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Julian Baggini


A filosofia preocupa-se com as questões que ficam por responder depois de se ter reunido todos os factos.

The Pig that Wants to be Eaten and 99 other thought experiments.

Comentários

  1. Isso porque o trabalho do filósofo vem depois disso, é uma atividade conceitual que lida com problemas, teoias e argumentos que não podem ser decididas recorrendo a esses dados. Apesar desse caráter aparentemente consensual da natureza da filosofia ainda assim surgem filósofos que pretendem negar isso, os filósofos experimentais, partidários de uma corrente também designada como nova filosofia. http://www.nytimes.com/2007/12/09/magazine/09wwln-idealab-t.html

    Penso que essa corrente não tem futuro, pois é fruto de confusão de idéias. E é natural que apareça alguém defendendo esse tipo de coisa, já que (como diz o ditado) não há nenhum absurdo que um filósofo não tenha defendido com teorias e argumentos.

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  2. Por outro lado, Einstein afirmou que "se uma ideia a início não parece absurda, é porque não tem pernas para andar". Haverá alguma verdade nisto? Se sim, porquê?

    Em filosofia não pode haver à partida ideias absurdas (a meu ver) pela seguinte razão:

    a) a filosofia não é, como se aprende erroneamente na escola, um conjunto de crenças "filosóficas". A filosofia é uma actividade que se faz a propósito de crenças. Na escola confundem-nos filosofia com "coisas filosofadas"... o que é outra coisa, muito diferente.

    b)mesmo as coisas aparentemente mais absurdas são dignas de ser pensadas porque podemos sempre aprender algo. Por exemplo, mesmo que não consigamos responder à questão do livre-arbítrio, pelo menos aprendemos a não cometer erros fáceis, como pensar que um universo indeterminista é mais favorável à liberdade de escolha do que um universo determinista. Não temos ainda respostas últimas para estas questões, mas ao menos vamos aprendendo e iluminando outras partes da nossa vida mental. Estudar um argumento de filosofia da religião, a propósito de um tema que à partida nos desagrada ou achamos palerma, pode fazer-nos mudar de ideias ou iluminar algo que não esperávamos, a propóstio de outro tema qualquer.

    Assim, acho que vale a pena analisar e sublinhar sempre, mesmo que seja uma confusão de ideias: nunca se sabe o que vamos achar. Talvez uma ponta de verdade que não sabíamos que ali estava. Ponta de um novelo por onde continuar a pensar algo que valha a pena.

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  3. Este livro do Baggini está editado no Brasil:

    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1582301&sid=13121016611118388074291181&k5=2ADCE9FF&uid=

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  4. A afirmação de Baggini pode ser enganadora se se pensar que tudo o que há a fazer depois de reunidos os factos é filosofia. Isto é falso. Depois de reunidos os factos sobre planetas, por exemplo, ainda não há astronomia. A teorização científica faz-se com base nos factos reunidos, mas a mera reunião de factos não é ciência ainda, pelo que nem toda a actividade que se faz depois de reunidos os factos é filosofia.

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  5. Ainda fui ver se o problema era da minha tradução, mas não... Ele de facto usa "the questions" e não "concerns itself with questions". Aí podíamos interpretar como "algumas" (não todas). Mas o "the" é inambíguo.

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  6. Oi Vitor

    penso que se Einstein tinha a intenção de ressaltar o quanto novas descobertas científicas podem parecer absurdas do ponto de vista da ciência cotidiana e que seria bom assumirmos uma atitude tolerante e uma mente aberta face às descobertas, ele tinha razão. Mas o que ele parece sugerir é algo bem mais forte que isso, que apenas teorias que parecem absurdas têm futuro na ciência. Penso que essa afirmação é falsa, pois muito do progresso científico depende de pequenas descobertas "bem comportadas", digamos assim. Em alguns casos há descobertas que parecem absurdas, em outros não.



    "a filosofia não é, como se aprende erroneamente na escola, um conjunto de crenças "filosóficas". A filosofia é uma actividade que se faz a propósito de crenças. Na escola confundem-nos filosofia com "coisas filosofadas"... o que é outra coisa, muito diferente"


    Discordo de você. A filosofia é o que os filósofos fazem: teorias que pretendem resolver problemas filosóficos com argumentos. E é claro que nesse sentido a filosofia é um conjunto de crenças filosóficas, pois é preciso que haja crenças filosóficas para que se faça filosofia - seria muito estranho dizer que os filósofos apresentam montes de conceitos, argumentos e teorias sem acreditar em nada do que defendem. O que não há é um conjunto de crenças filosóficas que seja aceito de maneira unânime por todos os filósofos, mas isto é trivial. De qualquer modo a caracterização do que é a filosofia depende também de uma crença filosófica - a citação de Baggini é uma crença filosófica que inclusive é desafiada pela nova filosofia.


    O que eu queria enfatizar com a minha afirmação de que a nova filosofia tem pretensões absurdas é que a crença filosófica de que a filosofia se faz com argumentos e não é decidida por dados empíricos é uma crença importante em termos filosóficos e muito bem estabelecida: tudo aquilo que entendemos por filosofia confirma essa crença filosófica e pouquíssimos filósofos tentaram sustentar o contrário – eu não conheço nenhum. E de um jeito ou de outro mesmo estes filósofos farão isso de um modo que sustenta essa crença filosófica.



    "b)mesmo as coisas aparentemente mais absurdas são dignas de ser pensadas porque podemos sempre aprender algo. Por exemplo, mesmo que não consigamos responder à questão do livre-arbítrio, pelo menos aprendemos a não cometer erros fáceis, como pensar que um universo indeterminista é mais favorável à liberdade de escolha do que um universo determinista. Não temos ainda respostas últimas para estas questões, mas ao menos vamos aprendendo e iluminando outras partes da nossa vida mental. Estudar um argumento de filosofia da religião, a propósito de um tema que à partida nos desagrada ou achamos palerma, pode fazer-nos mudar de ideias ou iluminar algo que não esperávamos, a propóstio de outro tema qualquer."


    Concordo com você que não devemos descartar uma teoria à partida apenas porque nos parece absurda, mas não diria que o fato de uma teoria se chocar contra fortes intuições que temos ou crenças filosóficas bem estabelecidas, ou seja, do fato de nos parecer absurda, é irrelevante para avaliarmos essa teoria. Não fazemos filosofia a partir do nada, partimos de crenças que temos. E é razoável exigir de uma teoria filosófica que nega crenças bem estabelecidas (filosóficas ou de senso comum) que tenha fortes razões para tal. A idéia de que a filosofia deve ser entendida como uma reconstrução total de nossas crenças, de que não pressumos nada ao fazer filosofia, parece-me errada por várias razões, sendo uma delas o fato de tornar a teorização filosófica desenfreada, patinando em discussões sem atrito. Uma das melhores objeções à teoria ética de Kant é o exemplo de alguém que mente para salvar o amigo, porque? Porque temos uma forte intuição moral de que mentir nesse caso é justificável devido as conseqüências. Nesse sentido a teoria de Kant é absurda porque contraria uma intuição moral importante e qualquer teoria ética que nos diga que é sempre errado mentir enfrentará essa objeção. Resumindo: do fato de uma teoria parecer absurda não se segue que seja falsa, mas segue-se que a teoria enfrenta vários problemas e que deve ter boas razões para contorná-los. Se reparar bem, irá notar que eu afirmei que a nova filosofia não tem futuro, pois é fruto de uma confusão de idéias. Isso porque o que há de realmente filosófico na filosofia experimental é a discussão de idéias que vem depois dos experimentos, questionários etc.


    “Assim, acho que vale a pena analisar e sublinhar sempre, mesmo que seja uma confusão de ideias: nunca se sabe o que vamos achar. Talvez uma ponta de verdade que não sabíamos que ali estava. Ponta de um novelo por onde continuar a pensar algo que valha a pena”.

    Concordo e penso que devemos também sublinhar o seguinte: é preciso ter a cabeça aberta, mas não tanto que deixe o cérebro pular para fora. Devemos ser críticos com todas as teorias e as teorias que fazem alegações extraordinárias devem ter razões extraordinárias para sustentar essas alegações. Encarar com complacência uma nova teoria, seja filosófica ou científica, não é uma atitude tolerante, é uma atitude dogmática. Ser tolerante é avaliar as teorias com o máximo de rigor possível, inclusive as que se pretende revolucionárias.

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  7. Matheus,

    Não acho que devamos ser tolerantes para com qualquer conjunto de ideias, nem que devamos respeitar seja que ideias forem. As ideias servem para ser questionadas, ou não servem para nada. O objectivo não era defender a filosofia "experimental" mas sim alertar para nunca pressupormos que algo já foi eliminado argumentativamente, poupando-nos o trabalho de ir ver por quê.

    Não creio que haja crenças filosóficas, tal como não há crenças religiosas. Há simplesmente crenças. Crenças acerca do mundo físico, acerca da mente, acerca de Deus... A filosofia tem a ver com a justificação das crenças. Nada há na crença de que as coisas têm partes temporais que faça dela uma crença filosófica. Filosofia é a actividade pela qual se chega à justificação dessa ideia. Tocar piano é uma coisa, ouvir Chopin é outra.

    Você até concorda comigo: filosofia é o que os filosofos FAZEM. certo. nada a opor. Mas o que eles fazem não é aquilo em que acreditam. Porque podem acreditar nas mesmas coisas sem ter argumentos. Por exemplo, muitos músicos não reflectem num tópico de filosofia da música: como é que a música exprime emoções, se é que o faz? - limitam-se a fazer algo natural: escolhem a teoria canónica que mais lhes agrada e repetem-na aos alunos no caso de haver perguntas embaraçosas. (pelo menos a confiar no Stephen Davies... eu próprio nunca ensinei música, mas isto é compatível com o que conheço dos meus antigos professores. Não reflectem realmente nisto. É trabalho dos filósofos. Acontece que aquilo que diferencia este trabalho não é as crenças mas aquilo que eles fazem para tentar sustentar ou refutar as crenças.

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  8. Oi Vitor

    Vamos trocar o termo "crença" por "idéia", que me parece mais claro.

    Entendi melhor o que você disse e concordo em parte com você: a filosofia não se identifica com um conjunto de idéias filosóficas, mas com um tipo de atividade argumetativa acerca dessas idéias. Nesse sentido fazer filosofia é sempre a mesma coisa, justificar certas idéias que pretendem responder a determinados problemas filosóficos. Mas essa atividade argumentativa pode variar de acordo com as idéias defendidas pelos próprios filósofos. Exep: Wittgenstein e sua concepção de filosofia como terapia, os filósofos da linguagem corrente de Oxford, o modo como Dumett pretendia resolver o debate realismo/anti-realismo etc. Isso muda o modo como esses filósofos justificam suas idéias de um modo relevante, é preciso levar isso em conta. Enfim, a atividade filosófica é uma coisa e as idéias defendidas nessa atividade são outra, mas é importante não esquecer que as idéias defendidas pelos filósofos acerca da sua própria ativdade influenciam essa atividade.

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  9. Matheus
    Acerca de seu posicionamento contra o que a denominada "nova filosofia", acredito que os dados empíricos reunidos podem colaborar para o esclarecimento de certas questões. Vejamos: a biologia darwinista oferece dados importantes para uma filosofia da natureza humana, que antes das pesquisas de Darwin, inexistiam.

    Gostaria também que você explicasse melhor o que chamou de "confusão de idéias" que aqueles que utilizam dados empíricos buscando reponder questões filosóficas cometem.

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  10. Caro José

    eu concordo que os dados empíricos possam contribuir para o esclarecimento de certas questões filosóficas, mas os dados empíricos em si mesmos não decidem as discussões filosóficas. Recorrer a dados empíricos na atividade filosófica é um procedimento metodológico banal, uma trivialidade que se espera dos filosófos, mas dizer por causa disso que a filosofia é experimental é confundir as coisas, é uma confusão de idéias.

    A idéia de que essa nova filosofia é uma filosofia experimental é infundada: muitos filósofos têm o hábito de recorrer a dados empíricos para fazer filosofia, não há nada de extraordinário ou novo nisso e nem por isso dizemos que esses filósofos são experimentais.

    A única novidade que encontrei no que li acerca do tema é a indicação de que devemos recorrer a dados empíricos para avaliar as nossas intuições ou crenças de senso comum, por exemplo. Mas mesmo nesse caso suspeito que os resultados de questionários ou testes acerca de nossas intuições acabam sendo inseridos na discussão filosófica.

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