24 de fevereiro de 2009

Afinal o que é a pornografia e o que há de errado nisso?

66 comentários:

  1. Um possível argumento de que a pornografia seria errada é a seguinte:

    Algumas mulheres se sentem ofendidas com filmes pornográficos, pois estes, supostamente, rebaixam as mulheres, tratando-as como objetos. Elas alegam que estes filmes são anti-éticos e deveriam ser proibidos, dada a mentalidade machista que está entranhada neles. O problema desse argumento é que ele se baseia no sentimento de ofensa, que é algo muito relativo e vago para decidir o caráter ético desses filmes. Por exemplo, algumas mulheres não se importam com esses filmes e até mesmo os assistem e algumas ganham a vida fazendo estes filmes. Dizer que devemos restringir a librdade dessas mulheres porque outras mulheres os consideram imorais é um mau argumento. Com esta mesma linha de argumentação vou proibir os padres de celebrarem as missas já que aquilo me ofende profundamente com um insulto à dignidade humana.

    Outro argumento possível é de que obras desse gênero podem inspirar atrocidades, como o estrupo, por exep. É sabido que alguns serial killers fizeram atrocidades e declararam inspiração na obra de Marques de Sade. Este também não é um bom argumento porque quaisquer obras podem ser interpretadas dos modos mais malucos: com a mesma linha de argumentação devemos proibir a bíblia dado que um maluco resolveu andar sobre as águas com a sua fé e morreu afogado.

    Não sei definir pronografia, mas qualquer definição da mesma deve ser diferente de erotismo, por exep, que me parece algo relacionado à sexualidade de maneira menos crua e direta. Mas isto é pura especulação.

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  2. A pornografia estará na representação dos actos sexuais ou nos próprios actos sexuais?

    Um determinado acto sexual feito por 2 amantes no recato do seu quarto não é pornográfico, mas exibido num filme (por exemplo) é considerado pornográfico.
    Será por causa da exibição? Talvez não. Mantendo o exemplo do cinema: há filmes em que se mostram actos sexuais e que não são pornográficos.
    Talvez seja então por algumas características dessa exibição.
    Mas quais? A explicitação com que o acto é mostrado? O facto do filme pornográfico (ou livro, ou...) se reduzir a essa exibição do sexo?
    Se essa redução fosse o traço distintivo da pornografia isso implicaria provavelmente que nenhuma obra de arte pornográfica pudesse ter valor estético. Mas isso não parece ser verdadeiro. Não conheço nenhum filme pornográfico que se possa elogiar esteticamente, mas há obras literárias que são muitas vezes consideradas pornográficas e que me parecem ter méritos estéticos: alguns poemas de Brecht e de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo. Nessas obras há descrições explícitas de actos sexuais, mas não há só sexo.
    Serão realmente pornográficas?

    Fiz as perguntas, mas não sei as respostas. Espero que o Aires Almeida saiba.

    Cumprimentos.

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  3. Não havendo nada de errado na pornografia... nem em objectos de arte que exibam obscenidades...não há que cuidar de limites à sua exposição?
    [pressuposto da questão: há humanos que são crianças.]

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  4. eis outro artigo, sobre o tópico mais geral da liberdade de expressão. Um dos tópicos é o "princípio do dano" de Mill e a pornografia:

    http://plato.stanford.edu/entries/freedom-speech/

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  5. contra-exemplo:

    um poema em que haja sexo não é necessariamente pornográfico, mas um poema em que haja só sexo é pornográfico.

    Mas por que não aplicamos o mesmo critério a outros temas, por exemplo, a guerra ou as experiências místicas, ou a glorificação das batatas ou um elogio do pôr-do-sol, etc.? Por exemplo, não dizemos de um poema onde "há apenas guerra", que é pornográfico e destituído de valor. Por outro lado, quando dizemos que poema x ou y não é pornográfico apesar de haver lá sexo, havendo também outras coisas, parece que estamos a dizer, na verdade, que as "outras coisas" funcionam como uma redenção, que resgatam o poema ao caixote do lixo.

    Isto recorda-me, por exemplo, a tentativa hermenêutica de dar a volta ao Cântico dos Cânticos na Bíblia e converter magicamente o erotismo físico do poema numa forma de espiritualismo codificado.

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  6. Peço desculpa por vos ter deixado a discutir e me ter retirado, mas sou professor e os professores têm trabalho mesmo nos feriados: havia para aqui uns testes para corrigir e entregar amanhã. Acabei mesmo agora :-)

    Talvez amanhã venha aqui acrescentar as minhas dúvidas às vossas. Agora já é tarde.

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  7. Sem uma reflexão ponderada e devidamente séria, penso que não poderemos dizer que uma mera foto que represente simplesmente um acto sexual é moral ou imoral. Considero que a moralidade ou imoralidade diz respeito à "legenda" que essa foto tiver. Entendo neste contexto "legenda" como a intenção que cada um tiver em relação ao outro. Se for uma atitude de objectualização e redução a mero meio certamente será imoral; por outro lado, se for uma atitude de humanização e dignidade do outro, tratando o outro como um fim em si mesmo, então, é um acto de amor, e portanto moral.

    Penso que talvez também seja necessário atender às consequências da pornografia. Considero que a pornografia é imoral se tiver como consequência o apelar à objectualização do outro, e moral se apelar à doação generosa e respeitante do outro. Mas isto parece-me complicado avaliar.
    De facto é uma questão algo complexa.

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  8. Duvido que o prolema que certas morais têm com a pornografa se deva directamente à defesa da imagem da mulher (talvez seja uma indirecta racionalização desse mau estar causado pela pornografia): pornográfico não é só o acto sexual mas também a simples respresentação anatómica, como neste caso, mostrando que o que choca é a objectivação de algo que se crê ser exclusivo do domínio privado, não tivessemos inventado para o efeito as roupas e o quarto. Creio que mesmo os apreciadores de pornografia mantêm este grau de pudor dado que preferem ter uma experiência estética dita pornográfica em intimidade, e não em público.
    Mas aí partiríamos para uma outra discussão: o que denota esse aspecto da moral?

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  9. A resposta simples é que nada há de errado na pornografia, além de não ser fácil defini-la. O que se considera pornográfico é mera expressão dos preconceitos sexuais de uma população. E a confusão mais importante a evitar é a de considerar que o que consideramos de mau gosto deve ser proibido ou marginalizado. Eu considero de mau gosto ir ao futebol, mas seria ridículo pretender proibir tal coisa. A desculpa das crianças é apenas uma desculpa esfarrapada. As crianças não têm interesse um interesse natural na sexualidade humana, e quando começam a tê-lo o melhor é terem conhecimento da realidade, sem preconceitos.

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  10. caro Vitor,

    Sem dúvida é necessário esclarecer o que significa objectualizar.
    Entendo por "objectificar" como uma manipulação, redução da humanidade do outro, aviltamento da dignidade do outro enquanto outro.
    Ora, não vejo como condição linear que o desejo sexual leve à objectualização. Porque é que o desejo sexual também não poderá levar à doação de si ao outro, respeitando e completando o outro na sua indigência ôntica?
    Eu não referi que a excitação sexual leva à objectualização do outro; penso que a excitação sexual poderá conduzir à dignidade do outro caso respeite o outro como fim e não como um mero meio. Porque não?
    Se quiseremos objectivar sempre tudo e todos será que deixamos o outro ou os outros serem em toda a sua autenticidade, veracidade, e humanidade? Será que nos é permitido proceder assim?
    Alfonso Lopez Quintás tem uma reflexão interessante: "Manipular equivale a manejar. De per si, somente os objetos são suscetíveis de manejo. Posso utilizar uma esferográfica para minhas finalidades, guardá-la, trocá-la, descartá-la. Estou no meu direito, porque se trata de um objeto. Manipular é tratar uma pessoa ou grupo de pessoas como se fossem objetos, a fim de dominá-los facilmente. Essa forma de tratamento significa um rebaixamento, um aviltamento"[1]. Questiono: Até que ponto é moral manipular ou objectualizar um ser humano? Será que isso não tem mesmo mal nenhum?
    A moral não obriga ou impõe a amar seja quem for, mas pode propor o "amar" (não estou a falar de um mero sentimento) como fonte de sentido e realização.

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  11. [1] - http://www.hottopos.com/mp2/alfonso.htm

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  12. Caro Desidério,

    Poderia dar exemplos concretos de modo a entender melhor o que quer dizer por "pornográfico é mera expressão dos preconceitos sexuais de uma população". Para algo ser pornográfico tem que ser uma condição necessária e/ou suficiente o facto de expressar preconceitos sexuais?

    Saudações cordiais,

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  13. Desidério Murcho acima disse:
    "A desculpa das crianças é apenas uma desculpa esfarrapada. As crianças não têm interesse um interesse natural na sexualidade humana, e quando começam a tê-lo o melhor é terem conhecimento da realidade, sem preconceitos."
    Estas afirmações suscitam-me as questões:
    - há conhecimento da realidade sem preconceitos? Há alguém sem preconceitos? Isso é possível?
    - Alguém matricularia um filho - criança ou adolescente - numa escola decorada com objectos ou representações pornográficas... ou com reproduções de obras de arte de cariz "obsceno"/chocante? [reconheço que a noção de obsceno / chocante tem algo de preconceito ou de pré-conceito]
    - Como variariam as respostas às questões anteriores se as colocássemos em grupos humanos de outras culturas ou vivências? Como justificar eventuais diferenças?
    -

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  14. Mas há alguém que nunca foi psicofodido?
    Há alguém sem pudores? Há alguém sem fantasmas? Há alguém disponível para todas as perguntas das crianças ou dos outros?
    E se esses existem são suficientes para formar uma sociedade tão desempoeirada e livre de preconceiros, fantasmas, pudores de forma suficiente para gerar um Homem Novo numa nova idade de ouro?
    Mas essa sociedade não existe... pois não?
    Sim meus caros, se calhar eu "uso os putos para impor os seus pudores aos outros". Sim eu chateio-me com os meus fantasmas e pudores... sim eu tenho preconceitos... sim as crianças fazem perguntas chatas e de resposta difícil e nem sempre tenho disponibilidade e nem, por vezes, capacidade para lhes responder...
    Mas isso decorre da existência... da vida... da natureza humana...que por definioção é, se calhar, uma orgíaca psicofoda...
    Por outro lado, se a pornografia fosse tão inócua ... ela não existiria... nem estas conversas... e poderíamos todos levar os netos de 10 anos a ver filmes pornográficos... de forma a chegar e dormir em casa antes das nove e antes de alguma vez terem experimentado chocolate por fazer mal aos dentes...
    Sim este foi um comentário mais impressivo... mas gostaria de me remeter para as questões que acima fiz.

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  15. Caro Vitor,

    Obrigado pelo seu comentário,

    Você refere que "A verdade é que a procura do sexo é apenas a procura de uma gratificação física e emocional". Só compreendo esta afirmação se você entende sexo só, e apenas só, por genitalidade. Ora, será que a relação sexual entre humanos se reduz apenas ao genital e ao físico? Não nego, de forma alguma, que existe uma grande componente física e neuronal (sinapses e neurotransmissores) que são "responsáveis" pelo acto sexual; no entanto, atendendo que o ser humano tem ene dimensões, não percebo porque tenhamos de castrar a todo o custo a realidade metafísica (tb do acto sexual)? Ou será que nos temos que render ao princípio neo-positivista que só existe aquilo que é verificado empiricamente? Então, Como poderei pela observação empirica comprovar que só existe o que é verificado empiricamente?

    Refere que "O que acontece é que há uma grande pressão social para espiritualizar o desejo sexual, como se no fundo no fundo não tivesse a ver com um mero impulso físico que temos de satisfazer, independentemente das correlações emocionais que isso possa ter". Mas eu não defendo nada disso, ou seja, uma dicotomização absurda da realidade entre físico e espiritual, advogando uma e desvalorizando outra. É demasiadamente obvio que o desejo sexual tem um impulso físico; mas a minha questão é: será que é legitmo reduzir tudo ao meramente físico? Até que ponto poderemos enclaustrar toda a realidade apenas no biológico ou físico? Porque é que o acto sexual não poderá ter também dimensões espirituais, de completude, de sentido, de realização, de humanização, etc...?

    Diz que "Não parto do princípio que os outros são ontologicamente indigentes". Se não perspectiva isto, então, será que o humano (uma vez que não é indigente) será portanto ser absoluto? Será que o ser humano é por ventura a "verdade constituinte" de alguma coisa? Será o humano absolutamente perfeito, não tendo qualquer indigência, e assim é auto-suficiente, egotico, ao ponto de não precisar dos outros (de completude existêncial)? Se assim não é, como se pode explicar que uma criança quando nasce é totalmente indigente ao ponto de depender absolutamente dos pais? Para quê ter relações com amigos, colegas, namorada, esposa, professores, alunos, etc, se realmente o ser humano não fosse indigente? Será que o ser humano é apenas auto-poiesis ou antes uma inter-poiesis? O sexo não é uma unica via para completar esta indigência ôntica e existêncial, mas porque é que não poderá ser um caminho entre muitos outros? Em suma, esta reflexão irá levar à grande pergunta antropológica: porque sou? Quem sou eu que sou humano? Qual é o sentido último e radical da minha existência?

    Penso que o desejo poderá objectualizar o outro dependendo da atitude que eu tenha perante o outro. Penso que neste contexto Martin Buber é muito claro. Pois, se tomar o outro somente como um ISSO estou de certo modo a impedir que o outro seja em toda a sua autênticidade. Agora, se tiver uma atitude de EU-TU estou deixar o outro ser ele mesmo e a ser para mim, e o outro deixa-me ser eu mesmo e ser para ele. Numa atitude de apenas ISSO o outro é obrigado numa coação a ser para mim; ora isto não respeita o outro enquanto outro, pois estou apenas a tratar o outro como um meio.

    Eu não tenho qualquer pretensão de "tentar reconverter isto numa sublimidade espiritual", mas sim o questionar se para além da dimensão física não existirão outras dimensões, mas no sentido de complementariedade, e nunca de exclusivismo.

    Você refere que "Se o que estivesse em questão no sexo fosse partilhas espirituais e complementações ontológicas, até a nossa orientação sexual e o facto de uma pessoa nos agradar fisicamente mais do que outra seria arbitrário". No entanto, mais uma vez você está a dicotomizar ontologicamente o indicotomizavel. A nível epistémico poderemos prespectivar o físico e espiritual; mas a nível ontológico será que poderei dicotomizar isso? Uma exemplo: perante um copo eu posso epistemologicamente distinguir o lado de dentro do lado de fora, mas ontologicamente não será um só copo?

    Saudações cordiais,

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  16. Penso que nos estamos a referir a diferentes definições quando escrevemos "espiritual". O que entende por espiritual?

    Diz que "O que você implicitamente está a defender é que o prazer de mexer no corpo do outro, o gozo que sentimos ao admirar a beleza física do parceiro, enfim, o beijar, o mexer, o tocar, o apalpar, só têm dignidade na medida em que funcionam como substitutos de um contacto "superior", "espiritual".
    Eu não pretendi dizer isso, mas sim que o prazer de mexer no corpo do outro, o gozo que sentimos ao admirar a beleza física do parceiro, enfim, o beijar, o mexer, o tocar, o apalpar, só têm dignidade na medida em que respeite o outro outro enquanto outro, numa atitude de Eu-Tu (horizonte do ser), sem redução ao mero ISSO (horizonte do ter). Eu tenho um computador, posso fazer dele o que quiser, é um objecto; no entanto, será que nos poderemos relacionar com os seres humanos como nos relacionamos com um computador ou com outro objecto qualquer? Afinal, o que é ser humano??? Ora, partilho da afirmação de vários filósofos que referem que a responsabilidade e o respeito do Eu pelo Outro é o que se chama de "espiritual". Não entendo aqui espiritual por fenómenos mágico-míticos como você parece referir.

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  17. O meu ponto é de há situações na vida das pessoas que lhes podem retirar discernimento sobre a natureza das coisas.
    Às crianças / adolescentes, em formação, convém alguma forma de intermediação com muitos aspectos do quotidiano. Na música,na literatura, na ciência, na arte, na filosofia isso é particularmente sensível e, julgo, pacífico. Naquilo a que chamamos de pornografia também!
    Dessa intermediação podem fazer parte diversas estratégias - entre outras: discussão de situações, algum doseamento e não exposição intempestiva a coisas agressivas ou chocantes (isto de ocordo com critérios subjectivos de quem educa ou forma e que nesse processo, tem legitimidade de transmitir valores que outros podem reputar de de preconceitos, parolos, tacanhos, mesquinhos).
    Para um tutor poder fazer isso deve estar alertado para as eventualidades - por exemplo, numa livraria, nas secções com conteúdos que os preconceitos reputam de violentos poderiam existir advertências. O tutor actuaria em conformidade - permitiria o acesso e discutia; deixava o miúdo(a) livremente, dificultava o acesso a essa zona, ou fazia ou que bem entendesse - seria livre!
    Os autores das obras não sofreriam censura - as suas obras mantinham-se acessíveis - seriam livres!
    Ou querem obrigar a exposição das pessoas a conteúdos que não desejam aceder ou que que pessoas a seu cargo acedam?

    Agora dizer que esta coisa de as crianças serem usadas como "desculpa esfarrapada para os adultos não se confrontarem com os próprios fantasmas e pudores, quando os miúdos fazem perguntas chatas" - não entendo!

    Posto isto, é um exagero o que a polícia fez; é um exagero a atitude de virgem ofendida do livreiro; é um exagero os adultos queixarem-se à polícia; é um exagero dizer que algum mal na pornografia; é um exagero de que na arte não há pornografia (se o fizermos já estamos a reputar algo de negativo (ou positivo(!) à pornografia e a conferir-lhe valor)...

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  18. Já ensaiei várias respostas e desisto sempre, mas o debate está tão animado que já não resisto a ensaiar um eventual disparate ou até repetição de algo do que aqui já disse. mas vou tentar ser original para acrescentar algo à discussão. vamos supor que a pergunta do Aires era: o que há de errado com as facas? Eu que as uso para cortar a casca das maçãs digo intuitivamente que não existe qualquer coisa errada com as facas, que nos podemos cortar se não formos cuidadosos, mas que não vejo mal moral usá-las e que até nos são muito úteis. Um criminoso provavelmente responderia que o mal das facas é que elas podem servir para cometer um assassinato.
    Com efeito não me parece que exista algum mal moral ou algo de errado com as facas. Existe é algo errado com o uso que lhes podemos dar. E com a pornografia passa-se algo análogo. Se com a pornografia queremos explorar comercialmente mulheres de países desfavorecidos, parece-me que há algo de moralmente questionável. Se com a pornografia queremos obter prazer e quem a faz também pretende obter prazer, qual o mal disso? Se com a pornografia queremos arrebitar preconceitos, ela até pode ser moralmente boa. O que penso é que a pergunta sobre o que há de errado com a pornografia acaba por ser vaga. Bem, mas a perguntaa do Aires é "O que é a pornografia?" e "o que há de errado com isso". Pois, depende da definição de pornografia. Mas o uso comum que damos à pornografia é expressão de preconceito.

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  19. 1-A pornografia será um conceito limite ou haverá uma escala do pornográfico (soft/hard)? Neste sentido estas três imagens são pornográficas ou haverá alguma(s) mais pornográfica(s) do que a(s) outra(s)?
    1.1- http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3f/Origin-of-the-World.jpg
    1.2- http://www.artnet.com/magazine/reviews/lamm/Images/lamm10-23-7.jpg
    1.3- http://www.eyestorm.com/images/works/9943_mainimage.jpg

    2 - Na relação da arte com a pornografia – Conhecer a imagem de referência afecta a nossa percepção desta obra? Se afecta, não estará aí, em parte, a resposta à questão inicialmente colocada?
    http://www.artlurker.com/wp-content/uploads/2008/09/new-7.jpg
    (Esquerda: John Currin, Kissers, 2006. Óleo sobre tela. Direita: imagem de uma revista pornografia holandesa.)

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  20. Vitor Guerreiro
    Não vou insistir muito mais neste debate. Acho que o que quis dizer foi dito através das questões que fui pondo. As resposta que foram sendo dadas não me esclareceram significativamente - continuo com as mesmas impressões.

    Agora, quando me traduz pela ideia de que "não faz mal lavar o cérebro aos outros desde que estejam em situação de dependência perante nós", espero que não atribua nenhum aspecto negativo à expressão "lavagem cerebral"!

    No sentido em que me traduziu, lavagem cerebral pode significar educação; significa crescer, adquirir conhecimentos, formar, formatar. Um individuo que adquire linguagem fá-lo por lavagem cerebral. Todos nós, nesse sentido temos o cérebro lavadinhos na mesma água - ou no mesmo caldo cultural. Senão seríamos absolutamente incomunicáveis.

    Mas isto já é absolutamente excêntrico ao tema... peço desculpa!

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  21. Caro Vitor,

    Entendo por metafísica tudo aquilo que não se reduz ao empiricamente observado, e/ou que está para além do empírico. Não se reduz ao empírico, pois, embora possa ter algum elemento empírico não se esgota nele, e necessariamente o extravasa. Para além do empírico, porque pode englobar algo independente (autónomo) da realidade empírica. Metafísica que também se abre para o trans-espacio-temporal.

    Pareceu-me que os seus comentários vão numa linha de uma antropologia de um paradigma materialismo eliminativista. Do mesmo modo, penso que você é um verdadeiro filho de Descartes: quando refere que o que interessa é prazer individualista, monológico, em sua o egotismo cartesiano. Mas, continuo a questionar: o ser humano é só biologia, o ser humano é somente física, o ser humano é insular? O que é afinal o ser humano? Será que o materialismo elimitativista ou o cartesianismo (no âmbito do egológico) é a melhor forma de explicar o humano? Eu considero que não, pois, estes não explicam adquadamente tudo o que é humano.

    Questionas: “qual a diferença entre apalpar um rabo como um ISSO ou apalpar um rabo como um TU?” Será que não há diferença entre tratar o outro como um fim ou tratar um outro como mero meio. Kant conseguiu perspectivar bem isso. Se a ética, como afirmou Ricoeur, é a procura da vida boa, com e pelos outros, em instituições juntas, então, penso que não é muito ético ter uma atitude de ISSO com o outro; pois, até que ponto isto constituirá a tal procura da vida bom com e pelos outros???

    Concordo consigo quando afirma que num primeiro momento vive-se a experiência, e num segundo a reflexão. Já Heidegger e Gadamer afirmaram bem isso. No entanto, a experiência pode ser metafísica por ter elementos que não se reduzem completamente ao âmbito do físico (ex: o amor tem sem dúvida elementos físicos mas tem também algo inefável e não totalmente conceptualizavel), podendo ser explicito ou implícito.

    Refere que: “espiritualizar o sexo é apenas uma maneira convencional que surgiu para demarcarmos fronteiras, parecer "diferentes" dos outros pretendentes "toscos". É uma estratégia inconsciente que as pessoas adoptam quando sujeitas à pressão social.” Como sustenta esta sua tese? Que evidências a suportam? Como tem assim tanta certeza?
    Se seguir a sua lógica, então, se der prazer e gozo e fruição individualista, então porquê não utilizar tudo como um ISSO e por isso porque não vamos por aí roubar, matar, aniquilar??? Se dá prazer porque não?

    Teorizando livremente um pouco: o humano é finito, portanto indigente, pobre ontologicamente. Mas uma erva é mais indigente que um gato, e por sua vez um gato é mais indigente que um humano, e um humano mais indigente do que um possível ser absoluto (plenitude de ser). Se então o ser humano é finito age necessariamente para fora de si numa busca do aperfeiçoamento e completude do outro e de si mesmo. O ser humano não é monologicamente, mas só no encontro com o outro; e quanto mais encontro personalizante é, mais humanizo o outro deixando-o ser em toda a sua autenticidade. Se se trata o outro sempre como objecto devido a ânsias cartesianas de egotismo penso que isso não levará a lado nenhum, pois só te tornas um Eu na relação personalizante (e não objectivante) com um Tu. Penso que é absurdo querer explicar tudo em termos meramente fisicalistas ou bioligistas. Que evidências há para isso?
    Quanto à relação sexual, se você reduzir esta apenas à relação de dois corpos, então, não constitui momento de encontro personalizante, nem origina uma experiência criativa, é apenas lugar de pulsões instintivo. Neste caso a proximidade não gera presença nem uma abertura autêntica de pessoas, mas é lugar para obter gratificações egoístas e egotismos cartesianistas (como você está a defender nos seus comentários). O outro é apenas objecto que se possui. Não há atenção, cuidado e dom para o outro, mas somente interesse por si próprio e pelo seu prazer individual. Assim, penso que todas as relações sexuais fora do âmbito Eu-Tu (ou seja, fora da verdadeira vivência de oblação para e com o outro) são relações inverdadeiras; pois, existe uma espécie de mentira e profanação do outro (objectualização), e não uma doação total de si ao ser total que é o outro, um enriquecimento da indigência ôntica e existencial do outro, e que por isso mesmo engloba a totalidade da vida em amor-comunhão. Não se pode encarar a relação sexual de forma secundária ou acidental, nem como reduzida a um mero “jogo” alienável. Considero que talvez só é possível viver verdadeiramente a relação sexual (num sentido existencial) quando o “eu” morre para si e nasce para o “outro”; ou seja, quando se vive o amor, a reciprocidade, a perenidade do mútuo dom de si.
    Agora se quiser reduzir isto ao apenas físico, biológico, ou a investimentos no monologismo e egotismo cartesiano penso que se irá perder muita coisa do todo que é a relação sexual.

    Caro Vitor, interprete os meus comentários como uma reflexão livre e nada sistemática, sem cânones, sem formalismos academistas, ou normas ou até técnicas pré-estabelecidas (isso por vezes até pode castra o pensamento livre). Aliás, ainda não me debrucei sobre estes assuntos com a devida ponderação, por isso não tenho pretensão alguma de dizer uma última palavra ou afirmar algo totalmente certo e sem qualquer margem para dúvidas. Isto constitui meras divagações, e pensamentos soltos.

    Saudações cordiais,

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  22. - Voltando à questão:
    “O Courbet fez aquele quadro [“a cona”] com a intenção explícita de ser pornográfico. […] A intenção era precisamente ofender as alminhas singelas que fazem esse tipo de separações arbitrárias.”
    Não será a história d’“A Origem do Mundo” paralela à história da própria pornografia, servindo também de explicação para o teor desta última?
    (http://www.musee-orsay.fr/fr/collections/oeuvres-commentees/recherche/commentaire/commentaire_id/lorigine-du-monde-125.html)

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  23. Caro Vitor,

    Obrigado pelos teus estimulantes comentários.
    Claro que me podes tratar por Tu (é sinal que não me queres reduzir a um ISSO).

    Alguns esclarecimentos:
    Referes que “discordo basicamente de tudo o que disseste. Da ideia de que se as pessoas são "só" biologia então estamos na pura indigência, num estado de natureza hobbesiano ou num pesadelo sadista”. Em primeiro lugar, ainda bem que há pessoas que discordam de nós; é sinal que existem várias formas de olhar o mundo, da pluralidade de mundividências, que nos pode ajudar a clarificar cada vez mais (num processo sem fim) o pensamento, pois, não não somos possuidores da verdade em si, somos finitos, limitados, e deste modo também indigentes (onde talvez o gato ainda seja mais indigente pois nem sequer tem consciência disto [ou para insistir com Heidegger – será que o gato tem a capacidade de interrogar o sentido do ser como é o caso do “Dasein”]). Em segundo lugar, no meu pensamento não concebo que “se as pessoas são "só" biologia então estamos na pura indigência”; pois, não é a compreensão epistémica ou metafísica da realidade que é sem mais a condição necessária ou até suficiente para sair da indigência (no sentido de finitude, incompletude, carência “de mais ser”). Aliás, não vejo incompatibilidade de uma pessoa ter uma mundividência que perscrute apenas biologia (num horizonte epistemológico), mas que implicitamente (sem exteriorização ou consciência) pode viver existencialmente dimensões inefáveis que não se esgotam na mera biologia (como é o caso do “amor” entendido numa oblação e dom ao outro).

    Salientas, do mesmo modo, que “não engulo a ideia de só me "tornar eu" na "entrega ao outro" e coisas desse género”. Vamos reflectir: amigo Vitor, porque és? Quem és Tu que és humano? Considero que cada ser humano sabe existencialmente (mesmo sem explicitação) que a vida não está marcada pela dimensão do nada. Pois, se o nada pautasse a vida do ser humano, então, ele nada poderia ser. Deste modo, o sentido radical e existencial da pessoa só pode ser alguém, um TU, num encontro vivificante. Assim, defendo que a relação fundamenta a existência; se duvidarmos disto “retiremos todas as nossas relações na reciprocidade - com os pais, os filhos, os irmãos, marido e mulher, namorados, professores, estudantes, empresários, trabalhadores, colegas, nacionais, estrangeiros, com a natureza, com o passado, o futuro, a história, a divindade - e o que é que fica?” Se nos isolarmos e nos alhearmos completamente de tudo e todos, então, certamente findaremos; como é possível haver ser humano se não existem primeiro pais que se encontram e se relacionam (inclusive sexualmente), pais que posteriormente se relacionam, se doam, cuidam dos filhos, e os educam; e por aí adiante? O ser humano é ou constrói-se no encontro dialógico. Como poderíamos ser efectivamente se ninguém se relacionar connosco? Portanto, se o Eu persistir em ficar fechado no seu “cogito” cartesiano está num caminho de ilusão e degenerescência (egotismo) acabando por se atrofiar existencialmente, pois, o ser humano não se constrói singular e monologicamente. Então, porque és, porque sou? Por um TU inato (o “a priori” da relação), vivido na expressão dos meus pais que me fizeram, e vivenciado em cada TU com quem me encontro; assim, sou recriado por cada um dos TU’s que me habitam e me fazem EU. Ora, esta relação reciproca fonte de existência (não só biológica) tem como condições necessária o dom ou “entrega ao outro”; pois, como poderias tu cuidar de um filho se não te entregas a ele (no sentido prescindires de certas fruições individuais em prole da educação e tempo para estar com o filho)? Como poderiam as pessoas relacionar-se veemente umas com as outras, em dom e entrega, se lhes desse na gana fazer aquilo que elas bem entenderem? Em suma, não vejo qualquer problema em aceitar que a nossa identidade pessoal é fruto das relações interpessoais que estabelecemos (e daí somos uma inter-poiesis) que de certa forma implica doação e entrega ao outro.

    Consequências:
    Gostei desta tua passagem: “Sair por aí a matar e a pilhar é contrário à moral porque implica dar zero relevância aos interesses dos outros. Isso não decorre de nenhuma teoria metafísica materialista, decorre de se ser psicopata ou mentalmente incapaz de se colocar no lugar dos outros”. Desta tua afirmação tiro a ilação que andar por aí a matar e pilhar é tratar o outro como um ISSO, pois, não se atende aos interesses e autenticidade do outro, portanto é-se incapaz de se colocar no lugar do outro; da mesma forma, na sexualidade quando que se trata o outro como um mero ISSO, ou seja, quando se dá zero relevância aos interesses do outro, bem como se é incapaz de se colocar no lugar dos outro, então, isto constituirá algo contrário à moral no horizonte sexual. Ter uma atitude de TU numa dimensão sexual é, então, prestar relevância aos interesses dos outros, bem como ser mentalmente capaz de se colocar no lugar dos outros.

    Portanto, respondo assim à pergunta inicial (Afinal [...] o que há de errado nisso [pornografia]?) : o que há errado é ter uma atitude de ISSO.

    Saudações cordiais,

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  24. Caros leitores

    O conceito de pornografia responde unicamente aos preconceitos que um dado conjunto de pessoas tem. Certas populações convivem muito bem com representações públicas de falos, por exemplo, e outras não. Mas nada há nessas mesmas representações que as tornem pornográficas ou não. Assumir isto não é dizer que a categoria da pornografia não existe; é apenas vê-la como expressão de preconceitos. Preconceitos porquê? Porque não há razões sólidas para classificar isto ou aquilo como pornográfico — há apenas as reacções impensadas, que depois são racionalizadas em explicações esfarrapadas.

    Também não afirmei que é possível ou desejável viver sem preconceitos; cada um sabe de si. Mas segue-se do facto de o conceito de pornografia ser mero reflexo de preconceitos que o que uns acham chocante, outros não o acham, pelo que não se deve ter leis que proíbam preto no branco o que alguns consideram chocante mas outros não.

    Quanto à desculpa das criancinhas, trata-se de mera falta de sinceridade; se percebermos que é disso que se trata, então perde-se a motivação para proibir os outros de fazer o que eles não consideram que deve ser proibido, dado que é mentira que estamos a tentar proteger todas as crianças — apenas queremos proteger-nos a nós das perguntas dos nossos filhos, porque somos psicologicamente incapazes de falar com eles de certas coisas.

    Quanto à conversa da objectificação, é outro preconceito. Os seres humanos adultos fazem sexo como lhes aprouver e se gostam ou querem ser filmados ou representados, qual é o problema? E se outros gostam de ver, qual é o problema? Afinal, não se fala de objectificação quando duas pessoas jogam ténis, cada uma das quais tentando derrotar o outro e oferecendo-se ambas em espectáculo à multidão.

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  25. 1-A pornografia será um conceito limite ou haverá uma escala do pornográfico (soft/hard)? Neste sentido estas três imagens são pornográficas ou haverá alguma(s) mais pornográfica(s) do que a(s) outra(s)?

    1.1- http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3f/Origin-of-the-World.jpg
    Gustave Courbet, “A Origem do Mundo”, 1866 – Óleo sobre tela (46 x 55 cm).
    Paris, Musee d'Orsay.
    1.2- http://www.artnet.com/magazine/reviews/lamm/Images/lamm10-23-7.jpg
    Zoran Naskovski, “A Origem do Mundo”, 1997 – still de uma instalação vídeo.
    1.3- http://www.eyestorm.com/images/works/9943_mainimage.jpg
    Marc Quinn, “A Origem do Mundo”, 1999 – still de uma instalação vídeo.

    “A distinção entre "pornografia" e "erotismo" parece algo especiosa e depende mais de convenções do que de propriedades dos próprios objectos. Imagens que num contexto se rotula "eróticas" são rotuladas "pornográficas" noutros contextos.” VG
    “É possível algo ser arte e pornografia ao mesmo tempo?
    Mesmo que na sua grande maioria as representações pornográficas fossem artisticamente pobres, imorais, de mau gosto, etc, isso não basta para sustentar que a pornografia não pode ser um conteúdo da arte como outro qualquer.”VG
    “Não serve responder que os quadros de Courbet são arte e que isso é diferente de pornografia, ou que a arte com temas sexuais é "erótica" em vez de "pornográfica" porque:
    a) todas estas obras não só foram consideradas pornográficas no seu tempo, como até parece que ainda conseguem suscitar a acção policial hoje.” VG

    2 - Na relação da arte com a pornografia – Conhecer a imagem de referência afecta a nossa percepção desta obra? Se afecta, não estará aí, em parte, a resposta à questão inicialmente colocada?
    http://www.artlurker.com/wp-content/uploads/2008/09/new-7.jpg
    (Esquerda: John Currin, Kissers, 2006. Óleo sobre tela. Direita: imagem de uma revista pornografia holandesa.)
    Acrescenta-se: Is pornography “in the eye of the beholder?”
    “O conceito de pornografia responde unicamente aos preconceitos que um dado conjunto de pessoas tem. Certas populações convivem muito bem com representações públicas de falos, por exemplo, e outras não. Mas nada há nessas mesmas representações que as tornem pornográficas ou não.”DM

    3- “O Courbet fez aquele quadro [“a cona”] com a intenção explícita de ser pornográfico. […] A intenção era precisamente ofender as alminhas singelas que fazem esse tipo de separações arbitrárias.”
    Não será a história d’“A Origem do Mundo” paralela à história da própria pornografia, servindo também de explicação para o teor desta última?
    (http://www.musee-orsay.fr/fr/collections/oeuvres-commentees/recherche/commentaire/commentaire_id/lorigine-du-monde-125.html)
    Enfatizo: Não será a história d’“A Origem do Mundo” (da colecção do embaixador turco Khalil Bey, para a colecção de Jacques Lacan e depois para a exposição no Museu d’Orsay), um paralelo com a história da própria pornografia (do domínio privado - era vitoriana -, para os olhos da psicanálise e depois para os olhos do mundo - Internet)?

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  26. Caro Vitor,

    Infelizmente não tenho muito tempo para responder com a devida ponderação, devido às muitas leituras que tenho que fazer. Mas mesmo assim vou tentar limitadamente esclarecer alguns pormenores.

    Ao defender a relação interpessoal Eu-Tu como fonte existencial, não advogo a eliminação do individual, mas pelo contrário; pois, se respeito o outro em toda a sua autenticidade, sabendo também colocar-me no lugar dele, então, respeito o ser individual do outro. O que nego é uma atitude de individualismo que não respeita a autenticidade do outro nem sequer é capaz de se colocar no lugar do outro atendendo aos seus interesses. Ora, perante dois excessos como o individualismo ou o comunismo (eliminação do individuo) defendo, então, como uma espécie de meio termo aristotélico: a “comunidade” (que não aniquila o indivíduo nem perspectiva uma redução à massa amorfa).

    De facto, estamos a utilizar “objecto” com conotações diferentes. Por isso, para ser mais claro opto, como fiz no comentário anterior, por utilizar a palavra ISSO (entendido como um dar zero relevância aos interesses do outro, bem como se ser incapaz de se colocar no lugar dos outro).

    Quanto ao comentário do Desidério, diz que “os seres humanos adultos fazem sexo como lhes aprouver e se gostam ou querem ser filmados ou representados, qual é o problema?”
    Nesta afirmações há conceitos dúbios: o que se entende por “como lhes aprouver”, se for entendido como tratar o outro como um ISSO, então, será algo imoral. Do mesmo modo, será que toda a pornografia é moral, e portanto, atende sempre e em todas as circunstâncias aos interesses do outro, bem como é capaz de se colocar no lugar do outro. Analogicamente, poderei também questionar que certos seres humanos adultos podem fazer o que lhes aprouver, até ao ponto de roubam e matam, e se gostam ou querem fazer isto, então, qual é o problema? Penso que o problema manifesta-se quando se tem uma atitude de ISSO. Ou será que em toda a acção humana o “fizer o que lhe aprouver” ou lhe der na gana não terá limites, e portanto, também se poderá avançar para roubos e homicídios? Em suma, será o acto sexual amoral?
    Vamos imaginar um exemplo: A pessoa “X” por ventura encontrou uma outra pessoa masculina “Y” a violar sexualmente uma pessoa feminina “Z”; ora como “X” tinha um site pornográfico na net e uma vez que precisava de novos filmes decidiu gravar na sua máquina digital a violação de “Y” a “Z”. Portanto, será que a violação sexual, que é um acto sexual, é algo moral? Este filme vai para a net, e é catalogado juntamente com os outros filmes pornográficos, uma vez que funcionalmente a pessoa “Z” supostamente não pretendia ser violada, nem filmada ou representada, será que não existe aqui problema algum? E até deve ser “humanizador” os cibernautas verem uma pessoa (como a “Z”) a ser totalmente violada, sem atender a qualquer dos seus interesses? Ou não será bem assim?
    Da mesma forma, até que ponto é moral o ser humano comprar ou alugar outro corpo para alimentar os seus individualismos? O ser humano tem um corpo ou é um corpo?

    Caro Vitor, não me tente “ancorar” ou catalogar como heideggeriano, já te disse que isto são comentários livres e para dizer (inclusive) muitas asneiras. Dizes que “se podes ter uma descrição dos seres humanos maximamente compatível com a nossa melhor ciência, e que dá perfeitamente conta da nossa vida social, emocional, da produção artística, cientifica, filosófica, SEM recorrer a lastro transcendente... tens tudo o que um filósofo pode querer”. Mas, questiono até que ponto a ciência será a resposta última e plena de tudo. Será que a ciência responde completamente ao porquê do sentido e da existência humano? Até pode ajudar em muito, mas será a única e exclusiva explicação? Hoje estamos de antemão inclinados a considerar como realidade propriamente dita apenas aquilo que temos diante de nós e que podemos tocar e «comprovar» cientificamente. Mas ser-nos-á permitido proceder assim? Não será caso de perguntar com mais cuidado o que vem a ser essa «realidade» de facto? Será somente aquilo que é comprovado e comprovável? Não será a comprovação apenas uma das maneiras de nos relacionarmos com a realidade, uma maneira, aliás, que não consegue abarcá-la inteiramente, podendo inclusive levar a uma falsificação da verdade e do ser humano, se for vista como o único critério?

    Qual é o mal de recorrer ao transcendente? Como tens assim tantas certezas e sem margem para dúvidas que este transcendente não é? Será que queres sem mais castrar a realidade ao físico e científico? Qual é o mal de existirem filósofos-teólogos? Porquê radicalizar assim tanto fé e razão? Será que fé e razão não poderão ser compatíveis? O simples facto de alguém ser teólogo é condição suficiente para deixar-se de pensar criticamente?

    Concluindo, todo e qualquer acto sexual será sempre e totalmente moral? Não poderão existir também actos sexuais imorais? E até que ponto, se existir actos sexuais imoral, será licito divulgar isso?

    Saudações cordiais,

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  27. "Qual é o mal de não recorrer ao transcendente e como tens tanta certeza de que a realidade contém entidades transcendentes?"
    Eu não tenho certezas, tenho ene dúvidas; só me pareceu que estavas demasiadamente seguro que não existe transcendente.

    É sempre a mesma história... o outro é que tem que provar que existe. Eu não tenho qualquer prova ou silogismo que prove ou desprove veemente o transcendente. Tens algum silogismo que nege sem margem para dúvidas o transcendente?

    Como sustenta a seguinte afirmação: "A ideia é que o sexo nada tem de especial perante as outras actividades humanas"? Como tem assim tanta certeza?

    Concordo com isto: "Os actos sexuais são imorais nas mesmíssimas condições em que qualquer outra acção é imoral: quando põe em causa da liberdade, a autotitularidade, a integridade física, etc, dos outros. O facto de haver pessoas que se ofendem com representações de sexo não significa que isso seja mau em si mesmo ou que tenha de ser proibido."

    Saudações cordiais,

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  28. Caro Vitor,

    Gosto de uma frase de S. Agostinho que reflecte mais ou menos o que dizes: “Ama, e faz o que quiseres”; ou noutros termos: desde que respeites o outro, não o lesando e sendo capaz de atender aos interesses desse outro, bem como se te colocas no lugar do outro, então, penso que é moral fazer o que quiseres e bem entenderes. Serão práticas sexuais imorais ou “piores” aqueles que apenas se se preocupam em lesar o outro. Concordas?

    Comer um prato arroz é diferente de ter um diálogo contigo; e será que a actividade sexual não se distinguirá também do prato de arroz ou do diálogo? A actividade sexual não poderá ser mais especial do que comer um prato de arroz, uma vez que pode talvez constituir uma comunicação profunda entre dois seres humanos num enriquecimento existencial e de sentido mútuo? Ou será que é acto sexual se, e apenas se, não prospectivar mais nada para além da biologia?
    Porque é que o sexo nada tem de especial perante as outras actividades humanas?

    O negar é também uma forma de afirmar. Por exemplo, afirmas que não existe Deus. Perante isto penso que estás implicitamente a afirmar que apenas existe uma realidade contingente e finita. Como provas esta tua afirmação implícita?

    Dizes que “Tu queres acreditar no transcendente não porque tenhas um conhecimento especial que to permita inferir, mas porque pressupõe que o mundo seria melhor se houvesse Deus ou um transcendente qualquer.” Mas isso não é verdade. Acredito que o maior ateu do mundo pode ser mais moral e humano que o maior crente do mundo. O simples facto de se acreditar em Deus não confere moralidade a qualquer acto.

    Eu não sei, e talvez nunca saberei veemente se Deus existe ou não existe; pois, a nossa razão finita apenas se refere efectivamente a fenómenos espacio-temporais; ora, como Deus (se existir) é trans-espacio-temporal, como poderei com uma razão finita provar ou reprovar realmente a sua existência ? Eu apenas creio, não sei se existe ou não existe. Tu sabes que ele não existe? Do mesmo modo, será que a compreensão do mundo se baseia numa racionalidade do tipo cartesiano? Será que com uma mera racionalidade formal e finita conseguirei apreender a totalidade da realidade e do sentido?
    Não sei se Deus existe, mas filosoficamente estou aberto (e não castro dogmaticamente) a sua possibilidade.

    De facto, concordo contigo quando afirmas que “não posso aceitar qualquer código moral religioso que me impede certas práticas sexuais por serem pecado”. Eu funciono como tu. Muitas vezes a religião aparece como uma autêntica caricatura. Acho muito pobre e indevido uma religião castrar sem mais o humano, porque sim. Eu sou efectivamente ateu de deuses antropomórficos, ou seja, deuses castigadores, castradores, polícias, vingativos, egoístas, que impõem regras e condutas absurdas racionalmente, que ficam chateados se nos portarmos mal, que enviam para o eterno inferno e sofrimento quem sai do “caminho”, etc... Mas, (estou aberto filosoficamente e) creio num Deus Amor (de tradição judaico-cristã) que não é anti- isto ou aquilo, nem quer castrar o humano, nem ambiciona impor normas absurdas e contraproducentes; mas que pode aparecer como fonte de sentido e de realização última da existência para quem o quiser.
    Pessoalmente não vejo qualquer incompatibilidade de acreditar em Deus e aceitar esta tua afirmação: “continuar a praticar sexo como desejamos, desde que não lesemos seja quem for”.

    PS – Sou completamente ateu do deus que descreves nos teus comentários.

    Saudações cordiais,

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  30. Tenho sugestão de alguns pontos para reflexao relacionados à pornografia (entendida aqui como a veiculação de imagens - seja na forma de fotografias, pinturas ou de filmes).
    Embora a maior parte da indústria pornográfica faça filmes que objetificam mulheres e mostram um padrão masculino irreal de relação sexual, há diretoras como Erika Lust e Tristan Taormino que produzem filmes pornográficos que focam no prazer sexual de ambos parceiros. Ao nos depararmos com esse contraste de representaçoes sexuais com fim erótico,vemos que talvez a pornografia em si não seja problemática, mas sim o tipo de roteiro e de construção de personagens.

    Nos dias de hoje, com amplo acesso à internet, os meninos começam muito cedo (11, 12 anos) a assistir a pornografia feita por esta grande indústria. É provável que esses meninos adotem a imagem e comportamento do macho dos filmes pornôs como sendo o padrão ideal: homens com pênis enormes, com ereções que duram horas, ejaculaçao em volume muito maior que o real. Quando a realidade das relação sexuais não é assim. Também esses meninos podem aprender que uma boa relação sexual é aquela em que a mulher sente dor, faz cara de dor durante a penetraçao (como acontece em vários filmes pornográficos). O problema da grande indústria pornográfica é que investe cada vez mais em roteiros e atuações degradantes da dignidade (tanto dos atores envolvidos quando do espectador).
    Representaçao de mulheres sendo estupradas, de mil tipos de objetos sendo introduzidos em seus orifícios, mulheres fazendo sexo com animais, mulheres apanhando, crianças sendo violadas, homens estuprando outros homens: não vejo como esse tipo de representações, feitas e disponibilizadas massivamente, não conduzem à degradação moral, tanto das partes filmes, como da equipe que presencia a filmagem, quanto dos espectadores.

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