20 de fevereiro de 2009

O "ranking" dos leitores


Terminou a votação dos nossos leitores para escolher o mais importante filósofo do século passado. O critério foi o mais alargado possível, pois foi simplesmente o que cada um entendesse. Os 125 votantes colocaram Russell no primeiro lugar, a uma apreciável distância do segundo, Wittgenstein, e do terceiro, Heidegger. Já fora do pódio, seguiram-se Popper, Sartre, Frege e Quine, por esta ordem. O menos votado foi Rorty, com apenas um voto.

Fiquei surpreendido, pois estava à espera que Wittgenstein ganhasse e que Sartre tivesse mais votos. O primeiro porque é daqueles nomes que surgem nas discussões a propósito de tudo e de nada. E o segundo porque era um lugar-comum na formação académica de muitos de nós - bom, pelo menos dos quarentões, como eu. Mas penso que o primeiro lugar está muito bem atribuído e que a votação em Russell é justa.

Considero menos justo os lugares de Kripke e de Rawls, sobretudo do primeiro. Isto porque Kripke - o único da lista que ainda está vivo - apresentou ideias e argumentos fundamentais para a discussão contemporânea de várias disciplinas filosóficas, como a metafísica, a filosofia da linguagem e a filosofia da mente. E Rawls porque revitalizou a filosofia política contemporânea, dando origem a uma das mais intensas discussões filosóficas das últimas décadas.

Há ainda a registar o facto de 5% dos votantes escolherem outro nome, que não os da lista. Dado que nesses 5% podem caber nomes como Habermas, Foucault e Ricoeur, por um lado, ou Putnam, Nozick, Williams, Carnap, Davidson e Singer, por outro, fica-se com a ideia que a lista inicial é equilibrada e não é tendenciosa.

Já agora, para quem vê as coisas por países, na lista de 12 filósofos há 4 americanos, 3 alemães, 2 franceses, 1 austríaco, um austro-britânico e um britânico.

O que vos parece tudo isto?

6 comentários:

  1. Curioso é que Wittgenstein estudou com Russel. Não sei ao certo, mas li em algum lugar que os trabalhos de Wittgenstein de certa forma criaram problemas teóricos para o avanço das pesquisas de B. Russell.

    Na enquete, eu particularmente votei em "outros". Entendo que, ao perguntarem "na minha opinião" acabaram invocando qual autor eu mais leio e entendo o pensamento. Ora, sendo assim, aquele pensador que eu mais me interesso, geralmente, é aquele que mais trabalho, logo, este é o maior filosófo "na minha opinião".

    Dito de outra forma, o maior filósofo "para mim" nãó é o que mais contribuiu para o avanço da filosofia no séc. XX, mas aquele que eu mais estudo e mais tem significado para minhas pesquisas. Mesmo que a obra dele seja quase desconhecida do grande público ou de algum centro acadêmico, mesmo assim, este ou aquele será "na minha e para a minha opinião" o maior filósofo do Séc. XX, pois com este ou aquele tenho maior identificação.

    Sim, no meu caso é Hannah Arendt, ou seja, votei em "outros".

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  2. Enviei a enquete à lista de discussão da minha turma e um colega perguntou como seria o meu voto. Respondi conforme segue.

    De fato, isso não é indiscutível: não tenho muita segurança em colocar Husserl depois de Rorty ou mesmo de Rawls e Quine. Quanto a Sartre, ocuparia certamente as últimas posições mas talvez - e apenas talvez - não a última. Heidegger e Derrida representam, pra mim, a antítese do filósofo, logo...

    "Nesta ordem:

    1. Russell/Popper
    3. Wittgenstein
    4. Kripke
    5. Frege
    6. Rawls
    7. Quine
    8. Rorty
    9. Husserl
    10. Sartre

    Heidegger e Derrida não contam."

    Abs
    Alex.

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  3. Interessante a sua lista Lennine. Concordo consigo que Heidegger e Derrida não conseguem os mínimos para estar presentes. Fora de combate, portanto.

    A minha lista seria talvez a seguinte (digo talvez porque hesito em alguns casos):

    1. Russell
    2. Kripke
    3. Frege
    4. Quine ?
    5. Rawls
    6. Outro (Hare?)
    7. Outro (Davidson? Putnam?)
    8. Carnap ?
    9. Popper? (com muitas reservas)
    10. Wittgenstein

    Husserl, Rorty e Sartre nem sequer entrariam numa lista de 20.

    Note-se que não se trata apenas de uma lista dos meus filósofos preferidos. É também isso, mas cruzei com os que foram, para o bem e para o mal, os mais influentes. é uma mistura estranha destes dois critérios.

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  4. Caro Aires

    Obrigado pelas notas.

    Na minha classificação, procurei ater-me aos nomes que apareciam.

    Evidente que poderia pensar em outros, mas como meus conhecimentos filosóficos são de um autodidata que apenas agora recebe formação formal, eu acabaria por ter muitos nomes ao mesmo nível para incluir, o que seria nada producente. De fato, a maior parte dos filósofos citados por você – a bem dizer, a maior parte dos filósofos que eu leio – são os indicados, traduzidos e comentados por vocês, aqui na Crítica, e daí então pela bibliografia e pelas referências de cada um deles em seus textos. Mesmo na universidade, eu simplesmente quase não acho profs. que sequer tenham alguma vez na vida lido toda essa miríade de autores contemporâneos, os analíticos.

    Mas com relação à sua lista:

    Colocar Wittgenstein em último lugar me interessou. De fato, tenho a impressão de que ele é um filósofo que divide opiniões de modo antagônico: há muitos que o veneram (nem todos analíticos) e outros que no mais o ignoram. Li uma entrevista com Freeman Dyson, que o conheceu em Cambridge, onde dizia que o achava um charlatão que não tinha muito conteúdo. Nestes termos.

    Excluir Husserl e Rorty também me chamou a atenção. Do segundo, cheguei já mesmo a pensar que não faz muito mais do que levantar críticas de cunho relativista um tanto ultrapassadas. Não que essas críticas, ou algumas delas, não tenham (ou tenham tido) algum valor, mas seria como um artista que tenta o estrelato renovando velhos sucessos. Mas preciso lê-lo mais.

    Quanto à Husserl, tive dois bons profs. na universidade que dão grande importância a ele. Com um não terei mais aula porque ele mudou de univ., mas com o outro somente vimos um texto, então de fato não posso dizer muito. Mas vi um artigo, que ainda preciso ler, que defende semelhanças de origem entre os projetos da fenomenologia e da fil. analítica, o que me deixou curioso. É muito possível que eu tenha lhe atribuído mais importância do que talvez mereça (que era minha a minha impressão antes desses dois profs., que me fizeram rever alguns... “preconceitos”? relativos à fenomenologia; no entanto, nenhum desses dois profs. já leu qualquer coisa que viesse de analíticos, o que revela muito sobre a personalidade e o conteúdo deles).

    No que diz respeito à Sartre, eu fiz questão de colocá-lo em último lugar porque também não tem lá as qualidades desejáveis de um filósofo, na minha opinião, mas não está ao nível de charlat, digo, pessoas como Heidegger e Derrida – não me passou pela cabeça atirá-lo algumas dezenas de posições adiante ;-)

    Um pouco mais do que com o caso de Wittgenstein, o que me preocupa é a colocação em que põe Popper. É um fil. que me é muito caro – sendo uma das razões pelo fato de ter uma obra tão amplamente ignorada mas que contém tantas questões relevantes, acho eu.

    Mas será que estou errado aqui também e o superestimo inadequadamente? Por que o colocou tão lá embaixo? – Ou será simplemente porque os demais são mesmo mais relevantes e o caso é pura e simplesmente que eu não os conheço como devo?

    De fato, minha lista também não é dos fil. de que mais gosto, mas do que, com base no pouco que eu conheço, poderia dizer serem mais relevantes pelas contribuições que deram (notei imediatamente que você não cita muitos especialistas em estética e fil. da arte que, sei, são uma especialidade sua). Mas também não deixa de ser um pouco dos fil. de que mais gosto: não há como alguém minimamente inteligente e sensato não gostar de Russell; o pouco que li de Kripke gostei e, de Popper, já o disse.

    Uma coisa é certa a partir desta brincadeira: preciso estudar mais!

    Abraços
    Alex.

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  5. Achei mais curioso o fato que vocês (seres bem pensantes) tenham sido seduzidos por uma idéia torta dessas..."ranking" de filosofia...

    O que se conclui dum ranking com tão bizarro objetivo?


    O blog continua de parabéns.

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  6. Lennine,

    Se há coisa que não falta no séc. XX é bons filósofos. penso que não exagero se disser que nenhum outro século teve tantos e tão bons filósofos como o século passado. Assim, colocar Popper em nono e Wittgenstein em décimo, é reconhecer a sua enorme importância. No caso de Popper, creio que qualquer dos outros foi mais importante, embora alguns deles não tenham sido tão populares. Já quanto a Wittgenstein, penso que é um filósofo sobrevalorizado e, nessa medida, bastante influente. Também me parece que há muito de encenação em Wittgenstein. Mas isto é uma simples opinião.

    Carlos,

    Deste "ranking" não se conclui nada de substancial. É apenas uma brincadeira para ter uma ideia do perfil dos nossos leitores, quanto às suas preferências filosóficas. Pode ser o início de uma boa conversa. Não leve isto tão a sério. Olhe, um dia destes faço outro igual sobre filósofos vivos. Espero que se divirta participando.

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