
Se há coisa de que, de há uns anos para cá, o leitor português de filosofia não se pode queixar é de falta de bons livros introdutórios a esta disciplina.
Assim de repente lembro-me do excelente Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton; do livrinho único de Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto?; do interessante livro de Kolak & Martin, Sabedoria Sem Respostas; e do algo sofisticado, mas bastante compensador, Pense! de Simon Blackburn.
Mas há ainda outros livros que podem servir como excelentes introduções à filosofia, como é o caso do brilhante Como se Faz Um Filósofo, de Colin McGinn e até de Que Diria Sócrates?, organizado por Alexander George.
Mas ainda não está ao dispor do leitor de língua portuguesa a melhor introdução à filosofia que me recordo de ter lido alguma vez. Trata-se de Problems From Philosophy, de James Rachels. Mesmo quem aprendeu muito com os livros anteriores vai dar como muito bem empregue o tempo (que não é muito, dada a reduzida dimensão do livro) que leva a lê-lo, senão mesmo a relê-lo.
Diferentemente do livro do Warburton, neste não encontramos uma apresentação nem uma discussão um tanto escolares dos problemas da filosofia; diferentemente do livrinho de Nagel, este contextualiza a discussão contemporânea dos problemas da filosofia com informação empírica relevante e com exemplos imbatíveis; diferentemente do livro de Kolak & Martin, este livro é filosoficamente mais suculento e provocador; diferentemente do livro de Blackburn, este consegue ser bastante mais acessível, mesmo ao leitor sem qualquer formação filosófica. E, ainda por cima, o leitor dá consigo a assistir a uma verdadeira discussão filosófica desde a primeira linha.
O livro começa aliás com Rachels, ele próprio, a convidar-nos a avaliar os argumentos usados por Sócrates para recusar fugir da prisão e aceitar a pena que o levou a beber a cicuta. Rachels conclui que Sócrates argumentou falaciosamente e que não tinha razão. Como se vê, o livro começa logo ao ataque, mostrando que não há lugar para o repeitinho em filosofia. E não conseguimos ficar decepcionados à medida que se vai avançado para outros problemas da filosofia, seja da ética, da filosofia da mente (será que as máquinas podem pensar?), da epistemologia, da metafísica (o problema do livre-arbítrio e o problema do sentido da vida), etc.
É por isso que não descansarei enquanto não vir este livro publicado entre nós. Acho que já esteve mais longe e talvez não seja preciso esperar muito.
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