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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2009

William K. Clifford

Aprestamo-nos a rir do hábito do australiano que continua a amarrar o machado ao cabo, embora o serralheiro de Birmingham lhe tenha feito propositadamente um buraco para aí inserir o cabo. Os do seu povo amarram assim os machados há gerações: quem é ele para se opor à sua sabedoria? Desceu tanto que não consegue fazer aquilo que alguns deles tiveram de fazer no passado distante — pôr em causa um uso estabelecido e inventar ou aprender algo melhor. No entanto aqui, no amanhecer do conhecimento, onde a ciência e a arte são uma só, encontramos apenas a mesma regra simples que se aplica às mais elevadas e às mais profundas ramificações daquela Árvore cósmica; aos seus mais imponentes ramos floridos bem como às mais profundas das suas raízes escondidas; a regra, nomeadamente, de que quem faz um uso apropriado daquilo que foi acumulado e que nos transmitiram é quem age da mesma maneira que os criadores agiram, quando o acumularam; os que o usam para levantar mais questões, para examinar, pa…

Filosofia pública

O Café Filosófico é o projecto de Tomás Carneiro, um dos nomes que se dedica à divulgação pública da filosofia. Tomás Carneiro tem dado cursos de pensamento crítico e esteve presente no último encontro nacional de professores de filosofia, promovido pela SPF. O café Filosófico é mais um dos seus projectos que consiste em colocar as pessoas a argumentar directamente problemas tradicionais da filosofia, em sessões públicas e animadas em espaços públicos. O blog é o espaço onde se dá conta dos resultados para os que não podem estar presentes. Vale a pena espreitar.

a ideologia na escola

A fonte é o manual de Português, do mesmo lote referido na antepenúltima posta.
Aqui temos um excelente exemplo da psicofoda em acção: O pretexto é o mito fundador da nacionalidade. Seria de esperar que um texto escolar veiculasse factos e informação de uma maneira imparcial, mas vejamos. Temos o caos ortográfico, digno de uma Maluca Casteleira, em que palavras como "rei" e "condado" tanto aparecem em caixa alta como em caixa baixa, aleatoriamente. Três pontos de exclamação (sic) a ritmar um elogio da força bruta, com uma psicologia interessante: um homem que levanta uma espada que nem dois homens podem levantar. Um elogio da "valentia e ambição" da "extraordinária" saga afonsarenquina (mas esta informação não devia ser imparcial? Científica? E a "valentia" de passar populações à espada, não a criticamos nos criminosos de guerra sérvios e outros? Por que razão é assim tão "mística" só porque foram barbaridades ocorridas há 800…

o respeito por símbolos e o lugar das pessoas

Um dos homens que mais fez pela etnomusicologia portuguesa, corso de nascimento, nunca adquiriu a nacionalidade portuguesa, apesar da sua participação activa na vida cultural e social do país, por considerar insultuosa a exigência de que fizesse um ditado... E não é que não escrevesse muito melhor em português do que o funcionário público que o iria avaliar. É infinitamente mais interessante que os jovens saibam quem foi e o que fez MichelGiacometti, do que saber a letra do hino nacional e outras vacuidades do género.

Para uma mentalidade que tanto respeito exige aos símbolos, manifesta-o pouco pelos indivíduos, que são as únicas coisas que faz algum sentido respeitar. E respeitá-las não é fingir que se considera verdadeiro tudo aquilo em que acreditam. Respeitá-las é não as menorizar, não as tratar como instrumentos ao serviço de algo que não seja a sua própria existência como indivíduos. O estado é como um saca-rolhas, e os saca-rolhas não podem ter dignidade porque, essencialmente, …

lavar o cérebro às criancinhas

A fonte é o manual do 4º ano, de «estudo do meio», da editora Areal. Talvez seja preciso ampliar para ver a secção a vermelho: Os símbolos nacionais de um povo - bandeira e hino nacional - devem ser tratados com o máximo respeito por todos.



Não admira, com um provincianismo deste calibre, que os mandatários da UE se sintam ofendidos com uma obra de arte que não faz senão mostrar a percepção que o mundo tem desta "salada cultural". Mas por que raios tenho de tratar com o máximo respeito os símbolos da nacionalidade?

liberdade e insulto

O artista checo David Cerny tem sido alvo de uma "polémica" bem ao estilo da degenerescência patológica que anda a converter as pessoas em máquinas politicamente correctas. A instalação da autoria de Cerny num edifício do conselho europeu em Bruxelas, - intitulada Entropa - onde ridiculariza esterótipos e preconceitos nacionais, ofendeu muitos dignitários e, a julgar pelas caixas de comentários dos blogues, quase toda a gente que não pára um segundo para pensar naquilo que pensa. As reacções são tão estereotipadas como os estereótipos insultados pelo artista, e tão uniformes como as reacções ao papa há um mês atrás: remova-se a obra porque é de "mau gosto" e terrivelmente "insultuosa". Não podemos tolerar que nos insultem desta maneira. Os mandatários do estado búlgaro sentiram-se particularmente agredidos com a representação da Bulgária através de uma sanita turca. Portugal é uma tábua com um bife em forma de uma ex-colónia. Pessoalmente, achei bastante …

A melhor entre as melhores introduções à filosofia

Se há coisa de que, de há uns anos para cá, o leitor português de filosofia não se pode queixar é de falta de bons livros introdutórios a esta disciplina.

Assim de repente lembro-me do excelente Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton; do livrinho único de Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto?; do interessante livro de Kolak & Martin, Sabedoria Sem Respostas; e do algo sofisticado, mas bastante compensador, Pense! de Simon Blackburn.

Mas há ainda outros livros que podem servir como excelentes introduções à filosofia, como é o caso do brilhante Como se Faz Um Filósofo, de Colin McGinn e até de Que Diria Sócrates?, organizado por Alexander George.

Mas ainda não está ao dispor do leitor de língua portuguesa a melhor introdução à filosofia que me recordo de ter lido alguma vez. Trata-se de Problems From Philosophy, de James Rachels. Mesmo quem aprendeu muito com os livros anteriores vai dar como muito bem empregue o tempo (que não é muito, dada a reduzida dimensão do livro) …

por que nunca devíamos ter abandonado o latim (1)

Considere-se a expressão inglesa "an eventual merging with a higher reality". O verbo "to merge" vem directamente do latim "mergere", que significa "mergulhar". Palavras ingleses que partilham a mesma fonte são "submerge", "immerge", emerge", "emergency", etc. Em português, temos todas estas últimas, a partir da mesma fonte: "submergir", "imergir", "emergir", "emergência", etc. Contudo, ao traduzir o termo "to merge", "merging", etc., vemo-nos obrigados a usar "amalgamar" ou "fundir", "amálgama", "fusão", ou outras variantes. Mas acontece que em inglês também temos "fusion" e "amalgam". A solução lógica para isto era termos também o verbo "mergir" e traduzir a expressão inicial por: "uma eventual mersão com uma realidade superior". Pois o mesmo acontece em português com outras …

Filósofos às dúzias

Eis um bom livro para quem quer conhecer melhor o que se faz em filosofia hoje, e quem são os seus protagonistas. O volume 12 Modern Philosophers, org. por Belshaw e Kemp (Wiley-Blackwell, 264 pp.), de que acabo de receber notícia, reúne artigos sobre Quine, Rawls, Davidson, Williams, Rorty, Fodor, Nagel, Kripke, Nozick, Parfit, McDowell e Singer. Não sei se os artigos são bons, mas alguns deles são escritos por filósofos reconhecidos, como Bird, Lacey, Bermudéz, Lepore, Baldwin e A. W. Moore.

a balda tuga

Há séculos que traduzimos "Great-Britain" por "Grã-Bretanha". (Pelo menos desde que há Reino Unido em vez de nações separadas nas ilhas britânicas.)Em inglês temos duas palavras: "Britain" e "Britanny", respectivamente: "ilhas britânicas" e "Bretanha francesa". Basta consultar qualquer dicionário de inglês-inglês.Em português, "Bretanha" traduz o francês "Bretagne". Uma região do Norte de França.Em latim, "Britannia" e "Britanniae" referem as ilhas britânicas e a "grande Britânia", a maior das ilhas britânicas.Em inglês, é possível escrever com sentido "from Britanny to Britain", mas a tradução portuguesa diria: "da Bretanha à Grã-Bretanha".Por tudo isto é óbvio que o correcto seria "Grã-Britânia" para "Great-Britain"... Mas se o fizermos, o revisor vem e risca a vermelho, as pessoas sorriem perante o "erro" ou o "deslize&…

Rachels ao preço da chuva

Os leitores brasileiros estão com sorte: o livro de James Rachels, Os Elementos da Filosofia da Moral, está em promoção junto da editora brasileira (e eu nem sabia que o livro existia no Brasil). O seu preço normal é 61 reais, mas está à venda por apenas 15 reais. Este é provavelmente o melhor livro introdutório de ética alguma vez publicado. Não faço ideia se a tradução brasileira é boa. A tradução portuguesa (Elementos de Filosofia Moral) é de qualidade, mas inacessível aos leitores brasileiros por causa do custo dos portes de envio, que no Brasil se chama frete.

Que Diria Sócrates do André?

Acabo de ler uma esclarecedora crítica do professor André Barata (Universidade da Beira Interior), no Ípsilon do Público, ao último volume da colecção Filosofia Aberta, da Gradiva: O Que Diria Sócrates?, org. por Alexander George.

Eudemonia

Acabo de publicar a minha tradução de um interessante artigo de Scott Carson sobre a eudemonia. Espero que seja útil.

Livros para ler em 2009: arte e evolução

Ainda não me chegou, mas estou em pulgas para ler. O autor é o responsável por um dos melhores sítios de toda a net, Arts & Letters Daily, e é um conhecido filósofo da arte. Estou a falar de Denis Dutton, que também tem uma página pessoal que vale muito a pena visitar. No livro The Art Instinct: Beauty, Pleasure and Human Evolution Dutton defende uma perspectiva evolucionista sobre a origem e o significado da arte: a arte é um instinto natural dos seres humanos e um expediente adaptativo.

Livros para ler em 2009

Alvin Plantinga & Michael Tooley, Knowledge of god

Philosophy Now, Magazine of ideas

Chegou-me hoje o mais recente número da revista Philosophy Now, referente a Novembro/ Dezembro de 2008. O destaque de capa vai para a Utopia e como é que os filósofos tem visto a utopia. Destaque também para a 3ª parte da autobiografia de Daniel Dennett e as habituais secções de livros e cartas de leitores.

David O. Brink

O nosso compromisso com a objectividade da ética é profundo. A ética só é objectiva se houver factos ou verdades sobre o que é bom ou mau e correcto ou incorrecto que se verifiquem independentemente das crenças morais ou das atitudes de quem os avalia. Um compromisso com a objectividade faz parte de um compromisso com a normatividade da ética. Os juízos morais exprimem afirmações normativas sobre o que devemos fazer e valorizar. Como tal, pressupõem padrões de comportamento e valorização alegadamente correctos, que podem e devem guiar a conduta e o cuidado, e que podemos não conseguir aceitar ou efectivar na nossa vida. A normatividade, portanto, pressupõe a falibilidade, e a falibilidade implica a objectividade.

Patrick Grim

Se Deus não pode agir incorrectamente, é-lhe impossível enfrentar quaisquer escolhas morais genuínas. Nesse caso, Deus não pode ser louvado por fazer as escolhas correctas, e se Deus não é moralmente louvável dificilmente se pode considerar moralmente perfeito. A perfeição moral necessária parece excluir a possibilidade precisamente daquelas escolhas que a perfeição moral genuína exige.