31 de outubro de 2008

Ideias perspicazes


A tradução de "insight" sempre me levantou muitas perplexidades. Tenho tentado várias alternativas e todas parecem falhar num ou noutro contexto, ainda que funcionem bem noutros. Finalmente, parece-me que a melhor alternativa é "ideia perspicaz". Isto funciona para contextos nos quais se diz algo como "A ideia perspicaz de Descartes foi...", mas também em contextos nos quais se fala de alguém ser perspicaz ("insightful"). Alguém tem ideias perspicazes sobre isto?

Nussbaum, Platão e a República


Acabei de ter conhecimento da edição brasileira de A República de Platão: A Boa Sociedade e a Formação do Desejo, de Martha Nussbaum. Tanto quanto sei, este é o primeiro livro em português (na verdade, é apenas um artigo longo) desta importante autora. Foi publicado em 2004 pela Bestiário Editora. De Nussbaum, temos na Crítica o artigo "Amor". 

No Público de hoje

Quem abrir o jornal Público de hoje, ao ler a crónica do economista Luís Campos e Cunha, «O barulho das luzes», depara-se, a determinada altura, com este comentário:
Uma terceira referência, no barulho das luzes e na confusão da crise: é sempre refrescante ler os artigos de Desidério Murcho, no P2 deste jornal. Têm o tamanho certo e levam-nos a pensar, o que é sempre útil, especialmente, neste mundo de sensações e de reacções. Um mundo de pouca ponderação e pouco pensamento e vivido mais pelo instinto do que pela razão. Aconselho a leitura e agradeço-lhe, mesmo sem o conhecer.
É sempre bom saber do impacto de pensar outra vez, como defende o Desidério.

30 de outubro de 2008

George Dickie: Introdução à Estética

Está já à venda em Portugal a Introdução à Estética, de George Dickie, o número 4 da colecção Filosoficamente, da Bizâncio. Clique aqui para comprar.

Empregabilidade em filosofia

Sobre a empregabilidade em filosofia remeto para este link onde apresento algumas ideias sujeitas a discussão. Na Crítica temos aqui um bom texto de António Paulo Costa sobre o assunto.

29 de outubro de 2008

Problemas com a regra de ouro

Uma das regras que os cosmopolitas defendem e invocam muitas vezes, é a regra de ouro. A regra de ouro tem uma versão positiva e outra negativa. A positiva diz que devemos fazer o mesmo bem aos outros que nos fizeram a nós e a negativa indica que não devemos fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos tenham feito. Muitas das vezes a base de muitas das regras em ética é simples. Pensar essas regras já é mais complicado. Vamos então pegar num caso: o leitor é médico e segue sempre a regra de ouro. Acontece que está a operar um doente testemunha de Jeová e este precisa de uma transfusão de sangue. Ora, se seguir a regra de ouro, deve ou não administrar-lhe a transfusão? A tendência mais intuitiva é dizer que deve administrar a transfusão já que está uma vida em causa. Mas siga a regra de ouro: imagine o leitor que além de médico é testemunha de Jeová. Quer o leitor receber o castigo do inferno por violar a palavra divina? Coloque-se no lugar do crente e avalie o problema.

28 de outubro de 2008

Realidade


Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Será toda a realidade empírica?

Afirmar que toda a realidade é empírica não pode querer dizer que toda a realidade pode de facto ser percepcionada por nós, pois é óbvio que a maior parte da realidade não pode ser percepcionada por nós: não observamos nem nunca observaremos dinossauros vivos, nem o Big Bang, nem quarks — apenas inferimos a sua existência com base noutros indícios que podemos observar. Portanto, afirmar que toda a realidade é empírica tem de querer dizer apenas que toda a realidade pode ser inferida do que podemos observar.

Mas isto tem o resultado de podermos ser obrigados a admitir que nem toda a realidade é empírica, se por “empírico” queremos dizer que tem localização espácio-temporal. Por exemplo, se é real tudo o que podemos inferir com base no que podemos observar, o tempo e o espaço são reais apesar de apenas podermos observar os seus efeitos e não os próprios tempo e espaço. Mas como o tempo e o espaço não podem ter localização espácio-temporal, não podemos afirmar que toda a realidade tem localização espácio-temporal.

Consequentemente, afirmar que toda a realidade é empírica quer apenas dizer que só devemos admitir como real o que temos boas razões para pensar que é real, independentemente de ser ou não observável em princípio. Mas isso é uma vacuidade e já se sabia desde o início. O que está e sempre esteve em causa e é precisamente saber se há boas razões para pensar que nem toda a realidade é empírica em qualquer sentido relevante do termo.

Bertrand Russell (1871–1970) defendia que nem toda a realidade era empírica. Em Os Problemas da Filosofia (1912), Russell argumenta contra a teoria da abstracção dos empiristas. A posição dos empiristas, como John Locke (1632–1704) e David Hume (1711–1776), era que só há coisas brancas particulares, mas não o universal da brancura. Tradicionalmente, o universal da brancura é a propriedade de ser branco, que está como que espalhada por todas as coisas brancas, mas não se confunde com elas. A brancura em si não parece ter localização espácio-temporal. A ideia foi pela primeira vez explorada por Platão (428–348 a.C.), mas não precisamos de aceitar o seu misticismo, mais tarde cristianizado, para aceitar universais.

A teoria empirista da abstracção visa eliminar os universais recorrendo à abstracção: as coisas brancas particulares seriam então semelhantes entre si quanto ao que por abstracção chamamos “brancura”, mas a brancura não teria qualquer tipo de existência. A objecção de Russell é que esta saída não funciona porque seremos obrigados a dizer que todas as coisas brancas são semelhantes, para que delas possamos extrair a ideia abstracta de brancura — mas a própria relação de semelhança é um universal precisamente como a brancura, sem localização espácio-temporal, pelo que ficámos na mesma.

Terá Russell razão? O debate sobre os universais prossegue, sem prestar atenção às notícias exageradas da Morte da Filosofia. A filosofia não morre desde que se insista em pensar outra vez.

27 de outubro de 2008

Sartre e o anti-semitismo, de George Orwell

O anti-semitismo é obviamente um assunto que precisa de ser seriamente estudado, mas parece improvável que o venha a ser nos próximos tempos. O problema é que enquanto o anti-semitismo for encarado simplesmente como uma aberração vergonhosa, quase um crime, qualquer pessoa suficientemente literata para ter ouvido a palavra irá obviamente declarar-se-lhe imune; e em resultado disso, livros sobre o anti-semitismo tendem a ser meros exercícios de tirar argueiros dos olhos dos outros. O livro de Monsieur Sartre [Portrait of the Anti-Semite, trad. ingl. de Erik de Mauny] não é excepção, e nada ganhou provavelmente por ter sido escrito em 1944, no período de embaraço, autodesculpabilização e caça às bruxas que se seguiu à Libertação. [Mais...]

Pedro Galvão sobre argumentação em bioética


Vale mesmo muito a pena ver o powerpoint com o essencial da comunicação de Pedro Galvão no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia intitulada A Argumentação em Temas de Bioética. Do que conheço, ninguém em Portugal sabe como ele falar tão bem e tão claramente sobre o assunto.

Se correr até ao fundo esta página disponível no sítio da SPF, encontrará a ligação para o referido material. E encontrará ainda outras comunicações apresentadas no mesmo encontro.

25 de outubro de 2008

Andam os filósofos nas nuvens?


Heidegger, Tales, Platão e Sara Raposo dão uma resposta interessante aqui.

Insight e cognição

Se há uma arte de pensar que quereríamos ensinar aos jovens, tem muito a ver com isto — mostrar como a mente se pode mover ao longo do espectro da informação, discriminando generalizações súbitas de pressentimentos, hipóteses de preconceitos irreflectidos. Para o nosso propósito, contudo, quero mover-me para o extremo do espectro, para o ponto limite em que os factos, cada vez mais rarefeitos, desaparecem por fim completamente. O que encontramos quando ultrapassamos tal ponto e entramos na zona em que os factos estão totalmente ausentes? [Mais...]

Manual de Filosofia Política, org. por João Cardoso Rosas

Via Pedro Galvão, soube do bem-vindo lançamento deste livro introdutório que promete: Manual de Filosofia Política, org. por João Cardoso Rosas (Universidade do Minho), edição Almedina, 304 pp. 

A filosofia apresenta resultados?


A discussão gerada pelo post Filosofia e Física acabou por levar à questão de saber se a filosofia apresenta ou não resultados, por contraposição com o que se passa com a física e outras ciências. Acho que esta discussão acaba frequentemente numa mera discussão de palavras, pelo que é útil precavermo-nos disso. Isto porque parece que estamos muitas vezes apenas a discutir o significado que queremos dar à palavra «resultados», o que me faz lembrar uma pequena história contada por William James no início da 2ª conferência que faz parte do seu livro Pragmatismo. A história é contada na primeira pessoa e reza assim:
Há uns anos, estando num acampamento nas montanhas, regressei de um passeio solitário e encontrei toda a gente envolvida numa feroz disputa metafísica. O
corpus da disputa era um esquilo que se supunha estar agarrado a um lado de um tronco de árvore, enquanto no lado oposto da árvore se imaginava estar um homem.
Esta testemunha humana tenta vislumbrar o esquilo movendo-se rapidamente em
volta da árvore; mas, por muito depressa que o faça, o esquilo move-se
igualmente depressa na direcção oposta, deixando sempre a árvore entre si e o
homem, de tal forma que nunca se deixa ver nem de relance. O problema metafísico
resultante é este: o homem anda à volta do esquilo ou não? Não há
dúvida de que anda à volta da árvore, e de que o esquilo está na árvore; mas
será que anda à volta o esquilo? Na ilimitada ociosidade do campo, a discussão
estava esgotada. Cada pessoa tomara o seu partido, inapelavelmente; e ambos os
partidos estavam empatados quanto ao número de adeptos. Portanto, quando eu
apareci, fui solicitado por ambos os lados para ficarem em maioria. Compenetrado
do adágio escolástico de que sempre que se encontra uma contradição se deve
fazer uma distinção, procurei imediatamente e encontrei uma, como segue: «Saber
qual o partido que tem razão», disse eu, «depende do que querem dizer na
prática
por 'andar à volta' do esquilo. Se querem dizer passar do norte do
esquilo para leste, depois para sul, depois para oeste, e outra vez para o norte
dele, obviamente o esquilo anda à volta dele, porque ocupa essas posições
sucessivas. Mas se, pelo contrário, querem dizer estar primeiro em frente do
esquilo, depois à sua direita, depois atrás, depois à esquerda, e finalmente em
frente dele outra vez, é bastante óbvio que o homem não consegue andar à sua
volta, pois com os seus movimentos compensadores o esquilo conserva sempre o
ventre virado para o homem e o dorso para o lado contrário. Façam esta distinção
e deixará de haver razão para mais disputas. Vocês estão ambos certos e ambos
errados conforme conceberam a expressão 'andar à volta' numa ou noutra forma
prática.»

Tal como na história de James, o que se passa é que quando se fala de resultados uns entendem isso de forma diferente de outros. Claro que se quando falamos de resultados estivermos a pensar em verdades empiricamente testadas, a filosofia não apresenta resultados, dado que nos referimos a resultados científicos e a filosofia não é uma ciência. Mas se falamos de resultados no sentido de progresso ou de maior compreensão das questões em causa, parece-me óbvio que a filosofia apresenta resultados: há uma maior compreensão de alguns problemas, há novos argumentos a ter em conta, há erros que deixaram de se cometer. É por isso que praticamente nenhum filósofo defende hoje a teoria da arte como imitação da mesma maneira que Platão ou Aristóteles o faziam; ou que as teorias contratualistas actuais são mais refinadas e conseguem evitar muitas das dificuldades das teorias contratualistas clássicas; que o chamado problema da mente-corpo não é discutido exactamente nos mesmos termos de Descartes; que se encontram actualmente problemas com as teorias descritivistas dos nomes próprios que Russell ou Frege não foram capazes de detectar; que o problema do estatuto moral dos animais não era sequer rigorosamente formulado e muito menos discutido, etc.

E parece-me também claro que a filosofia proporciona, ainda que indirectamente, resultados práticos. Basta pensar que a organização política de muitos estados e o seu ordenamento jurídico são a aplicação prática de certas teorias filosóficas. A vida quotidiana de cerca de um terço da população mundial nos anos setenta do século passado era fortemente condicionada pela teoria do materialismo dialéctico de Marx e a constituição americana foi muito devedora da filosofia política de Locke e outros filósofos. E até os sistemas educativos da maior parte dos países são o resultado da aplicação de concepções filosóficas acerca da natureza humana. Isto para dar só alguns exemplos.

De resto, a actividade filosófica seria demasiado ociosa e uma actividade pouco racional caso não se esperasse dela quaisquer resultados.

24 de outubro de 2008

23 de outubro de 2008

Distribuição da riqueza


Um dos clássicos problemas de filosofia política é o da distribuição da riqueza. Apesar de clássico, como sabemos, ainda atormenta bastante o cidadão comum. Mas vamos tentar perceber um pouquinho do problema. Para tal distinguimos dois princípios, o da liberdade e o da diferença. A relação entre estes dois princípios, enunciados por John Rawls, é bastante simples: diferentes posses de riqueza correspondem a diferentes possibilidades de liberdade. Em termos redondos, um rico tem muito maiores possibilidades de ser livre do que um pobre e parece claro que é muito mais importante ser livre do que ser rico. A proposta de Rawls consiste numa distribuição equitativa de riqueza, tese que parece intuitivamente correcta para muitas pessoas. Mas será mesmo assim? Será que uma distribuição equitativa da riqueza produziria equilíbrio entre o princípio da liberdade e o princípio da diferença?

Física e Filosofia

Uma das relações mais interessantes da filosofia com outros saberes está entre a física e a filosofia. Apesar de complexa e de exigir algum domínio para uma possível resposta, quero lançar aqui mais um desafio aos nossos leitores propondo que possam dar uma explicação clara e objectiva dessa relação. Na Crítica estão disponíveis alguns textos de Lawrence Sklar retirados de philosophy of physics, uma obra mestra a expor esta relação. Em português a obra mais recente e mais aproximada ao problema foi publicada pela Gradiva na colecção Ciência Aberta e inclui um texto do Desidério. Chama-se Tempo e Ciência.

22 de outubro de 2008

Introdução à Estética, de George Dickie

A Bizâncio acaba de anunciar o novo título da colecção Filosoficamente: Introdução à Estética, de George Dickie, com tradução de Vítor Guerreiro. É uma obra muito importante para quem quiser ter uma perspectiva histórica do desenvolvimento da estética e da filosofia da arte, de Platão aos nossos dias. A tradução de Vítor Guerreiro foi muito cuidada, e cuidadosamente revista por mim. 

Espero que o livro seja útil para estudantes e professores de filosofia, assim como para artistas e críticos de arte, e pessoas interessadas em arte. É uma obra ideal para preparar uma boa cadeira semestral numa universidade, podendo ser complementada com a bibliografia primária que Dickie discute ao longo do texto, de Platão a Goodman.

George Dickie


Acabei de receber esta novidade da Bizâncio na minha caixa de e-mail.

Título: Introdução à Estética
Autor: George Dickie
Colecção: Filosoficamente, 4
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«Quando ainda era estudante disseram-me que a Estética era a ‘enteada feia’ da Filosofia. Não sei quão exacto e difundido está este preconceito, mas sei que o livro de George Dickie, Introdução à Estética, nos proporciona uma perspectiva concisa, acessível e informativa. É Filosofia verdadeira e genuína teoria estética.»

Sarah Worth, Universidade de Furman

Introdução à Estética traça uma abordagem do percurso da Estética desde os primórdios, passando pelas transformações registadas nos séculos XVIII, XIX e primeira metade do século XX. A primeira metade do livro aborda a história de duas noções da estética — a teoria da beleza e a teoria da arte — e descreve as transformações sofridas desde a Grécia Antiga, até aos anos 50 do século XX. As respostas das teorias culturais das décadas seguintes são depois abordadas. Por fim, são apresentadas cinco teorias tradicionais de avaliação da Arte e o autor apresenta ainda uma outra, pessoal, baseada em princípios de Monroe Beardsley e Nelson Goodman. Escrito por um dos mais destacados filósofos da Arte e da Estética, este livro é também acessível a todos os que se interessam pela Filosofia e pela Arte.

Faith in a Hard Ground, de G.E.M. Anscombe

Na NDPR Alasdair MacIntyre acaba de publicar uma recensão de Faith in a Hard Ground, de G. E. M. Anscombe, que reune alguns dos seus ensaios dispersos sobre temas religiosos, tal como são vistos por uma filósofa católica.

Verdades relativas


Há tempos o Rolando lançou aqui a discussão sobre se a proposição expressa pela frase "Todas as verdades são relativas" é verdadeira ou falsa. A discussão esteve animada, até porque foram enviadas 34 mensagens para a caixa de comentários. Uma das intervenientes na discussão foi a Teresa Marques, que veio defender a ideia de que não era assim tão fácil descartar o relativismo. E referiu que iria disponibilizar na página da SPF o powerpoint com o essencial da comunicação que apresentou no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, em Évora, precisamente sobre o assunto.

Nessa comunicação a Teresa esclareceu a noção de verdade relativa, caracterizou a motivação relativista e os diferentes tipos de relativismo, além de discutir o argumentos contra o relativismo e as possíveis respostas dos relativistas às críticas que lhes são apontadas. E tudo isso é feito de uma forma notavelmente clara. Não acreditam? Está aqui.

19 de outubro de 2008

O caminho



Não sei como em Portugal se escreve o nome que em tempos se escrevia como “Lao Tsé”, que hoje em inglês se escreve “Laozi” e até recentemente se escrevia “Lao-tzu”. Também não sei como se escreve em Portugal o nome do livro que lhe é atribuído, que dantes se chamava Tao Te Ching, e hoje em inglês se chama Daodejing. Se alguns leitores portugueses ou brasileiros forem sinólogos, poderiam esclarecer estes aspectos. 

Em qualquer caso, saiu esta nova tradução de Edmund Ryden (Universidade de Fujen, Taiwan), na Oxford University Press, juntando-se à de Philip J. Ivanhoe (Hackett) nas traduções académicas recentes desta obra ímpar do pensamento chinês.

Laozi viveu no séc. VI a.C. e foi o fundador do taoismo, uma das mais influentes religiões chinesas. Este livro apresenta os princípios fundamentais do taoismo, sendo a ideia de harmonia natural uma das centrais, assim como o elogio do silêncio, algo de que precisamos urgentemente no mundo moderno. O tao é o caminho ou modo de fazer ou encarar as coisas. O tao, contudo, é inexprimível e só o silêncio místico o capta verdadeiramente. Os estudiosos de Heidegger ou outros pensadores de pendor místico irão com certeza gostar de conhecer esta obra singular do pensamento chinês. Uma versão popular do Daodejing em inglês pode ser lida aqui. Na Crítica temos um artigo sobre Laozi e Zhuangzi, do professor André Bueno. A SEP tem um artigo de Alan Chan sobre Laozi

17 de outubro de 2008

O paradoxo da ficção II


Prometi na caixa de comentários do meu último post apresentar algumas propostas para evitar o chamado «paradoxo da ficção». Apoio-me num texto do filósofo da arte americano, Jerrold Levinson, publicado numa colectânea intitulada Emotion and the Arts, organizada por Mette Hjort e Sue Laver. Levinson considera haver sete propostas em competição, que a seguir descrevo muito genericamente:

1. A solução não-intencionalista: as reacções emocionais à ficção não são, apesar das aparências, exemplos de verdadeiras emoções, mas de estados de espírito menos complexos, como o ânimo, ou reacções reflexivas, como o choque, os quais não têm o tipo de intencionalidade presente nas emoções. Isto significa que a proposição falsa é a 1, deixando assim de haver qualquer paradoxo.

2. A solução da suspensão da crença na não existência: assim que as pessoas se deixam envolver na trama ficcional, passam temporariamente a acreditar realmente nas personagens e situações ficcionais, o que torna possível ter emoções genuínas. Uma vez libertas da influência do universo ficcional, as pessoas voltam a deixar de acreditar na existência dessas personagens e nas situações descritas nas obras de ficção. A ficção tem o poder de nos envolver de tal modo, a ponto de suspendermos algumas das nossas descrenças. Sendo assim, há uma proposição falsa e essa proposição é a 3.

3. A solução da substituição do objecto: as reacções emocionais tomam como seus objectos reais não as personagens ou situações ficcionais, mas outros objectos em cuja existência realmente se acredita, nomeadamente certos conteúdos extra-ficcionais veiculados pela representação ficcional. Esses objectos ou conteúdos podem ser as contrapartes reais dos objectos ficcionais: pessoas ou acontecimentos reais de algum modo semelhantes aos descritos pela ficção, ou pessoas e experiências vividas que a ficção traz à mente dos leitores ou audiências. Assim, quando dizemos sentir pena de Ana Karenina estamos, de facto, a pensar nas mulheres reais que foram vítimas de um destino semelhante. A proposição 1 é, portanto, falsa.

4. A solução anti-judicativa: as reacções emocionais aos objectos são de tal modo rápidas e instintivas que não implicam grande aparato cognitivo, não envolvendo crenças acerca da existência desses objectos ou das suas características. Basta que haja outro tipo de elementos cognitivos mais ténues: uma certa perspectiva sobre as coisas e uma maneira de dirigir a nossa atenção para elas em função de valores e objectivos. A filósofa canadiana Jenefer Robinson defende esta solução, sublinhando que o nosso universo interior de pensamentos e fantasias está povoado de eventos, situações e pessoas que podem ou não existir na realidade, podendo nós reagir emocionalmente ao conteúdo dos nossos pensamentos e fantasias exactamente do mesmo modo como reagimos aos objectos da percepção. A experiência emocional que temos quando lemos um romance não implica a existência de crenças, pelo que quando reagimos emocionalmente a Ana Karenina, não temos necessariamente alguma crença acerca dela; simplesmente centramos a nossa atenção na sua situação e vemo-la de determinados pontos de vista. A proposição falsa é, portanto, a 2. Uma variante simplificada desta solução é apresentada por Peter Lamarque ao alegar que nos contextos ficcionais a crença é relegada para segundo plano pela vivacidade dos pensamentos, o que é suficiente para desencadear emoções genuínas.

5. A solução da substituição da crença: certas respostas emocionais às obras ficcionais, como a piedade, requerem não a crença de que as personagens ficcionais existem tout court, mas, em vez disso, a crença de que essas personagens existem na ficção e o facto de tal crença ser largamente partilhada por leitores (ou audiências) racionais. A crença de que tais personagens e situações existem na ficção é causalmente eficaz na produção da emoção. Esta solução rejeita a proposição 3.

6. A solução irracionalista: os consumidores de obras de ficção tornam-se irracionais quando se deixam envolver na trama do universo ficcional, na medida em que reagem emocionalmente a objectos que sabem não existir. Isto significa que 3 é uma proposição falsa. Esta solução, proposta pelo filósofo inglês Colin Radford, não deve ser confundida com a solução da suspensão da descrença, pois tal suspensão é suficiente para impedir qualquer possibilidade de contradição, o que não acontece aqui. Nesta perspectiva, a irracionalidade não consiste em os consumidores de obras de ficção acreditarem temporariamente na existência de algo em que antes não acreditavam, dado que aqui as crenças se mantêm as mesmas, mas em reagir emocionalmente a personagens e eventos de um modo que contradiz as suas crenças.

7. A solução faz-de-conta: as reacções emocionais aos objectos ficcionais não são, em rigor, exemplos de emoções, no sentido mais comum do termo. Apesar de as catalogarmos como emoções, essas reacções são, em vez disso, exemplos de emoções imaginárias ou faz-de-conta. Esta solução procura mostrar que 1 é uma proposição falsa. Kendal Walton, o seu principal proponente, alega que os leitores não sentem realmente pena de Ana Karenina, mas fazem de conta que sentem pena, pois as personagens dos romances são apenas adereços num sofisticado jogo de faz-de-conta que o leitor aceita jogar (o próprio Levinson defende uma versão ligeiramente diferente desta solução). Assim, o que os leitores sentem não é pena, mas quase-pena. Do mesmo modo, também não há genuína emoção, mas quase-emoção. Está lá o aspecto fenomenológico característico da emoção – o sentimento de pena – mas não o conteúdo cognitivo relevante – a crença de que Ana Karenina existe realmente e que tem determinadas características.

Vale a pena sublinhar, para terminar, que a concepção cognitivista da emoção - a concepção segundo a qual a natureza das emoções depende essencialmente dos estados intencionais envolvidos, como pensamentos, juízos ou avaliações, e não apenas do sentimento - é pressuposta pela maior parte das soluções sugeridas para o paradoxo da ficção. Mesmo as soluções 1 (a solução não-intencionalista, que fala apenas de reflexos e de estados de espírito) e 7 (a solução faz-de-conta, que fala de quase-emoções), apesar de concluírem que não há emoções genuínas, pressupõem uma concepção cognitivista da emoção. Apenas a solução 4 (a solução anti-judicativa) não parte de uma concepção cognitivista da emoção, ainda que a ideia de intencionalidade não seja abandonada.

Já agora, um dos mais recentes defensores desta última perspectiva da emoção - das chamadas teorias do sentimento ou feeling theories of emotion - é o luso-americano António Damásio.

Philosophy AS


Desde ontem que ando a vasculhar este manual acabadinho de chegar à caixa de correio. Trata-se de um extenso (cerca de 450 pp) manual de filosofia para os níveis AS ingleses, um equivalente do nosso secundário com a diferença que para os ingleses os exames ainda fazem todo o sentido. O manual não foge muito à regra de concepção de um bom manual de filosofia, ainda que os títulos das secções sejam um pouco diferentes do habitual. A preocupação em usar uma linguagem clara mas rigorosa é levada a sério. Os esquemas são muito simples e o manual está cheio de pequenas notas nas margens, sem qualquer contradição com o que se está a dizer no corpo do texto. Se quisesse estabelecer uma diferença geral entre este manual e a maioria dos manuais de filosofia do ensino secundário português, é que este não recorre uma só vez aos princípios do «eduquês» na busca de adereços extrafilosóficos para adornar a filosofia. A vantagem desta opção é que a filosofia fica apresentada de um modo incrivelmente mais apelativo, sem as baralhadas do «eduquês». Eu usaria com prazer este manual nas minhas aulas. Para o completar foi criado um site com um imenso centro de recursos, desde documentos em PDF até interessantes Powerpoints. Além de servir o ensino trata-se de um livro que pode ser lido com prazer por qualquer pessoa interessada em saber discutir problemas filosóficos de modo mais organizado. O autor é professor da universidade de Londres.
Michael Lacewing, Philosophy AS, Routledge, 2008

16 de outubro de 2008

Cosmopolitismo

Gosto dos desafios que estimulem o leitor. Já li várias vezes um exemplo apresentado também na recente edição de Cosmopolitismo de Kwame Anthony Appiah, um filósofo que tenho vindo a gostar. Faço aqui uma pequena adaptação do exemplo, deixando as considerações dos leitores para a caixa de comentários. Ao passar junto de um rio vejo uma criança a afogar-se. Devo atirar-me à água e tirá-la de lá. Ficar com a roupa enlameada é insignificante comparando a vida em risco de uma criança. Mas quando recebo na caixa de correio um envelope para doar 100€ para à UNICEF que pode salvar 10 crianças, deito o envelope no lixo. Será este gesto imoral?

15 de outubro de 2008

O paradoxo da ficção


É frequente emocionarmos-nos quando lemos certos romances, vemos certos filmes ou peças de teatro. Por exemplo, sentimos pena de Ana Karenina, a personagem principal do célebre romance de Tolstoi, ao assistir ao seu destino trágico.

Mas isto é estranho, pois Ana Karenina não passa de uma personagem ficcional, e nós sabemos disso. Portanto, nada que justifique o nosso sentimento de pena aconteceu realmente. Sentir pena pelo destino trágico de Ana Karenina é mais ou menos o mesmo que chorar a morte de alguém que sabemos não ter morrido. Ora, isto tem algo de paradoxal. Os filósofos da arte chamam a isto o «paradoxo da ficção».

O paradoxo da ficção pode ser expresso nas seguintes três afirmações aparentemente verdadeiras do ponto de vista intuitivo:


1. Os leitores (ou as audiências) por vezes sentem emoções tais como medo, pena, desejo e admiração acerca de acontecimentos e personagens ficcionais.

2. Uma condição necessária para sentir tais emoções é as pessoas que as sentem acreditarem que os objectos das suas emoções existem.

3. Os leitores (ou as audiências) que sabem que esses objectos são ficcionais não acreditam que tais objectos existem.

Mas sucede que estas proposições são inconsistentes, o que significa que não podem ser todas verdadeiras. Como podemos, de facto, sentir pena pelo destino de alguém, quando temos consciência de que esse alguém não passa de uma personagem ficcional e que, por isso mesmo, não existe realmente?

Têm sido propostas várias estratégias para evitar este paradoxo. Qual é a sua ideia?

Desidério Murcho: Incompletude, de Rebecca Goldstein

Gödel (1906-78) foi o mais importante lógico do séc. XX. O seu teorema da incompletude da aritmética pôs fim ao sonho empirista e formalista dos positivistas. Mas o verdadeiro alcance das suas ideias foi tranquilamente ignorado praticamente até hoje. Gödel demonstrou que a ideia de que a matemática é apenas um jogo de símbolos é falsa. E com este teorema refutou também a epistemologia positivista, que pretendia reduzir o conhecimento a priori ao conhecimento da linguagem. De uma só vez, Gödel abria as portas ao racionalismo e à ideia de que o conhecimento da matemática não é meramente um conhecimento linguístico; a razão humana, sussurra o teorema de Gödel, é fonte de conhecimento substancial. [Ler mais...]

Dúvida Metódica

Acabei de adicionar uma nova ligação para um blog de filosofia verdadeiramente surpreendente, pela positiva: Dúvida Metódica (via Telegrapho). Parabéns aos autores!

Empregos e competências

Via Domingos Faria, acabo de ler este artigo no Guardian.

Fiona Czerniawska refere "a capacidade para ser muito analítico, para oferecer um pensamento claro e inovador, e para pôr em causa pressupostos" como algumas das habilidades que tornam os graduados em filosofia apetecíveis para os empregadores. 

Isto está muito longe do tipo de habilidades que me foram transmitidas enquanto estudante de Filosofia em Lisboa. As habilidades que me foram ensinadas sub-repticiamente incluiam a mentira erudita — fingir que se sabia o que não se sabia, que se tinha lido o que não se tinha lido e que se dominava as línguas que não se dominava, como grego e o alemão — o lodo gramatical e a inesgotável capacidade para dar voz aos mais tolos preconceitos do nosso tempo mas com uma léxico garrido e muitas citações de mortos. 

Evidentemente, isto não é nem intrinsecamente interessante, nem apetecível para os empregadores. Saber raciocinar com rigor, saber pôr em causa e discutir os preconceitos do nosso tempo ("tudo é relativo", "a verdade é uma construção", "não se pode saber se existe Deus", "a ciência baseia-se na verificação", etc.) é muito importante não apenas por ser apetecível para os empregadores, mas porque é importante, sem mais.

14 de outubro de 2008

O que é a filosofia analítica?

Steven D. Hales publicou na NDPR uma boa recensão do livro What is Analytic Philosophy?, de Hans Johann-Glock. Entre as ideias erradas sobre a filosofia analítica que Hales denuncia está a estranha mania de dizer que os filósofos analíticos não prestam atenção à história da filosofia. Hales fornece vários contra-exemplos óbvios, como Russell ou Chisholm, mas falta acrescentar que em muitos dos chamados filósofos continentais não se encontra qualquer interesse na história da filosofia: é o caso de Derrida, Husserl ou Deleuze; apesar de terem escrito sobre filósofos do passado, quando escrevem a sua própria filosofia não estão propriamente o tempo todo a dar atenção à história da filosofia. 

Reforma terminológica


Uma expressão é insultuosa desde que quem é classificado com essa expressão a sinta como um insulto. Este parece-me um bom princípio de civilidade. Acontece que muitos colegas sentem a expressão "filosofia continental" como insultuosa, mas não sentem que chamar-me a mim filósofo analítico, redutor e logicista, é insultuoso. De modo que para obviar a este problema de civilidade proponho uma reforma terminológica. Aos analíticos poderíamos passar a chamar anal-retentivos. E aos continentais poderíamos passar a chamar umbigo-diarrentos. Que tal?

Dicionários portáteis


Aproveito a ideia do Desidério para dar uma outra sugestão. Uma das dificuldades maiores no acesso a bons livros é a leitura em inglês. O método que usei para ler nessa língua provavelmente não é o melhor de todos, mas tem dado bons resultados. Por uma questão de economia de tempo e dinheiro para ler em inglês comecei por comprar uma boa gramática, mas rapidamente deixei de lado o estudo. O melhor mesmo foi comprar um ou dois livros bem referenciados em termos de escrita e começar a ler, muitas das vezes, sem perceber nada do que estava a ler. A dificuldade seguinte está em ler com um dicionário volumoso ao lado. Enquanto seguia o texto e recorria ao dicionário perdia o fio à meada e a tarefa parecia-me cada vez mais impossível. A solução apareceu com uma pen tradutora que me tem facilitado muito o trabalho. O que nos põe a ler a língua inglesa é o exercício aturado da leitura, mas a pen é um bom auxiliar. Funciona com um pequeno scanner na ponta, com um nível de eficácia muito elevado, que fazemos rodar sobre a palavra que queremos ver traduzida e a tradução aparece automaticamente num pequeno ecrã. Dependendo dos modelos a pen vem acompanhada de um pequeno auricular que permite ouvir a pronunciação das palvras num inglês correcto. Pode-se instalar na pen mais de 30 dicionários. Não me recordo onde comprei a minha pen, mas é fácil encontrá-la à venda em muitos sites. Nunca encontrei esta pen no mercado nacional, mas sei que já se vendeu por cá. Também sei que se vende uma em Portugal, mas que não é portátil já que tem de ser ligada a um pc. O melhor mesmo é visitar o site do fabricante e ver os modelos disponíveis.

13 de outubro de 2008

A sacrossanta autoridade universitária


A propósito do meu post Filosofia e Humor houve um leitor que manifestou a sua opinião, dizendo que não só esse post, mas o próprio blog, não passam de um exercício de «botaabaixismo». Parte do post falava sobre a encenação de profundidade intelectual que pude observar enquanto passei pela universidade e que se reflecte em muitos do que passaram por lá e ficaram definitivamente marcados por isso.

Esta minha opinião vem pôr em causa a imagem algo acrítica e idílica do ambiente universitário português e, sobretudo, põe em causa a autoridade que a universidade representa. Aos olhos de muitos é como se estivesse a dizer que, aparte o seu valor formal, muitos de nós bem podíamos deitar os nossos diplomas de licenciatura ao lixo. Em rigor, não é bem isso que quero dizer. Mas se fosse? É impossível que isso tenha acontecido? Porquê? É bom exercer algum sentido crítico também em relação ao que nos diz respeito.

A verdade é que eu sou dos que têm em casa um desses diplomas e tenho de dizer que saí da faculdade quase ignorante, em termos filosóficos. Por que razão hei-de ter vergonha de dizê-lo? Não quero com isto dizer que não tenha tido um ou outro bom professor. E tive mesmo alguns professores que, não sendo brilhantes (nem tinham de o ser), eram honestos e esforçados no seu trabalho. Mas o resto (que foi muito) foi para esquecer.

Ora, dizer isto só parece escandaloso porque se está a pôr em causa a sacrossanta autoridade, à sombra da qual fomos muitas vezes adormecendo. Mas o mundo, incluindo as nossas universidades, estão cheias de falsas autoridades e é avisado pensar duas vezes antes de embarcar na conversa da autoridade.

Um tipo de comentário muito frequente entre estudantes de filosofia era que o professor X era um grande especialista no assunto Y. Dava a ideia que a faculdade estava cheia de especialistas em muitas coisas. Há tempos disse-me uma colega que o professor Pedro Paixão, da Universidade Nova, era um grande especialista em Wittgenstein. Eu, que não conheço Pedro Paixão a não ser dos seus romances, perguntei quais os livros que escreveu sobre Wittgenstein. E quais os artigos que publicou nas revistas especializadas? E que livros sobre Wittgenstein o citam? Na biografia de Ray Monk, por exemplo, nunca se refere Pedro Paixão, apesar de se referir tantos outros autores. E que outros especialistas em Wittgenstein referem Pedro Paixão? E em que colóquios e conferências internacionais sobre Wittgenstein Pedro Paixão tem participado? A colega não sabia responder a qualquer uma destas perguntas, mas acreditava que se tratava de um especialista em Wittgenstein. Tratava-se, portanto, de um especialista que ninguém da área conhecia e que nunca publicou algo relevante sobre o assunto.

Provavelmente, além de uma pessoa inteligente, Pedro Paixão é um excelente professor e é bastante bom a ensinar Wittgenstein. Mas está longe de ser especialista em Wittgenstein. Se Pedro Paixão é um especialista em Wittgenstein, por que razão não serei eu também especialista em Wittgenstein... na minha rua?

Isto faz-me lembrar uma piada que li nos últimos dias, precisamente no livro de Catchcart e Klein, que elogiei no meu último post. É sobre o recurso falacioso à autoridade e reza assim:
Um homem entra numa loja de animais e pede para ver os papagaios. O
proprietário mostra-lhe dois papagaios lindos que estão na loja.
- Este custa cinco mil dólares e o outro dez mil - diz.
- Uau! - exclama o homem. - Que faz o de cinco mil dólares?
- Este papagaio sabe cantar todas as árias de Mozart - diz o propietário da
loja.
- E o outro?
- Canta todo o ciclo de O Anel de Wagner. E tenho outro papagaio nas
traseiras que custa trinta mil dólares.
- Santo Deus! Que faz ele?
- Nada que eu tenha ouvido, mas os outros dois chamam-lhe «Maestro».

Pergunta do dia

Será que a Arte da Fuga de J. S. Bach (ou qualquer outra composição musical) tem partes temporais? Haverá algum sentido em que a composição musical difere de qualquer outro objecto persistente, no que à pergunta anterior diz respeito?

Ao que parece, a composição musical não pode existir inteiramente em cada momento da sua execução. Há aqui a sensação de que o induracionismo não funciona, o que não parece tão claro no caso de outros objectos persistentes, como canetas ou pessoas. Ou não? Talvez a composição musical não seja o mesmo que a sua execução. Mas nesse caso, o que é?

Livros sentados

Não é fácil encontrar em Portugal ou no Brasil suportes permitam segurar os livros enquanto tiramos citações para o nosso trabalho ou enquanto traduzimos. Por isso resolvi divulgar este site, que vende suportes que em Londres se podem comprar em praticamente qualquer livraria. Eu tenho um em casa e outro na universidade, pois não passo sem eles. Tanto o mini como o médio são de bom tamanho para livros normais, até umas 500 páginas. Estes são os dois modelos que uso.

Entretanto, uma pesquisa na Internet mostra outros modelos que nunca usei, pelo que não sei se funcionam bem: BookGem e BookHug.

Eduardo Dayrell: A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas S. Kuhn

A Estrutura das Revoluções Científicas, de Thomas Samuel Kuhn (1922–1996), é uma das obras mais influentes em filosofia da ciência; menos pela solidez de seus argumentos do que pelo elevado número de divergências e debates que tem causado. Originalmente publicado em 1962 e traduzido para mais de vinte línguas, este livro constitui uma das principais fontes de argumentos para quem defende o relativismo epistêmico e científico. Opõe-se, principalmente, ao conjunto de crenças compartilhadas pelos filósofos do Círculo de Viena e seus sucessores. Sobretudo, o debate com Karl Popper (1902–1994) e Imre Lakatos (1922–1974) foi intenso. [Ler mais...]

12 de outubro de 2008

Filosofia e humor

Uma das coisas que na primeira década do século passado Bertrand Russell discutiu no ensaio On Denoting foi a semântica de afirmações como «O actual rei de França é calvo». Será a afirmação verdadeira ou será falsa? Ficou célebre o seu comentário de que para os hegelianos, tão dados a sínteses dialécticas, o problema tinha uma solução óbvia: ele usava peruca.

Russell usava uma prosa simples, elegante e sem adornos desnecessários (nada que se pareça com a bolorenta tradução portuguesa de Problemas da Filosofia, de António Sérgio). E, quando se justificava, não evitava uma pitada de humor no que dizia e escrevia. Só descobri isto, com alguma surpresa, muito depois de terminar o meu curso de filosofia. Até parecia que não se tratava de um filósofo a sério!

Quando estudei filosofia na universidade, o humor era um sinal inequívoco de superficialidade filosófica. O verdadeiro candidato a filósofo tinha de ter um ar taciturno e devia estar permanentemente concentrado no problema do esquecimento do Ser, o que exigia algum treino e um certo número de adereços. Vestir desleixadamente roupa escura, calçar botas de camurça, fumar um cigarrito pensativo e ver filmes sem história também podiam contribuir para entrar mais facilmente na clareira do Ser. E, claro, falar de sobrolho franzido e olhos semi-cerrados, como quem está a escavar o cérebro à procura de minério, também ajudava a compreender melhor que o Homem é um ser para a morte. Rir estava completamente fora de questão. Um sorriso condescendente ainda se tolerava. Mas rir com vontade é que não! Pior do que isso só as anedotas. A verdadeira face do filósofo, dura austera e sisuda, estava estampada na capa de um dos últimos volumes da História da Filosofia, de Nicola Abbagnano: era a face carrancuda de Martin Heidegger.

Esta ideia da filosofia não é, pelos vistos, exclusiva das universidades portuguesas. Estive na semana passada num encontro de trabalho com professores de vários países europeus e duas colegas espanholas, professoras de línguas, manifestaram grande surpresa quando descobriram que eu era professor de... Filosofia. Porquê? Porque eu mostrava apreciar uma boa piada, pois ria bastante e com vontade. Disseram-me que os colegas de Filosofia delas estavam quase sempre absortos nos seus pensamentos, ocupados que estavam com problemas que davam mais para a angústia do que para o riso. Bom, talvez os seus colegas de filosofia fossem simplesmente todos existencialistas.

Vem tudo isto a propósito de quê? Da relação entre filosofia e humor e do livro Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar..., de Thomas Catchcart e Daniel Klein. Algumas pessoas podem olhar com desdém para este livro e achar que é indigno do verdadeiro espírito filosófico. Mas convém não ter preconceitos e manter a boa disposição, dado que nem só de clareiras do Ser se alimenta a filosofia.

A verdade é que o livro nos permite dar umas boas garagalhadas. E muitas dessas gargalhadas são a manifestação de um verdadeiro insight filosófico. De tal modo que, para rir, é frequentemente preciso ter algumas noções prévias acerca das questões filosóficas aludidas pelos autores. Não se trata de um livro de filosofia. Quem quer aprender filosofia tem de procurar noutro lado. Mas pode-se aprender mais filosofia com este livro de piadas filosóficas do que em muitos livros de filosofia que estagiam nas prateleiras das livrarias portuguesas. Muitas das piadas funcionam como contraexemplos caricatos a posições filosóficas genericamente apresentadas e como argumentos por redução ao absurdo. Se, num caso ou noutro, se nota que a relação entre a filosofia e as piadas é algo forçada, isso não acontece na maior parte dos casos. Além disso, os autores mostram ter uma sólida e actualizada formação filosófica (apesar do erro de palmatória na caracterização dos argumentos dedutivos) e uma imaginação prodigiosa para inventar situações filosoficamente hilariantes.

E isto também faz falta para estimular o espírito crítico e para mostrar que a filosofia é uma coisa de seres humanos e não apenas de zombies.

Saídas profissionais

Um leitor pediu-me que publicássemos algo sobre o problema da empregabilidade, em Portugal, dos licenciados (bacharéis, no Brasil) em filosofia. Na verdade, temos na Crítica, desde há alguns anos, um artigo de António Paulo Costa que continua perfeitamente actual: "A Empregabilidade do Licenciado em Filosofia em Portugal".

A este artigo eu apenas acrescentaria o seguinte: a formação dada por algumas universidades portuguesas é por vezes inadequada porque se baseia numa concepção aristocrática da filosofia, segundo a qual esta consiste fundamentalmente numa espécie de cultura geral obnubilada para ocupar tempos livres de ricos. Consequentemente, nada se ensina que tenha qualquer tipo de aplicação excepto como ocupação de tempos livres de ricos — o que evidentemente não cativa empregadores. As competências normais da filosofia — capacidade argumentativa e de análise, resolução criativa de problemas difíceis, clareza e precisão de raciocínio — cativam empregadores noutras partes do mundo, mas em Portugal são por vezes vistas como redutoras. E são: reduzem a filosofia ao que ela sempre foi historicamente, e afastam-na da concepção aristocrática que as classes sociais endinheiradas têm dela.

11 de outubro de 2008

Dworkin em português, de Matheus Silva

Ronald Dworkin é um dos filósofos do direito mais importantes da atualidade. É conhecido principalmente por sua crítica à Jurisprudência Positivista, que trata o direito como um conjunto de regras passíveis de análise independentemente da moralidade. Dworkin argumenta que isto é um engano, pois a distinção entre fatos e valores no domínio legal, entre o que o direito é de fato e o que o direito deveria ser, é mais imprecisa do que a Jurisprudência Positivista supõe. Deste modo torna-se impossível determinar o que o direito é em casos particulares sem recorrer a considerações morais e políticas sobre o que deve ser. Além disso, Dworkin sustenta que as decisões jurídicas adequadas se baseiam na melhor interpretação moral possível das práticas em vigor em uma determinada comunidade. [Mais...]

Era melhor nunca ter sido



Um dos aspectos irritantes da filosofia é o facto de pôr em causa as nossas convicções mais arreigadas. Isto é de tal modo irritante que muitas pessoas pensam que a filosofia serve, ao invés, para sancionar as nossas convicções mais arreigadas através de um palavreado autoritário de suposta densidade teórica.

A OUP (Oxford University Press) publicou em Julho deste ano o livro Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence, de David Benatar (Universidade da Cidade do Cabo). Neste livro, o autor defende quatro teses inter-relacionadas e difíceis de engolir:
  1. Passar a existir é sempre um grande mal;
  2. É sempre errado ter filhos;
  3. É errado não abortar fetos o mais cedo possível;
  4. Seria melhor que a humanidade se extinguisse em resultado de não existirem mais crianças.
Não sei se o autor consegue defender bem estas ideias, mas o simples facto de as defender é bom, pois obriga a pensar outra vez no preconceito de que a vida humana é intrinsecamente valiosa. Para que esta ideia deixe de ser um preconceito, é preciso justificá-la com argumentos cogentes, mas se não formos obrigados a fazer isso por causa de livros como este, nunca o faremos. E, se não formos capazes de o fazer, mais vale aceitar que a vida humana não tem mesmo valor intrínseco em vez de fingir que o tem só porque queremos antropocentricamente defender o nosso valor.

9 de outubro de 2008

Camus e interdisciplinaridade

Camus, de David Sherman (Blackwell, 2008, 232 pp.) e Interdisciplinary Core Philosophy, org. por Ernest Sosa e Enrique Villanueva (Blackwell, 2008, 200 pp.) são as últimas duas novidades apetitosas que me chegaram desta editora.

7 de outubro de 2008

Neil Levy

Se vamos desempenhar um papel no plano que Deus preparou para nós, e que Ele poderia levar a cabo sem a nossa ajuda, como dá isso sentido às nossas vidas? As vidas das crianças não ganham sentido quando desempenham um papel em projectos cuidadosamente pré-estabelecidos para eles pelos adultos.

6 de outubro de 2008

Coisas do conhecimento e da metafísica


What is this Thing Called Knowledge?, de Duncan Pritchard. Routledge, 2006, 200 pp.
What is this Thing Called Metaphysics?, de Brian Garrett. Routledge, 2006, 192 pp.

Guia de estética


O Blackwell Guide to Aesthetics, org. por Peter Kivy, foi recentemente publicado pela Paulus no Brasil com o título Estética: Fundamentos e Questões de Filosofia da Arte (440 pp.). Trata-se de dezoito ensaios sobre diversos aspectos da estética e filosofia da arte contemporâneas, da autoria de alguns dos mais importantes filósofos da área: Paul Guyer escreve sobre a história da estética moderna, Dickie sobre a definição de arte, Thomasson sobre a ontologia da arte, Goldmann sobre a crítica de arte, Carroll sobre a relação entre o realismo em arte e na moral, Mothersill sobre a beleza, Lamarque e Olsen sobre a filosofia da literatura, Margolis sobre as belas-artes e Wolterstorff sobre as relações entre arte e religião. Outros autores abordam ainda a tragédia, o cinema, a música, a dança, etc. Trata-se de um excelente instrumento de trabalho para estudantes de graduação ou mestrado que se interessem pela área. Espero que a tradução seja boa.

Mestrado em estética e filosofia da arte


Estão abertas as inscrições para o Mestrado em Estética e Filosofia da Arte da UFOP, de 2 a 24 de Outubro de 2008. Para inscrever-se, os interessados devem comparecer no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC) com o formulário preenchido, comprovante de pagamento da taxa de inscrição, certificado de conclusão de curso, histórico escolar, currículo, carteira de identidade, CPF e projeto de pesquisa. O endereço é Rua Coronel Alves, 55, Ouro Preto - MG. Mais informações por e-mail. Consulte o edital (PDF) e formulário de inscrição (PDF).

UNIFRA

Estarei na UNIFRA para dar uma palestra sobre o ensino da Filosofia e um minicurso de lógica, nas próximas quarta e quinta-feira, dias 8 e 9 de Outubro de 2008.

5 de outubro de 2008

Raciocínio crítico


Critical Reasoning: A Practical Introduction, de Anne Thomson. Routledge, 3.ª edição, 2008, 240 pp.

Susan Wolf

Dado que habitamos, cada um de nós, um mundo cheio de valor independente dos nossos eus individuais, viver de maneira a conectarmo-nos inequivocamente e a proteger alguns valores que não são subjectivos harmoniza-se melhor com a nossa situação objectiva do que uma vida cujas ocupações principais só possam ser subjectivamente defendidas.

4 de outubro de 2008

Os empiristas britânicos


The British Empiricists, de Stephen Priest. Routledge, 2007, 352 pp.

Filosofia já


Está já em circulação um novo número da revista de filosofia Philosophy Now. Neste número temos para ler um destaque sobre Simone de Beauvoir (trata-se do número 69 da revista) e a segunda parte da autobiografia de Daniel C. Dennett, entre outros artigos de interesse.

3 de outubro de 2008

M. S. Lourenço

Encarar o ensino da Filosofia como um contrapeso que a cultura humanística apõe à formação chamada científica ou tecnológica é conferir-lhe um carácter ancilar, recaindo na concepção amadorista da Filosofia segundo a qual um engenheiro ou um farmacêutico devem compensar a estreiteza da sua formação desenvolvendo a capacidade de produzir juízos interessantes acerca de temas gerais como «concepções modernas do espaço e do tempo. A matéria. A vida», por exemplo. Um bom humanista ou um bom engenheiro não precisam de ser compensados de coisa nenhuma. Se, além de serem uma coisa ou outra, querem aprender Filosofia, essa atitude deverá resultar da sua curiosidade intelectual por outra disciplina, submetendo-se às exigências que a aprendizagem dessa disciplina implique. Portanto a ideia de que a Filosofia deve compensar a formação dos especialistas parece-me destituída de sentido.