13 de fevereiro de 2009

Como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia

  1. Não pense coisa alguma. Limite-se a pegar, baralhar e voltar a dar aquilo que os bem-pensantes querem ouvir. Coisas como um elogio masturbatório dos livros, da Cultura Europeia (com maiúscula), da cultura aborígene, ou de qualquer outra ideia feita.
  2. Nunca argumente. Limite-se a dizer que as coisas são assim, sem dar ao leitor qualquer razão para pensar que realmente são assim. Isto porque se apresentar argumentos, obrigará o leitor a raciocinar, ficando por isso perigosamente a um passo de se atrever a discordar de si — vendo imediatamente quão fácil é fazer tal coisa. Lembre-se: para ser um bom mau pensador é crucial nunca pensar seja o que for, mas dar a sensação que pensa realmente coisas profundas.
  3. Use muitas palavras, referências e citações que amedrontem o leitor e o façam pensar que ele não está à sua altura. Isto não só tem a vantagem de ocultar o facto de o bom mau pensador nada pensar realmente, como dá também ao leitor a ideia de que o autor é erudito, quando na verdade ser erudito significa saber realmente alguma coisa em primeira mão, coisa que o bom mau pensador não sabe.
  4. Associe. Associe tudo. Palavras, ideias, imagens. Associe qualquer coisa com qualquer outra e das maneiras mais inesperadas. O que dá élan (uma boa palavra) ao bom mau pensador é a impressão provocada no leitor de que é inteligente, sem que contudo tal impressão tenha origem num só raciocínio minimamente plausível, sofisticado e devidamente fundamentado.
  5. Pregue altivamente contra qualquer coisa abstracta e sem contornos precisos: o capitalismo, o barbarismo, a modernidade, a ciência, o óleo de fígado de bacalhau. Tem de ser algo que pareça real e concreto, mas que depois você interpreta de maneira tão abstracta e descaracterizada que lhe permitirá sugerir sibilinamente que mantém conexões com as coisas mais improváveis, conexões essas que só você vê (aprofundando portanto a falsa impressão de que é inteligente). Poderá assim afirmar que, no fundo, os panos do pó são o símbolo grotesco do capitalismo, que por sua vez é culpado pela notória ausência de poesia lírica entre os bosquímanos. Lembre-se: surpreender é a arma fundamental do bom mau pensador.
Finalmente, adopte uma atitude qualquer relativamente aos intelectuais. Apesar de você ser evidentemente um deles, e do pior tipo, sugira que A) os intelectuais se renderam ao barbarismo e que precisamos corajosamente de defender, por exemplo, a importância de ler Séneca em latim, ou que toda a gente devia ler integralmente a Odisseia em grego, pelo menos uma vez por semana; ou B) que os intelectuais são todos uns idiotas pretensiosos que desprezam os filmes pornográficos porque não entendem a ontologia intermitente de cunho epistémico que lá está subjacente — defendendo portanto a cultura popular, mas com palavras que nenhum taxista entende. Se você for realmente corajoso, tente defender A e B ao mesmo tempo, mostrando depois que só um ignorante poderá pensar que está envolvida alguma incompatibilidade.

4 comentários:

  1. Desidério, agora percebi definitivamente (ok, este "definitivamente" é só para tentar ser bom mau pensador) por que razão os bons maus pensadores são tão admirados. É que fazer o que eles fazem não está ao alcance de qualquer um. É uma lata que leva muitos anos de treino a adquirir. É tão admirável como um tipo que consiga coçar a nuca com os dedos do pé direito.

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  2. E agora um lamento, "requiem for unbad thinkers". Recordo que muitas vezes me aconteceu dar respostas a alguns unbad thinkers e recebia em troca um "você não está mesmo a ver o problema, não é nada disto" sem que, no entanto, me explicassem a razão pela qual e estava a dizer um disparate. Não passava de um tique para passar por cima. Uma das minhas maiores dificuldades durante o curso foi a inadaptação ao discurso terrorista. E, na altura, com sinceridade, desconhecia todo um universo onde se pode pensar de forma clara. Falo no passado pois isto aconteceu principalmente no meio académico. E unbad thinkers é uma tradução minha, provavelmente má, mas o Guerreiro tratará de a emendar :-)

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  3. Lol. O texto está deveras engraçado...
    Sou leitora assídua do vosso blog e espero que continuem com o bom trabalho que têm feito até agora...

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  4. COMO SER UM BOM BOM PENSADOR APENAS EM CINCO LIÇÕES


    1. Quando ouvir falar de Cultura puxe logo do revólver. Não glose os motes culturalistas consabidos e pense e escreva como se nunca tivesse lido nada ( não se esqueça que os continentais escrevem como se tivessem lido tudo). O objectivo é ascender ao Barthesiano “grau zero” da “angústia da influência”. Às urtigas com o “círculo hermenêutico” do urticante Gadamer!
    2. Argumente sempre. Melhor! Mesmo que não argumente, diga que vai argumentar, que está a argumentar e que acabou de argumentar. Mas se o fizer, meia dúzia de conectores infero-argumentativos quase lógicos de bolsilho resolvem o problema.
    3. Atenção ao barroquismo parentético-citacional. Há uma relação inversamente proporcional entre o número de citações e o número de filosofemas originais. A citação pode ser um atalho do pensamento, mas, como diz comummente o povoléu, quem se mete em atalhos mete-se em trabalhos.
    4. A metáfora e a analogia devem ser usadas com parcimónia. São uma espécie de indolência do pensamento e uma concessão à literatice. Nada de maneirismos à la Derrida (Vade Retro! Abrenuntio!). A ideia do escritor-filósofo é demasiado século XVIII, demasiado francesa, em suma, demasiado demodée (desculpem lá esta palavrinha, mas é tão eufónica!).
    5. A verdadeira filosofia, a nossa, é um labor de filigrana conceptual ( Pace Frank Jackson!). Mais vale um paperzinho sobre as minudências das modalidades de Dicto e de Re do que a Grande Síntese sobre a Secularização do Charles Taylor. Não se esqueçam que, devido à especialização filosófica, sabemos cada vez mais de menos e quiçá, futuramente, não saberemos tudo de nada.



    P.S – Parabéns pelo vosso trabalho no Blog que, aliás, leio religiosa e profanamente.



    Paulo Rui Ferreira

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