30 de setembro de 2008

Falácia da redefinição e menoridade


Eis uma falácia interessante que ocorre em muitos contextos de discussão. Alguém faz uma afirmação qualquer. Outra pessoa apresenta contra-exemplos inegáveis. O proponente original então redefine um termo qualquer crucial da afirmação, tornando-o tão lato que consegue efectivamente neutralizar os contra-exemplos. Isto é uma falácia porque dá a ilusão de se tratar de uma boa resposta ao contra-exemplo, quando na verdade é apenas uma confissão de que o sentido original da afirmação era realmente falso; apenas mudando o sentido dos termos se dá a ilusão de que a proposição afinal resiste a contra-exemplos. Mas o novo sentido lato dado ao termo crucial torna a afirmação verdadeira, mas desinteressante. 

Escrevi um pouco sobre esta falácia no apêndice do livro A Arte de Argumentar, no qual dei um exemplo bem conhecido: a de que a filosofia consiste na sua história.

Recentemente, na lista Lógica-L deparei-me de novo com esta falácia. Um colega começou por dizer que todos os filósofos se ocupam principalmente da salvação. Uma afirmação interessante, e nada trivial. Mas parece haver contra-exemplos históricos, até porque o conceito de salvação é cristão e consequentemente os filósofos anteriores ao cristianismo não terão a rigor qualquer conceito de salvação. Mas então redefine-se o conceito de salvação para significar “qualquer reflexão sobre o sentido da vida”. Esta é a primeira redefinição falaciosa porque só num sentido muito lato se pode dizer que qualquer reflexão sobre o sentido da vida é sobre a salvação.

Mesmo com esta redefinição enfrenta-se contra-exemplos óbvios de filósofos famosos que quase nada escreveram sobre o sentido da vida. Volta-se então a redefinir a afirmação original e agora diz-se não que todos os filósofos se ocupam primariamente do sentido da vida, mas antes que todos os filósofos se ocupam do sentido da vida, ainda que secundariamente. Mas a preocupação primária, acrescenta-se, é realmente o sentido da vida — só que isso não é explícito. Esta é uma afirmação arbitrária porque ninguém pode saber qual era a preocupação primária de Aristóteles ou Descartes, se eles não a tornaram explícita.

Assim, a afirmação original foi distorcida e tornou-se em qualquer coisa como isto:
Todos os filósofos escreveram seja o que for ainda que pouco e vagamente sobre algo que podemos também vagamente e sem qualquer precisão considerar uma preocupação com a salvação em sentido amplo, ou seja, com a vida, com a felicidade, com a vivência e o destino da vida humana na Terra.
Acontece que mesmo esta proposição precisa de mais algumas redefinições falaciosas, pois mesmo neste sentido imensamente lato filósofos como Kuhn parecem constituir um contra-exemplo histórico. É sem dúvida possível continuar a redefinir os termos da afirmação original, tornando-a cada vez mais irrefutável à custa de a tornar cada vez mais desinteressante.

Este tipo de falácia é interessante por pelo menos uma razão. O que pode levar alguém a não se permitir argumentar directamente a favor de uma dada ideia, tendo de se refugiar em teses históricas problemáticas? Uma pessoa pode perfeitamente defender o seguinte:
O único problema genuíno ou o problema central da filosofia é o problema da salvação.
A pessoa pode defender isto e reconhecer que muitos filósofos aparentemente não pensam isto. Qual é o problema? Imagine-se a tolice que seria um pintor ter de provar que a sua abordagem à pintura, se vermos bem, já estava presente e já era legítima desde o início das artes e todos os artistas concordavam com ela. Ou a tolice que seria Einstein defender as suas ideias dizendo que, se lermos bem Newton e Ptolomeu, vemos que já eles defendiam ideias como as suas. Ou a tolice que seria Kant dizer que se virmos bem, tanto Descartes como Hume já defendiam precisamente as suas ideias.

O que leva alguém a procurar substituir uma tese filosófica interessante por uma tese histórica falaciosamente redefinida para se tornar irrefutável historicamente (e como tal vácua e desinteressante) é uma formação mental baseada na autoridade e não na argumentação. A pessoa sente-se incapaz de defender uma ideia a menos que muitos homens famosos mortos a tenham defendido; então, se todas as evidências mostram que eles não a defenderam, finge-se que sim, que a defenderam. E disfarça-se assim uma tese filosófica interessante, e susceptível de ser discutida, numa vagueza histórica desinteressante porque vácua.

Não poderemos fazer filosofia enquanto não nos libertarmos deste atavismo autoritário que impede as pessoas de filosofar por si, defender ideias próprias, mesmo que seja contra muitos homens ilustres mortos. Ouse-se filosofar.

28 de setembro de 2008

Metafísica e vida

Muitas das vezes somos levados a pensar que a metafísica é uma área da filosofia tão sofisticada que não possui qualquer relação com a vida. Mas essa crença é falsa, apesar de se compreender a falsidade em que tentadoramente caímos. Os estudos em metafísica são realmente complexos e sofisticados, mas são também os pilares de todo o conhecimento. Estou a lembrar-me de um problema em particular, da ética aplicada, o do aborto. E também o da eutanásia. É impossível uma discussão racionalmente preenchida sobre o aborto se não tivermos em consideração pelo menos algumas noções metafísicas. Uma delas prende-se com o problema da identidade que pode mostrar que algumas premissas de argumentos podem ser falsas ou, pelo menos, muito discutíveis. Para além de tudo é na metafísica que se faz o esforço máximo de conceptualização, de forma que esta é uma área nuclear. Com efeito, sendo a metafísica uma área complexa, não é de todo inacessível, até ao leitor mais comum. A melhor referência que conheço como introdução à metafísica não está, infelizmente, traduzida para português, que é a de Earl Conee & Theodore Sider, Riddles of Existence, a guided tour to metaphysics. Da minha parte consigo fazer divulgação das obras e argumentos mais comuns segundo as mais modernas técnicas de investigação em filosofia, mas é bem verdade que me falta muitas vezes o talento e conhecimento para escrever com rigor alguns textos curtos que ilustrem os problemas. Felizmente há quem o faça entre nós. Deixo aqui linkados dois textos que acho do mais excelente que li como minúscula introdução ao problema metafísico da identidade, um de Desidério Murcho publicado no De Rerum Natura e outro de Pedro Galvão, publicado no recente Da Pluralidade dos Mundos. Estes dois textos não deixam ainda o leitor discutir activamente o problema, mas pelo menos servem para mostrar por que razão o problema metafísico da identidade está intimamente ligado ao problema moral da eutanásia e aborto. Após a leitura destes textos alguém ainda se atreve a afirmar que a metafísica nada tem a ver com a vida?
Nota: a Crítica tem uma secção toda dedicada à metafísica com inúmeros textos inéditos. Um tesouro a descobrir.

Aristóteles na SEP

A SEP acaba de publicar um novo artigo sobre Aristóteles, da autoria de Christopher Shields.

26 de setembro de 2008

Weber Lima: O Joven Stálin, de Simon Sebag Montefiore

Muito do que se pensou e ainda se pensa sobre Ióssif Stálin deve-se aos escritos de Trotsky — um rival do ex-ditador soviético desde que se conheceram pela primeira vez. Mas Trotsky era presunçoso, arrogante e não menos vaidoso do que Stálin e por isso descreveu seu opositor de maneira superficial a fim de desvalorizá-lo. Mais...

O milagre da limitação física dos milagres

Um dado curioso sobre milagres:

Se um milagre é uma interrupção da ordem natural das coisas por via de uma intervenção sobrenatural, seria contraditório imaginar um limite físico a essa intervenção sobrenatural. E no entanto, que eu saiba, todos os crentes em milagres parecem aceitar esta restrição física às intervenções sobrenaturais.

Embora haja todo o género de relatos de acontecimentos extraordinários e suspensão das leis naturais ou reversão de acontecimentos irreversíveis: desde milagres «cósmicos» até regeneração do nervo óptico interrompido, de danos na retina ou no cérebro, no músculo e no osso, etc. Nunca vemos, por exemplo, amputados numa sessão de milagres, em qualquer tradição religiosa que seja, movidos pela esperança de que lhes cresça de novo o membro decepado.

Mas isto parece contradizer a ideia da intervenção sobrenatural: como pode haver limites físicos à suspensão sobrenatural das leis da física? Como é que a mesma força sobrenatural que opera milagres cósmicos e geológicos, que regenera tecidos com danos irreversíveis no interior do corpo ou na superfície da pele, ser limitado ou frustrado por um determinado tipo de enfermidade ou acontecimento físico?

A isto acresce o facto agravante de que alguns animais, como as lagartixas, fazem isto — regeneração de membros — apenas através das leis físicas que regem o mundo natural.

Não será esta ausência de milagres com amputados uma admissão tácita por parte dos crentes de que a crença nos milagres depende de se manter certas condições psicológicas? Por exemplo: ninguém está a ver o nervo óptico, a retina ou o cérebro do ser humano que espera o milagre da regeneração da visão, pelo que os pensamentos acerca da impossibilidade física do milagre são psicologicamente afastados. Um pouco da mesma maneira como deixamos de pensar quando o mesmo par de questões acerca da origem do universo se coloca acerca da origem da realidade em bloco.

25 de setembro de 2008

Kurt Baier

As explicações teleológicas não são, seja em que sentido for, acientíficas. São correctamente rejeitadas nas ciências da natureza mas não, contudo, por serem acientíficas, mas porque nenhumas inteligências ou propósitos se encontram envolvidos nesses domínios. Por outro lado, as explicações teleológicas têm pleno lugar na psicologia, pois encontramos inteligência e propósito envolvidos em grande parte do comportamento humano. Não só não é acientífico dar explicações teleológicas de comportamento humano deliberado, como seria perfeitamente acientífico excluí-las.

24 de setembro de 2008

Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP


O Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP parte de uma iniciativa dos alunos da graduação do curso de Filosofia e conta com o apoio do Instituto de Filosofia e Artes (IFAC), do Departamento de Filosofia (DEFIL) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O encontro ocorrerá entre os dias 10 e 14 de novembro de 2008 no IFAC, localizado na Rua Coronel Alves 55 Centro, Ouro Preto, Minas Gerais. O encontro visa a reunir graduandos, graduados e pós-graduandos e estimular o debate filosófico, além de divulgar as linhas de pesquisas em filosofia desenvolvidas no país e promover a interação entre as universidades. O evento consistirá em palestras ministradas por professores convidados, mini-cursos, debates sobre temas filosóficos e apresentações de comunicações em mesas redondas temáticas. Convidamos toda a comunidade acadêmica a enviar resumos de comunicações para apresentação em mesa redonda até o dia 10 de outubro. Daremos preferência, na seleção de resumos, àqueles que apresentarem resultados de pesquisa e textos críticos cujos temas demonstrem contribuições para a área do conhecimento em que se insere. Mais informações...

Thomas Cathcart, Daniel Klein

Fenomenologia
Einfühlung é a palavra alemã que significa entendimento ou empatia e foi usada por fenomenólogos como Edmund Husserl para explicar uma forma de conhecimento que procura entrar na experiência de outro ser humano e conhecer e sentir o mundo da mesma forma que esse ser humano.

- Doutora Janet – diz a mulher, muito embaraçada. – Tenho um problema de natureza sexual. Não fico excitada com o meu marido.
- Muito bem – diz a doutora Janet – amanhã vou fazer um exame completo. Traga o seu marido.
No dia seguinte, a mulher regressa com o marido.
- Dispa-se, senhor Thomas – diz a médica. – Agora, dê uma volta. Muito bem, agora faça o favor de se deitar: Uh-uh, estou a compreender. Pode vestir-se novamente.
A doutora Janet levou a mulher para um canto.
- A sua saúde é perfeita – diz. Ele também não me excita.

Omnisciência impotente

Não sei se esta história consegue mostrar a inconsistência que imagino que ela mostra. É mais um desafio aos leitores para caçarem o erro. Cá vai:

Imagine-se que deus encarna num vendedor de jornais e que está sentado pachorrentamente num quiosque, frente à casa do leitor. Esse vendedor de jornais será, em princípio, omnisciente e omnipotente, embora seja apenas um vendedor de jornais. Não se encontrando hoje com disposição para feitos de proporções cósmicas, apetece-lhe apenas ficar sentado no quiosque, divertindo-se a fazer previsões acerca de que jornais as pessoas vão comprar.

Supondo que tudo o que acontece no mundo é determinado pelos estados anteriores do mundo mais as leis da física, isto é, que o determinismo é verdadeiro, o nosso deus vendedor de jornais saberá exactamente que escolhas farão os seus clientes, pois sendo omnisciente, pode calcular todas as variáveis com uma precisão e velocidade inacessíveis ao melhor computador existente e mesmo a qualquer computador possível. Decide divertir-se a contar a cada pessoa que jornal esta irá comprar (suponhamos que ninguém na rua lhe tinha comprado jornais antes). Imagine-se agora que um dos clientes é um espírito de contradição incorrigível, e que tem a mania de contrariar todas as sugestões que lhe fazem. O nosso deus vendedor de jornais sabe perfeitamente disto e tem em conta esta variável quando faz o seu cálculo. Sabe que ao dizer ao homem que escolherá o Público o outro, só para o contrariar, vai pedir-lhe o JN. Pelo que o nosso deus vendedor de jornais diz o seguinte ao homem: «Olá, bom dia! Hoje o senhor vai querer o JN

Imediatamente, o homem fica contrariado e pega num exemplar da MaxMen.

O nosso vendedor de jornais omnisciente fica atordoado — Ora bolas! Mas este gajo atreve-se a contrariar a minha previsão? Aqui estou eu, um ser omnisciente num universo determinista... mas que treta! Parece que a partir do momento em que intervenho no mundo deixo de conseguir prever em absoluto o que pode acontecer. Se meto as mãos no mundo perco a omnisciência.

Então o deus vendedor de jornais decide servir-se da sua omnipotência para obrigar o próximo cliente a comprar o jornal de acordo com a previsão — vai impor o fatalismo, suspendendo as leis que regem o mundo físico. Fica assim satisfeito porque a sua previsão se cumpriu sem falhas. Mas então ocorre-lhe o seguinte:

— Ora bolas! Continuo a perder a minha omnisciência! Embora tenha obrigado este gajo a seguir a previsão que fiz, com base no meu conhecimento das leis que regem este mundo, impedindo-o de me surpreender, reagindo à nova variável introduzida pela minha intervenção, continuo sem saber o que raios poderia ele fazer se eu interviesse e lhe dissesse que ele ia comprar a Visão. Não tenho como saber se ele não pegaria na Playboy para me chatear. Parece que ou preservo a minha omnisciência, abstendo-me de intervir no mundo, abdicando assim da minha omnipotência, ou preservo a omnipotência, abstendo-me de exercer a omnisciência. Mas que seca!

Esta minha pequena história baseia-se numa nota que o Miguel Amen escreveu no blogue dele, sobre a distinção entre fatalismo e determinismo. Limitei-me a criar outro ambiente ficcional e a aplicar o raciocínio à filosofia da religião, para ver se isto não capta uma inconsistência na atribuição simultânea das propriedades da omnisciência e da omnipotência ao mesmo ser, além de distinguir o determinismo do fatalismo.

Quanto a esta distinção, vemos que ao exercer a sua omnipotência, o deus vendedor de jornais suspende as leis que regem o mundo físico e a acção de comprar o jornal de acordo com a previsão deixa de ser um acontecimento meramente determinado para ser predeterminado. Ora, quando o cliente anterior comprou a MaxMen, a sua acção não deixou de ser determinada pelas leis que regem o mundo determinista onde estão o cliente e o nosso deus vendedor de jornais. Simplesmente o último não foi capaz de prever a acção determinada do outro por ter intervido no mundo, ao dizer-lhe qual seria a sua escolha. De nada lhe serviu saber que o indivíduo tinha uma predisposição para contrariar as sugestões recebidas.

Ou o vendedor de jornais divino sabe o futuro porque o mundo é determinista e sendo omnisciente ele tem todas as variáveis que há para saber, ou sabe-o porque impõe o fatalismo, suspendendo as leis que regem o mundo, mas continua sem saber o que aconteceria caso se abstesse de intervir.

Suspeito que a possibilidade de mostrar que esta minha história não funciona como indício de inconsistência entre essas duas propriedades estará no modo como concebemos que um ser omnisciente e omnipotente é também eterno. Mas para ser franco, ainda não reflecti o suficiente nesta questão. Contudo, à partida não me parece que colocar o vendedor de jornais fora do tempo fosse resolver o dilema de o forçar a escolher entre a omnisciência ou a omnipotência.

Kurt Baier

As explicações científicas são reais e completas, tal como as explicações da vida quotidiana e das religiões tradicionais. Diferem destas últimas unicamente por serem mais precisas e mais facilmente refutadas pela observação dos factos.

A origem da realidade

A minha crónica de ontem do Público, "A Origem da Realidade" revelou-se surpreendentemente polémica. A minha crónica não pretende demonstrar que não existe deus, ao contrário do que muitos comentadores ficaram a pensar. É perfeitamente compatível aceitar as ideias da minha crónica e defender a existência de deus. Apenas pretendo mostrar que um argumento em particular a favor da existência de deus não funciona.

Filosofia antiga, de Anthony Kenny

Este é o primeiro volume, dedicado à filosofia antiga, da nova história da filosofia da Oxford em quatro volumes, agora publicada pela Loyola no Brasil, e que será em breve publicada pela Gradiva, em Portugal. A Loyola anuncia para breve o segundo volume; os restantes dois ainda não estão publicados. O livro é excelente, inovador, maximamente informativo e de leitura agradável. Sendo escrito por um único historiador e filósofo, oferece uma unidade que outras histórias da filosofia não têm. E tem a dimensão adequada para ser simultaneamente pormenorizado e geral, de modo a atingir dois tipos de públicos: os estudantes e o grande público. Sem notas eruditas infinitas, que afastam o leitor comum, mas com todas as referências históricas necessárias, é uma leitura, imagine-se, empolgante. Isso deve-se ao domínio que o autor tem das ideias filosóficas, que as torna vivas, revelando de forma magistral a sua importância e dramatismo. Ler mais...

Um guia de epistemologia

Está já nas livrarias o Compêndio de Epistemologia, org. por Ernest Sosa e John Greco — um dos mais importantes lançamentos do ano. Trata-se da tradução do original Blackwell Guide to Epistemology, que reúne um conjunto de dezassete artigos escritos por filósofos contemporâneos sobre vários aspectos da epistemologia. Dividida em quatro partes, a que se segue uma útil bibliografia da epistemologia por tópicos, esta antologia é antecedida por uma introdução de John Greco que procura explicar o que é a epistemologia (não é filosofia da ciência, como por vezes erradamente se pensa, mas sim teoria do conhecimento).

A primeira parte é dedicada a quatro problemas tradicionais da epistemologia: cepticismo (Michael Williams), realismo, objectividade e cepticismo (Paul K. Moser), a definição de conhecimento (Linda Zagzebski), e o contraste entre fundacionismo e coerencismo (Laurence BonJour).

A segunda parte é dedicada ao conceito de avaliação epistémica: Ernest Sosa escreve sobre o debate entre o internalismo e o externalismo, e suas relações com o cepticismo; Hilary Kornblith defende entusiasmado a epistemologia naturalizada, e Richard Fieldman deita-lhe água fria no entusiasmo; Keith DeRose defende o contextualismo, e Keith Lehrer escreve sobre a racionalidade.

A terceira parte é dedicada a diferentes tipos de conhecimento: conhecimento perceptivo (William Alston), a priori (George Bealer), moral (Robert Audí) e religioso (Nicholas Wolterstorff).

A quarta parte é dedicada à epistemologia feminista (Helen E. Longino) e social (Frederick Schmitt), ao interface entre a filosofia e a Inteligência Artificial (John L. Pollock), e à hermenêutica (Merold Westphal).

Esta é uma obra que ajuda a preparar bons cursos de epistemologia na universidade, e que será crucial para o estudo de professores e estudantes.

23 de setembro de 2008

Uma fonte inesgotável de Inquietação Filosófica

Wilfrid Sellars no artigo “Philosophy and the Scientific Image of Man” descreveu a filosofia como a tentativa de conciliar duas imagens do mundo; a imagem manifesta e a imagem científica. A imagem manifesta apresenta o homem como um agente, a intervir no mundo para satisfazer os seus desejos e vontade. A imagem científica apresenta o homem como um sistema complexo físico-químico, sujeito a leis naturais.

Nos pontos de encontro deste conflito, zonas sísmicas como a consciência, a acção, o livre-arbítrio, surge, para mim, a inquietação filosófica e os problemas que mais me importam. Julgo que esta discrição de Sellars da origem dos problemas filosóficos é muito comum para filósofos na área da filosofia da mente, e é patente de um modo muito claro na obra do filósofo John Searle. Recentemente Frank Jackson descreve algo semelhante como origem dos problemas filosóficos que o interessam: como conciliar o que pensamos que sabemos sobre nós mesmos, com o que a ciência nos diz e vai descobrindo sobre nós.

O projecto de conciliar estas imagens é explícito no projecto filosófico de Donald Davidson, em particular quando julga o anomalismo do mental como uma condição necessária para a liberdade da acção. Temos assim um exemplo concreto deste conflito em acção e uma concepção do mental desenvolvida com o propósito de conciliar estas duas imagens, tentado no entanto respeitar as intuições por detrás das mesmas. No fim do artigo “acontecimentos mentais” podemos ler o seguinte:
Explicamos as acções livres de um homem, por exemplo, apelando aos seus desejos, hábitos, conhecimento, percepções. Tais explicações do comportamento intencional funcionam num enquadramento conceptual afastado do alcance directo da lei física descrevendo causa e efeito, razão e acção, como aspectos de uma representação do agente humano. O anomalismo do mental é assim uma condição necessária para ver a acção como autónoma.
A ideia de Davidson parece ser esta: Não há leis psicofísicas nem psicológicas estritas, logo não podemos de forma rigorosa prever o comportamento humano, porquanto o baseemos no conhecimento da psicologia destes. Por mais que saibamos, ao íntimo detalhe, da psicologia de um indivíduo, jamais poderemos com precisão saber as suas próximas decisões ou escolhas, os seus desejos próximos ou como vai governar a sua vida.

Compare-se isto com o que diz Daniel M. Wegner sobre a psicologia:
Uma equipe de psicólogos poderia estudar os pensamentos, emoções e motivos por ti relatados, o teu material genético e a tua história educacional, experiência e desenvolvimento, a tua situação social e cultural, as tuas memórias e tempos de reacção, a tua fisiologia e neuroanatomia, assim como muitas outras coisas. Se eles, de alguma forma, tivessem acesso a toda informação de que precisassem, a suposição da psicologia é a de que poderiam desnudar os mecanismos que dão origem a todo o teu comportamento e assim, poderiam decerto explicar porque pegaste neste livro neste momento.
O conflito é claro. Se o que a psicologia científica nos diz é verdade então muito do que pensávamos que sabíamos sobre nós não pode ser verdade. Pode parecer que escolhemos as nossas acções livremente, autonomamente, mas se calhar, dado o que diz Wegner, isto é uma ilusão.

Davidson nega tudo isto. Nega a existência de tais leis, e por conseguinte a possibilidade de uma psicologia científica. Por mais que se saiba da psicologia do homem, dado a inexistência de leis estritas que regem o comportamento humano, não é possível ir mais além do que o avançar de generalizações mais ou menos precisas acerca do comportamento humano.

Mas note-se que estas generalizações não parecem ameaçar a liberdade humana, pelo contrário, parecem ser o tipo de generalizações que compactam muito do nosso conhecimento psicológico, de nós e dos outros. Por exemplo, achamos que se alguém até hoje é de confiança, honesto, atencioso para com os outros, responsável, sem ponta de violência, não iria por dez mil euros torturar uma criança. Afinal isto é o que representa em parte conhecer o carácter de alguém, e tal não é de todo uma ameaça à liberdade humana, pelo contrário. Mas também sabemos que por vezes surpresas acontecem, o que dá sal à vida em sociedade.

Davidson parece pensar que dado que não há leis que subsumam os estados psicológicos humanos, não é o caso que dadas certas crenças X e certos desejos Y, a acção Z seja inevitável, e que isto seria suficiente para a autonomia da acção humano, autónoma em relação à força cega da leis estritas que regem o mundo físico. O nosso ritmo não é, assim, o mesmo que faz dançar os planetas. Davidson é uma espécie de anti-Newton.

Mas agora olhemos para a imagem científica e que para Davidson todo o acontecimento mental é idêntico a algum acontecimento físico, e assim é possível, a cada instante, captar fisicamente, todos os acontecimentos que constituem esse instante. Mas isto significa que todos estes acontecimentos, fisicamente descritos, são regidos por leis estritas. E assim, ao contrário do que Davidson nos diz, é possível prever em forma de lei e estritamente o estado futuro do mundo e dos corpos nele.

Dado isto, a autonomia que queríamos preservar parece resumir-se a isto: enquanto usamos o idioma intencional, enquanto nos baseamos nas razões dos agentes para prever e calcular os seus movimentos futuros, enquanto, portanto, nos mantemos no discurso da imagem manifesta, não conseguimos mais do que oferecer generalizações mais ou menos vagas. Contudo, dado que cada acontecimento mental é idêntico a um acontecimento físico, é possível saber estritamente o estado futuro das coisas. Parece que a autonomia reside na dissonância entre a incapacidade de prever baseado no intencional, em relação à exactidão nomológica do físico. Mas o problema para Davidson é que não deixa de ser verdade que tudo o que nos sucede de acordo com esta teoria é assim regido pela lei física.

Davidson parece assim explicar não a autonomia humana, mas a ilusão da mesma. Mas se acreditamos e levamos a sério a imagem manifesta e a necessidade de conciliação, a inquietação mantém-se e a busca continua.

Richard Taylor

O propósito da vida é simplesmente viver, do modo como for natural viver. Passamos pela vida construindo os nossos castelos, começando cada um deles a desaparecer no tempo à medida que começa o seguinte; contudo, não seria uma salvação descansar de tudo isto. Seria uma condenação, que não seria redimida mesmo que pudéssemos contemplar as coisas que fizemos, ainda que fossem belas e absolutamente permanentes, coisa que nunca são.

22 de setembro de 2008

A subjectividade dos valores

Acabei de publicar a defesa clássica moderna do subjectivismo dos valores, de Mackie, com tradução do professor Nelson Gomes e de vários alunos da Universidade de Brasília. É um excerto do livro Ethics: Inventing Right and Wrong, publicado pela primeira vez em 1977, e desde então muito lido quer como introdução à ética, quer como defesa de ideias fortemente influenciadas pelo factualismo em ética. 

Mackie era conhecido por ser tão simpático a levantar objecções que por vezes as pessoas nem se apercebiam de que era realmente uma objecção. Mas como se pode ler no capítulo agora traduzido, a sua discussão de ideias é vigorosa. Ele próprio escreveu o seguinte:
Em lugar algum me ocupo primariamente da refutação de um autor particular. Penso que todos os que referi, incluindo aqueles com quem discordei mais fortemente, contribuíram significativamente para a nossa compreensão da ética: quando citei as suas próprias palavras é porque apresentaram as suas perspectivas ou argumentos mais claramente ou mais vividamente do que eu conseguiria.
Gostaria que as discussões nas caixas de comentários deste blog fossem simpáticas e genuinamente cooperativas, ainda que vivas e contraditórias. A ideia é seguir os argumentos para ver onde levam, especular honestamente e tão rigorosamente quanto possível. O objectivo não pode ser a ingenuidade de fazer a outra pessoa pensar como nós pensamos, nem defender até ao fim contra todas as evidências o que nós pensamos. Devemos pensar nos argumentos e ideias apenas e ver até onde nos levam. 

Ler os estóicos

The Stoics Reader: Selected Writings and Testimonia, com tradução e introdução de Brad Inwood e Lloyd P. Gerson, é um dos muitos exemplos do tipo de livros apetitosos disponibilizados pela Hackett, uma simpática editora norte-americana independente que tem prestado um serviço de ouro a estudantes e professores de filosofia.

Kurt Baier

A hipótese de que o universo foi feito por Deus a partir de nada só nos reconduz à questão de saber quem fez Deus ou como se originou Deus. E se não nos repugna dizer que Deus é eterno, não pode repugnar-nos dizer que o universo é eterno. A única diferença é que sabemos sem dúvidas que o universo existe, ao passo que temos a maior dificuldade até a dar sentido à afirmação de que Deus existe.

21 de setembro de 2008

O seu raciocínio é do oriente ou do ocidente?

O Desidério publicou uma curiosa e divertida posta no Rerum Natura que é reveladora do lugar que a filosofia ocupa no conjunto dos saberes, mas que levanta frequentemente muitas confusões. Clicar aqui para ler.

Filosofia e história da filosofia

Kant escreveu estas palavras interessantes:
Há letrados para quem a história da filosofia (tanto antiga como moderna) é a sua própria filosofia; os presentes prolegómenos não são escritos para eles. Deverão aguardar que os que se esforçam por beber nas fontes da própria razão tenham terminado a sua tarefa, e será então a sua vez de informar o mundo do que se fez. (Immanuel Kant (1783) Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura. Trad. de Artur Morão, Edições 70, Lisboa, 1982, p. A3)
O que Kant queria dizer é que o livro em causa não era um livro de história da filosofia, nem fingia ser um livro de história da filosofia. Isto porque provavelmente foi acusado de desconhecer a história da filosofia, aquando da Crítica da Razão Pura, publicada pela primeira vez em 1781. Esta mesma acusação faz-se hoje aos filósofos contemporâneos que fazem realmente filosofia em vez de fazerem da história da filosofia “a sua própria filosofia”, como diz Kant. Esta mesmíssima confusão leva algumas pessoas a pensar que os filósofos contemporâneos desconhecem a história da filosofia. Isto é falso. O que se passa é que se estamos a fazer filosofia não podemos estar o tempo todo a fazer história da filosofia.

Quando se lê algumas obras de Derrida ou de Heidegger, de Deleuze ou de Husserl, não se encontra nelas quase referências à história da filosofia. Contudo, outras obras destes e de outros autores são especificamente dedicadas ao estudo de filósofos do passado. O mesmo acontece com os filósofos analíticos. Alguns estudos são de filosofia contemporânea e poucas referências históricas têm; outros são inteiramente dedicados ao estudo dos estóicos, de Aristóteles ou de Agostinho. Porquê então a ideia falsa muito difundida segundo a qual os filósofos analíticos desconhecem a história da filosofia?

Por desconhecimento bibliográfico. Se as pessoas conhecem o trabalho de filósofos analíticos como Anthony Kenny, Bernard Williams, Gareth Matthews, Paul Guyer, etc., não teriam esta ideia falsa de que os filósofos analíticos desconhecem ou desprezam a história da filosofia.

Penso que é um disparate o debate que procura estabelecer se a filosofia analítica é melhor ou pior do que a filosofia continental. Em parte, porque as pessoas que entram neste debate geralmente desconhecem as bibliografias relevantes, de modo que é uma discussão improcedente. Por outro lado, porque me parece óbvio que as pessoas devem poder escolher em liberdade o que querem estudar. Mas para poderem escolher têm de conhecer as opções à sua disposição, e a verdade é que quem faz filosofia continental, na esmagadora maioria dos casos, não o faz por escolha mas porque é a única coisa que realmente conhece. (É também por isso que a própria expressão "filosofia continental" é ofensiva para muitos colegas, e por isso eu a evito: porque subitamente, o que eles pensavam que era a única maneira de estudar filosofia fica relativizada e passa a ser apenas uma maneira de estudar filosofia. Isto é psicológica e profissionalmente difícil de aceitar, e eu compreendo perfeitamente isso.) Por isso o importante não é ter uma discussão encarniçada sobre os méritos e os deméritos da filosofia analítica por oposição à continental, mas apenas divulgar amplamente ambos as maneiras de estudar filosofia para que as pessoas possam escolher em liberdade. Não sei se o leitor concordará comigo, mas é para poder discordar que temos as caixas de comentários.

Deus anselmiano


O seguinte argumento é válido:

É possível que Deus exista necessariamente.
Logo, Deus existe. 

Poderá alguém que não acredita em Deus continuar racionalmente a não acreditar em Deus? Como? Este é mais um desafio aos nossos leitores.

Kurt Baier

A morte é simplesmente irrelevante. Se a vida pode realmente valer a pena, então pode valer a pena mesmo que seja curta. E se não vale de modo algum a pena, então uma eternidade disso é pura e simplesmente um pesadelo. Pode ser triste que tenhamos de deixar este belo mundo, mas só o é se for belo e porque é belo. E não é menos belo por chegar ao fim. Suspeito pelo contrário que uma eternidade dele poderia fazer-nos apreciá-lo menos, e no fim seria um tédio.

20 de setembro de 2008

Dilemas éticos


O leitor Tiago Videira enviou-nos estes dilemas, para estimular a discussão:
  1. Suponha que está a trabalhar numa mina com dois ramais. Ao fundo do seu ramal estão cinco mineiros a trabalhar. No ramal que parte para o lado está um mineiro solitário. Subitamente um vagão vem descontrolado e você apercebe-se que à velocidade que ele vem ele irá embater e matar os cinco mineiros. Mas há tempo para uma acção: você pode mudar a cavilha e desviá-lo para o ramal onde só está um mineiro. O que decide você? Porquê?
  2. Suponha agora que não existe qualquer cavilha, mas está um colega junto de si. Ele vê vir o vagão desgovernado. Uma alternativa será lançar o seu colega para a linha travando assim o vagão, mas matando o seu colega. Salvará no entanto os cinco mineiros do fundo do ramal. Isto é aceitável? Você faria isto?
  3. Suponha ainda que está sozinho e não existe qualquer cavilha. A única opção é lançar-se você para a frente do vagão para poupar cinco pessoas, à custa da sua própria vida. Você tomaria este passo? Seria legítimo? Porquê?
Os primeiros dois dilemas éticos são propostos por James Taylor em Gary Hardcastle e George Reisch, A Filosofia Segundo os Monthy Phyton, Estrela Polar, 2008, pp. 218-219. O terceiro foi sugerido por Serranito após ter conhecimento dos dois primeiros.

Categorias naturais


A SEP acaba de publicar um novo artigo sobre categorias naturais, de Alexander Bird e Emma Tobin. As categorias naturais são categorias como as de água, hidrogénio ou, mais controverso, mamífero. A ideia é que são divisões metafísicas naturais, independentes dos nossos aparatos cognitivos; as articulações da natureza, digamos assim. Um dos papéis das ciências empíricas como a física e a biologia ou a química seria, precisamente, descobrir estas categorias naturais (pense-se, por exemplo, na tabela periódica dos elementos químicos). A própria ideia de que há categorias naturais é evidentemente posta em causa por todos os filósofos de tendência arrealista ou irrealista ou anti-realista, e qualquer uma destas tendências era praticamente moeda corrente na filosofia analítica até há cerca de 40 anos, sendo ainda uma quase ortodoxia na chamada filosofia continental, que geralmente toma o projectivismo kantiano como verdadeiro. Note-se que não se deve confundir a ideia de que há categorias naturais com a ideia bem diferente de que o que nós hoje pensamos que são categorias naturais são realmente as categorias naturais. A ideia de que nenhumas categorias naturais reais correspondem ao que hoje pensamos que são as categorias naturais pressupõe que há categorias naturais.

Kurt Baier

A moralidade não é a distribuição de castigos e recompensas. Ser moral é abster-se de fazer aos outros o que, se eles seguissem a razão, não fariam a si mesmos, e fazer aos outros o que, se eles seguissem a razão, quereriam fazer. É, grosso modo, reconhecer que também os outros têm direito a uma vida que valha a pena.

19 de setembro de 2008

O mercado universitário da filosofia

A tabela que se segue foi feita a partir dos números disponibilizados no Telegrapho de Hermes. Se os cursos superiores em Portugal fossem cotados numa espécie de bolsa dos valores académicos, qual seria o valor das acções de filosofia? A consulta desta tabela pode ajudar os corretores a tomar decisões. Dá a ideia que a cotação está a descer. Mas porquê, se nas grandes praças de todo o mundo a filosofia rende bem?
 

 

Vagas abertas

Colocados

Nota do último

2006

2007

2008

2006

2007

2008

2006

2007

2008

Universidade da Beira Interior

30

20

20

10

5

4

110,7

109,9

108,0

Universidade de Coimbra

35

35

30

22

14

10

105,5

104,0

112,0

Universidade de Évora

20

20

-

1

3

-

113,5

125,5

-

Universidade de Lisboa

70

60

65

37

59

21

100,5

103,0

108,5

Universidade Nova de Lisboa

20

25

25

20

25

16

139,0

125,0

116,0

Universidade do Minho

30

30

30

29

30

28

108,8

126,4

107,6

Universidade do Porto

70

60

65

70

70

56

126,0

114,6

105,8

Total

275

250

235

189

206

135