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Mensagens

A mostrar mensagens de 2009

Jornal Público não adopta acordo ortográfico

No editorial de ontem do jornal Público, 30 de Dezembro, lê-se que aquele jornal não adoptará a nova ortografia:
Nós, no PÚBLICO, sobretudo não compreendemos para que serve [o acordo ortográfico] e, incapazes de entender a necessidade e as vantagens de uma norma global para o português, decidimos não o adoptar. Vamos continuar a escrever a nossa língua como a escrevemos hoje. [...] O Governo e os seus aliados da CPLP acreditam que o Acordo é fundamental para afirmar o português no mundo, aproximar os povos e reforçar a união entre os oito países lusófonos. Numa frase, os seus defensores — que incluem respeitados linguistas — argumentam que estamos a falar de um acordo instrumental e estratégico para o futuro. Se todos estes argumentos são utópicos, há um que se destaca como particularmente incompreensível: o de que o português, sem o acordo, terá não duas ortografias oficiais mas oito e que tal “não pode acontecer numa língua que pretende ser universal”. Ora o inglês — essa, sim, uma l…

Ainda sobre a autenticidade na música

A discussão lançada pelo Aires no post sobre a autenticidade na arte musical despertou-me algum interesse. Não tenho grande conhecimento da filosofia da música, mas gosto muito de música. Na caixa de comentários o Aires acertou quando indica que num dos meus comentários parece que denuncio que a questão da autenticidade é um falso problema. Em certa medida parece-me um falso problema. Vejamos: o Aires deu o seguinte exemplo:
“Imagina que assistes a um concerto com as Variações Goldberg, de Bach, tocadas pelo Chico. Está tudo a correr muito bem, só que o Chico falhou uma nota (estava um Lá na partitura e o Chico tocou um Sol). A pergunta é, a execução do Chico é ainda uma execução das Variações Goldberg? Creio que dirias que sim. Ok, mas imagina agora que o Chico se enganou não numa nota, mas em duas. Continua a ser as Variações Goldberg? Sim? Bom, e se forem três notas erradas? E quatro? E cinco? Abreviando, a partir de quantas notas erradas a execução do Chico deixaria de ser uma exe…

Escola e ensino

A Sara Raposo discute aqui brevemente a falta de curiosidade intelectual dos seus alunos. É um tema recorrente e importante. Vale a pena fazer alguns esclarecimentos.

Primeiro, isto sempre foi assim, em toda a história da humanidade. As pessoas inteligentes e com interesses intelectuais sempre foram uma pequeníssima minoria. A ilusão de que isso não ocorria no passado resulta de as pessoas se esquecerem dos colegas que tinham no tempo em que eram alunos do secundário. Ou então resulta de serem filhos de famílias privilegiadas, e por isso estudaram em colégios e escolas de elite, rodeados de alunos de famílias que estimulavam os estudo nos seus filhos. Como eu não era filho de famílias privilegiadas e não andava em escolas de elite, em toda a minha vida escolar conheci uns três ou quatro colegas que tinham interesses intelectuais como eu. Os outros, mesmo quando estudavam, faziam-no pragmaticamente, só para ter notas boas (ou por pressão familiar, ou para entrar na universidade).

Segu…

Autenticidade musical e efeito estético

O último post do Vítor não foi comentado, mas aborda questões muito discutidas entre filósofos da arte, nomeadamente saber o que é realmente uma execução de uma dada obra musical e que diferença existe entre executar e interpretar essa obra. Estas questões têm também apaixonado musicólogos e críticos musicais de todo o mundo nas duas últimas décadas, sobretudo depois da vaga conhecida como autenticismo musical. O sucesso estrondoso das gravações com instrumentos de época e das execuções historicamente informadas, cujos pioneiros foram Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt, tem dado que pensar.

O autenticismo levanta questões de carácter estético (será que as intenções do autor, expressas ou implícitas, são esteticamente tudo o que conta?), ontológico (uma execução de uma dada obra que não obedeça a determinados parâmetros definidos pelo seu autor é ainda uma execução dessa obra?) e ético (será que o autor tem o direito de não ver a sua obra alterada e o executante tem o dever de não …

A arca de Baxter

Depois do dilúvio, uma solução radical: procurar outro planeta e viajar até lá. Mas isto não é tão fácil como o cinema nos faz pensar. É este o tema de Ark.

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Raramente as três perguntas acima são seriamente encaradas. Geralmente, são apenas um preâmbulo de um discurso provinciano que tem por único objectivo dizer coisas bonitas sobre os seres humanos, sem qualquer interesse na verdade. Mas se você tem realmente interesse em conhecer melhor de onde viemos e para onde todos vamos -- as estrelas -- leia Secrets of the Universe, de Paul Murdin, que parece prometedor e é recomendado por A. C. Grayling aqui.

Lógica, filosofia e o seu ensino no secundário

"A Lógica e o Lugar Crítico da Razão" é o título do artigo de Aires Almeida que acabo de publicar. O que está em causa é saber que papel tem ou deve ter a lógica no ensino da filosofia; e se tem um papel instrumental, como por vezes se defende, o que implica isso para o modo como deve ser integrada no ensino da filosofia?

Justificação de crenças

Poucas pessoas se dão conta de que a maior parte do nosso conhecimento é conhecimento por testemunho: nenhum de nós pode saber primitivamente senão uma parte pequeníssima de tudo o que se sabe. É por isso risível que algumas pessoas pensem que todos os argumentos de autoridade são inválidos -- porque nesse caso, nenhum de nós teria argumentos válidos a favor das proposições mais elementares das ciências ou da história, excepto se formos cientistas ou historiadores. E mesmo o conhecimento que um cientista ou historiador tem depende, na sua maior parte, do testemunho de outros.

Neste sentido, uma parte importante da tradição epistemológica com origem em Descartes, e claramente visível numa parte importante da epistemologia do séc. XX, como os Os Problemas da Filosofia, de Bertrand Russell, é enganadora, pois procede como se fosse possível a cada agente cognitivo ter justificação primitiva para as suas crenças fundamentais. A partir do momento em que se vê que isto é falso, vê-se que os …

Aaron Ridley

Num artigo intitulado "Contra a Ontologia Musical", Aaron Ridley afirma que o levantar de questões ontológicas a propósito da música é desinteressante e inútil. Este tipo de questões envolvem determinar que tipo de coisa é uma obra musical e quais as condições de identidade de uma obra musical e as da sua ocorrência em acontecimentos sonoros. Por exemplo, se considerarmos as obras musicais como tipos normativos e as execuções apropriadas das obras como espécimes dessas obras, podemos talvez inferir que uma execução da sinfonia da Partita em Dó menor de Bach com uma nota errada não é uma instanciação ou um espécime dessa obra. Ridley argumenta que este tipo de questão é desinteressante com base numa observação empírica: quando um conjunto de pessoas numa sala ouve uma execução da Partita em Dó menor com notas erradas, nenhuma delas duvida de que se trate de uma execução da Partita em Dó menor.
Mas isto parece-me tão persuasivo como argumentar que é desinteressante investigar a …

Colher os louros e recusar a culpa

Julian Baggini chama-nos a atenção no texto "Trouxe-vos Paz e Prosperidade!" para o tique dos políticos que consiste em colher os louros que não merecem e rejeitar a culpa que merecem. Tudo porque há uma confusão com o raciocínio causal. Tradução de Vítor Guerreiro.

O Dilúvio de Baxter

Uma leitura empolgante, de ficção científica com os pés bem assentes na terra, ou melhor, no mar.

Quando o público é privado e o privado público

Uma das situações mais caricatas das sociedades lusófonas é a ideia de que é aceitável fazer leis sobre a ortografia. Isto deveria ser encarado com estranheza, se nestas sociedades a liberdade política e social fosse uma mentalidade enraizada e não uma importação do estrangeiro. Porque um princípio elementar de liberdade é que só se deve legislar quando não legislar teria efeitos previsivelmente piores do que legislar, o que contrasta com o princípio de todos os regimes totalitaristas, segundo o qual se deve legislar ao máximo, para assegurar o controlo, sobretudo mental, das populações.

Sem legislação sobre a ortografia, ficaríamos na mesma situação que temos quanto à gramática: esta não é determinada por legislação, mas apenas por quem faz gramáticas, vingando as gramáticas mais influentes — ou seja, aquelas que as pessoas, livremente, preferem. Com a legislação, ficamos numa situação em que a ortografia não resulta livremente das escolhas das pessoas, mas antes da imposição de uma…

Filosofar para quê?

Sendo eu engenheiro de formação e profissão e estando a dedicar agora bastante tempo à filosofia, muito amigos me perguntam: mas afinal para que é que isso serve? Qual é o gozo? Porque é que te deu agora para aí?
Nem sempre é fácil responder a essa questão, muito menos quando é colocada por alguém que está de fora da filosofia. Este post é uma tentativa de abordar a questão.

O mundo em que vivemos é extremamente complicado! As acções que temos que desempenhar, as decisões que temos que tomar, os julgamentos que temos que fazer… para tudo isto necessitamos de recolher informação, processá-la e actuar / decidir.
E isto acontece desde os primórdios da vida na Terra, entre o momento em que acordamos até aquele em que adormecermos: podemos comer isto?, devemos fazer aquilo?, por aqui será seguro?, atravesso a rua aqui ou ali?, visto isto ou aquilo?, que telemóvel comprar?, que software utilizar?, que livro ler?, em que acreditar?...

Ora é incomportável processar toda esta informação constante…

Educação e igualdade

Uma das ideias feitas do nosso tempo é a igualdade, em geral, e a igualdade educativa, em particular, ambas concebidas como desejáveis. E se isso for uma ilusão? É essa a polémica opinião de Moore, neste artigo.

Os melhores de 2009

Findo mais um ano, vamos aos Óscares. Quando procedi à recolha dos livros deste ano fiquei agradado com a oferta. Traduziram-se importantes obras como a de Nozick, Bell ou Thomas Kuhn e há ainda uma oferta muito boa de livros introdutórios ou até de filosofia romanceada, como o caso do livro de Mark Rowlands. Fomos ainda prendados durante 2009 com um guia da filosofia, uma espécie de guia turístico para quem quer fazer o roteiro da filosofia. Muitas obras foram reeditadas, principalmente o fundo de catálogo das Edições 70. Pena que não tenhamos ainda o trabalho de rever as traduções, acrescentando notas que ajudem o leitor a orientar-se melhor na filosofia. Ainda assim considero este ano muito rico em termos de edições comerciais de filosofia. Num ano em que a crise económica parece instalar-se definitivamente não nos podemos queixar. O lote reflecte as minhas leituras e preferências pessoais, pelo que é natural que fiquem de fora outras obras que o leitor considere relevantes e que e…

Filosofia da linguagem

A Routledge acaba de anunciar uma nova antologia de filosofia da linguagem, que pela selecção de artigos parece distinguir-se das já existentes (como a de Martinich, talvez a mais usada). Esta é organizada por Darragh Byrne e Max Kolbel, e tem por título Arguing about Language. Eis o índice:

Introduction

Part 1: A Homeric Struggle: Communication and Truth
1. Meaning H. Paul Grice
2. Meaning and Truth Peter Strawson
3. Language and Communication Michael Dummett

Part 2: Sense and Reference
4. On Sense and Reference Gottlob Frege
5. Frege’s Puzzle Nathan Salmon

Part 3: Definite Descriptions: Quantifiers or Singular Terms?
6. Descriptions Bertrand Russell
7. On Referring Peter Strawson
8. Mr Strawson on Referring Bertrand Russell

Part 4: Rigidity vs. Descriptivism
9. Naming and Necessity Saul Kripke
10. Reference and Descriptions Revisited Frank Jackson

Part 5: Analyticity
11. Two Dogmas of Empiricism W. V. Quine
12. In Defense of a Dogma H. Paul Grice and Peter Strawson

Part 6:…

O ensino da filosofia e a sociedade é que não me deixa

Ao mesmo tempo que o Aires respondeu à entrevista do Domingos, também eu respondi e aproveito para postar aqui as perguntas e as minhas respostas. Aproximam-se em alguns aspectos das do Aires. A resposta à questão 3 liga-se também com o último post do Desidério.


1.Para si qual poderá ser a importância da filosofia no Ensino Secundário? Porque é que a filosofia poderá ser importante no currículo escolar e de que modo contribui para os objectivos globais do Ensino Secundário?
Tenho o hábito de fazer uma distinção que aprendi com alguns filósofos: o que tem valor intrínseco e o que não tem valor intrínseco, isto é, tem somente valor instrumental. Uma coisa tem valor intrínseco se só depende de si mesma para poder existir. Por exemplo, a felicidade tem valor intrínseco, mas o dinheiro não. Pelo contrário, o dinheiro tem um valor instrumental, já que é um meio para alcançar felicidade. Mas o dinheiro por si só não garante felicidade. Ora, o saber e o conhecimento, entre o qual, a ciência e …

A sociedade é que não me deixa

A Cultura, os Livros, a Ciência, as Artes, a Espiritualidade — tudo isto é Maravilhoso, mas a sociedade, superficial, não se interessa por essas coisas. A sociedade é materialista e hedonista e etc. Ah, se não o fosse...
É comum ouvir-se ou ler-se este lugar-comum. E eu penso que é uma mentira que esconde algo. Nomeadamente, o desinteresse que tem quem lhe dá voz pelas coisas que diz preferir. Depois, é mais fácil deitar as culpas para cima dos outros, e assim manter a auto-imagem de que nós somos realmente Superiores, Cultos, Artísticos, etc.

Mas tudo isto é mentira. Quem tem este tipo de discurso não são as pessoas das classes tão desfavorecidas que não podem escolher dedicar-se à ciência, às artes ou à cultura; pelo contrário, são pessoas da classe média, com casa própria, às vezes mais de uma, automóvel, televisão de plasma, telemóveis dos caros e férias pagas. São pessoas que se quiserem têm o tempo e os recursos para ler, estudar, visitar museus ou exposições de arte. Apenas não o…

Representar a mente

Seja o que for o que a mente é, não tem apenas uma função representacional, defende Vítor Pereira aqui. E o que pensa o leitor?

O ensino da filosofia

Há algumas semanas atrás, Domingos Faria, aluno de mestrado em ensino de filosofia na Universidade do Minho, pediu-me para responder a um pequeno questionário sobre o ensino da filosofia no ensino secundário. Eis as perguntas, seguidas das minhas respostas:





1. Para si qual poderá ser a importância da filosofia no Ensino Secundário? Porque é que a filosofia poderá ser importante no currículo escolar e de que modo contribui para os objectivos globais do Ensino Secundário?


O acesso ao conhecimento é, em meu entender, um dos mais importantes direitos das pessoas, pois o conhecimento, além de ter valor intrínseco, é uma condição necessária para o seu desenvolvimento pessoal e profissional, contribuindo para a sua autonomia intelectual. A ignorância, ao invés, contribui para a desigualdade de oportunidades e reduz a liberdade dos cidadãos, coisas que qualquer estado deve combater. Os estados têm, assim, o dever de garantir aos seus cidadãos o acesso ao conhecimento e a escola (não apenas no e…

O deus da evolução

Em "Direcção e Sentido, Deus e Evolução" argumento contra a substituição de Deus pela evolução, no que respeita ao sentido da vida humana. E o que pensa o leitor?

Operadores de crença

Uma confusão comum é pensar que a suspensão da crença em relação a qualquer afirmação p implica não aceitar a afirmação “Não acredito em p.” Isto é falso e resulta de uma compreensão deficiente do operador de crença “acredita que.” Vejamos as diferenças:
O Asdrúbal acredita que pO Asdrúbal não acredita que pO Asdrúbal acredita que não pDizer que o Asdrúbal suspende a crença em relação a p é dizer que ele não tem a crença de que p (1 é falsa). Sem dúvida, isto implica que 3 seja falsa: se ele suspende a crença quanto a p, não pode crer que não p.

Mas suspender a crença implica que 1 não é verdadeira, implica que ele não tem a crença de que p.

A confusão é pensar que 2 é o mesmo que 3. Mas é muito diferente. 3 é crer na falsidade de p, ao passo que 2 não é crer na falsidade de p, mas apenas não ter a crença de que p é verdadeira. E isso é implicado pela suspensão da crença. Se a pessoa suspende a crença relativamente a p não só não acredita que p como também não acredita que não p.

Por que não acredito no aquecimento global

Quando a ciência fica politizada, deixo de crer na ciência em causa. É o que acontece com o debate sobre o aquecimento global. Há tanta mentira associada ao debate que nenhum cidadão ponderado e informado pode saber de que lado está a verdade: se realmente há ou não aquecimento global, se este é antropogénico e, caso o seja, se há algo que realmente se possa fazer para resolver o problema que não seja pior do que aprender a viver com ele. A politização da ciência tem como resultado a retirada da confiança que qualquer cidadão ponderado dá aos cientistas que dizem saber coisas que o cidadão não pode saber por si mesmo.

Quando desconfio que há manipulação política da ciência, paro de acreditar na ciência em causa; quando há comissões pretensamente científicas mas de nomeação política ou associadas às Nações Unidas, paro de confiar nos seus relatórios, porque sei que são muito políticos e pouco científicos. É isso precisamente que ocorre com o aquecimento global. De modo que quanto mais…

O erro é de Russell?

O propósito da filosofia é começar com algo tão simples ao ponto de não parecer digno de mencionar, e acabar com algo tão paradoxal que ninguém o acreditará. (Russell, "A Filosofia do Atomismo Lógico", 1918)
Já vi esta frase repetida muitas vezes, e merece ser repetida, como muitas coisas maravilhosas que Russell escreveu na sua vastíssima e importante obra, tanto filosófica quanto de intervenção social e política. Mas esta afirmação é um disparate.

É um disparate se for mal compreendida. E é mal compreendida sempre que se pensa que o que Russell afirma é próprio da filosofia, distinguindo-a de outras actividades humanas.

Na verdade, começar pelo banal e acabar no inverosímil é a única maneira de proceder. A ilusão metodológica é precisamente pensar que há maneiras de começar em grande, sem ser a partir das banalidades mais simples. E essa é uma das razões pela qual a pseudociências e a filosofia mal feita nada fazem que seja cognitivamente relevante.

Até nas artes começamos…

Esquecimento global

Um aspecto curioso do moralismo é a defesa de que algo tem de ser feito, mas pelos outros -- pelos governos, pela sociedade, seja por quem for, mas não por mim. É assim que alguns defensores de causas ecológicas se fazem transportar de jipe, ou comem bifes volumosos. Podemos chamar a isto o problema do esquecimento global: as moralistas ideias bonitas são convenientemente esquecidas quando chega a hora de mudar comportamentos que não queremos mudar. Vem isto a propósito deste facto: a produção de carne para alimentação é o segundo maior emissor de gases que provocam o efeito de estufa. Leia aqui.

O que fazer com este azar cósmico?

No artigo "Azar Cósmico e o Futuro Pós-Humano" lamento que nos tenha calhado um canto cósmico desinteressante e pergunto o que se poderá fazer de interessante. A resposta não é agradável para muitas pessoas. E o leitor, o que pensa?

Constituição

A um dos problemas da metafísica chama-se «antinomia da constituição». Este problema consiste no seguinte: uma estatueta de Napoleão Bonaparte é feita a partir de uma porção de bronze fundido. Aparentemente, a estatueta e o bronze de que é feita são apenas um objecto: a matéria que constitui um constitui a outra. Mas pensando um pouco, constatamos que têm propriedades diferentes: não começaram a existir ao mesmo tempo, a estatueta não sobrevive a certo tipo de mudanças qualitativas no bronze (refundição, por exemplo) ao passo que o pedaço de bronze sobrevive. Imaginemos adicionalmente que a estatueta de Napoleão é fundida e o bronze vertido num molde de uma estatueta do Duque de Wellington. Dado que a relação de identidade é transitiva (se A é B e se B é C então A é C), parece que se o pedaço de bronze é idêntico à estatueta de Napoleão e se o mesmo pedaço de bronze é idêntico à estatueta de Wellington, então a estatueta de Napoleão e a estatueta de Wellington são o mesmo objecto: pel…

Lógica no ensino secundário?

Artur Polónio defende aqui algumas ideias sobre o ensino da lógica na disciplina de Filosofia, no ensino secundário português. E o que pensa o leitor?

Uma ilusão metodológica recorrente

Para saber se temos leite no frigorífico não fazemos a dança da chuva. Levantamos as ancas do sofá e vamos lá ver. Para saber se nos enganámos no troco do jornal não jejuamos primeiro para limpar a alma. Pegamos no lápis e raciocinamos. Em geral, na vida, sabemos as coisas ou directamente ou inferindo de outras coisas. E isto nada tem de mágico, nem de misterioso, nem de especial.

A ciência e a filosofia é apenas a extensão disto. Mas como o que queremos saber é muitíssimo mais difícil, fazemos duas mudanças apenas. Primeiro, procuramos erros, activamente. Segundo, somos mais sistemáticos.

A magia, as astrologias e as filosofias mal feitas têm em comum a ilusão de que o género de actividade cognitiva que usamos no dia-a-dia tem de ser abandonada quando se trata de tentar saber Coisas Importantes, colocando no seu lugar Métodos Especiais. O que há de comum a estes Métodos Especiais é que temos de Abandonar a Sensatez, passando a usar as palavras para se dizer coisas que ou não se ent…

O macaco nu

É curioso como a categoria simiesca do “superior” surge tão espontaneamente em tantas conversas. Basta alguém dizer uma verdade desagradável sobre a humanidade para se acusar essa pessoa de se armar em superior. Mas isto é presumir desde o início que a categoria macacal do “superior” é relevante. Ora, a verdade é que o não é. “Superior” quer apenas dizer “ser mais catado pelos outros” (“ter mais prestígio social,” alguns milhares de anos depois), e isso nada tem a ver com ter um pensamento mais ou menos sofisticado, cuidadoso e articulado. Michael Jackson tinha e continua a ter muitíssimo mais prestígio social, ou seja, era e é superior, a Platão. Mas nem por isso o pensamento de Platão é menos articulado, sofisticado ou cuidadoso do que o pensamento de Michael Jackson.

Pensamento moral

Argumento no artigo "Como Não Compreender a Moral" que há uma ilusão central que impede algumas pessoas de compreender o pensamento genuinamente moral: a ilusão de que as minhas preferências me dão uma razão para agir que as preferências alheias não me dão. E o que pensa o leitor?

Einstein contra Feynman

Pouco surpreendentemente, defendo no artigo "Precisa a Ciência da Filosofia?" a resposta afirmativa de Einstein, contra Feynman. E o que pensa o leitor?

Duas maneiras de ser frívolo

Há a frivolidade das maiorias. Consiste em adorar o futebol, centros comerciais, carros caros e telenovelas. Reduz a política a chicanas infantis. Elege como valor supremo comprar coisas com valor social, seja isso o que for — de telemóveis muito caros a televisões de plasma.

E há a frivolidade dos pseudo-intelectuais. Consiste em estar sempre a ver mais longe do que os outros. Ser sempre mais esperto que os demais. Tratar tudo o que não está nos seus parcos horizontes intelectuais com a mesma frivolidade dos comentários da telenovela.

Em ambos os casos, é o incómodo de pensar que se manifesta. A incompreensão pelo prazer da descoberta das coisas. A arrogância de já ter decidido todas as questões profundas há anos, com dois dedos de leitura fácil. A inexistência do prazer de reflectir, descobrir, dialogar com outros que reflectem e gostam de descobrir.

Das duas, prefiro a primeira. É menos pretensiosa.

Bebés inteligentes

Faustino Vaz apresenta os primeiros passos da discussão da pergunta "Será moralmente permissível tornar os bebés mais inteligentes?" E o leitor, o que pensa?

Inovação na arte

Acabo de publicar a recensão de Rui Daniel Cunha à original história da arte, da autoria de Florian Heine, intitulada The First Time. E aproveito para perguntar: Será a inovação um valor central na arte? Porquê? O que pensa o leitor?

Ética e direitos humanos

Neste artigo, procuro mostrar por que razão não se pode ao mesmo tempo defender que a ética é relativa e que os direitos humanos são universais, mostrando também que há razões para pensar que por vezes se adopta o relativismo ético porque se fazem algumas confusões. O que pensa o leitor?

Um esclarecimento sobre a publicidade

Vários leitores estranham o género de publicidade que por vezes surge na Crítica — em alguns casos, é nítido que os produtos ou serviços publicitados não são o género de coisas que a Crítica poderia sancionar ou ainda menos recomendar. A razão é que não me é possível controlar os anúncios publicitários que surgem na Crítica; isso é feito automaticamente pelo Google. Há um certo controlo parcial, mas é quase a mesma coisa do que nenhum controlo.

Matar na guerra é moralmente errado?

Matar um indivíduo parece na maior parte das circunstâncias um acto moralmente errado. Mas e se tal acontecer numa situação de guerra? O leitor está numa guerra. O inimigo vai matá-lo. O leitor, para se defender, dá-lhe um tiro e mata-o. Tal parece ser moralmente aceitável. Jeff McMahan põe esta ideia em causa no seu mais recente livro, Killing in War, e podemos ouvi-lo num podcast sobre o problema.