30 de novembro de 2008

O melhor de 2008

Respondendo à sugestão do Rolando, aqui vai a minha lista dos melhores livros de filosofia publicados em Portugal neste ano de 2008 (era bom que o mês que falta para o ano terminar trouxesse boas surpresas neste campo, mas isso não costuma acontecer).

A lista inclui apenas um livro de autores portugueses, pois é o único que conheço (ainda não li o livro do Pedro Galvão, pelo que não me posso pronunciar, se bem que tenha muito boas razões para acreditar que deve ser filosofia de excelente qualidade).

Dada a escassez de bons livros de filosofia publicados no nosso país, a lista que elaborei deve ser algo relativizada: alguns deles só aparecem na lista por falta de competição. A lista não está ordenada de forma rigorosa, mas os que considero mais importantes estão nos primeiros cinco.

1. Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (Ed. 70, trad., introd. e notas de Desidério Murcho).
Este é um clássico que já estava a merecer uma tradução que fizesse jus ao estilo de Russell e à subtileza filosófica que o caracteriza. A introdução e as notas do Desidério ajudam muito nesse sentido. Ao comparar esta tradução com a bolorenta tradução de António Sérgio, até parece que estamos a falar de livros diferentes.

2. George Dickie, Introdução à Estética (Bizâncio, trad. de Vitor Guerreiro).
Uma excelente introdução à estética e filosofia da arte, escrita por um dos mais destacados filósofos da arte e com uma tradução muito cuidada e rigorosa do Vítor. Dickie aproveita também para apresentar algumas das suas próprias ideias, dado que estas têm sido amplamente discutidas na filosofia da arte contemporânea.

3. Alexander George, Que Diria Sócrates? (Gradiva, trad. de Cristina Carvalho).
Respostas de filósofos profissionais a pessoas comuns sobre praticamente todos os grandes temas da filosofia. É um livro muito acessível, sem prescindir do rigor filosófico.

4. Peter Singer, Escritos Sobre uma Vida Ética (Dom Quixote, trad. de Pedro Galvão, Teresa Castanheira e Diogo Fernandes).
Mais um livro de um dos grandes nomes da ética contemporânea, no qual se compilam alguns dos textos mais importantes de Peter Singer. A tradução está à altura do autor.

5. Gareth Matthews, Santo Agostinho (Ed. 70, trad. de Hugo Chelo).
Uma excelente discussão da filosofia de Santo Agostinho, à luz da discussão filosófica actual. Surpreendente.

6. Daniel Dennett, Quebrar o Feitiço - A Religião como Fenómeno Natural (Esfera do Caos, trad. de Ana Saldanha).
Não se trata do melhor Dennett (a primeira parte é escrita a pensar principalmente no grande público americano, mais dado a grandes emoções quando se trata de discutir questões sobre religião), mas Dennett raramente decepciona e vale sobretudo pela sua leitura naturalista da história da religião.

7. João Cardoso Rosas (org.), Manual de Filosofia Política (Almedina).
Um exemplo que muitos filósofos e académicos portugueses deviam seguir. Este manual é constituído por diversos ensaios de investigadores e filósofos portugueses, alguns deles bastante jovens. Os ensaios não têm todos o mesmo nível, mas o nível geral é bastante bom. Destaco os textos do organizador, João Rosas (da Universidade do Minho), e de Pedro Galvão (da Universidade de Lisboa). Além disso trata-se de um manual de filosofia política contemporânea, o que é de saudar.

8. George Orwell, Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Antígona, trad. de Desidério Murcho).
Não é bem um livro de filosofia, mas há lá mais filosofia do que em alguns livros de filósofos badalados. Se a filosofia é a avaliação crítica dos nossos preconceitos, então este livro transpira filosofia a cada página.

9. Karl Popper, Busca Inacabada - Autobiografia Intelectual (Esfera do Caos, trad. de João Duarte).
Popper explica-se a si mesmo. Interessante.

10. Thomas Cathcart, Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar…. (Dom Quixote, trad. de Isabel Veríssimo).
Um livro divertido e inteligente, que brinca com algumas das nossas intuições filosóficas. É pena a tradução ser bastante descuidada.

2008 - Os melhores


Estamos praticamente a findar mais um ano, o de 2008. Não nos prende razão especial alguma para assinalar esta convenção, mas é uma boa altura para fazermos o balanço de actividades. Uma coisa que resolvemos fazer é a nossa lista dos melhores livros de filosofia do ano de 2008. Cada um dos colaboradores do blog apresentará a sua lista, mas o blog é também o apêndice da revista Crítica onde a interactividade com os leitores é possível de modo que convidamos os nossos leitores a enviar-nos as suas listas que teremos gosto em publicar em post no blog. Precisamos apenas da lista sem que esteja sujeita a quaisquer regra restritiva e do nome do autor de cada lista. Ficamos a aguardar e enquanto isso vamos nós próprios pensando nos livros de filosofia que mais nos entusiasmaram durante o ano que agora termina.
Enviem as vossas listas para: rolandoa@netmadeira.com

29 de novembro de 2008

Kant vem aí

Excelentes notícias para breve sobre Kant, por Pedro Galvão. Tenho a certeza de que vou passar a ter um décimo do trabalho que tinha ao ler Kant.

28 de novembro de 2008

Indução e filosofia da ciência, de Stephen Law

A filosofia da ciência é uma das mais velhas subdivisões da filosofia, remontando pelo menos a Aristóteles. Está hoje em rápido crescimento, uma vez que os grandes avanços científicos do último século têm levado os filósofos a pensar mais cuidadosamente sobre a ciência. Estes filósofos poderão vir a influenciar o futuro da ciência. Ler mais...

Pós-graduação lato sensu em Filosofia


Estão abertas as inscrições para o curso de pós-gradução lato sensu em Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto. O curso oferece uma qualificação intensiva de nível superior, de caráter informativo e reflexivo, sobre os problemas, teorias e argumentos da filosofia antiga, moderna e contemporânea. Os destinatários são graduados em áreas afins e professores da rede pública e privada das áreas de Ciências, Humanas e Artes. Ultimamente temos tido uma afluência particularmente feliz de professores de filosofia do ensino médio que procuram actualizar os seus conhecimentos.

Carga horária: 360 horas. Número de vagas: 30. O curso decorre em dois meses apenas: Janeiro e Julho, em regime intensivo nos dois meses, de segunda a sexta-feira, das 08 às 12h e das 14 às 18h.

O curso decorre no centro da cidade histórica de Ouro Preto, MG, no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura, que alberga o Departamento de Filosofia da UFOP. Mais informações...

desafio aos leitores

Esbarrei aqui numa "aporia" da tradução.

Tenho a expressão "pushing one's buttons", que explicado contextualmente, significa algo do género: quero ir ao cinema com Fulano, que não tem vontade de sair de casa. Sei que Fulano tem uma inveja danada de Sicrano e uma forte compulsão a imitar tudo o que Sicrano faz. Então digo-lhe: "Eh , Sicrano disse-me que foi ontem ver o filme tal-e-tal, não queres vir?"

Pronto, "premi os botões certos" para obter uma reacção psicológica (e física) que pretendo, da parte de Fulano.

À partida os candidatos óbvios em português são: "puxar os cordelinhos" ou "tocar na ferida". Mas isto não funciona porque se pode "puxar os cordelinhos" sem estar a manipular psicologicamente (por exemplo, manipulação política ou financeira, em que o manipulado está perfeitamente conscicente do que lhe fazem mas não tem alterantiva). Por outro lado "tocar na ferida" tem um significado demasiado restrito, de "tocar nos pontos sensíveis" e há contextos em que "pushing one's buttons" se aplica mas "tocar na ferida" não. Por exemplo: usar palavras com o intuito de provocar excitação sexual dificilmente se pode descrever como "tocar na ferida". Se houver "toques" de certeza que não será em feridas.

Ao leitor que deixar a melhor sugestão oferece-se... a gratidão eterna e um possível café. :-)

26 de novembro de 2008

Determinismo



Se o determinismo fosse verdadeiro, tal que todas as acções estivessem fixadas desde o momento inicial do universo pelas leis da natureza, estaria a moralidade posta em causa? Seria Hitler moralmente equivalente a Gandhi, na medida em que ambos foram determinados para agir como agiram? Deve esta constatação afectar a indignação que sentimos por pessoas «imorais»?

R
PETER LIPTON: É uma grande questão, mas vou contar-lhe apenas uma história familiar a aos filósofos que trabalham nesta área. Um homem é acusado e condenado por ter cometido um crime, sendo-lhe permitido fazer um pequeno discurso antes de ser decidida a sentença. Ele admite ter cometido o crime, mas alega ser não só criminoso, como também filósofo, um filósofo que está plenamente convencido da verdade do determinismo. Uma vez que tudo o que faz é determinado por causas que decorreram antes de ele próprio ter nascido, segue-se que não poderia ter feito outra coisa que não cometer o crime, o que faz com que, seguramente, não mereça ser punido. A juíza, tendo ouvido atentamente estas palavras, confessa ter, também ela, uma inclinação filosófica e que, à semelhança do criminoso, é também uma determinista. Como tal, não pode deixar de o punir.
Quando consideramos as relações entre determinismo e responsabilidade, a nossa tendência é não sermos totalmente consistentes. Assim, podemos pensar que não devíamos punir criminosos, que não nos devíamos indignar com eles. Qual é, porém, a «força» deste «não devíamos», tendo em conta que nós também somos determinados? Limitamo-nos simplesmente a fazer o que fomos determinados para fazer. Dado que não poderíamos agir de outra maneira, «devíamos» e «não devíamos» não parecem desempenhar qualquer papel.


Alexander George (org.), Que Diria Sócrates? Lisboa: Gradiva, 2008.


25 de novembro de 2008

A Filosoficamente oferece livros

Para assinalar o lançamento em Portugal de Introdução à Estética, de George Dickie, a Bizâncio resolveu oferecer três exemplares desta obra aos autores das três melhores respostas a esta pergunta: “O que é afinal uma obra de arte?”

Regras do passatempo: 1) o passatempo está aberto até às 00:01 do próximo dia 28, sexta-feira; o que conta é a data e hora do comentário; 2) o passatempo está aberto apenas aos residentes em Portugal, para onde o prémio será enviado gratuitamente pela Bizâncio; 3) sou eu que avalio as respostas, sem recurso, e escolho as três melhores.

A Filosoficamente é a nova aposta da Bizâncio na filosofia. A colecção publica obras de carácter introdutório e avançado sobre todas as áreas da filosofia. Inaugurada em 2007, publicou já livros de McGinn, Warburton, Pojman e Dickie.

23 de novembro de 2008

Joelson Santos Nascimento: Epicteto, Testemunhos e Fragmentos

Mais uma vez o Grupo de Pesquisa em Filosofia Clássica e Helenística, Viva Vox (DFL/UFS), agora em parceria com o Mnemosyne (DHI/UFS), Grupo de Estudos de História Intelectual e das Idéias, traz à baila o filósofo romano Epicteto. Após a tradução do Manual de Epicteto, temos a tradução bilíngüe (em grego, latim e em português do Brasil) dos fragmentos epictetianos apresentada neste opúsculo, organizado por Aldo Dinucci, doutor em filosofia clássica pela PUC-RJ e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Sergipe, e Alfredo Julien, doutor em História pela USP e professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Ler mais...

22 de novembro de 2008

Fazer filosofia é fazer coisas


Frequentemente sou confrontado com uma observação que me causa algum incómodo, a de que determinada pessoa até gosta de filosofia, mas que precisa de fazer algo mais prático e, em razão disso, prefere estudar psicologia ou medicina. A perplexidade que me causa este tipo de observação é só uma: é que escolhi estudar filosofia precisamente por me considerar uma pessoa muito prática. Penso que é bom procurar definir aquilo que estamos a pensar quando nos referimos ao que é e não é prático. No sentido comum em que esta afirmação é feita, a característica de “prático” não pode ser atribuída a quase nenhum saber. Por prático entendem as pessoas, “fazer coisas”. Ora, na filosofia aquilo que fazemos é pensar como fazer coisas, por exemplo, como fazer ciência na filosofia da ciência. Claro que enquanto estamos a pensar como fazer coisas, não estamos, na verdade, a fazer coisas. Mas o que cabe aqui perguntar é se é possível fazer coisas sem antes pensar como as fazer? Claro que é, mas tem de existir sempre alguém que pense como fazer coisas para que outros as possam fazer. Aqui a opção entre o que é prático e não prático faz sentido, mas é pouco razoável que alguém desvalorize a filosofia de forma completa só porque pensa que o melhor que tem a fazer na vida é “fazer coisas”. Para além disso aparece aqui uma questão mais metafísica: e pensar como fazer coisas não é em si fazer coisas? Eu defendo que sim, mas é verdade que a generalidade das pessoas pode não o considerar desse modo. Mas a minha hipótese é que fazer filosofia ou, pelo menos, pensar filosoficamente é fazer coisas e que, mexer nas coisas só é compreensível se nos for dada a possibilidade de pensar em como as mexer antecipadamente. Será a minha hipótese aceite pacificamente?

19 de novembro de 2008

Padres, revolucionários de esquerda e poetas lunáticos


Nunca mais me esqueço do que, há muitos anos, um colega mais velho de Matemática, entretanto reformado, me disse na sala de professores da escola onde ainda ensino. Esse colega era conhecido por assumir frequentemente uma atitude provocadora e até politicamente incorrecta, como agora se diz. Estava então eu a lamentar-me baixinho pelo facto de tantas pessoas pensarem que os filósofos são aqueles que procuram saber tudo sobre coisa nenhuma quando o colega se virou para mim e disse: «olha lá, pá, ainda não cheguei a perceber se tu és dos padres, dos revolucionários de esquerda ou dos pseudo-poetas lunáticos.» Leia mais aqui.

Um argumento de Alexandre Machado

Alexandre Machado, colega e amigo da UFBA, apresenta aqui um argumento simples e certeiro contra a ideia de que é possível defender um realismo robusto, como Quine quereria, e ao mesmo tempo defender a subdeterminação das teorias pelos factos (ou verdades observacionais, para fugir da metafísica dos misteriosos factos).

18 de novembro de 2008

A natureza da filosofia e o seu ensino, de Desidério Murcho

Neste artigo defende-se duas idéias principais. Primeiro, que compreender a natureza aberta e especulativa da filosofia é uma condição necessária para uma compreensão fecunda do seu ensino. E segundo, que para se ter uma compreensão fecunda do ensino da filosofia é necessário distinguir cuidadosamente as competências estritamente filosóficas da informação histórica, e a leitura filosófica ativa dos textos dos filósofos da sua mera compreensão. Ler mais...

17 de novembro de 2008

Mário Santos: Por Que Escrevo e Outros Ensaios, de George Orwell

George Orwell (1903-1950) é fundamentalmente recordado como autor de duas famosas alegorias políticas do século XX: os romances Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e A Quinta dos Animais. Mas foi também um fértil ensaísta (acolhendo aqui esta designação os mais variegados artigos jornalísticos). Foi sobretudo um comprometido publicista (como antigamente se dizia). Essa qualidade é evidente no volume que a editora Antígona acaba de publicar. Ler mais...

Popper e a verdade


Há dias estava eu de viagem quando apanhei alguém na rádio a dizer o seguinte: «como Popper mostrou, uma teoria científica é verdadeira até se provar que é falsa». Não é primeira vez que ouço alguém atribuir isto a Popper.

Trata-se, contudo, de uma grande incompreensão daquilo que Popper defende e Popper não poderia ter afirmado uma coisa tão manifestamente falsa. É daqueles comentários que revelam falta de subtileza filosófica e que consiste em tratar uma questão epistémica como se fosse uma questão metafísica. O que Popper defende é que temos boas razões para acreditar que uma teoria é verdadeira enquanto não se provar que ela é falsa, caso o tentemos fazer seriamente. Ora, ter boas razões para acreditar que P não é o mesmo que P ser verdadeiro. Popper nunca diria que a teoria geocêntrica foi verdadeira enquanto não se provou que era falsa. A teoria geocêntrica sempre foi falsa, mesmo quando acreditávamos justificadamente que era verdadeira.

Custa entender por que razão este tipo de confusão é assim tão persistente.


16 de novembro de 2008

O Básico da Filosofia, de Nigel Warburton


Tive uma boa surpresa ao passar pela livraria: a José Olympio acaba de publicar no Brasil o excelente O Básico da Filosofia, a que em Portugal dei o título Elementos Básicos de Filosofia. Trata-se de uma introdução muito simplificada à filosofia, ideal para o ensino médio (Brasil) ou secundário (Portugal). Infelizmente, a tradução agora publicada vem com atraso: é a tradução da terceira edição inglesa, ao passo que já saíu entretanto uma quarta edição, que deu origem à segunda edição portuguesa.

Na badana do livro afirma-se que a mesma editora publicou o Pensar de A a Z, do mesmo autor, mas deve ser um erro, pois não encontrei o livro no site do editor, nem nas principais livrarias. Presumo todavia que será publicado em breve.

15 de novembro de 2008

Promoção FNAC


As livrarias FNAC estão a fazer uma promoção aqui, vendendo Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell, por apenas 27,30 reais (o preço normal é de 39 reais). (Agradeço a Mário Nogueira a informação.)

13 de novembro de 2008

contra a psicofoda linguística

Hoje apresento uma proposta simples para obviar à manipulação mental tácita que se transmite através da linguagem, nem sempre conscientemente (aliás, na maioria dos casos não é consciente, creio). Hoje venho embirrar com uma palavrinha que há muito faz carreira no modo ideológico de oprimir o pensamento das pessoas, forçando-as a concordar implicitamente com coisas que elas, caso pensassem claramente no assunto e sem fantasmas na imaginação, jamais aceitariam. Essa palavrinha é a expressão "povo" e o seu plural, "povos".

Na sequência do texto do Desidério, sobre a linguagem mistificadora do "Outro", com que se transformam as pessoas em anúncios de uma etnia, credo ou instituição, venho aqui partilhar um hábito que adoptei há algum tempo: evito à força toda a palavra "povos" a menos que a omissão implique infidelidade gritante com o original. Ao invés, uso a palavra "população" e "populações". Passo a explicar.

Um "povo" remete precisamente para uma etiqueta, um anúncio de credo, instituição ou etnia, para os costumeiros berloques místico-nacionais que desumanizam as pessoas e as transformam em rótulos com pernas de uma religião. Veja-se o exemplo triste da ex-Jugoslávia, em que se pode nascer em Zagreb e ainda assim ser "sérvio": basta ser ortodoxo. Conversamente, pode-se nascer em Belgrado e ser "croata": basta ser católico. Já conhecemos sobejamente o que destas oposições tem saído ao longo dos anos. Faz-nos desejar que a próxima geração de miúdos pudesse crescer livremente sem apanhar com os popes de um lado e os padres do outro. Tão-pouco com os líderes demagógicos que prontamente se aliam aos primeiros.

Uma população é algo diferente. Numa população pode haver de tudo: alentejanos, americanos, ingleses, escoceses, croatas, sérvios, russos, ciganos, pretos, brancos, amarelos, travestis, transsexuais, vendedores de enciclopédias de meia-idade, jogadores de xadrez, filatelistas, poetas embriagados, professores de piano, tradutores armados em filósofos... enfim! É uma festa. A expressão "população portuguesa" ou a "população da Nova Zembla" (seja o que for) não remete para uma "ideia" de indivíduo, donde se retirou toda a individualidade e já só restam tolices nacional-religiosas ("o judeu", "o americano", o...", "o...") referências obscuras a um mítico paraíso perdido que em tempo algum existiu.

Assim: a menos que estejamos a traduzir um autor xenófobo, racista ou nacionalista, um platónico religioso ou um místico pós-moderno... Ponhamos de parte a palavra "povo" e usemos antes "população". Deixemos de ser "recursos humanos" de ideologias e tentemos ser pessoas, para variar.

11 de novembro de 2008

O Outro

A minha habitual crónica das terças-feiras do Público está aqui.

Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell

Está já à venda em Portugal (no Brasil está à venda desde Agosto, se não estou em erro) a minha tradução (com introdução e notas) deste saboroso livrinho de Bertrand Russell, originalmente publicado em 1912.

Agradeço ao editor das 70, Pedro Bernardo, o amável convite para fazer esta tradução, que tanto prazer me deu: traduzir um clássico de um dos maiores filósofos de sempre é um privilégio. Traduzi com muito carinho, e procurei explicar alguns aspectos mais profundos, na introdução, que está articulada com várias notas que espero sejam oportunas.

O livro de Russell permite duas leituras: como obra introdutória à filosofia e como obra de autor. É sobretudo quanto a este segundo aspecto que procurei apresentar alguns esclarecimentos.

O livro é excelente para quem quiser compreender o que é a filosofia, pois ao invés de Russell fazer listas algo anódinas das ideias dos outros, apresenta com vivacidade alguns problemas centrais da filosofia (sobretudo da teoria do conhecimento e da metafísica), explorando de seguida diversas tentativas de resposta, cuidadosamente argumentadas.

Russell é um autor muito inteligente e cheio de humor. Há uma passagem em que fala de um triângulo a jogar futebol que é inesquecível.

Espero que este trabalho seja útil para professores, estudantes e público em geral interessado em filosofia.

E fica aqui um agradecimento à Palmira e ao Carlos, que me ajudaram a escrever melhor uma passagem da minha introdução que refere as relações de Einstein com o éter. Agradeço também ao meu colega e amigo Sérgio Miranda, que prontamente se dispôs a traduzir do alemão o prefácio de Russell à tradução alemã desta obra.

Aqui encontra-se uma apresentação do livro e dois excertos.

10 de novembro de 2008

Logosfera


O Logosfera é um blog da autoria de Carlos Marques e Helena Serrão e que tem despertado a atenção, sobretudo pela quantidade de textos muito úteis ao ensino da filosofia e inéditos em língua portuguesa, traduzidos para o blog. É curioso que o panorama da blogosfera nos últimos tempos, para a filosofia, tem dado passos significativos, tirando da caverna muitos autores com qualidade.

Desobediência civil


O recurso à desobediência civil por parte dos professores é um cenário cada vez mais provável. A desobediência civil é, por definição, uma ilegalidade. Mas será que devemos obedecer a toda e qualquer lei? O Dúvida Metódica em boa altura lançou a discusssão. Vale a pena acompanhar e mostrar mais uma vez que a filosofia e os filósofos são fundamentais no esclarecimento e na discussão de problemas com consequências tão práticas como este.

Quem quiser seguir a discussão sobre como deviam os professores ser avaliados, pode ver o post de Carlos Pires, também no Dúvida Metódica.

Na imagem acima pode ver-se Bertrand Russell apelando à desobediência civil.

7 de novembro de 2008

Sugestão

Alguns leitores passaram pela má experiência de escrever um comentário com alguma articulação que, infelizmente, acabaram por perder porque a Internet ou o servidor falhou. A minha sugestão é que os leitores escrevam as respostas num processador de texto, como o Word ou outro, fazendo depois Copiar & Colar na caixa de comentários. É mais prático também porque o Word ou outro processador de texto que seja bom tem correctores ortográficos e outras ajudas que tornam a escrita mais rápida e eficiente, o que torna o processo de comentar mais rápido. Fica a sugestão!

6 de novembro de 2008

I Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP


O I Encontro Nacional de Pesquisa em Filosofia da UFOP é uma iniciativa dos alunos da graduação do curso de Filosofia e conta com o apoio do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura, do Departamento de Filosofia e da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O encontro ocorrerá entre os dias 10 e 14 de novembro de 2008 no IFAC, localizado na Rua Coronel Alves 55 Centro, Ouro Preto, Minas Gerais. O encontro reune graduandos, graduados e pós-graduandos, estimulando o debate filosófico e promovendo a interação entre universidades. O evento consiste em palestras ministradas por professores convidados, mini-cursos, debates sobre temas filosóficos e apresentações de comunicações em mesas redondas temáticas.

Calendário

Segunda-Feira, 10/11/2008

10:00 - Inscrições Finais
14:00 - Comunicações - ÉTICA 1
16:00 - Comunicações - METAFÍSICA 1
19:30 - Palestra: Necessidade, Factividade e Negação
Com o professor Desidério Murcho

Terça-Feira, 11/11/2008

10:00 - ÁGORA debates: Filosofia Analítica e Filosofia Continental
Com os professores Desidério Murcho e Imaculada Kangussu
14:00 - Comunicações - TEMAS DIVERSOS DA FILOSOFIA
16:00 - Comunicações - METAFÍSICA 2
19:30 - Palestra: Filosofia e Religião: uma religião humanística no século XXI
Com a professora Marta Luzie de Oliveira

Quarta-Feira, 12/11/2008

10:00 - Palestra: Imaginação em Kant
Com professor Hélio Lopes da Silva
14:00 - Comunicações - FILOSOFIA MODERNA
16:00 - Comunicações - ÉTICA 2
19:30 - Apresentação do Mestrado da UFOP

Quinta-Feira, 13/11/2008

10:00 - ÁGORA debates: Sobre a Verdade
Com o professor Olympio José Pimenta Neto
14:00 - Comunicações - LÓGICA
16:00 - Comunicações - EPISTEMOLOGIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA
19:30 - Palestra com professor Túlio Roberto Xavier de Aguiar

Sexta-Feira, 14/11/2008

10:00 - MESA REDONDA
Com os professores Rodrigo Duarte, Imaculada Kangussu e Douglas Garcia
14:00 - Comunicações - ESTÉTICA e FILOSOFIA DA ARTE
16:00 - Comunicações - FILOSOFIA POLÍTICA E TEORIA CRÍTICA

Mesas de comunicações

ÉTICA 1 (10/11)
Coordenador: Luiz Helvécio Marques Segundo

- Teoria Tridimensional do Direito de Miguel Reale: Roberto Rômulo Braga Tavares (IPTAN)
- Utilitarismo e sentimentos morais: Sagid Salles Ferreira (UFOP)
- Uma defesa da filosofia moral de Kant: Pedro Merlussi (UFOP)
- Sade e os princípios de natureza e moral na Filosofia Libertina: Paulo Fernandes Ribeiro de Souza (UFU)

METAFÍSICA 1 (10/11)
Coordenador: Mayra Moreira da Costa

- Das relações entre intuição, metafísica e ciência no pensamento de Henri Bergson: Aristeu Laurêncio Mascarenhas (UFSCar)
- A crítica de Nietzsche ao dualismo platônico: Natália de Andrade Pereira (Unimontes)
- Outrem deleuzeano como mundo possível: Ana Carolina Gomes Araújo (UFU)
- Sobre os argumentos de Kripke acerca da modalidade e da essencialidade: Iago Bozza Francisco (UFOP)

TEMAS DIVERSOS DA FILOSOFIA (11/11)
Coordenador: Ricardo de Oliveira Toledo

- A ordem do coração no pensamento de Blaise Pascal: Nilson Gonçalves de Oliveira (UFOP)
- Loucura e ceticismo: impossibilidade de conhecimentos absolutamente verdadeiros ou absoluto silêncio intelectual: Regis Cardoso (UNICAMP)
- Sócrates sofista, Machado de Assis filósofo? Alex Lara Martins (UFMG)
- O ethos filosófico em Baudelaire como atitude de modernidade segundo Michel Foucault: Rogério Luís da Rocha Seixas (UFRJ)

METAFÍSICA 2 (11/11)
Coordenador: Sagid Salles Ferreira

- Contra a negação da existência da verdade Rodrigo Reis Lastra Cid (UFOP)
- A correspondência entre linguagem e mundo no tractatus de Wittgenstein: Leandro Shigueo Araújo (UFU)
- Os Comprometimentos Ontológicos do Logicismo Fregeano em "Os Fundamentos da Aritmética": Henrique Antunes Almeida (UFMG)
- Estamos comprometidos com a existência de propriedades em nosso discurso acerca da realidade? Rodrigo Alexandre de Figueiredo (UFOP)

FILOSOFIA MODERNA (12/11)
Coordenador: Luiz Otávio

- A Noção de Substância em Descartes e Espinosa Jorge Quintas (UERJ)
- Hume e a "Ciência do Homem": questões epistemológicas no Tratado da Natureza Humana: Cristiano Moraes Junta (UFSCar)
- As diferentes formulações da dúvida cartesiana: Maíra de Souza Borba (UFMG)
- Kant e as Refutações do Idealismo Empírico: Fábio César da Silva (UFOP)

ÉTICA 2 (12/11)
Coordenador: Clarissa Ayres

- A educação estética e o desenvolvimento da moralidade: José Costa Júnior (UFOP)
- Como a "dívida" se torna "culpa": Vinícius Amaral Galvão de França Andrade (UNICAMP)
- Breve abordagem sobre a liberdade, a angústia e a má fé em Sartre: Danilo Gomes Ferreira (UFU)
- Subjetivismo, objetivismo e o sentido da vida: Fernando Fabrício Rodrigues Furtado (UFOP)

LÓGICA (13/11)
Coordenador: Matheus Martins

- Paradoxo do mentiroso e modelos de ponto fixo: Guilherme Araújo Cardoso (UFMG)
- São os paradoxos da implicação material realmente paradoxos? Renato Mendes Rocha (UFG)
- Lógica paraconsistente: Lógicas da inconsistência formal e dialetismo: Diego Amaro Varela (UNICAMP)
- A Vagueza da Linguagem Natural e os Paradoxos Sorites: Eduardo Dayrell de Andrade Goulart (UFMG)

EPISTEMOLOGIA E FILOSOFIA DA CIÊNCIA (13/11)
Coordenador: Iago Bozza Franscisco

- Hume e as objeções populares: Flávio Miguel de Oliveira Zimmermann (USP)
- O ser no espaço-tempo: Diego de Souza Avedaño (UFU)
- Causas e Efeitos: Problemas Atuais: Mayra Moreira da Costa (UFOP)
- Inferência, Justificação e Explicação: cutucando o coerentismo: Thiago Monteiro Chaves (UFMG)

ESTÉTICA E FILOSOFIA DA ARTE (14/11)
Coordenador: Fernando Pacheco

- Da totalidade como obra de arte à obra de arte como via possível: gnosiologia e filosofia da cultura em Georg Simmel: Vitor Sommavilla de Souza Barros (UFMG)
- A música como convite à regressão em Adorno: Felício Ramalho Ribeiro (UFMG)
- Gênio e imaginação em Kant: Danilo Citro (UNESP)
- O engano da indefinibilidade da arte: Thiago Barros Gomes (UFOP)

FILOSOFIA POLÍTICA E TEORIA CRÍTICA (14/11)
Coordenador: Thiago Reis Santos

- Fetichismo e reificação: a estrutura de dominação do capitalismo Vinícius dos Santos Xavier (Mackenzie)
- A apropriação do conceito de tolerância de John Locke no debate contemporâneo sobre a diversidade religiosa: Pedro Alex Rodrigues Viana (UFOP)
- Hannah Arendt e a geopolítica: Bruno Faria Gomes (CEFET-Campos)
- História como empreendimento de memória: a revolução copernicana de Walter Benjamim: Warley Souza Dias (Unimontes)

Organização

CAFIL
- Mayra Moreira da Costa
- Sagid Salles Ferreira
- Rodrigo Reis Lastra Cid
- Rodrigo Alexandre de Figueiredo
- Luiz Helvécio Marques Segundo
- Thiago Reis Santos
- Evando Aparecido Gasque

Apoios

DEFIL
IFAC
UFOP
ÁGORA Debates
Grande Hotel Ouro Preto

5 de novembro de 2008

O paradoxo dos corvos


O "Paradoxo dos Corvos", um dos mais conhecidos paradoxos da Teoria da Confirmação, será o tema da primeira MLAG Lecture (Mind, Language and Action Group) a realizar-se no Estúdio de Videoconferência da Universidade do Porto. Acontece já no próximo dia 7 de Novembro de 2008, pelas 17h30, no Edifício da Reitoria, à Praça Gomes Teixeira. O conferencista convidado é António Zilhão, da Universidade de Lisboa. A conferência será transmitida online. Mais informações...

1.º Workshop Luso-Brasileiro de Filosofia Analítica


1.º Workshop Luso-Brasileiro de Filosofia Analítica
Departamento de Filosofia da Universidade de Lisboa
Instituto Filosófico de Pedro Hispano

Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
LanCog: Language, Mind and Cognition Group

21 de Novembro de 2008

Departamento de Filosofia da FLUL
Sala Mattos Romão

09:00 -- Adriana Silva Graça, Universidade de Lisboa e LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Os Nomes da Ficção: Solução na Pragmática ou na Semântica?
Nesta apresentação, irei debruçar-me sobre qual a melhor solução para o problema
dos nomes vazios (em particular, dos nomes da ficção) não subscrevendo qualquer
forma de fregeanismo relativamente ao sentido de nomes próprios nem qualquer
versão da admissão de um terceiro reino de entidades. Irei discutir duas
alternativas viáveis, uma de índole semântica, outra de índole pragmática, ambas
as quais apelativas, analisando os seus custos e benefícios.
10:20 -- Marco Ruffino, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Componentes Proposicionais Não-Articulados

De acordo com Perry (1986, 1998), o proferimento de uma sentença pode expressar
uma proposição contendo elementos que não correspondem a nenhuma parte
gramatical (morfema) do proferimento. Perry chama tais elementos de
constituintes proposicionais não-articulados. Cappelen e Lepore (2005, 2007),
formulam uma crítica forte desta noção: de acordo com estes, a noção de
constituintes não-articulados não passa de um mito. Stanley (2000) critica esta
mesma noção baseado em outros princípios: de acordo com ele, toda sensibilidade
contextual é apenas devida ou a indexicais explícitos ou a indexicais ocultos na
forma lógica da sentença proferida. Adicionalmente, Stanley provê evidência
sintática para a presença de indexicais ocultos em sentenças usadas como exemplo
por Perry. Corazza (2007) defende uma posição híbrida: para este, todos os
constituintes proposicionais semanticamente relevantes são ou o valor de
elementos gramaticais explícitos ou de uma posição de argumento implícita na
forma lógica profunda da mesma, mas isto é consistente com a possibilidade de o
falante não ter nenhuma representação consciente deste elemento. Neste artigo
analisarei estas três linhas críticas e argumentarei que nenhuma delas é
completamente convincente. Eu também adicionarei minhas próprias considerações
críticas a respeito da noção de Perry. Minha conclusão será, portanto, puramente
negativa, isto é, que nenhuma das posições mais salientes nesta questão é
inteiramente satisfatória.
11:40 -- Breno Hax, Universidade Federal do Paraná
Espécies, Qualidades e Substâncias
Meu propósito é examinar uma reconhecida estratégia de distinção de espécies e
qualidades e avaliar a sua plausibilidade na explicação do que designarei como o
fato da conjunção de espécies e qualidades. Examinarei a seguir uma segunda
estratégia de explicação do fato mencionado que aparentemente é-lhe rival. A
segunda estratégia propõe que uma entidade x é de certa espécie e tem
determinadas qualidades porque possui certa microestrutura física. Discutirei
alguns pontos corretos dessa estratégia e também uma lacuna. Concluirei com a
sugestão de uma proposta de entendimento das relações entre qualidades, espécies
e substâncias.
13:00 -- Almoço

15:00 -- Anna Christina Ribeiro, Texas Technical University
Aesthetic Luck
The idea that some aesthetic experiences and some aesthetic judgments are not
open to all aesthetic subjects seems to be the kind of claim that only a
cultural snob would make. Yet, the aesthetic experiences and judgments available
to a given individual are frequently beyond her control. The issue concerns the
character and value of one's aesthetic experiences and judgments and,
ultimately, the possibilities for aesthetic value in one's life. If there is a
phenomenon of aesthetic luck, then (1) all beauty is not open to us, and there
is little we can do about it, and (2) our aesthetic subjectivity and notions of
beauty are threatened. Attempts to overcome the vicissitudes of aesthetic luck
land us in paradox or circularity. One may have to accept one's aesthetic fate,
and the restrictions it places on one's potential for an aesthetically valuable
life.
16:20 -- António Lopes, LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Intencionalismo, Anti-intencionalismo e o Verdadeiro Objectivo da Interpretação em Arte: Uma Polémica Genuína?

Desde o alvor da filosofia da arte de matriz analítica até hoje, o debate em
torno da relevância das intenções dos autores para a interpretação crítica de
obras de arte não parece dar mostras de esgotamento. Mas será esta polémica
genuinamente acerca do verdadeiro modo de aceder ao sentido ou significado das
obras? Procurarei mostrar que a discordância é mais bem descrita como dando-se
ao nível meta-estético, o de saber qual é o objectivo correcto da interpretação.
Uma vez que as razões para excluir empreendimentos interpretativos em arte como
ilegítimos ou "errados" são minimais, e que as considerações de valor, e não
apenas de determinação de sentido, são nesta matéria proeminentes, defenderei
que o papel da filosofia da arte deverá restringir-se ao de denunciar
empreendimentos que violem tais requisitos minimais ou que descrevam
incorrectamente o seu propósito.
17:40 -- João Branquinho, Universidade de Lisboa e LanCog, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa
Necessidade Metafísica
Discuto quatro tipos salientes de necessidade: metafísica, lógica, conceptual e
natural. Argumento no sentido de mostrar que a necessidade metafísica,
necessidade concebida à boa velha maneira aristotélica como fundada na
identidade das coisas, tem um papel central na ordem da explicação. A distinção
entre necessidade metafísica e necessidade lógica ou conceptual não é uma
distinção entre necessidade de re (que pertence às coisas) e necessidade de
dicto (que pertence às palavras ou conceitos), pois mesmo as mais triviais
verdades logicamente ou conceptualmente necessárias são-no em virtude do mundo,
da identidade das coisas (Williamson 2007). Assim, quer a necessidade lógica
quer a necessidade conceptual são definíveis, por restrição, em termos de
necessidade metafísica. Por outro lado, presumivelmente há verdades naturalmente
necessárias que são metafisicamente contingentes (Fine 2005). Todavia, toda a
verdade naturalmente necessária em sentido estrito, que o é em virtude da
identidade de categorias e propriedades naturais actuais ou nativas, é
metafisicamente necessária. Assim, também a necessidade natural (estrita) é
definível, por restrição, em termos de necessidade metafísica.

Entrada Livre
Todos os interessados são bem-vindos
Apoios: Fundação Nacional para a Ciência e a Tecnologia, Ilubraro

4 de novembro de 2008

Lançamento de Manual de Filosofia Política

Está marcado o lançamento público do livro Manual de Filosofia Política, org. João Cardoso Rosas (Universidade do Minho), em Lisboa no dia 12 de Novembro, na Livraria Almedina Atrium Saldanha, às 18h, em Lisboa. A apresentação da obra será feita por Diogo Pires Aurélio, da Universidade Nova de Lisboa.

O objecto deste manual é a filosofia política contemporânea. Enquanto outros livros optam por uma visão histórica, este guia os leitores pelos meandros da filosofia política tal como ela é praticada nos dias de hoje. Por um lado, são apresentados os principais paradigmas teóricos, como o utilitarismo, o liberalismo igualitário, o libertarismo, o comunitarismo, o republicanismo e a democracia deliberativa. Por outro lado, são analisados problemas específicos, como a pobreza, as migrações, a multiculturalidade, a política ambiental, a guerra e o terrorismo. Esta é uma obra fundamental para professores, investigadores e estudantes, mas também para todos aqueles que se interessam por uma reflexão teoricamente alicerçada acerca das sociedades em que vivemos.

3 de novembro de 2008

Filosofia e literatura


Tenho a sorte de ter feito a minha profissonalização como professor de filosofia na Universidade Aberta. A avaliar pelo que vários colegas me garantiram, fui muito provavelmente poupado a tarefas pedagógica e filosoficamente tão excitantes como elaborar tabelas com planificações minuciosas de aulas, conceber muitas transparências coloridas, colar cartolinas nas paredes para dinamizar a escola e sobretudo dar um ar de grande azáfama pedagógica.

Assim, tinha umas quantas aulas através da TV - que, tal como fiz no meu longínquo ano propedêutico, nunca vi - e um exame final em cada disciplina. A minha nota mais baixa foi em Didáctica da Filosofia. Havia uma espécie de manual com muitos textos em que se destacavam os nomes de Lyotard e Cerqueira Gonçalves. Lyotard defendia basicamente que a reflexão filosófica é essencialmente um exercício solitário de recolhimento. Cerqueira Gonçalves defendia não haver uma distinção essencial entre o texto literário e o texto filosófico, sendo didacticamente desejável recorrer ao texto literário nas aulas de filosofia. Pareciam-me ser estes os temas centrais do programa de Didáctica da Filosofia.

Uma das perguntas mais cotadas da prova de exame era precisamente sobre a importância didáctica do uso de textos literários nas aulas de filosofia. A minha resposta foi que era completamente irrelevante que o texto fosse literário ou não; o que interessava era simplesmente se o texto era filosófico e se, além disso, era claro e adequado ao nível dos alunos.

Há uma coisa que me parece verdadeiramente intrigante entre tantos professores e estudantes de filosofia, que é ler, por um lado, os filósofos do ponto de vista literário e, por outro lado, ler os romancistas e poetas do ponto de vista filosófico. Será isto razoável? Não será muitíssimo mais fácil, plausível e eficaz aprender filosofia com os filósofos e literatura com os poetas e romancistas? Não será mais razoável aprender música com os músicos profissionais do que com os cineastas e mais fácil aprender cinema com os cineastas do que com os músicos?

Será que aqueles que substituem os filósofos pelos poetas e romancistas se interessam realmente por filosofia? E, já agora, será que aqueles que substituem os poetas e romancistas pelos filósofos se interessam realmente por literatura? O que acham?

2 de novembro de 2008

Problemas da filosofia, Bertrand Russell


Acabei de ver no site das Edições 70 que a obra Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell, traduzida pelo Desidério Murcho, chega finalmente ao mercado português depois de ter passado pelo brasileiro.

Frase, expressão e proposição


É comum traduzir erradamente o inglês "phrase" por "frase". Uma "phrase" não é uma frase, mas apenas uma expressão, como "animal peludo". Uma frase é uma unidade semântica mínima de sentido, como "Todo o animal peludo é mau tradutor". O Houaiss define frase assim:
Construção que encerra um sentido completo, podendo ser formada por uma ou mais palavras, com verbo ou sem ele, ou por uma ou mais orações; pode ser afirmativa, negativa, interrogativa, exclamativa ou imperativa, o que, na fala, é expresso por entonação típica e, na escrita, pelos sinais de pontuação.
O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define frase assim:
Unidade linguística com sentido completo, geralmente constituída por um sujeito e um predicado, delimitada na escrita por letra maiúscula, no início, e, no fim, por um sinal de pontuação.
Por sua vez, o inglês "sentence" deve traduzir-se por "frase" e não "sentença", apesar de um dos significados de "sentença" ser realmente frase. Mas este não é o sentido mais habitual do termo sentença, o que se pode verificar consultando qualquer um dos dicionários acima, ou qualquer outro. Uma sentença é primariamente uma decisão de um tribunal e também uma frase lapidar, provérbio ou máxima; só num sentido arcaico e remoto quer dizer frase.

A respeito de "sentença", o Houaiss é muito enganador, fazendo as pessoas pensar que em lógica há um sentido espcial do termo "sentença", o que é absurdo. Em lógica "sentence" é o mesmo que "sentence" sem ser na lógica, e nunca poderá ser sinónimo de "proposição", como tanto o Aurélio como o Houaiss afirmam. Estas confusões resultam de uma inadequada compreensão dos símbolos da lógica formal.

Na lógica formal, chamamos informalmente frases ou proposições às variáveis proposicionais (como "p", "q", etc.). Mas "p" não é nem pode ser uma frase, e ainda menos uma proposição. "p" é apenas uma forma proposicional, ou seja, uma representação de uma qualquer frase atómica, como "A neve é branca" ou "Asdrúbal é italiano". Só quando nos esquecemos do que estamos a fazer com os símbolos podemos pensar que "p" é uma frase e não uma representação de um número infinito de frases.

Por outro lado, "p" nunca poderia ser uma proposição porque uma proposição é o pensamento susceptível de valor de verdade expresso por uma frase, e não a representação linguística desse pensamento. Marcas no papel, numa lousa, num ecrã de computador, assim como sons e sinais, podem constituir frases, e estas podem exprimir proposições, mas nenhuma frase é uma proposição -- tal como nenhuma fotografia de uma pessoa pode ser uma pessoa.

Há um sentido remoto e enganador segundo o qual "p" pode ser considerada uma frase: se considerarmos a linguagem da lógica em si mesma, com as suas regras sintácticas de formação, e tendo por referência as línguas naturais, e não o que as línguas naturais referem. Mas isto é engandor porque neste sentido metalinguístico "p" nunca pode ser uma frase porque é insusceptível de ter valor de verdade. Apesar de nas línguas naturais muitas frases serem destituídas de valor de verdade (nomeadamente por serem perguntas, como "Será que está a chover?"), "p" não o tipo de unidade linguística mínima de sentido capaz de exprimir uma pergunta, uma ordem ou uma asserção: "p" é apenas uma representação de uma forma proposicional, nada mais.

O que pensa o leitor de tudo isto?

Comentários

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