15 de janeiro de 2009

A melhor entre as melhores introduções à filosofia


Se há coisa de que, de há uns anos para cá, o leitor português de filosofia não se pode queixar é de falta de bons livros introdutórios a esta disciplina.

Assim de repente lembro-me do excelente Elementos Básicos de Filosofia, de Nigel Warburton; do livrinho único de Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto?; do interessante livro de Kolak & Martin, Sabedoria Sem Respostas; e do algo sofisticado, mas bastante compensador, Pense! de Simon Blackburn.

Mas há ainda outros livros que podem servir como excelentes introduções à filosofia, como é o caso do brilhante Como se Faz Um Filósofo, de Colin McGinn e até de Que Diria Sócrates?, organizado por Alexander George.

Mas ainda não está ao dispor do leitor de língua portuguesa a melhor introdução à filosofia que me recordo de ter lido alguma vez. Trata-se de Problems From Philosophy, de James Rachels. Mesmo quem aprendeu muito com os livros anteriores vai dar como muito bem empregue o tempo (que não é muito, dada a reduzida dimensão do livro) que leva a lê-lo, senão mesmo a relê-lo.

Diferentemente do livro do Warburton, neste não encontramos uma apresentação nem uma discussão um tanto escolares dos problemas da filosofia; diferentemente do livrinho de Nagel, este contextualiza a discussão contemporânea dos problemas da filosofia com informação empírica relevante e com exemplos imbatíveis; diferentemente do livro de Kolak & Martin, este livro é filosoficamente mais suculento e provocador; diferentemente do livro de Blackburn, este consegue ser bastante mais acessível, mesmo ao leitor sem qualquer formação filosófica. E, ainda por cima, o leitor dá consigo a assistir a uma verdadeira discussão filosófica desde a primeira linha.

O livro começa aliás com Rachels, ele próprio, a convidar-nos a avaliar os argumentos usados por Sócrates para recusar fugir da prisão e aceitar a pena que o levou a beber a cicuta. Rachels conclui que Sócrates argumentou falaciosamente e que não tinha razão. Como se vê, o livro começa logo ao ataque, mostrando que não há lugar para o repeitinho em filosofia. E não conseguimos ficar decepcionados à medida que se vai avançado para outros problemas da filosofia, seja da ética, da filosofia da mente (será que as máquinas podem pensar?), da epistemologia, da metafísica (o problema do livre-arbítrio e o problema do sentido da vida), etc.

É por isso que não descansarei enquanto não vir este livro publicado entre nós. Acho que já esteve mais longe e talvez não seja preciso esperar muito.

17 comentários:

  1. Ena Aires, abriste mesmo o apetite. Nunca li este problems of philosophy, mas vou então esperar pela tradução. assim de repente apetece-me juntar à tua lista o manual do Eliott Sober, core questions in philosophy. está bem que é um formato diferente dos livros que falas já que é um manual, mas ainda assim é excelente como introdução. Bem e como me preocupo com a formação desde tenra idade, faz-nos falta a tradução dos livros do Stephen Law, principalmente os philosophy files. Tenho um carinho especial por esses dois livros já que pela primeira vez vi expostos de forma muito atraente os problemas filosóficos para crianças de 11, 12 anos. Ao contrário de alguns livros que conheço de filosofia para crianças, os files do Law tem a vantagem de nunca fugir do estritamente filosófico.
    abraço e obrigado pela sugestão.

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  2. Tristemente, é exactamente isso que não nos deixam (no meu caso: deixavam) fazer na faculdade. Entregar um trabalho a afirmar que Sócrates argumenta falaciosamente numa dada questão, sem citar 100 comentadores que não se leu, (com título em francês ou alemão, para soar muito bem, mesmo que se tenha lido a tradução brasileira - falando mal dela, como quem não leu, subsequentemente.) que tenham dito o mesmo, é logo visto com escárnio, gracejos, pedidos de "onde estão as fontes?" e coisas que tais.

    Não podemos pensar autonomamente para saber se Sócrates ou Descartes cometeram um deslize ou cederam à tentação de psicofoder o auditório (natural nos seres humanos, biologicamente programados para a psicofoda, como somos), mas podemos acreditar, ter fé, num comentador franciú ou prussiano que tenha afirmado peremptoriamente o mesmo, desde que tenha sido há 100 anos atrás (50 anos ainda está dentro do prazo de validade para sensações epidérmicas de misticismo) e expresse de uma maneira muito críptica, carismática, para que ninguém nos "confunda" com "meros não-sei-quê... que não compreendem a profundidade de repetir asneiras em grego, a fazer boquinhas e beicinhos.

    Onde estão as fontes? Onde estão as fontes?

    Podemos afirmar com segurança que o ensino universitário de filosofia no nosso país é o sítio adequado para quem quer desesperadamente afastar-se da filosofia e aprender todas as técnicas necessárias para fundar um culto.

    A universidade portuga não forma filósofos, forma agentes epistémicos casmurros e impermeáveis. É uma fábrica de espíritos fechados. Quem quer aprender filosofia sem pretensões académicas: leia estes livros e vá antes estudar arte ou música... ao menos aprende alguma coisa.

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  3. Pessoal,

    ainda não vi ninguém mencionar "Grandes Livros de Filosofia" de Nigel Warburton, publicado pelas Edições 70 ://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=4051 . Confesso que ainda não li o livro, mas estou com vontade de comprá-lo. Será que foi bem traduzido?

    Outra coisa que queria mencionar é que alguns desses livros da Gradiva já se encontram esgotados, se não me engano é o caso do "Pense!". Não podemos deixar de reeditar esses livros!

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  4. @Matheus: Esse livro do Warburton é a tradução da 2ª edição do Philosophy : The Classics. Entretanto, já saíu a 3ª, ou seja, acaba por não compensar adquirir a tradução portuguesa.

    @Aires Almeida: Qual a editora do Problems From Philosophy?

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  5. Matheus, o livro do Warburton é bom, mas a tradução portuguesa deixa muito a desejar. Um exemplo: "Hume's fork" é tomado literalmente e traduzido de forma quase initeligível por "a forquilha de Hume", quando deveria ser "o dilema de Hume".

    Peter, a editora é a McGraw-Hill. Mas julgo que não vai demorar muito a sair em Portugal, numa execelente tradução, que até já está feita. Pelo menos assim o espero.

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  6. Um excelente erro para aprendermos alguma coisa. O normal ao depararmo-nos com a expressão "garfo de Hume", mesmo que o tradutor não tenha formação filosófica, é parar, pensar se não se trata de algo com significado específico na história das ideias e ir ver a um livro ou perguntar a um especialista no assunto. Isto não se faz e a culpa não é só dos tradutores e dos revisores, mas dos editores que, contando que o público se está um pouco nas tintas para estas subtilezas, insistem no depressa, desenrascado e barato.

    Um livro acerca do qual irei falar aqui é a tradução portuguesa do Musicofilia - Oliver Sacks. Aí nota-se bem como nem sempre o tradutor é o culpado: a revisão técnica é uma verdadeira treta. Traduz-se "pitch intervals" por "diferença entre tons" e o revisor abre uma nota de rodapé para "explicar" esta terrível noção que qualquer estudante de música do primeiro ano traduziria por "intervalos" - simples, não? E que história é essa de "diferença entre tons"? O "revisor técnico" perceberá de tudo menos de música. Mas os editores é que sabem. Provavelmente aquele gajo cobrava mais barato. Parvos!

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  7. Aires

    Que bom que uma nova tradução está sendo feita.

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  8. Descobri ontem outro livro traduzido em Portugal que nem sabia que existia:

    Kukathas, Chadran - Rawls: Uma Teoria da Justiça e os Seus Críticos.Lisboa.Gradiva.1995

    pelo visto já está esgotado. Espero que seja reeditado.

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  9. Caro Aires Almeida,

    Não conheço os livros que mencionou, mas fiquei curioso. E o que acha das "Iniciações Filosóficas" de Karl Jaspers, d'"O que é a Filosofia?" de Ortega y Gasset e da obra homónima de Deleuze?

    Parabéns pelo Blog! :)

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  10. Obrigado, Fausto.

    Lembro-me vagamente de ter lido algo do livro de Jaspers no meu tempo de estudante do liceu e achei aquilo pouco apelativo. Mas não passei daí e a minha memória não retém mais do que isso. O livro do Ortega y Gasset acho-o algo ultrapassado. De resto não é bem uma introdução à filosofia, mas antes um livro de metafilosofia. Quanto ao de Deleuze, também é um livro de metafilosofia algo idiossincrático, digamos. Li a introdução, considerei-me razoavelmente esclarecido e ofereci o livro a alguém que queria ver como era. Do que me recordo, Deleuze afirmava com um palavreado pomposo e sem qualquer argumento que a filosofia consistia em inventar conceitos. Achei um disparate completo.

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  11. Aliás, Aires, esse livro do Deleuze, que também tenho na minha biblioteca e arrisquei mais que a introdução, é escritoa meias com o psiquiatra Féliz Guatari, com quem Deleuze fez muitas parcerias.

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  12. Meus amigos, boa tarde. Sou brasileiro, moro em São Paulo e fiz curso de nível superior na Universidade Mackenzie. O livro introdutório de Filosofia que usei foi o "Lições Preliminares de Filosofia", de Manuel Garcia Morente. Considerei esse livro excelente, mas o problema é que ele está desatualizado há vários anos. Alguém saberia informar se ele é publicado em Portugal e se está atualizado? Grato. Ilton Nunes

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  13. "Rachels, ele próprio, a convidar-nos a avaliar os argumentos usados por Sócrates para recusar fugir da prisão e aceitar a pena que o levou a beber a cicuta. Rachels conclui que Sócrates argumentou falaciosamente e que não tinha razão".

    muito duvidoso!

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  14. Caro Aires de Almeida, estou procurando a edição portuguesa do referido livro nas livrarias brasileiras mas ainda não chegou. Talvez não espere e compre mesmo pela internet.

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  15. Gostaria de lhe perguntar se na sua lista não poderiam estar incluídos os manuais de Jolivet, Cuvillier e, principalmente, o grande livro "Filosofia", de Augusto Saraiva? Considero-os extraordinários.
    Abraços,
    André Neves, Rio de Janeiro - Brasil

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  16. "Repeitinho"?

    Ok, você se instruiu em filosofia, que agora volta ao estudo do português?

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    1. Ok, você se instruiu em filosofia, que tal agora voltar ao estudo do português?

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