7 de fevereiro de 2009

Manuais e ensino


Uma das reacções mais populares desde que mantenho o blog, A filosofia no ensino secundário, activo aconteceu quando publiquei algumas análises e considerações sobre os manuais escolares de filosofia portugueses (2007 e 2008). Desde que sou docente de filosofia ouço recorrentemente da parte de muitos colegas que os manuais tem erros científicos, mas não recordo ter observado nas 7 escolas que conheci os professores a reunirem e discutirem erros científicos de manuais. Imbuído na crença de que os manuais tem erros científicos e tendo-os descoberto, umas vezes melhor que outras, comecei a deixar de lado o uso de manuais até que no mercado surgiram propostas decentes. O que mais estranhei foi que, apesar de aparecerem propostas decentes, muitos professores continuaram a optar pelos maus manuais, ou pelo menos, pelos piores manuais. Um dos aspectos no uso de um manual que me começou a chamar a atenção é que não raras vezes eu próprio não compreendia o que lá estava escrito. Não sendo eu um supra sumo da inteligência humana tenho, com efeito, uma experiência mais alargada que o comum de estudo e leitura (não incluo aqui os professores já que faz parte da sua actividade o estudo permanente), pelo que indaguei sempre se o defeito seria meu ou do manual. Mais tarde, através da internet pude recorrer a pessoas que me ajudaram a ver os erros. Nesta experiência recorri também a alguns professores universitários e verifiquei que alguns deles não sabem do que falam. Nada de novo aqui, não fosse por vezes a arrogância com que arrumam as questões, como, “ai, isso é analítico, logo não quero saber”. Outro argumento usado frequentemente pelos professores do ensino secundário parece-me mais plausível, o de que é necessário trabalhar com um manual pelo menos um ano para o poder avaliar com correcção. Sem dúvida que é, ainda que no caso dos erros científicos baste ler o manual sem necessidade de o aplicar. Mas para avaliar as capacidades didácticas de um manual o seu uso com os alunos é muito relevante. Parte das dificuldades sentidas tem mesmo a ver com este aspecto, se o manual é ou não adequado ao estudo dos alunos. Mas é errado pensar se o manual é ou não adequado ao que o professor sabe, pois muitas vezes o manual pode saber mais que o professor e, nesse caso, o professor não pode a partida colocar o manual em causa. Deve, antes, colocar aquilo que sabe em causa.
Pela minha parte não tornei a pegar na maioria dos manuais após as minhas análises que aqui publiquei. Mas visito frequentemente o Arte de Pensar como recurso principalmente o do 11º ano, já que na escola onde trabalho temos o manual de Luís Rodrigues adoptado. E as minhas conclusões iniciais voltam a merecer registo. Trabalhei muito bem com o manual de LR até finalizar a lógica informal. Aliás, a unidade da lógica proposicional é das melhores que tenho observado em manuais. Mas os problemas começam depois, na unidade das teorias do conhecimento. Para além da ausência do cepticismo, a exposição quer de Descartes, quer de David Hume aproximam-se mais de uma narrativa histórica do que um centrar dos problemas filosóficos sujeitando-os à discussão activa com os alunos. Seguir o manual condiciona as minhas aulas, tornando-as mais aborrecidas. Por outro lado a linguagem usada é mais estranha aos alunos que a usada no Arte. Por exemplo, o conceito de conhecimento é rapidamente abandonado para se transformar em saber. Não me aprece que os alunos de 11º ano estejam completamente à vontade para perceber que se trata do mesmo conceito. Além disso não existe recurso ao anteriormente aprendido, sendo que este é um dos aspectos mais relevantes em qualquer didáctica, o dos pré conhecimentos. No Arte de Pensar tal não acontece. Para além da linguagem uniformizada e mais clara, o recurso aos pré conhecimentos é permanente, o que coloca desde logo o manual em clara vantagem em relação ao seu congénere de Luís Rodrigues.
No manual de LR a opção por Kant pare-me muito mais dispensável do que a ausência do cepticismo. Por que razão é importante a inclusão do cepticismo num manual de 11º ano? Precisamente porque a filosofia cartesiana se compreende muito melhor se o estudante compreender que o objectivo do fundacionismo é o da refutação do cepticismo. Sem este passo, Descartes aparece isolado, sem um fio condutor no programa. E este aspecto o Arte de Pensar assegurou mais que qualquer outro manual e, no caso, muito melhor que o manual de Luís Rodrigues.
Se o manual de LR assegura bem a lógica formal e informal, rapidamente a abandona sem que o aluno possa integrar esses conhecimentos nas unidades seguintes. Desse modo o manual de LR mais não consegue do que produzir um ensino em bloco e formal, sem exercício de progresso na capacidade crítica dos estudantes, que, afinal, é o que mais se deseja no ensino. Claro está que há aqui um problema que é necessário discutir, o de que muito provavelmente uma boa parte dos professores de filosofia preferem um ensino formal em bloco, sem proporcionar ao aluno a compreensão das relações que existem entre os problemas e as teses filosóficas. Mas esse é precisamente o tal ensino formal que temos e que não produz mais do que a capacidade acrítica de memorização. O valor do ensino é muito mais que isto. Assenta no desenvolvimento de capacidades de pensamento crítico, não no mero estudo de teorias mortas. E o ensino da filosofia tem de estar muito mais atento a este aspecto, tem de necessariamente deixar os estudantes numa posição de aprendizagem crítica, discutindo os argumentos, refutando as teses, etc. Senão como desenvolver as capacidades críticas? Ensinando-lhes o ser para a morte em alemão? Não sei. Um aluno que assiste à aula passivamente é assistência na sala de aula. Numa aula de filosofia o estudante é o jogador e não a assistência passiva. Imagine-se que alguém vai para a bancada de um estádio de futebol, com um bolo na mão e um refrigerante na outra e quando interpelado responde que está a ali a aprender a correr vendo os atletas a praticar atletismo? Estranho, não? O mesmo se passa se um professor de matemática para crianças realizar o calculo mental enquanto essas assistem passivamente. Numa aula de filosofia é isto o que se passa se o aluno não for chamado à discussão dos problemas e das teses dos filósofos. E é esta capacidade didáctica que o Arte de Pensar exercita mais que qualquer outro manual.
Uma das objecções que alguns meus opositores colocam é que um manual por si só não desenvolve capacidades didácticas. De acordo, caso contrário, os estudantes aprenderiam somente através de manuais. Acontece que estou a avaliar manuais e não todos os elementos que compõem a sala de aula e a actividade de ensino aprendizagem.
Existe ainda um aspecto que explica um parcial desinteresse na escolha de bons manuais por parte de muitos professores e que se prende com aquilo que chamo de políticas educativas, principalmente aquelas que vem acompanhando o sistema educativo nas últimas duas décadas. O que as políticas educativas exigem ao professor é que ele canalize as suas energias não para o estudo da sua disciplina mas para o seu empenho no desenvolvimento de capacidades sociais e psicológicas dos jovens. E isto passa-se num ambiente em que se pensa que o desenvolvimento de capacidades críticas passa ao lado destas capacidades. Ora, o que defendo é que as capacidades psicológicas e sociais da escola são de ordem secundária e não primária, isto é, a escola deve, antes de tudo, transmitir conhecimento aos jovens e, esses, em posse do conhecimento desenvolverão quer capacidades sociais, quer psicológicas.
Estas reflexões aparecem ainda avulsas e merecem maturação, mas servem também para endereçar um convite expresso a todos os colegas que participaram anonimamente ou não na altura em que publiquei as minhas análises, que se possam pronunciar sobre os manuais que foram adoptados nas suas escolas, mostrando os seus defeitos e vantagens. Podem enviar as vossas posições – anónimas ou não embora as prefira assinadas – para o e-mail do blog ou para os comentários a este post. Se tanta coisa se disse nas secções de comentários na altura de adopção de manuais, certo estou que muita mais há a dizer agora, já que o conhecemos muito melhor os manuais que escolhemos para ensinar filosofia aos nossos alunos. Fico à espera das vossas análises.
Publico este texto aqui apesar de remontar a apreciações iniciadas em Filosofia no Ensino Secundário.

4 comentários:

  1. Na minha Escola temos o Arte de Pensar no 11º. Este é o primeiro ano mas posso dizer que, apesar duma coisinha ou outra, é o melhor manual com que já trabalhei.

    No 10º o Manual é o do Luís Rodrigues. Este ano não tenho 10º, mas se bem lembro do ano passado os problemas principais são: pontuais faltas de clareza nas explicações, alguma desorganização e o excesso de textos (do próprio LR e de outros autores). Esse excesso leva a que haja muitas repetições e também algumas imprecisões e faltas de coerência. Por exemplo, no capítulo sobre o problema do livre-arbítrio isso é bastante visível.

    Seja como for, se calhar não devíamos discutir apenas os manuais, mas também o próprio programa.

    Um problema entre outros: a Lógica devia ser dada no 10º ano. A situação actual, em que se dá um bocado no 10º e outro no 11º, é absurda - pois além de fazer perder tempo impede os alunos de aceder logo no 10º a instrumentos indispensáveis ao trabalho filosófico.

    Outra coisa em que o programa falha é o facto de a Lógica ser vista apenas como um capítulo entre outros - não se contando com ela nos outros capítulos, como se o Modus Tollens e os argumentos por analogia não tivessem nada a ver com a Ética ou com a Epistemologia.

    Dito isso, é preciso reconhecer que, mesmo com o actual programa, os manuais (mesmo os melhores, como o Arte) podiam ter feito melhor em relação a esse aspecto.

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  2. Carlos,
    Obrigado pela preciosa apreciação. O programa de filosofia começa por ter o problema de não ser um programa de filosofia e acredito até ser dificil fazer um manual a partir do programa. Mas o problema do programa tem sido já discutido. a esse propósito as actas dos encontros de caparide (vendida na SPF) é uma leitura recomendável. Há lá propostas interessantes. Bem melhor estivemos no ano em que as OLPF foram homologadas. Aliás, apesar de não serem legalmente vinculativas, ainda as sigo, com alguns ajustes.

    Abraço

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  3. A tua sorte (a sorte do que neste texto escreves) é que o Arte é mesmo bom, independentemente da tua "aderência".

    O azar dos autores do Arte seria que, se só te lessem a ti (que não vês no Arte senão virtudes) e só em ti confiassem, estariam feitos. Porque o Arte, sendo um óptimo manual (e eu tenho óptimos argumentos a favor desta tese), tem tb aspectos que têm que melhorar (um dia destes hei-de escrever qualquer coisinha sobre isso...). Não havendo melhor (e eu acho que não há), isso não implica que não possa haver (e se ele/as se distraem...)

    A sorte do Arte é que os autores são gajo/as com vistas largas...

    ;-)

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  4. Peço desculpa... O comentário anterior é meu -- e não da "Gente Singular editora". Não sei como é que aqui se "faz o login" com a identificação "à sérias"...

    Bem sei que isto pode parecer estranho, mas... é verdade (garanto-o eu, que sou relativista ;-)).

    [Ai meu Deus]

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