9 de fevereiro de 2009

Ler no original ou traduzir?


Um dos problemas que me lembro do tempo de faculdade ser discutido era o das traduções. Ainda bem que era discutido, mas tenho algumas dúvidas se era discutido ou se não passava, na esmagadora maioria dos casos, de puro seguidismo do mestre. Dizia-se, na altura, que o melhor era ler os filósofos no original e organizavam-se seminários de leitura em alemão, dinamarquês, etc. Estes seminários sempre me pareceram uma excelente ideia e até é verdade que deles resultaram algumas traduções. Mas se a ideia é ler no original, para quê traduzir? Recordo também que era vergonhoso passear obras traduzidas por brasileiros, já que eram em regra passadas a pente fino como sendo más traduções. Eu próprio partilhei acriticamente dessa ideia, baseando-me numa tradução que me diziam ser muito má do Ser e Tempo de Heidegger. Tive, na altura, de recorrer à tradução espanhola, mesmo que confessadamente tenha tido enormes dificuldades em sentir empatia com o filósofo.
Nessa altura eu defendia que o que temos a fazer é criar um vocabulário próprio, mas que para tal é preciso uniformizarmos um corpo de investigação académica e não cada um traduzir para o lado que lhe apetece, que me parece ser o que mais acontece. Existe ainda uma outra abordagem, muito usada pelos professores universitários, a de que só se compreende o filósofo X acedendo à língua em que esse escreveu. Sinceramente não observo problema algum que um indivíduo queira aprender grego para ler melhor Platão. Não estou é certo que essa seja uma condição necessária, muito menos suficiente. Arrisco a pensar que o melhor era entrar numa máquina do tempo, ir à Grécia antiga e entrar nas discussões com Sócrates. Só que a máquina do tempo são os livros dos filósofos e parece-me perfeitamente plausível a tese de que uma boa tradução nos coloca frente a frente com os problemas levantados por Sócrates.
Por comparação, um estudante em língua inglesa não tem estes tipo de problemas. Tem disponível praticamente todo o tipo de obras além de que tem boas traduções feitas por especialistas na tradução e por gente com muito treino nessa matéria. Esse é um trabalho que nós, em Portugal, temos de fazer, que é o esforço em traduzir. Duplo trabalho? Sim, pois além de ler e aprender filosofia e a filosofar, temos de aprender a traduzir. Não se percebe por que razão essa não se oferece como opção, por exemplo, no final do curso. Quando acabei a licenciatura em filosofia, segui o ramo de ensino e tive de fazer uma especialização durante 2 anos com estágio incluído. As universidades portuguesas poderiam oferecer essa via para a tradução. Assim um estudante quando conclui a licenciatura faz 2 anos de especialização na tradução.
Mas o que é que se ensinaria nesses dois anos? Precisamente o vocabulário, o método de tradução do texto filosófico, etc. Certamente que ao cabo de alguns anos teríamos uma interessante bolsa de tradutores de filosofia, com mais e melhores obras no mercado, com uma mais ampla divulgação e interesse pela filosofia, para além de se captar mais uma importante fatia de mercado de emprego para licenciados em filosofia.
Parece-me que o trabalho académico em filosofia é demasiado disperso para organizar uma especialização em tradução, mas tal seria possível se o trabalho filosófico fosse interpretado de modo mais impessoal. Por exemplo, o departamento de filosofia da universidade X podia estar mais virado para a investigação da filosofia continental, do pós modernismo, etc., ao passo que o departamento da universidade Y poderia estar mais vocacionado para o estudo da lógica, etc.
Ao contrário do que se faz, o trabalho académico não tem de ser pessoal, mas institucional. Claro que as pessoas são livres de estudar o que querem dentro das instituições e podem até fazer trabalhos brilhantes à margem dela. O que não faz sentido é usar a universidade, viver dela para alimentar as experiências místicas pessoais.
Enquanto isso, à parte dos vícios, quer se queira ou não, o trabalho da tradução é um trabalho que temos de fazer organizadamente se queremos ter filosofia em Portugal com ampla divulgação. Sé assim teremos menos cadeiras vazias nos cursos de licenciatura.

3 comentários:

  1. Acho que o principal problema não é haver um corpo de especialistas a trabalhar na fixação dos termos. Isso já há e muitas vezes trabalham mal. Mas porquê? Não admira aí nada: todos somos falíveis e fazemos erros, deixamo-nos levar pelas fantasias e superstições preferidas, etc.

    Muitas vezes me chamam a atenção por causa da minha sobrevalorização do anglo-saxónico sobre o português. Na verdade, creio que os ingleses são tão imperfeitos, falíveis e idiotas como nós. Mas têm algumas vantagens: não tiveram de calar a boca durante décadas, como nós no Sul da Europa e os gajos no bloco de Leste, e portanto não ganharam os vícios típicos de pessoas com culturas centralistas: a primeira coisa que se pensa é como contornar o sistema, como fazer batota, como ir na onda. As ditaduras ensinam-nos isso e ficam gravadas nos hábitos mentais.

    Por outro lado têm ferramentas de controlo melhores: discutem realmente os erros. O exemplo maior disso é o peer reviewing. Em portugal basta ser amigo de x ou bajular as pessoas certas para se ser publicado. O conceito de um texto passar anonimamente por várias mãos especializadas, voltar ao autor para correcções, e assim sucessivamente, é visto como uma loucura "ditatorial".

    O nosso problema é não discutir os erros. Não é falta de sábios a uniformizar termos. O problema é que os "sábios" são teimosos, não gostam de corrigir erros ou pelo menos só gostam de corrigir erros aos outros, quando são um pouco mais ousados.

    O melhor antídoto para isto era as pessoas aprenderem a gozar consigo próprias. Passava-nos a maluqueira mais depressa e podíamos seguir em frente para o que interessa.

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  2. quando usei a palavra "uniformizar" não pretendi dar essa conotação. Não há espigas com os totalitarismos :-) pelo menos da minha parte. O que está em causa é entendermo-nos numa linguagem comum. A discussão é desejável e o consenso daí resultante é a uniformidade que falei.

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  3. Oi Rolando

    quem teve parte de sua formação no meio continental sempre tem alguma história pra dizer a respeito da questão da tradução. Francamente, eu penso que isso resulta de uma extrema minoridade intelectual da prática filosófica em nossas academias. Num primeiro momento os alunos são ensinados a se limitar a interpretar e repetir (entenda-se fazer paráfrase) dos textos dos filósofos. Em seguida são exigidas competências dos alunos que não têm nada a ver com a filosofia, saber ler Platão em grego é uma delas. Na maioria dos casos essas pessoas não estão interessadas realmente em traduzir as obras e não dão a mínima para a importância cultural das traduções. O que ocorre na verdade é a total substituição da filosofia por outras coisas (neste caso a exegese infinita da obra do filosofo no original) e o provincianismo acadêmico típico que reclama de tudo de maneira vaga (tal tradução tem tais e tais problemas) mas não faz nada para melhorar esse estado de coisas. Essas críticas das traduções são curiosas e num primeiro momento enganadoras: nos levam a pensar que essas pessoas apontam erros nos trabalhos dos colegas, mas não é isto o que acontece. Nunca vi uma resenha de um livro a apontar alguma deficiência da tradução, são sempre muito elogiosas, mas no dia a dia dos departamentos todas as traduções são horríveis, ou pelo menos medíocres. Essa é mais uma hipocrisia comum nos departamentos de filosofia.

    Não penso que ainda estamos preparados para essas especializações de traduções porque a má formação em filosofia bitola os alunos, tornado-os péssimos tradutores futuramente. Já encontrei uma obra do Górgia em português em que se substituia sistematicamente o termo "ser" por "ente" - distinção de Heidegger que se baseia numa tese filosofica altamente controversa. É isto o que acontece quando um mal filósofo se dedica profissionalmente à tradução.

    E também discordo que seria uma boa idéia deixar que um departamento se especialize em fil. continental ou analítica. Dada a mentalidade provinciana de nossa cultura isto teria como consequência uma prática acadêmica ainda pior do que a que vemos hoje.

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