19 de janeiro de 2009

liberdade e insulto

O artista checo David Cerny tem sido alvo de uma "polémica" bem ao estilo da degenerescência patológica que anda a converter as pessoas em máquinas politicamente correctas. A instalação da autoria de Cerny num edifício do conselho europeu em Bruxelas, - intitulada Entropa - onde ridiculariza esterótipos e preconceitos nacionais, ofendeu muitos dignitários e, a julgar pelas caixas de comentários dos blogues, quase toda a gente que não pára um segundo para pensar naquilo que pensa. As reacções são tão estereotipadas como os estereótipos insultados pelo artista, e tão uniformes como as reacções ao papa há um mês atrás: remova-se a obra porque é de "mau gosto" e terrivelmente "insultuosa". Não podemos tolerar que nos insultem desta maneira.
Os mandatários do estado búlgaro sentiram-se particularmente agredidos com a representação da Bulgária através de uma sanita turca. Portugal é uma tábua com um bife em forma de uma ex-colónia. Pessoalmente, achei bastante divertido. Só pode ficar ofendido com isto quem pensa em si mesmo, primeiramente, não com indivíduo mas como um rótulo que anuncia um esterótipo. Por isso se ofendendo com a dessacração do estereótipo. Tais pessoas merecem ser insultadas.
Como muito bem afirmou Slavenka Draculic no Guardian, a propósito da reacção búlgara:
Esta insubtil exigência de censura sugere que se os burocratas culturais búlgaros tivessem seleccionado um artista para representar o país, muito seguramente não o teriam feito com uma sanita. Ao emitir esta objecção oficial 20 anos após a queda do comunismo na Bulgária, os burocratas do ministério da cultura - muito à semelhança do embaixador romeno no La Stampa - mostram não ter ainda ouvido dizer que a arte deve ser um acto de liberdade, não uma ferramenta de propaganda, independentemente de como uma obra de arte particular possa ser insípida ou ofensiva. Tais objecções não têm qualquer sentido excepto para lembrar aos búlgaros e ao resto do mundo que o sistema político pode mudar da noite para o dia, mas o velho modo de pensar continua vivo e de boa saúde.


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