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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2008

John Shand: O que é a filosofia?

Há uma anedota recorrente entre muitos filósofos profissionais, que envolve um deles a ser encurralado durante uma festa por alguém que ao saber que se trata de um filósofo lhe pergunta: "Bom, o que é então a filosofia?" A piada reflecte na verdade o desconforto de muitos filósofos e a desconfortante consciência de não serem capazes de dar uma resposta directa e clara. Mais...

Rui Daniel Cunha: Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia, de Ludwig Wittgenstein

Quando iniciei a licenciatura em Filosofia, em meados dos anos 80, não existia em Portugal — sinal do nosso atraso filosófico — uma única obra de Wittgenstein traduzida para a nossa língua (embora no Brasil, honra lhe seja feita, já existissem algumas edições). Foi a Fundação Gulbenkian quem quebrou esta lamentável situação e inaugurou as traduções portuguesas de Wittgenstein, com a publicação do Tractatus e das Investigações Filosóficas, mesmo no final de 1987, e é desta mesma editora que nos surge agora, em edição modelar, os Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia. Mais...

William James

Se acreditamos que não há em nós quaisquer sinos a tocar a rebate quando a verdade está perante nós, parece que pregar tão solenemente que temos o dever de aguardar pelo toque do sino não passa de uma excentricidade vã.

O Pai Natal e a filosofia

P
“É moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe? Independentemente da imensa alegria e excitação de que os miúdos usufruem por acreditar no mito do Pai Natal, trata-se de uma mentira descarada! Quando estão crianças em causa, devemos colocar-nos sempre num patamar moral superior, ou devemos contemplar a possibilidade de excepções? Quando eles descobrem a verdade, não estaremos a ensinar aos nossos filhos que não se pode confiar em ninguém, nem mesmo nos próprios pais?”

R
MARK CRIMMINS: É uma pergunta interessante, sobre a qual não tenho uma posição definitiva: fiquei aliviado quando o nosso filho cedo, e com ardil, nos levou a admitir a verdade. É provável que quando os miúdos descobrem a Grande Mentira do Pai Natal a disposição deles para partir do princípio de que os pais lhes dizem sempre a verdade completa e literal sofra um certo abalo. Mas decerto a grande questão da confiança não se coloca ao nível de saber se se pode contar com o facto de os pais dizerem sempre a…

Da miséria da vida estudantil

Apesar de não constituir o propósito principal deste blog, acontece que ocasionalmente, principalmente nos comentários, acabamos por referir a nossa experiência de licenciatura em universidades portuguesas. Para mim essa questão está já um pouco consolidada mas reveste-se de particular interesse se pensar que a licenciatura em filosofia constitui na maioria dos aspectos uma forte desilusão para as expectativas que eu tinha do curso. Não foram raras as vezes em que me convenci que não conseguia ler os textos dos filósofos já que eles só eram acessíveis ao professor, que até lia alemão, e àquela meia dúzia de alunos que frequentavam o seminário de alemão. Normalmente quando abordava um ou outro aspecto do filósofo “o tal”, respondiam-me que não era nada disso, que eu não estava a compreender o problema. Parecia que existia sempre algo mais profundo que eu era incapaz de alcançar. Naturalmente resvalei para outros quadrantes com alguma facilidade, nomeadamente com a hipótese bastante pla…

Avaliar argumentos indutivos

Gostaria de lançar aqui um desafio muito simples, que é avaliar cada uma das seguintes previsões indutivas, tendo em conta as regras de avaliação de argumentos indutivos. A primeira previsão é a seguinte:

José Sócrates nunca teve uma dor de cabeça até hoje.
Logo, José Sócrates não terá uma dor de cabeça amanhã.

A segunda é a seguinte:

No último ano José Sócrates teve todos os dias dor de cabeça.
Logo, José Sócrates terá dor de cabeça amanhã.

Vamos supor que as premissas dos argumentos são verdadeiras e que, portanto, não há contraexemplos. O curioso é que a amostra indicada na premissa do primeiro argumento é maior do que a do segundo. Contudo, aceitamos mais facilmente o segundo argumento do que o primeiro. Ou não? Porquê?

Um pedido de ajuda

Alguns dos nossos leitores conhecem a terminologia espírita? Os termos ingleses que não sei como se dizem em português são os seguintes: Sitter: uma pessoa que quer contactar com um morto e que para isso contacta com um médium.Proxy sitter: uma pessoa que faz os preparativos e se encontra com um médium em nome do sitter.Control: o espírito associado ao médium, que lhe permite contactar com o mundo dos mortos.Communicator: o espírito do morto com o qual o sitter quer comunicar. Sitting: uma sessão espírita. Seance: isto presumo que se diz "sessão espírita", mas não tenho a certeza.Agradeço a ajuda! Esta terminologia ocorre num livro de filosofia da religião de Rowe que estou a rever.

Peter Cave e paradoxos

Comprei este livro esta manhã. Nem sabia da sua publicação, mas apressei-me a ir a uma livraria assim que o leitor Luís Gonçalves o incluiu na sua lista de preferências dos melhores livros do ano. Já conhecia o nome de Peter Cave, um habitual da revista Philosophy Now da qual sou subscritor e dos seus livros que vi na Amazon. Mas nunca tinha lido qualquer dos seus livros. Estranhamente não me lembrava que o autor tivesse escrito um livro com o título Duas vidas valem mais que uma?. E não escreveu mesmo. Quando peguei no livro na livraria, mesmo sabendo que o ia comprar e analisar em casa, fiz algo que sempre faço quando pego em qualquer livro que é ver quem o traduz e saber qual a edição original que serviu de base à tradução. Curiosamente a edição portuguesa não menciona o original. Li o prefácio e introdução e apercebi-me que, apesar do livro ter tido revisão, merecia outra já que escaparam algumas gralhas. Ainda que não me pareça muito importante dadas as características do livro e…

Empirismo e filosofia da mente, de Wilfried Sellars

Acaba de ser publicado no Brasil o livro Empirismo e Filosofia da Mente, de Wilfried Sellars, pela Vozes, com tradução de Sofia Stein (Universidade de Caxias do Sul).

A voz dos leitores: Os 10 mais de 2008

Dando voz aos nossos leitores relativamente ao desafio lançado há dias pelo Rolando, aqui vai a lista que Luís Gonçalves nos enviou com aqueles que ele considera os melhores dez de 2008.

10 Mais de 2008 – Luis Gonçalves

Informação empírica para a discussão da ÉTICA AMBIENTAL

Calma - Cool it!, Bjorn Lomborg (Estrela Polar)
Lomborg, depois do seu “ O Ambientalista céptico – Revelando a real situação do mundo”, de 2002, na Editora Campus, volta a reafirmar a sua análise crítica do debate sobre o aquecimento global, mostrando de uma forma clara, realista e baseada em dados científicos, como enfrentar os dilemas da discussão climática, dando o seu forte contributo para enfrentar as posições ecologistas radicais, nomeadamente aquilo a que ele chama a “ladainha ambientalista”.

Quente, Plano e Cheio, T. Friedman (Actual Editora)
Friedman, depois de “O Mundo é Plano – Uma história breve do século XXI”, de 2005, também na Actual Editora, onde já deixara a sua marca na análise do mundo contemporâneo, …

Sugestões musicais

Eis, para variar, algumas sugestões musicais. Sugiro três discos que me parecem exemplificar diferentes tipos de beleza musical. Nenhum deles apresenta música que possa ser considerada revolucionária ou inovadora; trata-se antes de música que foi capaz de levar fórmulas já bem conhecidas quase ao seu mais alto grau de perfeição. E isto não está ao alcance de todos.
A primeira sugestão é a gravação das Quatro Últimas Canções, de Richard Strauss, por Jessye Norman, acompanhada pela Gewandhausorchester de Leipzig, dirigida pela maestro Kurt Masur. Richard Strauss escreve para orquestra como poucos conseguiram fazer, dando brilho a todas as suas secções sem dar a impressão que está a abrir um mostruário. A sua música é incrivelmente melodiosa, mas as melodias são quase sempre imprevisíveis e sinuosas - por vezes parece até que vão descambar e que nos estamos quase a perder, o que faz parte do seu encanto. As Quatro Últimas Canções são o exemplo mais perfeito disso e são das canções mais be…

Wikicensuras

Verifiquei agora que o texto reformulado do Desidério no Wikipedia (ver post anterior) foi novamente censurado. Desta vez não o apagaram, pois isso entraria em contradição gritante com a existência de uma entrada inglesa no mesmo site. A técnica usada corresponde às minhas expectativas: usar directamente o termo inglês, para tentar suavizar o impacto. Contudo, o que salta mais à vista é a perda significativa de conteúdo e o português de cortar à faca, com frases mal construídas e uma «espansão» para traduzir «expanding» (De uma banda chamada «IncredibleExpandingMindfuck»).
O argumento do censor, segundo o qual "psicofoda" peca por referir um mero acontecimento mental é refutado pelos exemplos de palavras "consagradas": psicotrópico - substância que altera estados mentais e não "mudança mental" (seguindo a sua lógica). Nada há de "imaginário" ou "meramente mental" na "psicologia" ou na "psiquiatria". O "psicossoc…

«Psicofoda» censurada na Wikipédia

O mundo português está ainda a milhas de se libertar das psicofodas linguísticas e culturais que nos afligem e tolhem o passo. Há muito que existe uma entrada para o termo «Mindfucking» no site da Wikipedia. Esta entrada é referida pelo próprio McGinn no seu livro: Mindfucking, a Critique of Mental Manipulation. Hoje o Desidério publicou um Wiki português para «Psicofoda», que foi apagado por um administrador, dando lugar a uma segunda publicação pelo Desidério, desta vez contendo a ligação para o Wikipedia inglês. Será que a censura se vai manter? Seria curioso tentar explicar a atitude argumentativamente.
Este post é uma versão abreviada do que publiquei aqui.

Generalizações e previsões

Descobri hoje numa aula do 11º ano que alguns alunos, ao avaliar argumentos, confundiam sistematicamente os argumentos indutivos por generalização com as previsões (que também são argumentos indutivos). Na verdade, eles sabiam distinguir perfeitamente generalizações de previsões. O problema surgia quando se tratava de os avaliar. Por exemplo, a generalização
Até hoje o Sol nasceu todos os dias.
Logo, o Sol nasce todos os dias.
foi por eles avaliada como um mau argumento, o que considero correcto. Mas também a previsão
Até hoje o Sol nasceu todos os dias.
Logo, o Sol irá nascer amanhã.
foi por eles avaliada como um mau argumento, o que é incorrecto. Diziam alguns deles que ambos os argumentos eram maus pelas mesmíssimas razões. Mas o conhecimento científico disponível mostra que a premissa da generalização é irrelevante para o que se quer concluir, ao passo que não o é para a conclusão da previsão.
O que acha o leitor?

2008 Best Of

A filosofia é o meu trabalho. Nesta lista inclui livros que me dão muito prazer conhecer e ler, mas também que me são muitos úteis para proceder aos devidos upgrades profissionais.

1 – Bertrand Russell, os problemas da filosofia,Ed. 70 ( trad Desidério Murcho)
Era inevitável que a tradução do Russell não viesse à cabeça desta minha lista, já que se trata de uma renovada tradução de um dos clássicos da filosofia contemporânea que pode ser lida tanto pelos profissionais da filosofia como pelos não especialistas.

2 – Michael Lacewing, Philosophy for AS, Routledge
O ensino da filosofia está no centro das minhas preocupações pelo que é natural que alguns dos livros de filosofia mais significativos para mim sejam manuais. Para além de tudo aprende-se muita e boa filosofia por manuais quando eles são bem feitos. Este de Michael Lacewing, apesar de não estar traduzido na língua portuguesa, foi um dos melhores livros que comprei em 2008 e certamente é uma útil e sempre presente ferramenta de traba…

Ideias e letras

A editora brasileira Idéias & Letras, divulgada por um leitor, tem alguns títulos muito importantes para o ensino. Destaco os seguintes: Filosofia Medieval, org. por McGrade. Trata-se da tradução do Cambridge Companion to Medieval Philosophy. É uma obra crucial para preparar boas aulas de graduação de filosofia medieval.Primórdios da Filosofia Grega, org. A. A. Long. Mais uma tradução, desta feita do Cambridge Companion to Early Greek Philosophy, que abrange os chamados pré-socráticos (designação algo enganadora porque alguns deles são ou contemporâneos ou posteriores a Sócrates). Crucial para aprofundar este período da filosofia num curso de graduação, quer numa cadeira de Filosofia Grega, quer numa cadeira electiva dedicada apenas aos pré-socráticos.

Os melhores de 2008 no Brasil

Eis uma lista do que considero que de melhor se publicou no Brasil de filosofia em 2008. A lista tem com certeza muitas omissões por puro esquecimento meu. Além disso, a lista não tem em conta a qualidade ou falta de qualidade das traduções. Uma Nova História da Filosofia Ocidental: Filosofia Antiga, de Anthony Kenny (Loyola)Uma Nova História da Filosofia Ocidental: Filosofia Medieval, de Anthony Kenny (Loyola) Com estes dois primeiros volumes da nova história da filosofia, estudantes e professores podem preparar melhores aulas de graduação de história da filosofia. Os volumes dividem-se sempre em duas partes: na primeira, faz-se uma apresentação histórica mais geral das ideias e contextos históricos do período em causa; na segunda, discute-se em maior profundidade, e tematicamente, os problemas, teorias e argumentos do período em causa.Estética: Fundamentos e Questões de Filosofia da Arte, org. Peter Kivy (Paulus). Trata-se da tradução do Blackwell Guide to Aesthetics. Com artigos so…