23 de fevereiro de 2009

borlistas / free riders

No que diz respeito à adaptação portuguesa do termo "free rider", cheguei à conclusão de que a melhor adaptação será "borlista". Pela razão de as adaptações que remetem para a ideia da "boleia" e do indivíduo "que anda à boleia" serem imprecisas.
Por um lado, o termo inglês para "indivíduo que anda à boleia" é "hitchhiker" e não "free rider". Por outro lado, não é claro que um "hitchhiker" seja um "free rider". Exemplos de "free riding" são andar à boleia sem o conhecimento de quem nos dá boleia ou usar a ligação "wireless" à Internet do nosso vizinho sem que este saiba. Quando nos dão voluntariamente boleia, nada disso está em desacordo com aquilo a que Nozick chama o "princípio da justiça na transferência": uma distribuição de possessões é justa se teve lugar a partir de uma distribuição anterior justa, sem violar os direitos seja de quem for. O borlista, o "free rider", é precisamente aquele que transgride o princípio de justiça na transferência. Outro exemplo:
Podemos pensar que ao darmos dinheiro a um músico na rua, estamos a fazer "caridade" e que este é um "free rider", mas tal raciocínio está errado. Na verdade, o músico de rua está a dar-nos algo em troca e é ainda mais honesto do que o músico que nos atrai para uma sala de espectáculos e, depois de nos cobrar 50 euros, até pode dar um espectáculo medíocre e no entanto ninguém se queixa. O artista de rua dá-nos o mesmo produto e cada um só paga na medida do valor que atribui ao produto, o que até pode ser injusto para o músico de rua, caso alguém o fique a apreciar durante muito tempo e lhe deixe 10 cêntimos no chapéu quando até dispõe de riqueza mais do que suficiente para lhe dar mais sem ser prejudicado. Temos de fazer tábua rasa dos nossos preconceitos quando é preciso avaliar quem é e quem não é "free rider". Um maltrapilho pode não ser um "free rider" e, por outro lado, muitos "free riders" podem andar de fato e gravata. Um "hitchhiker", por exemplo, pode estar a compensar-nos, impedindo a solidão de uma viagem longa, havendo assim uma troca justa e não uma transferência injusta de custos.
Por estas razões, creio que a melhor adaptação para português é a expressão "borlista".

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