unir mais as pessoas do que a crença nos mesmos deuses. Sobretudo se essas pessoas estiverem prontas a adorá-los sem reservas. Quem disse que em filosofia nada é sagrado e que tudo merece ser criticamente avaliado? Disparate! Talvez haja muitos filósofos a dizer tal coisa, mas os filósofos não percebem grande coisa de filosofia.

Olhem mas é para os filmes, que está lá a filosofia toda. Olhem, por exemplo, para os filmes mexicanos de Buñuel:

«Mas conheço mal os filmes mexicanos. Mas Lacan dizia que eram os filmes definitivos sobre o ciúme.»

E Zizek termina esclarecendo tudo isto de forma definitiva:

«Oh meu Deus, tenho que ver esse filme. No fundo nada me interessa mais do que o sexo.»

Pelos vistos, Zizek está sempre a interessar-se por muitas coisas. Mas serão essas coisas filosófica ou intrinsecamente interessantes?

Bah, qual a relevância disso? O que é relevante é que Zizek se interesse por elas.
Seja como for, a última afirmação do pensador oferece-nos a chave para a compreensão do pensamento filosófico zizekiano.

Vejamos.

Disse no início da entrevista que o que mais o interessa como problema filosófico é a estreita linha entre o materialismo e o idealismo. E agora termina declarando que no fundo nada mais o interessa do que o sexo. Portanto, o problema da linha entre o materialismo e o idealismo é um problema sexual.

E depois há quem pense que os Gato Fedorento são criadores geniais de humor. São o tanas! Eles passam é o tempo todo a copiar. O que vale é que os Zizekes são uns tipos porreiros e descontraídos, caso contrário os gatos ainda apanhavam com um processo em cima.

9 de agosto de 2008

Wishful thinking

Estamos a trabalhar no Dicionário Escolar de Filosofia, segunda edição, e uma vez mais procuramos uma boa expressão portuguesa que capte "wishful thinking". Até agora, a melhor candidata é "falácia da esperança".

A forma lógica desta falácia é a seguinte: "Era bom que fosse verdade que P; logo, é verdade que P".

A maravilha da expressão inglesa é que é popularmente usada nos países de língua inglesa e ao mesmo tempo é um termo técnico de lógica informal. É significativo que na mentalidade portuguesa, que prima pela falácia da esperança -- uma espécie de pensamento mágico -- não se use comummente uma expressão para esse mesmo hábito mental deletério.

Todas as sugestões são bem-vindas!

Mestres e discípulos

Costuma-se afirmar que Sócrates foi mestre de Platão, e Platão mestre de Aristóteles. Há uma acepção, contudo, em que tal afirmação é falsa, e por isso enganadora. A relação paradigmática entre mestre e discípulo é iniciática; o mestre é o pretenso detentor de um acesso privilegiado à verdade, recusa-se a ensinar explicitamente o discípulo, obrigando-o a segui-lo como um cachorrinho, tentando absorver um ensinamento pretensamente indizível e feito de gestos e máximas, poucas explicações e nenhuns argumentos.

Não era esta a relação que Sócrates mantinha com Platão e Platão com Aristóteles, pela simples razão de que eram todos filósofos e como filósofos passavam a vida a pôr em causa as ideias uns dos outros — o que é incompatível com a reverência que os mestres exigem dos discípulos. Basta ler algumas obras de Platão ou Aristóteles para verificar que estes homens não tinham o tipo de atitude reverencial necessária para serem mestres ou discípulos, pois passam a vida a argumentar. A discussão livre de ideias praticada por filósofos como Platão e Aristóteles é um ácido que destrói o ambiente acéfalo apropriado à encenação da relação entre mestre e discípulo. Por isso é menos enganador dizer que Sócrates foi professor de Platão e Platão professor de Aristóteles.

8 de agosto de 2008

É importante divulgar

No meu post anterior falei de um livro de divulgação da filosofia a um público mais amplo. Esse público é aquele que compra livros, gosta de aprender mas que pura e simplesmente não tem formação específica em filosofia. Isso acontece comigo em relação à física ou biologia. Quando pretendo aprender um pouco mais de biologia dificilmente comprarei um livro que resulta de um estudo sofisticado de um biólogo. E por que razão não o compro? Pela razão que não o entendo, não domino o léxico específico da biologia. Faltam-me as bases para compreender o mais específico. Com a filosofia esta realidade é a mesma coisa. Alguém que não domina a filosofia pela base terá poucas possibilidades de compreender um problema mais específico desenvolvido em 400 páginas. Mas isso não significa que a filosofia não interessa às pessoas. Interessa tanto como a matemática ou a física. A filosofia, tal como os outros saberes possui níveis de aplicação nas nossas vidas mais intuitivos e imediatos e outros mais sofisticados. Qualquer pessoa saudável está minimamente habilitada a questionar-se sobre a moralidade do aborto, por exemplo. Mas é mais raro encontrar pessoas com a formação mínima para discutir problemas de metafísica avançada. Os livros de divulgação oferecem a essas pessoas:

1) Ferramentas para discutirem os problemas;
2) A possibilidade de despertarem interesse para estudos futuros mais avançados, principalmente aos jovens.

Este argumento sobre os livros de divulgação tem como pressuposto que a filosofia é ensinável a níveis mais básicos. Claro que uma posição elitista exige a crença de que o comum das pessoas não está habilitada para aprender filosofia. Acontece que não temos qualquer prova deste argumento, mas temos muitas provas do contrário. Cada vez é menos raro ver cientistas que afirmam ter despertado para a ciência com os livros de Carl Sagan ou de outros bons divulgadores de ciência. Creio que está na altura de experimentarmos algo semelhante para a filosofia. Pelo menos vale a pena tentar.

Nota: O Desidério Murcho explora esta questão na Crítica. Ver aqui.

Divulgação


Os livros de divulgação são importantes uma vez que é com eles que o público mais jovem contacta pela primeira vez com as diversas áreas do conhecimento. O livro, Que diria Sócrates, Gradiva, 2008, colecção Filosofia Aberta, é o resultado da síntese que Alexander George fez do site do qual é o principal criador, o Askphilosophers. Desde médicos a gente com as mais variadas profissões e afazeres, colocam questões que os filósofos procuram responder. Este tipo de obras lança também alguma discussão sobre a necessidade da divulgação da filosofia e do melhor modo de o fazer. Uma leitura recomendável!

7 de agosto de 2008

Heidegger, José Mourinho e o Todo (Gato Fedorento)

«HEIDEGGER e o 4-4-2: Foi, ontem, apresentado o livro “Liderança – As Lições de José Mourinho” de Luís Lourenço, baseado na sua tese de mestrado. Segundo o autor, José Mourinho "é diferente por partir de um novo paradigma de pensamento, preconizado por Heidegger ou Morin, por exemplo, e o operacionalizar. Trata-se de um novo olhar para o Todo, que põe de parte a divisão e análise das partes e o pensamento cartesiano de há quatro séculos". Cada vez que leio isto (e faço-o várias vezes ao dia, na esperança de o vir a compreender), gosto de imaginar a seguinte conversa entre dois adeptos, à saída de Stanford Bridge:

- Eh pá, o Chelsea não merecia ter empatado este jogo.
- Pois não. Mas a primeira parte foi tão má que parecia que o Mourinho não tinha lido “O Ser e o Tempo”.
- Quantas vezes é que o Heidegger avisou que o 4-4-2 só resulta se o trinco compensar a subida dos laterais?
- Exacto. Meu amigo, se é para ver a nossa equipa voltar ao pensamento cartesiano, não contes mais comigo para vir ao estádio.
- Calma. Também tens que perceber que estava nevoeiro. Se calhar, por isso é que, durante a primeira parte, o Mourinho não conseguiu ver o Todo.»

Miguel Góis: Gato Fedorento

Ferramentas para exercícios de lógica

Ao fazer uma pesquisa no site do Desidério Murcho, encontrei algum software que pode interessar quem quer dar uns passos de lógica. Engracei-me principalmente com o Tree proof generator, um programa que permite testar a validade de argumentos formais. Um óptimo auxiliar para professores prepararem exercícios para as aulas. O Tableau III é um pouco mais elaborado e permite não só conhecer as regras de diferentes níveis de aplicação da lógica bem como construir árvores semânticas. O Tableau III é disponibilizado pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Oxford. No site encontrará tutoriais e instruções de uso muito completas. Duas ferramentas a explorar.

Ligações: Tree Proof Generator
Tableau III

Ensinar filosofia: Portugal e Brasil

A propósito do alargamento no Brasil, a todos os estados, do ensino obrigatório da filosofia para estudantes pré-universitários, muitos colegas me têm perguntado como são as coisas em Portugal, já que lá este ensino obrigatório existe desde há séculos. Agora, a propósito do post do Miguel, o leitor Alex pergunta por que razão em Portugal os cursos de filosofia são todos licenciaturas e não bacharelados, como no Brasil.

A razão é esta: chama-se em Portugal “licenciatura” ao que no Brasil se chama “bacharelado” e não temos nome para o que no Brasil se chama “licenciatura”. No Brasil uma licenciatura é um bacharelado numa dada área, com ênfase no ensino dessa área, para capacitar o aluno para dar aulas. Em Portugal há apenas o que chamamos “licenciaturas” mas no Brasil se chama “bacharelado” e depois em algumas delas há “vias de ensino” ou “vias científicas”, que correspondem à diferença que se faz no Brasil entre a licenciatura e o bacharelado. Noutros casos, e isso é mais comum em filosofia, só há mesmo a licenciatura, igual para toda a gente; mas depois quem quiser dar aulas no ensino secundário (que no Brasil se chama “ensino médio”) terá de fazer uma pós-graduação em ensino da filosofia. Na verdade, e sei que isto é espantoso para os colegas brasileiros, a esmagadora maioria dos professores de filosofia do ensino secundário português são licenciados em filosofia (as excepções serão muito poucas), quase todos têm uma pós-graduação em ensino, muitos têm mestrados em filosofia ou ensino e alguns têm doutoramentos. A situação é, pois, bem diferente do que acontece no Brasil, no qual me dizem que a maior parte dos professores de filosofia do ensino médio não têm qualquer formação académica em filosofia.

Em Portugal, a filosofia é uma disciplina obrigatória no 10.º e 11.º ano, quando os estudantes têm entre 15 e 16 anos. O 12.º ano é o último ano antes da universidade.

Espero que esta nota seja esclarecedora.

Tradução de «supervenience»

Tenho vindo a alimentar uma discussão a propósito da tradução do termo «supervenience», para a qual contribuí com um texto algo mordaz e intencionalmente cómico, publicado na Crítica — Sobreveniência, superveniência e o quarto português. Humorismos à parte, gostaria agora de resumir alguns detalhes desta discussão, uma vez que influirá na tradução do dicionário Mautner.

Razões por que prefiro o termo «sobreveniência»:

a) em inglês, «supervene» é usado em diversos contextos afilosóficos, além de em contexto filosófico. O termo inglês mantém a continuidade com o uso corrente e isto quanto a mim é uma vantagem.

a.1) a forma verbal em português, equivalente a «supervene», caso mantivéssemos «superveniência», seria «supervém» (x supervém a y). O que parece um pouco tolo.

a.2) «x sobrevém a y» é a opção mais natural, elegante, económica, indolor.

b) elimina-se uma série de confusões comuns como «x é superveniente sobre y», como vejo escrever-se bastantes vezes. Há uma ideia falsa de que «x sobrevém a y» carece de algo que «x é superveniente em y» comunicaria. No fundo desta sensação está uma psicofoda da língua: a pessoa que diz «superveniente sobre» tem a sensação de estar a dizer algo muito inteligente e depois recusa abdicar deste uso. Mas isto aproxima-nos das patetadas heideggerianas de tentar traçar uma fronteira epistémica arbitrária ridícula entre o zé mediano e o superfilósofo, à custa de torcionismos verbais. Pensando outra vez, com cuidado, vemos que «x sobrevém a y» diz tudo o que é preciso dizer e não nos obriga a construir frases na passiva para evitar o «supervém».

c) Uma objecção que me apresentaram tem a ver com a noção de co-variação: a dada altura usou-se a palavra «superveniência» para captar uma relação assimétrica entre propriedades. O mental depende do físico mas o contrário não sucede. Contudo, objectaram-me haver casos em que «superveniência» apenas capta uma co-variação de propriedades. A minha resposta é que nestes supostos casos, o melhor será usar, se necessário, o termo «co-variação». Isto nada nos diz sobre a adequação ou inadequação de «sobreveniência» relativamente a «superveniência».

d) Outra objecção que me apresentaram foi a de o termo «sobreveniência» implicar uma «relação de estar por cima», o que em termos ontológicos destaca a tal assimetria de que falei na alínea anterior. A minha resposta a isto é que se isso fosse um problema para «sobreveniência», então seria um problema para «superveniência», pois «sobre» e «super» são dois espécimes da mesma palavra. Por outro lado, na frase «x sobrevive a y» não se supõe que x está «em cima de» y. Aqui podemos dizer que há metáfora morta, mas que se aplica tanto a «sobrevir» como a «supervir». Os latinos diziam «super mensa» para «em cima da mesa».

e) Pelo modo como construímos uma imensidade de palavras: sobreviver, sobrepujar, sobrecarregar, sobrelotar, sobrenfatizar, sobrestimar...

f) Como não traduzirmos «causation» por «causação», pois isso levaria as pessoas à ideia tola de que «causação» é «filosófico» e que «causalidade» é um termo diferente, ao qual «falta» supostamente qualquer coisa para captar o mesmo que «causação». Ao escrever «superveniência» estamos a criar a mesma situação entre «sobrevém a» e «é superveniente em».

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