23 de janeiro de 2009

o respeito por símbolos e o lugar das pessoas

Um dos homens que mais fez pela etnomusicologia portuguesa, corso de nascimento, nunca adquiriu a nacionalidade portuguesa, apesar da sua participação activa na vida cultural e social do país, por considerar insultuosa a exigência de que fizesse um ditado... E não é que não escrevesse muito melhor em português do que o funcionário público que o iria avaliar. É infinitamente mais interessante que os jovens saibam quem foi e o que fez Michel Giacometti, do que saber a letra do hino nacional e outras vacuidades do género.

Para uma mentalidade que tanto respeito exige aos símbolos, manifesta-o pouco pelos indivíduos, que são as únicas coisas que faz algum sentido respeitar. E respeitá-las não é fingir que se considera verdadeiro tudo aquilo em que acreditam. Respeitá-las é não as menorizar, não as tratar como instrumentos ao serviço de algo que não seja a sua própria existência como indivíduos. O estado é como um saca-rolhas, e os saca-rolhas não podem ter dignidade porque, essencialmente, só vale a pena tê-los na medida em que dão jeito para sacar rolhas. Só existem porque há coisas como pessoas que os inventaram para dar resposta à necessidade de abrir garrafas de vinho, para tornar mais agradável a sua existência... Como indivíduos, pessoas, cuja vida e alegria é um fim em si e não instrumento. É que se houver uma maneira melhor de abrir as garrafas... que se lixe o saca-rolhas. O que acontece com o "respeito pelos símbolos" é o absurdo de tratar as pessoas como se fossem saca-rolhas e o saca-rolhas como se fosse gente. Pois fique o saca-rolhas sabendo que o vinhal é das pessoas, ora essa!

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