26 de janeiro de 2009

a ideologia na escola

A fonte é o manual de Português, do mesmo lote referido na antepenúltima posta.
Aqui temos um excelente exemplo da psicofoda em acção: O pretexto é o mito fundador da nacionalidade. Seria de esperar que um texto escolar veiculasse factos e informação de uma maneira imparcial, mas vejamos. Temos o caos ortográfico, digno de uma Maluca Casteleira, em que palavras como "rei" e "condado" tanto aparecem em caixa alta como em caixa baixa, aleatoriamente. Três pontos de exclamação (sic) a ritmar um elogio da força bruta, com uma psicologia interessante: um homem que levanta uma espada que nem dois homens podem levantar. Um elogio da "valentia e ambição" da "extraordinária" saga afonsarenquina (mas esta informação não devia ser imparcial? Científica? E a "valentia" de passar populações à espada, não a criticamos nos criminosos de guerra sérvios e outros? Por que razão é assim tão "mística" só porque foram barbaridades ocorridas há 800 anos?). Seria de esperar que uma visão científica e imparcial da história ibérica desse às crianças uma informação menos estereotipada e generalizadora do que aquela que se transmite em expressões como "os mouros". Etiqueta redutora e demonizadora, tendo em conta que falamos dos agentes culturais mais importantes para a Ibéria medieval. Fica a criancinha a pensar que “os mouros” eram uma horda homogénea, talvez regida por um único soberano, o mesmo desde a sua entrada na península até à sua saída. Como se os árabes ibéricos não fossem tão “nativos” como os outros.

Por que raios a criança tem de "tomar o partido" de uma facção? Não somos nós o resultado histórico contingente de TODAS as partes que por cá andaram? Por que razão tem o Afonsinho de ser "meu" rei? Não estamos numa república? Então e os reis "mouros" e a diversidade de reinos, todos reduzidos a uma etiqueta generalista? Então e as realizações culturais da Ibéria não estarão antes na matemática, na arquitectura, nas humanidades, no esplendor do contributo árabe ibérico? Como raios explicamos às criancinhas que é bom ter orgasmos mentais a contemplar a força bruta nos nossos “heróis” fundadores, mas que depois já é muito mau se esses heróis boçais forem mais contemporâneos, em guerras mais modernas? Como lhes explicamos que qualquer boçal que tivesse feito ao Afonsinho o mesmo que ele fez ao rei de Leão seria um “herói” para quem dele escrevesse com extravasamentos poéticos de ideologia, muito provavelmente até inintencionais, para foder o juízo às criancinhas?




A questão não é querer dar às crianças uma ideologia contrária, "melhor" do que esta. O que está mal no pensamento de gramofone não é o conteúdo da mensagem, e sim o facto de vir de um gramofone. É irrelevante se a mensagem é nacionalista ou antinacionalista. Acontece que as mensagens nacionalistas, a empurrar para a religião, e coisas semelhantes, são estatisticamente mais comuns. A questão é que bastaria que os autores de manuais tivessem a consciência suficiente para dar a informação às crianças de um modo imparcial, objectivo, distanciado, não tomando partido por ideologias e sobretudo não funcionando da mesma maneira como funciona um órgão de imprensa de um partido político. Já basta a lavagem constante para tentar reconstruir o "deus, pátria, canhão" através da paranóia futebolística. (Alguém viu aquela maravilhosa foto do primeiro com a camisola 13 na mão? Vejam os jornais desportivos: são curiosíssimos. São o grande bastião do reaccionarismo cultural. Repare-se, com olhos de ver, no tipo de linguagem aí usado.)

5 comentários:

  1. Para a objecção mais óbvia e trivial:

    Sim, os jornalistas desportivos e os autores de manauis têm todo o direito à livre expressão, a escrever as reportagens que escrevem e a fazer manuais nacionalistas. Sou o primeiro a defender o seu direito a fazê-lo.

    Acontece que eu tenho o direito de escrever estas postas, expondo o meu ponto de vista, tentanado influenciar as pessoas, pais e professores, a escolher manuais cientificamente correctos, imparciais e rigorosos. E a convencer os jornalistas e os seus leitores de que talvez estejam a passar, sem sequer ver, mensagens de que eles próprios não gostariam se as vissem num jornal de outro teor, que não futebolístico. Talvez não estejam a ver as implicações de tudo o que dizem.

    Nada disto entra em contradição com a liberdade incondicional de expressão. A diferença é que eu acho que a escolha deve ser do público e não de um poder centralizador. Prefiro que haja escolas a adoptar manuais isentos, com a contrapartida de outras que não os adoptam, do que entregar nas mãos de um qualquer idiota do estado o poder de dizer qual é a ideologia-sensação do momento.

    Prefiro a discussão pública e a selecção pelo público, dando espaço à livre concorrência de argumentos. A nossa cultura ainda não é um mercado livre de ideias, ainda sofre do síndrome do proteccionismo fascista.

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  2. O politicamente correcto vai destruir a nossa sociedade. Qual o problema de chamar mouros aos ditos?! E se chama cultura aquela estranha forma de vida...

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  3. O problema não é de correcção política. Seria o mesmo problema que chamar "os cristãos" como massa indiferenciada a todos os reinos do norte, durante esta época. O problema é de correcção histórica, precisão científica. Uma coisa é você ter o direito de chamar o que quiser a este e àquele. Outra coisa é o distanciamento e a objectividade.

    Um texto com informação histórica para crianças não é o lugar para fazer propaganda. Claro que o autor tem o direito de o fazer, e eu tenho o direito de chamar a atenção. O publico decide. É o que significa ter um mercado livre: não há tutela da ideologia oficial do estado, seja ela a do "deus, pátria, nação" ou do "internacionalismo proletário" ou outras palavras mágicas. É o que significa ter liberdade. As ideias competem livremente, são avaliadas pública e descontraidamente e as pessoas decidem.

    Nada tenho contra o uso da palavra "mouros". Não estou a fazer uma defesa politicamente correcta de coisa alguma. Abomino o fanatismo religioso em todas as suas formas e acho que a postura "prudencial" dos políticos europeus em geral no caso dos cartoons foi risível.

    Sempre que eles falam em "responsabilidade" no uso da liberdade de expressão, deviam ser lembrados do que aconteceu em Julho de 1991: o tradutor japones de Salman Rushie, de 44 anos, foi apunhalado até à morte numa universidade, e o seu tradutor italiano, um senhor de 61 anos, foi apunhalado na própria casa, tendo sobrevivido.

    Mas não é disso que estamos a falar, nada tem a ver com o caso. Estou a falar de se ser objectivo, cientifico, imparcial, rigoroso, e não usar as criancinhas como instrumento para perpetuar os nossos preconceitos preferidos.

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  4. correcção: nada tenho contra o uso da palavra "mouros" em contextos que não exijam rigor científico. Num texto de história ou em qualquer texto escolar, é tão mau como qualquer outro tipo de superstição.

    O que é mau aqui não é a liberdade de chamar "mouros", o que é mau e imoral é o uso das crianças como instrumentos. Por isso é que o ensino tem de ser distanciado e objectivo. Eu seria o primeiro a protestar se as minhas ideias preferidas fossem ensinadas catequeticamente nos manuais. Defendo que isto é imoral, independentemente de quais as ideias que são propagandeadas. O pensamento de gramofone nas escolas é imoral, é tratar os miúdos como se não fossem pessoas mas apenas extensões do preconceito dos adultos. Está errado. Eles que tenham os seus próprios preconceitos.

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  5. a verdade tem que ser dita,pelo menos uma vez.

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