19 de janeiro de 2009

lavar o cérebro às criancinhas

A fonte é o manual do 4º ano, de «estudo do meio», da editora Areal. Talvez seja preciso ampliar para ver a secção a vermelho: Os símbolos nacionais de um povo - bandeira e hino nacional - devem ser tratados com o máximo respeito por todos.



Não admira, com um provincianismo deste calibre, que os mandatários da UE se sintam ofendidos com uma obra de arte que não faz senão mostrar a percepção que o mundo tem desta "salada cultural". Mas por que raios tenho de tratar com o máximo respeito os símbolos da nacionalidade?

28 comentários:

  1. Caro Vitor,

    Podes, sff, explicar melhor o porquê da tua discordância?
    Assim à primeira vista não vejo o que há de errado com a afirmação, mas para ser franco também não tinha pensado muito sobre o assunto.


    obrigado,
    jaime

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  2. Não percebo como é que a frase sublinhada a vermelho é sinónimo de provincianismo descalibrado.

    O hino e a bandeira são de facto os símbolos da nacionalidade e deverão ser tratados com respeito por várias razões. As razões são óbvias e todos os cantos do mundo onde se pratica filosofia honram esse compromisso.

    De resto, algum apego aos símbolos da nacionalidade não é de todo uma condição necessária para não compreender a ironia e até o humor da obra do escultor checo.

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  3. As razões são que numa sociedade livre não tenho de todo em todo que ter o máximo respeito, ou o mínimo, pelos símbolos da nacionalidade. O ónus da prova recai sobre quem quer impor tais limites e não sobre quem protesta a sua aplicação.

    A minha atitude decorre de rejeitar a ofensa como critério para limitar a liberdade de expressão. Se tenho de ter o máximo respeito pelos símbolos da nacionalidade, obras como a de Cerny são automaticamente imorais porque toda a sua força consiste precisamente em insultar os estereótipos.

    Mais:

    Quem disse que tenho de me identificar com o estereótipo nacional que vendem perto da minha rua, do território nacional a que se refere o meu bilhte de identidade? Por acaso eu obrigo os mandatários do estado a respeitar qualquer símbolo maluco que me apeteça?

    Tenho toda a liberdade de insultar os mandatários do estado... numa sociedade livre e aberta. Ninguém tem bons argumentos morais para me impor o respeito por estes símbolos. Sou um indivíduo, não sou um rótulo que anuncia uma etnia, credo ou estado. Não me sinto ofendido pelas agressões ao esterótipo nacional, pelo contrário, acho-as muitíssimo divertidas.

    Arlequim: Podia explicar essas "várias razões" que me impedem de desrespeitar os símbolos da nacionalidade? Ponha-as a nu, para que todos as vejamos. Não estou a ver quais sejam.

    Agora, à revelia do que é solicitado na etiqueta dos comentários, permitam-me que exerça um direito, só para não enferrujar:

    O hino nacional é uma merda antimusical hedionda. Um laxativo cerebral de primeira.

    De acordo com o livro escolar, eu não poderia, sem imoralidade, exprimir esta minha opinião, que musicalmente falando, é sincera e não meramente provocatória.

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  4. Quem são os mandatários do estado, mortos ou vivos, para decidir por mim que determinado símbolo tem de ter um valor emocional ou ideológico x ou y? Quem são os mandatários do estado para me impor ideologias?

    Sou contra o que é dito naquela página porque não estamos na Coreia do Norte, na China, na Rússia do Putin ou numa teocracia qualquer. E se estivéssemos tanto pior, porque as leis nesses países são imorais e devem ser alteradas.

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  5. Vitor, além de concordar com os comentários anteriores à sua demonstração de rebeldia (e que lógica impecável, parecem medalhas não é?) acrescento que nunca notei ideologia em dever respeito ao Estado, mínimo que seja). E pergunto, qual é o defeito natural de provincialismo? Posso estar comentendo um engano, mas uma teocracia qualquer permitiria uma crítica, mesmo "sujinha" como uma instalação? Vai falar em "ônus da prova" em ditaduras?

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  6. O João e o Pedro são orfãos e nunca conheceram os seus pais. Anos mais tarde encontram-se e o João apresenta uma fotografia da sua mãe ao Pedro; de facto, nunca a conheceu mas olha para a fotografia como um símbolo da sua mãe. Porque razão deveria respeitar essa fotografia? Porque compreende que sem a sua mãe não estaria ali presente. Aliás, até acha a senhora da fotografia particularmente feia e asquerosa; teria preferido ter talvez outra mãe, mais bela. E no entanto aceita esse juízo estético e respeita a fotografia da sua mãe como o símbolo da maternidade: algo que o possibilitou, que lhe permite ser de algum modo, único e que o deixa contemplar a possibilidade de rasgar a fotografia. Pensa que poderia efectivamente rasgar a fotografia mas prefere guardá-la, bem escondida até, na carteira.

    Pede a opinião a Pedro sobre a sua mãe e este diz-lhe que a acha uma rameira. João sorri e diz que também pensou o mesmo. A senhora parece de facto uma rameira mas quem lhe deu a fotografia assegura que não, que isso está longe da verdade embora hajam semelhanças.

    Será esta história transponível para os símbolos da nacionalidade? Creio que sim. Apreciei a obra de Cerny precisamente porque é provocadora para as noções demasiado restritas de pátria que os cidadãos respectivos possam ter, permitindo que as alarguem; não só da sua noção de nacionalidade mas também da noção que têm da os outros.

    Isso não está de modo nenhum relacionado com a maneira como esses símbolos devam ser vistos; respeito não é subserviência nem sinónimo de um sistema político autoritário. É talvez nas nações com uma forte tradição na liberdade de expressão que esses símbolos continuam a ter peso; há coisas que não se escolhem e depois de compreendidas, aceitam-se: a cara, dos nossos pais, as faces, do nosso país.

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  7. Claro que uma ditadura não permitiria essas coisas e é precisamente contra o espírito de ditadura que falo.

    A posição segundo a qual devo respeito ao estado (com e) é ideologia. Quem é um político para me dizer que símbolo x ou y TEM de ter um valor emocional determinado para mim?

    Não entendo a incompreensão das pessoas neste assunto. Não sou obrigado a reverenciar o estado, é tão simples como isso. O estado é apenas uma organização de indivíduos que se metem na vida dos outros, e só se diferencia de uma empresa qualquer por recorrer constantemente a mitos, imaginações e fantasmas que agitam sentimentos em quem nem pára um segundo para pensar naquilo que o excita ou ofende em todas essas exortações.

    Devo tanto respeito ao estado como a qualquer outra associação de indivíduos. Era só o que faltava não poder ridicularizar uma associação qualquer.

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  8. não tenho qualquer objecção em comparar o estado português a uma puta. Boa analogia!

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  9. Ninguém o obriga a reverenciar o estado; o Vítor não é obrigado a cantar o hino nem a pendurar um galhardete com a bandeira portuguesa na sua janela nem a faltar ao trabalho nos dias de feriados históricos. De facto até pode ridicularizar o estado e deve continuar a fazê-lo se achar que o estado de coisas melhoraria com as suas invectivas. O espírito de qualquer nação, da qual o estado está imbuído, permite-lhe que faça essas críticas.

    Se é contra o espírito da ditadura que fala, qual seria o país no mundo que lhe possibilitaria uma crítica e uma liberdade de expressão livres sem lhe recomendarem respeito aos símbolos que permitem essa crítica?

    Talvez não assim tão livres porque o Vítor seria preso se queimasse uma qualquer bandeira no respectivo território, por exemplo. E no entanto desconfio que não o fará.

    Continuando, a resposta é nenhum porque o respeito a esses símbolos não são de todo resquícios de uma qualquer ditadura; são as condições de possibilidade de construção do edifício da razão e do próprio espírito dessa nação.

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  10. Caros,
    O hino e a bandeira não merecem mais respeito que os choriços das beiras ou o presunto do minho. No manual para crianças deveria vir qualquer coisa como: "devemos conhecer a bandeira e o hino" e ainda assim soava algo bizarro. Mas não há mal algum em dar a conhecer esses elementos da nação. Mas respeito? Cada um é livre de os respeitar ou não. E já agora aproveito para fazer uma confissão: eu não sei nem nunca me interessei em saber o hino nacional. Não me orgulho de não saber mas também nunca me interessou saber o hino. Mas conheço centenas de tolinhos que o cantam todos os fins de semana num qualquer estádio de futebol.

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  11. As pessoas não precisam dos símbolos da nacionalidade para se exprimirem livremente. O que me garante a liberdade não é o facto de ter estes ou aqueles símbolos nacionais e sim o meu exercício dessa liberdade. Se as leis que regem o território onde me encontro forem sensatas, garantir-me-ão o exercício desse direito sem ser fisicamente coagido a calar-me por qualquer idiota. Mas as leis para serem sensatas não precisam de um conjunto particular de símbolos. Só precisam que as pessoas a viver nesse território tenham juízo.

    Você inverte as coisas: é porque primeiro tomamos decisões (quer queiramos quer não) sobre o tipo de vidas que queremos viver, que passamos a precisar de coisas como leis. Não é por haver uma lei que passamos a ter o privilégio da liberdade de expressão. Antes de ser formalizado na lei, a liberdade de expressão é algo moralmente objectivo e a sua defesa, por contraste à ditadura, é racional. Leis sensatas decorrem daqui e não o contrário. É a agentes racionais em paridade cognitiva e moral que devemos a existência de leis como deve ser, não é às leis que devemo a existência de agente racionais.

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  12. Se posso dar uma achega, peço-vos que pensem no seguinte: por que razão ninguém nos pede para termos respeito pela lei da gravidade, por exemplo, ou pelo teorema de Pitágoras? Por que razão só nos é pedido para respeitarmos coisas como bandeiras, religiões, hinos? A resposta simples é que o respeito serve a continuação da mentira política. Se as pessoas desatassem todas a rir quando vissem a bandeira, acabava-se com essa tolice. Mas por mais que as pessoas possam rir do teorema de Pitágoras, nada acontece de especial. É como o Pai Natal. Se o respeitarmos, até parece que existe.
    Daí a ânsia que as pessoas têm não apenas em respeitar elas mesmas essas coisas, mas em impedir os que se estão nas tintas para tal respeito. Caso contrário, essas pessoas diriam simplesmente que elas respeitam e tal, mas que os outros podem respeitar ou não, é lá com eles. Só que isto não funciona assim. Quando Hitler falava às multidões aquilo só funcionava precisamente porque eram multidões e porque ninguém desatava a rir dele.
    O argumento de que precisamos desse respeito para podermos continuar a funcionar como sociedade organizada é muito fraco. O que precisamos para continuar a funcionar como sociedade é contribuir para a sociedade funcionar bem, com o nosso talento, trabalho, cooperação, simpatia. O respeito não faz diferença alguma. Na verdade, o que é afinal o respeito por uma bandeira, hino ou tolice dessas? Compreendo o que é respeitar uma pessoa — basicamente, consiste em não a tratar como mero instrumento ao meu serviço. Mas não é possível tratar um símbolo como um mero instrumento porque um símbolo é precisamente apenas isso. Respeitar símbolos implica então esta inversão indesejável em que somos nós que nos tornamos instrumentos do símbolo, e não fins últimos, como pessoas que somos. Em suma: respeitar símbolos é indefensável. Mas as pessoas devem ter o direito de os respeitar, se quiserem. Não devem é ter o direito de obrigar os outros a respeitar os símbolos que eles respeitam só porque têm medo de perder o respeito pelos símbolos, pois no fundo desconfiam que isso é de facto, bem vistas as coisas, uma grande palermice.

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  13. Acho que o problema dessa afirmação do livro se resume ao carácter normativo: "devem ser tratados com o máximo respeito por todos".

    Isto é uma bizarrice. Não é porque podem sê-lo que o devem ser. Quem quiser reverenciar a bandeira e o hino, que o faça. Agora, que se exija esse tipo de comportamento, é algo completamente distinto.

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  14. A questão é muito, muito simples, como frisou o Desidério: por que razão não se exige respeito às propriedades elementares das operações aritméticas?

    É elementarmente claro que se eu devesse máximo respeito a um símbolo, nem sequer podia tematizar filosoficamente o tema do "povo" e da "nacionalidade" e toda a mística pateta que envolve estes discursos. Estaria a "passar das marcas". O que é isso de "relativizar" o estado?! Ora essa.

    Mesmo que a história seguisse outro rumo e tivéssemos, ao sabor das guerrinhas fratricidas entre bastardos aristocratas de há 800 anos, outra configuração política na ibéria - sei lá: imaginem uma federação de estados ibéricos com outras fronteiras - também essas divisões políticas teriam os seus mitos patetas e os seus pontos de honra. Contudo, também nelas poderia haver leis sensatas que reconhecem o direito de as pessoas se exprimirem. É porque queremos viver de determinada maneira que fazemos leis e as alteramos.

    Repare-se: se devo máximo respeito aos símbolos do estado, isso significa que nem sequer tenho direito de questionar a justificação do estado ou se devíamos ou não ter outro tipo de estado. Um cidadão numa sociedade livre deve poder ter a liberdade de pensar estas coisas, de fazer obras de arte ou penduricalhos com a bandeira nacional se assim lhe apetecer.

    As pessoas nem se apercebem daquilo que defendem. Que em termos filosóficos não estão a divergir sequer do aiatóla que lançou a fatwa sobre o Rushdie. Não sei que raio de vírus leva as pessoas a pensar que a sua própria estreiteza nacional e respeitinho patológico por figuras de autoridade são diferentes ou mais "benignas" do que aquelas.

    Qualquer criança que pense um pouco vê que se o filho do francês que queria ser rei à força, o nosso dom afonsinho dos murcões, aplicasse a máxima do respeito pelos símbolos da nacionalidade, jamais se poderia ter revoltado contra o soberano legítimo de Leão e Castela. A única razão por que pensamos que tudo aquilo foi muito bom, é por estarmos no lado de cá da fronteira e termos apanhado com uma certa conversa nos livros de história. Se qualquer outro boçal aristocrata tivesse feito ao afonsinho o mesmo que ele fez ao outro, os subditos desse boçal reinvindicariam precisamente as mesmas palermices nacionalistas com que os nossos filhos têm de apanhar na escola... só porque sim... porque alguns políticos querem e mandam e sabem que símbolos é que têm de ter que valor para nós.

    Se permutássemos a conversa dos símbolos e das dignidades por afirmações claras, veríamos que tudo isto não passa de tentar vender aos putos, pela porta do cavalo, afirmações que qualquer indivíduo sem ser pressionado e a raciocinar claramente não aceita assim. Isto é patente no comentário que o Desidério fez, melhor do que eu fui capaz.

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  15. Continuo a discordar.

    Nenhum de vós é coagido a respeitar os símbolos da nação. Esse respeito, tal como atesta o livro, é vos recomendado e podem-lhe ser indiferentes.

    Penso que o que pretendem é poderem ter a liberdade de insultar os símbolos do estado e daí não advirem consequências legais; ou seja, pretendem insultar um objecto apenas como se fosse um objecto e todos os seus significados miraculosamente desaparecessem.

    A questão é que o exercício da liberdade de expressão é concomitante com a existência de símbolos que articulam essa liberdade. Não disse, como pretende o Vítor, que a existência de leis precede essa liberdade; concordo consigo quando afirma que a liberdade de expressão é algo objectivamente moral mas constato que para ela existir não pode existir na sua forma pura; tem que encarnar e observa-se que nas sociedades humanas a faculdade de me expressar livremente decorre da existência paralela de símbolos que estendem essa liberdade para todos os indivíduos que cabem no conceito significado.

    No caso dos objectos serem apenas entidades físicas não se perderia só o respeito para com eles; seríamos também indiferentes a outras cargas simbólicas: todos ficariam indiferentes se eu cobrisse uma sinagoga com uma bandeira nazi. Isto é claramente uma utopia, a mesma que defendem.

    O Desidério também diz que o respeito aos símbolos é indefensável. De facto não é preciso respeitar as leis da aritmética ou da gravidade porque elas não dependem da nossa existência; ao contrário, um símbolo de algo tão passageiro a escalas temporais suficientemente extensas como uma nação necessita de símbolos para a coesão dos seus constituintes. Não digo que é suficiente, afirmo que é necessário; concedo ao Desidério e a ser possível entrar em quantificações, aquilo que uma nação mais precisa não é da presença de símbolos mas das capacidades humanas que apontou.

    O argumento de que o respeito aos símbolos obliteraria qualquer processo crítico ao estado também é fraco; repito, o respeito não é subserviência e o conceito para que esses objectos apontam é suficientemente lato para permitir essas críticas; discordar do símbolo é discordar do estado de coisas que ele arvora e não pôr em causa a necessidade da sua existência. Curiosamente, os processos históricos estão cheios de exemplos de sedições que resultaram na rejeição de determinados símbolos nacionais ou regionais e na imediata adopção de outros.

    Também argumentei que as semelhanças entre uma nação e a paternidade se devem às propriedades únicas que cada uma imprime a cada indivíduo e que tal exige respeito ou reconhecimento. Posso não concordar com a minha mãe ou com o meu pai, mas devo-lhes respeito; posso detestar o meu país e achá-lo um caso jocoso de coincidências históricas ou não, mas reconheço que não o pensaria se nele não tivesse nascido.

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  16. "posso detestar o meu país e achá-lo um caso jocoso de coincidências históricas ou não, mas reconheço que não o pensaria se nele não tivesse nascido."

    Falso. Posso pensar que algo que se passa em Espanha, Holanda, França, EUA, Rússia, Eslovénia e Austrália é uma grande fantochada, que todos esses estados são fruto de contingências históricas, e não nasci nesses países, nem sequer visitei a quase totalidade deles.

    Segundo a sua lógica, seria uma impossibilidade a espécie humana estar viva, pois andamos a reproduzir-nos há muito mais tempo do que há estados nacionais. E temos organização política muito antes de haver estados nacionais.

    A ideia do estado como pai é um triste resquício da mística salazarista. Não faz qualquer sentido. Uma bandeira, um estado, um território, um símbolo, não são o tipo de coisas que possam fertilizar uma fêmea homo sapiens para serem pais seja de quem for.

    O respeito é subserviência, pois o único sentido inteligível para a ideia de que devo respeito à bandeira mas não ao teorema de pitágoras é aquele velho refrão do "cuidado, disto não podes rir, ou pelo menos não o faças ao pé de mim."

    Portugas, despsicofodam-se do estado-pai. Já é tempo. 800 anos de existência e só 30 como democracia... que nunca funcionará como deve ser enquanto a palavra não signifiar somente: guerrinhas entre partidos, máquinas de guerra e propaganda, que colocam a argumentação racional no fundo da escala, e a ideologia em primeiro. No dia em que nos livrarmos dessa negação em si da demcracia, que é o partido e a ideologia, e passarmos a pensar como indivíduos, agentes racionais em paridade cognitiva e moral... aí sim, aprofundaremos a democracia.

    Não devo respeito algum aos símbolos da nação. As nações, as organizações políticas, têm um valor puramente instrumental. Não são "pais", são chaves de fendas que só servem se aparafusarem alguma coisa. Caso contrário, só estorvam. Neste momento, seria melhor para os portugueses se o estado simplesmente não se metesse tanto na vida das pessoas. Pode ser que então começássemos a aprender a andar e parar de gatinhar.

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  17. O Vítor não é nenhum arauto e o seu discurso derivou para outras latitudes; nomeadamente, a ideia do estado pai que julga infectar os portugueses. Que grande novidade, acho que leio isso a páginas meias em qualquer jornal. As suas palavras só adornaram uma birra passageira, neste caso com um parágrafo de um livro de história.

    Se realmente acredita nas suas palavras, beba a cicuta e mostre a sua falta de respeito com uma bandeira do respectivo solo que representa; não tem que ser em Portugal, pode ser noutro país qualquer. Até lhe digo, investigue a história de um país, daqueles sem ditaduras recentes, aterre no aeroporto e queime como um louco a bandeira e divirta-se a explicar a sua lógica podre às autoridades. Concedo que não é o facto de vir a ser condenado que não provaria que tem ou não razão mas o facto de isso acontecer em qualquer nação do mundo diz muito sobre o carácter universal do que defendi.

    Mas ambos sabemos que continuará apenas a mostrar as suas invectivas apenas atrás do ecrã, certo?

    O seu discurso situou-se sempre nos antípodas dos motivos pelos quais *acha* que se pautaram os autores do livro. Definiu a sua posição pelo contraste e daí pariu um mundo quando na realidade eles não significam provincianismo, intolerância, nacionalismos. Só assim se entende a sua obstinação quando uma atitude bastante mais saudável seria a indiferença.

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  18. Concordo, não sou arauto. Mas isso não vem a propósito de coisa alguma.

    A sua lógica é esta: se um comportamento é universal (ou quase) isso é um forte indício de que é moralmente bom. Assim sendo, em todos os países há roubo, violações, fraudes, e, além disso, há explicações naturais para estes comportamentos, LOGO são moralmente correctos ou desejáveis.

    Ou então assim: se algo é um preceito moral em todas as culturas é porque é moralmente justificável. Acontece que um preceito moral só é justificável se houver bons argumentos a favor dele. E a sua presença em mais do que uma "cultura" não é um indício racional forte, precisamente porque há imensas coisas horríveis que também são universais.

    Não faço ponto de honra em queimar bandeiras em aeroportos, estou-me nas tintas, só não quero aquilo que para si é uma "birra": sim - não quero que metam à força preconceitos na cabeça dos miúdos. Irrita-me, faz-me confusão, desgasta-me o juízo.

    Por que razão devo ficar indiferente? Por que razão é isso mais "saudável"? Parece-me muito mais saudável o contrário: simplesmente não tentar impingir "valores" pela porta do cavalo aos miúdos, e, ao invés, dar-lhes as ferramentas necessárias para pensarem pela própria cabeça aquilo que aceitam ou deixam de aceitar. O mesmo manual escolar vem com erros ortográficos cometidos em frases exortativas onde se diz que "D. Afonso Henriques tinha uma espada tão pesada que nem dois homens a levantavam". Ora, sem ser pressionados, os miúdos compreendem coisas simples como esta: recuamos de horrar perante criminosos de guerra sérvios, porque são acontecimentos de hoje, mas louvamos uma besta que desatou a matar pessoas por querer ser rei à força, mas, como foi há 800 anos, tudo isto é muito "místico", muito diferente.

    O irrazoável aqui não sou eu, nem sou eu que tenho de me calar ou ficar "saudavelmente indiferente". Protesto sim, e volto a protestar, porque ninguém me pode obrigar a respeitar símbolos, ideias ou seja o que for. E pregar isto a crianças que ainda não conseguem reagir em condições tem um nome: lavagem ao cérebro. Seja feita hoje ou no tempo da avozinha.

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  19. Outro corolário da sua lógica: na sua grande maioria, as nações do mundo NÃO SÃO, de perto ou de longe, democracias. Logo, o melhor estado de coisas possível, o mais desejável, é uma ditadura bem paternalista.

    Se reparar bem, quase tudo o que faz a vida valer a pena é minoritário comparado com as macaquices, violências e misérias dos seres humanos. Quase tudo o que vale a pena é um "fluke of nature", excepção, raridade. Tirando isso há apenas o muitíssimo mau e uma grande massa de mediocridade e perda de tempo, coisas que nos fazem desperdiçar a vida a troco de nada de jeito. E isto é a vida.

    O tão amado "respeito pelos símbolos" é uma das patologias que causa uma grande dose desta violência e desta miséria humanas: a febre de aderir a um símbolo ou a uma vacuidade qualquer que faz as vezes de nossa "identidade", pela qual se luta, pena, mata, esfola... pela qual se deixa de viver e se abdica de tudo, a começar pela inteligência.

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  20. É curioso. Voltamos sempre ao mesmo: saltamos da irracionalidade de proibir o insulto para a ideia de que estamos a defender a necessidade do insulto a propósito de batatas, a toda a hora, em todas as circunstâncias.

    É como saltar da ideia de que é irracional proibir as pessoas de fumar quando não estão a impingir fumo a terceiros (não, não fumo) para a ideia de que então os fumadores têm imperativamente de invadir todos os espaços públicos reservados a pessoas que não fumam e fumar desalmadamente.

    Se não queimo uma bandeira no aeroporto, não é por respeito ao símbolo do país, mas por não ver que raios iria conseguir com isso - what's the point. Talvez em circunstâncias especiais isso fosse apropriado, mas assim em abstracto, não estou mesmo a ver.

    Mas defendo que tenho todo o direito a usar pins com símbolos nacionais profanados, pois seria contraditório a um nacionalista o direito de usar um pin improfanado, que eu posso muito bem tomar como ofensivo para mim. Aqui se vê que o respeito implica subserviência. Porque se eu for à rua com uma t-shirt estampada com a bandeira nacional e uma vagina no lugar do brasão... chateiam-me a cabeça. Mas se me mostrar chateado com uma t-shirt nacionalista, toda a gente vai pensar que estou a fazer uma "birra".

    É a quinta dos animais: alguns são mais iguais do que outros. Os ateus mudam tolerantemente de canal quando apanham a ladaínha da missa (embora paguem a contribuição) e acabou o assunto. Mas se tiro dinheiro do bolso para meter na rua um cartaz ateu... cai o Carmo e a Trindade. Mais iguais do que outros...

    O perverso é que as pessoas nem sentem isto como assimétrico. É "normal" só porque já estamos muito habituados.

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  21. Então porque será que, desde sempre, o homem conferiu valor simbólico a certas coisas? Será que há algum benefício nisso?

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  22. Até as palavras que estou agora mesmo a usar têm valor simbólico porque... são símbolos. Ter valor simbólico e ter uma relação necessária com uma verdade premente acerca das nossas vidas, que é preciso seguir incriticamente... são coisas muito diferentes.

    O valor simbólico, quando se substitui à argumentação racional para averiguar o valor do simbolizaado, leva as pessoas aos disparates mais insanos, embora por vezes também inofensivos, mas sem valor algum.

    O facto de que um comportamento existe não é indício suficientemente forte de que esse comportamento é bom ou mau. Temos de pensar acerca dele para ver.

    Se eu parar de pensar, aceitar que por ter valor simbólico, tenho de respeitar coisas como bandeiras e hinos, omito a discussão que pode levar precisamente àquilo que as pessoas que desejam esse respeito não querem: ser confrontadas com o próprio ridículo daquilo em que acreditam. Isto não se coloca para o teorema de Pitágoras e para as propriedades da aritmética pela simples razão de que estas não confrontam seja quem for com qualquer ridículo.

    É por essa razão que as pessoas não conseguem sossegar enquanto não convencem o familiar a x a baptizar a criancinha y, ou a pô-la na catequese, jamais manifestariam esse comportamento neurótico no que diz respeito à educação aritmética ou geográfica da dita criancinha. É por saberem precisamente, no fundo, que tudo aquilo não passam de opiniões, preconceitos e fantasmas na cabeça, e por não quererem, com igual força, confrontar-se com a possibilidade de ver essa verdade, que têm tanta urgência em foder a mente às criancinhas, na vã esperança de que, se isto for feito muito cedo, elas param de fazer perguntas chatas e ficam com o disco bem gravado no cérebro... para ir repetindo, quais grafonolas avariadas.

    Por isto também é que quem toma a tarefa de criticar o pensamento de grafonola parece sempre tão "chato"... Era muito mais porreiro se todos mostrássemos uma indiferença salutar, dizem. Acontece que se eu andar na rua com uma t-shirt (ou através de outro meio qualquer) a exibir crenças que sei de antemão irem ofender muita gente, não vou ser recipiente dessa indiferença benigna.

    Trata-se de um imperativo ético: quanto mais as pessoas se chocam mais obrigadas são a ser tolerantes. Por que razão as comunidades provincianas pequeninas são sempre as mais repugnantemente preconceitusas, metediças? Precisamente porque aí as pessoas não se vêem confrontadas com o choque da diferença. Não há ruído cognitivo. O insulto, embora não seja bom em si mesmo, é uma forma de ruído cognitivo, e o este faz bem às pessoas. É uma força descentradora. Obriga-nos a abandonar a ideia infantil de que o mundo é tal como nós gostamos que seja, desde que ignoremos aqueles que pensam de uma forma que nos irrita e ofende.

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  23. Uma forma mais simples de refutar a última objecção é esta: se um objecto tem valor simbólico (isto é, se é um símbolo), então gozar com o símbolo, por sua vez, também tem valor simbólico.

    Assim, quem defende algo apenas por ter valor simbólico, vê-se obrigado a aceitar qualquer insulto porque os insultos aos símbolos também são simbólicos... como qualquer das palavras que acabei de escrever também é um símbolo.

    Por outro lado: se não insultamos os símbolos, vamos insultar o quê? É a única coisa que vale a pena insultar, pois é nas coisas que têm "valor simbólico" que se concentram os preconceitos e as pancadas humanas, das mais inócuas às mais hediondas.

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  24. Mais três questões (e não objecções):
    1 – Insisto, haverá algum benefício no valor simbólico das coisas?
    2 – O valor simbólico da obra de David Cerny (Entropa) será mais ou menos contestável que o valor dos símbolos que aborda?
    3 – O que terá maior valor simbólico, essa obra ou os símbolos que ela aborda?

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  25. 1) Os símbolos só têm um benefício: dão jeito para comunicar coisas. Por exemplo, para eu escrever este comentário. Se falamos do valor simbólico de bandeiras e hinos, sinceramente, não vejo qual o benefício humano que isso nos traz que suplante os benefícios que a atitude descontraída, crítica, bem-humorada, relativamente a essas mesmas coisas, não traga.

    2) o valor simbólico da obra do Cerny, como o valor da própria obra (sem ser simbólico) bem como o valor de qualquer coisa que alguém faça, é naturalmente contestável. Por que somos animais altamente falíveis, que só podemos conhecer o mundo através do escrutínio comum, social, etc. E mesmo que algo seja a verdade mais bonita que haver pudesse, ainda assim seria contestável, porque seres adultos em paridade moral e cognitiva não são mentecaptos enclausurados numa coreia do norte intelectual e moral. Podemos rir daquilo que nos apetece... prerrogativas de pessoas inteligentes em paridade descontraída umas com as outras. Inclusive rir uns dos outros e de si próprio.

    3) Depende da situação epistémica do agente que observa a obra. Pode haver malucos que venerem a obra como se fosse uma relíquia sagrada. Sei lá. Para mim é apenas arte e nada mais que isso. Tem valor na medida em que mostra precisamente a percepção que toda a gente tem da salganhada europeia, todos gozamos com as mesmas coisas que o gajo retrata ali, só que há uns senhores que gostam que se finja que nada disso existe. A questão aqui é esta: por que raios as instituições políticas não podem ter sentido de humor e rir de si mesmas? Faze-lo seria indício de uma saúde mental e de uma atitude democrática descontraída que está ausente de países que criticamos justamente, por serem ditaduras. Nesses países é que o culto da dignidade do estado faz mais sentido: são doentes. Estas reacções dos dignitários são mais dignas do tempo em que um Nikita Krushchev se permitia censurar artistas em público como se fossem criancinhas e em que os realizadores eram chamados à pedra para explicar por que tinham ofendido a dignidade do estado.

    O valor simbólico é apenas o que é. É como o valor alcoólico no sangue. Que importa isso? Com mais ou menos alcool no sangue, não deixo de me chamar Vitor. A proposição "a neve é branca" tem valor simbólico: serve para comunicar uma suposta verdade acerca do mundo. Mas o que lhe dá valor é ser verdadeira e não o facto de os agentes epistémicos terem orgasmos mentais ao ouvi-la (valor simbólico).

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  27. Retomar das questões:
    1- Iguala, portanto, o valor desses símbolos (em termos benefício/comunicabilidade) ao valor do espírito crítico (também em si um valor simbólico) que os possa considerar?
    2 – O valor simbólico da obra de David Cerny (Entropa) será mais ou menos contestável que o valor dos símbolos que aborda? (repito, pois a resposta não contempla a comparação visada).
    3 – O que é mais verdadeiro, a obra de David Cerny, Entropa, (também enquanto obra de estado – Checo), ou os símbolos que ela aborda? E essa verdade não se altera com o "valor alcoólico no sangue"? Como um nome próprio, não pode ser esquecida, falseada ou recriada (como sob o efeito de um valor simbólico)?

    Obrigado.

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  28. O valor simbólico não pode ser verdadeiro ou falso. Só proposições podem ser verdadeiras ou falsas. As frases que exprimem proposições são compostas de símbolos.

    A obra de Cerny não é verdadeira nem falsa, como uma sinfonia também não é. É apenas arte. Na obra podem estar referencias e comentários. Estão lá referencias a estereótipos nacionais. A reacção ofendida das pessoas demonstra que esses estereótipos têm correspondência com a realidade.

    Contestável é tudo. É contestável que a obra de Cerny tenha sequer valor. É contestável que qualquer filósofo tenha razão sobre qualquer assunto. Ainda mais contestável é o valor humano dos símbolos nacionais, pois ao longo da história têm sobretudo servido para desumanizar.

    A bandeira portuguesa nao é falsa nem verdadeira. É apenas um pano vermelho e verde que ao ser visto por algumas pessoas, dá lugar a comportamentos engraçados, como levar a mão ao peito e começar a cantar uma melodia horrível. As melodias de todos os hinos são horríveis na medida em que são desenhadas para provocar nos indivíduos uma espécie de "tesão" desindividuante, desumanizante. A estética do poder é um objecto de estudo por si só. Veja-se as paradas militares em certos regimes. É um manancial.

    "às armas às armas, sobre a terra e sobre o mar..."

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