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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2008

Falácia da redefinição e menoridade

Eis uma falácia interessante que ocorre em muitos contextos de discussão. Alguém faz uma afirmação qualquer. Outra pessoa apresenta contra-exemplos inegáveis. O proponente original então redefine um termo qualquer crucial da afirmação, tornando-o tão lato que consegue efectivamente neutralizar os contra-exemplos. Isto é uma falácia porque dá a ilusão de se tratar de uma boa resposta ao contra-exemplo, quando na verdade é apenas uma confissão de que o sentido original da afirmação era realmente falso; apenas mudando o sentido dos termos se dá a ilusão de que a proposição afinal resiste a contra-exemplos. Mas o novo sentido lato dado ao termo crucial torna a afirmação verdadeira, mas desinteressante. 

Escrevi um pouco sobre esta falácia no apêndice do livro A Arte de Argumentar, no qual dei um exemplo bem conhecido: a de que a filosofia consiste na sua história.

Recentemente, na lista Lógica-L deparei-me de novo com esta falácia. Um colega começou por dizer que todos os filósofos se ocupa…

Metafísica e vida

Muitas das vezes somos levados a pensar que a metafísica é uma área da filosofia tão sofisticada que não possui qualquer relação com a vida. Mas essa crença é falsa, apesar de se compreender a falsidade em que tentadoramente caímos. Os estudos em metafísica são realmente complexos e sofisticados, mas são também os pilares de todo o conhecimento. Estou a lembrar-me de um problema em particular, da ética aplicada, o do aborto. E também o da eutanásia. É impossível uma discussão racionalmente preenchida sobre o aborto se não tivermos em consideração pelo menos algumas noções metafísicas. Uma delas prende-se com o problema da identidade que pode mostrar que algumas premissas de argumentos podem ser falsas ou, pelo menos, muito discutíveis. Para além de tudo é na metafísica que se faz o esforço máximo de conceptualização, de forma que esta é uma área nuclear. Com efeito, sendo a metafísica uma área complexa, não é de todo inacessível, até ao leitor mais comum. A melhor referência que conhe…

Weber Lima: O Joven Stálin, de Simon Sebag Montefiore

Muito do que se pensou e ainda se pensa sobre Ióssif Stálin deve-se aos escritos de Trotsky — um rival do ex-ditador soviético desde que se conheceram pela primeira vez. Mas Trotsky era presunçoso, arrogante e não menos vaidoso do que Stálin e por isso descreveu seu opositor de maneira superficial a fim de desvalorizá-lo. Mais...

O milagre da limitação física dos milagres

Um dado curioso sobre milagres:

Se um milagre é uma interrupção da ordem natural das coisas por via de uma intervenção sobrenatural, seria contraditório imaginar um limite físico a essa intervenção sobrenatural. E no entanto, que eu saiba, todos os crentes em milagres parecem aceitar esta restrição física às intervenções sobrenaturais.
Embora haja todo o género de relatos de acontecimentos extraordinários e suspensão das leis naturais ou reversão de acontecimentos irreversíveis: desde milagres «cósmicos» até regeneração do nervo óptico interrompido, de danos na retina ou no cérebro, no músculo e no osso, etc. Nunca vemos, por exemplo, amputados numa sessão de milagres, em qualquer tradição religiosa que seja, movidos pela esperança de que lhes cresça de novo o membro decepado.
Mas isto parece contradizer a ideia da intervenção sobrenatural: como pode haver limites físicos à suspensão sobrenatural das leis da física? Como é que a mesma força sobrenatural que opera milagres cósmicos e geol…

Kurt Baier

As explicações teleológicas não são, seja em que sentido for, acientíficas. São correctamente rejeitadas nas ciências da natureza mas não, contudo, por serem acientíficas, mas porque nenhumas inteligências ou propósitos se encontram envolvidos nesses domínios. Por outro lado, as explicações teleológicas têm pleno lugar na psicologia, pois encontramos inteligência e propósito envolvidos em grande parte do comportamento humano. Não só não é acientífico dar explicações teleológicas de comportamento humano deliberado, como seria perfeitamente acientífico excluí-las.

Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP

O Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP parte de uma iniciativa dos alunos da graduação do curso de Filosofia e conta com o apoio do Instituto de Filosofia e Artes (IFAC), do Departamento de Filosofia (DEFIL) e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O encontro ocorrerá entre os dias 10 e 14 de novembro de 2008 no IFAC, localizado na Rua Coronel Alves 55 Centro, Ouro Preto, Minas Gerais. O encontro visa a reunir graduandos, graduados e pós-graduandos e estimular o debate filosófico, além de divulgar as linhas de pesquisas em filosofia desenvolvidas no país e promover a interação entre as universidades. O evento consistirá em palestras ministradas por professores convidados, mini-cursos, debates sobre temas filosóficos e apresentações de comunicações em mesas redondas temáticas. Convidamos toda a comunidade acadêmica a enviar resumos de comunicações para apresentação em mesa redonda até o dia 10 de outubro. Daremos preferência, na seleção de resumos, àqueles que apre…

Thomas Cathcart, Daniel Klein

Fenomenologia
Einfühlung é a palavra alemã que significa entendimento ou empatia e foi usada por fenomenólogos como Edmund Husserl para explicar uma forma de conhecimento que procura entrar na experiência de outro ser humano e conhecer e sentir o mundo da mesma forma que esse ser humano.

- Doutora Janet – diz a mulher, muito embaraçada. – Tenho um problema de natureza sexual. Não fico excitada com o meu marido.
- Muito bem – diz a doutora Janet – amanhã vou fazer um exame completo. Traga o seu marido.
No dia seguinte, a mulher regressa com o marido.
- Dispa-se, senhor Thomas – diz a médica. – Agora, dê uma volta. Muito bem, agora faça o favor de se deitar: Uh-uh, estou a compreender. Pode vestir-se novamente.
A doutora Janet levou a mulher para um canto.
- A sua saúde é perfeita – diz. Ele também não me excita.

Omnisciência impotente

Não sei se esta história consegue mostrar a inconsistência que imagino que ela mostra. É mais um desafio aos leitores para caçarem o erro. Cá vai:
Imagine-se que deus encarna num vendedor de jornais e que está sentado pachorrentamente num quiosque, frente à casa do leitor. Esse vendedor de jornais será, em princípio, omnisciente e omnipotente, embora seja apenas um vendedor de jornais. Não se encontrando hoje com disposição para feitos de proporções cósmicas, apetece-lhe apenas ficar sentado no quiosque, divertindo-se a fazer previsões acerca de que jornais as pessoas vão comprar.

Supondo que tudo o que acontece no mundo é determinado pelos estados anteriores do mundo mais as leis da física, isto é, que o determinismo é verdadeiro, o nosso deus vendedor de jornais saberá exactamente que escolhas farão os seus clientes, pois sendo omnisciente, pode calcular todas as variáveis com uma precisão e velocidade inacessíveis ao melhor computador existente e mesmo a qualquer computador possível.…

Kurt Baier

As explicações científicas são reais e completas, tal como as explicações da vida quotidiana e das religiões tradicionais. Diferem destas últimas unicamente por serem mais precisas e mais facilmente refutadas pela observação dos factos.

A origem da realidade

A minha crónica de ontem do Público, "A Origem da Realidade" revelou-se surpreendentemente polémica. A minha crónica não pretende demonstrar que não existe deus, ao contrário do que muitos comentadores ficaram a pensar. É perfeitamente compatível aceitar as ideias da minha crónica e defender a existência de deus. Apenas pretendo mostrar que um argumento em particular a favor da existência de deus não funciona.

Filosofia antiga, de Anthony Kenny

Este é o primeiro volume, dedicado à filosofia antiga, da nova história da filosofia da Oxford em quatro volumes, agora publicada pela Loyola no Brasil, e que será em breve publicada pela Gradiva, em Portugal. A Loyola anuncia para breve o segundo volume; os restantes dois ainda não estão publicados. O livro é excelente, inovador, maximamente informativo e de leitura agradável. Sendo escrito por um único historiador e filósofo, oferece uma unidade que outras histórias da filosofia não têm. E tem a dimensão adequada para ser simultaneamente pormenorizado e geral, de modo a atingir dois tipos de públicos: os estudantes e o grande público. Sem notas eruditas infinitas, que afastam o leitor comum, mas com todas as referências históricas necessárias, é uma leitura, imagine-se, empolgante. Isso deve-se ao domínio que o autor tem das ideias filosóficas, que as torna vivas, revelando de forma magistral a sua importância e dramatismo. Ler mais...

Um guia de epistemologia

Está já nas livrarias o Compêndio de Epistemologia, org. por Ernest Sosa e John Greco — um dos mais importantes lançamentos do ano. Trata-se da tradução do original Blackwell Guide to Epistemology, que reúne um conjunto de dezassete artigos escritos por filósofos contemporâneos sobre vários aspectos da epistemologia. Dividida em quatro partes, a que se segue uma útil bibliografia da epistemologia por tópicos, esta antologia é antecedida por uma introdução de John Greco que procura explicar o que é a epistemologia (não é filosofia da ciência, como por vezes erradamente se pensa, mas sim teoria do conhecimento).

A primeira parte é dedicada a quatro problemas tradicionais da epistemologia: cepticismo (Michael Williams), realismo, objectividade e cepticismo (Paul K. Moser), a definição de conhecimento (Linda Zagzebski), e o contraste entre fundacionismo e coerencismo (Laurence BonJour).

A segunda parte é dedicada ao conceito de avaliação epistémica: Ernest Sosa escreve sobre o debate entre …

Uma fonte inesgotável de Inquietação Filosófica

Wilfrid Sellars no artigo “Philosophy and the Scientific Image of Man” descreveu a filosofia como a tentativa de conciliar duas imagens do mundo; a imagem manifesta e a imagem científica. A imagem manifesta apresenta o homem como um agente, a intervir no mundo para satisfazer os seus desejos e vontade. A imagem científica apresenta o homem como um sistema complexo físico-químico, sujeito a leis naturais.

Nos pontos de encontro deste conflito, zonas sísmicas como a consciência, a acção, o livre-arbítrio, surge, para mim, a inquietação filosófica e os problemas que mais me importam. Julgo que esta discrição de Sellars da origem dos problemas filosóficos é muito comum para filósofos na área da filosofia da mente, e é patente de um modo muito claro na obra do filósofo John Searle. Recentemente Frank Jackson descreve algo semelhante como origem dos problemas filosóficos que o interessam: como conciliar o que pensamos que sabemos sobre nós mesmos, com o que a ciência nos diz e vai descobrind…

Richard Taylor

O propósito da vida é simplesmente viver, do modo como for natural viver. Passamos pela vida construindo os nossos castelos, começando cada um deles a desaparecer no tempo à medida que começa o seguinte; contudo, não seria uma salvação descansar de tudo isto. Seria uma condenação, que não seria redimida mesmo que pudéssemos contemplar as coisas que fizemos, ainda que fossem belas e absolutamente permanentes, coisa que nunca são.

A subjectividade dos valores

Acabei de publicar a defesa clássica moderna do subjectivismo dos valores, de Mackie, com tradução do professor Nelson Gomes e de vários alunos da Universidade de Brasília. É um excerto do livro Ethics: Inventing Right and Wrong, publicado pela primeira vez em 1977, e desde então muito lido quer como introdução à ética, quer como defesa de ideias fortemente influenciadas pelo factualismo em ética. 
Mackie era conhecido por ser tão simpático a levantar objecções que por vezes as pessoas nem se apercebiam de que era realmente uma objecção. Mas como se pode ler no capítulo agora traduzido, a sua discussão de ideias é vigorosa. Ele próprio escreveu o seguinte:
Em lugar algum me ocupo primariamente da refutação de um autor particular. Penso que todos os que referi, incluindo aqueles com quem discordei mais fortemente, contribuíram significativamente para a nossa compreensão da ética: quando citei as suas próprias palavras é porque apresentaram as suas perspectivas ou argumentos mais claramen…

Ler os estóicos

The Stoics Reader: Selected Writings and Testimonia, com tradução e introdução de Brad Inwood e Lloyd P. Gerson, é um dos muitos exemplos do tipo de livros apetitosos disponibilizados pela Hackett, uma simpática editora norte-americana independente que tem prestado um serviço de ouro a estudantes e professores de filosofia.

Kurt Baier

A hipótese de que o universo foi feito por Deus a partir de nada só nos reconduz à questão de saber quem fez Deus ou como se originou Deus. E se não nos repugna dizer que Deus é eterno, não pode repugnar-nos dizer que o universo é eterno. A única diferença é que sabemos sem dúvidas que o universo existe, ao passo que temos a maior dificuldade até a dar sentido à afirmação de que Deus existe.

Filosofia e história da filosofia

Kant escreveu estas palavras interessantes:
Há letrados para quem a história da filosofia (tanto antiga como moderna) é a sua própria filosofia; os presentes prolegómenos não são escritos para eles. Deverão aguardar que os que se esforçam por beber nas fontes da própria razão tenham terminado a sua tarefa, e será então a sua vez de informar o mundo do que se fez. (Immanuel Kant (1783) Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura. Trad. de Artur Morão, Edições 70, Lisboa, 1982, p. A3)O que Kant queria dizer é que o livro em causa não era um livro de história da filosofia, nem fingia ser um livro de história da filosofia. Isto porque provavelmente foi acusado de desconhecer a história da filosofia, aquando da Crítica da Razão Pura, publicada pela primeira vez em 1781. Esta mesma acusação faz-se hoje aos filósofos contemporâneos que fazem realmente filosofia em vez de fazerem da história da filosofia “a sua própria filosofia”, como diz Kant. Esta mesmíssima confusão leva algumas pessoas a pens…

Deus anselmiano

O seguinte argumento é válido:

É possível que Deus exista necessariamente.
Logo, Deus existe. 

Poderá alguém que não acredita em Deus continuar racionalmente a não acreditar em Deus? Como? Este é mais um desafio aos nossos leitores.

Kurt Baier

A morte é simplesmente irrelevante. Se a vida pode realmente valer a pena, então pode valer a pena mesmo que seja curta. E se não vale de modo algum a pena, então uma eternidade disso é pura e simplesmente um pesadelo. Pode ser triste que tenhamos de deixar este belo mundo, mas só o é se for belo e porque é belo. E não é menos belo por chegar ao fim. Suspeito pelo contrário que uma eternidade dele poderia fazer-nos apreciá-lo menos, e no fim seria um tédio.

Dilemas éticos

O leitor Tiago Videira enviou-nos estes dilemas, para estimular a discussão:
Suponha que está a trabalhar numa mina com dois ramais. Ao fundo do seu ramal estão cinco mineiros a trabalhar. No ramal que parte para o lado está um mineiro solitário. Subitamente um vagão vem descontrolado e você apercebe-se que à velocidade que ele vem ele irá embater e matar os cinco mineiros. Mas há tempo para uma acção: você pode mudar a cavilha e desviá-lo para o ramal onde só está um mineiro. O que decide você? Porquê?Suponha agora que não existe qualquer cavilha, mas está um colega junto de si. Ele vê vir o vagão desgovernado. Uma alternativa será lançar o seu colega para a linha travando assim o vagão, mas matando o seu colega. Salvará no entanto os cinco mineiros do fundo do ramal. Isto é aceitável? Você faria isto?Suponha ainda que está sozinho e não existe qualquer cavilha. A única opção é lançar-se você para a frente do vagão para poupar cinco pessoas, à custa da sua própria vida. Você tomaria e…

Categorias naturais

A SEP acaba de publicar um novo artigo sobre categorias naturais, de Alexander Bird e Emma Tobin. As categorias naturais são categorias como as de água, hidrogénio ou, mais controverso, mamífero. A ideia é que são divisões metafísicas naturais, independentes dos nossos aparatos cognitivos; as articulações da natureza, digamos assim. Um dos papéis das ciências empíricas como a física e a biologia ou a química seria, precisamente, descobrir estas categorias naturais (pense-se, por exemplo, na tabela periódica dos elementos químicos). A própria ideia de que há categorias naturais é evidentemente posta em causa por todos os filósofos de tendência arrealista ou irrealista ou anti-realista, e qualquer uma destas tendências era praticamente moeda corrente na filosofia analítica até há cerca de 40 anos, sendo ainda uma quase ortodoxia na chamada filosofia continental, que geralmente toma o projectivismo kantiano como verdadeiro. Note-se que não se deve confundir a ideia de que há categorias n…

Kurt Baier

A moralidade não é a distribuição de castigos e recompensas. Ser moral é abster-se de fazer aos outros o que, se eles seguissem a razão, não fariam a si mesmos, e fazer aos outros o que, se eles seguissem a razão, quereriam fazer. É, grosso modo, reconhecer que também os outros têm direito a uma vida que valha a pena.

O mercado universitário da filosofia

A tabela que se segue foi feita a partir dos números disponibilizados no Telegrapho de Hermes. Se os cursos superiores em Portugal fossem cotados numa espécie de bolsa dos valores académicos, qual seria o valor das acções de filosofia? A consulta desta tabela pode ajudar os corretores a tomar decisões. Dá a ideia que a cotação está a descer. Mas porquê, se nas grandes praças de todo o mundo a filosofia rende bem?

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