16 de fevereiro de 2009

Palavrões, filósofos e pensadores


Acabei de publicar a página referente ao mais recente livro da colecção Filosoficamente, da Bizâncio: Não de F**** o Juízo: Crítica da Manipulação Mental, de Colin McGinn, de quem já publicámos nesta colecção o excelente Como se Faz um Filósofo. Neste seu mais recente livro, McGinn faz uma análise deambulatória do conceito de psicofoda, que ele defende ser um género peculiar de manipulação mental.

Esta pequena análise, assim como a de Harry Frankfurt, Da Treta, exibe uma peculiaridade relevante para a discussão que teve lugar neste blog sobre os maus pensadores da moda actual. Penso que uma das razões pelas quais os ensaios de pessoas como Frankfurt, McGinn, Orwell e outros não interessam a quem se interessa pelos bons maus pensadores é que a prosa destes autores não serve primariamente para apaziguar a alma e não está recheada de referências culturais que são boas para mandar bocas pretensiosas em ocasiões propícias. Ao invés, implicam da parte do leitor uma capacidade para seguir ideias cuidadosamente articuladas ao longo de várias páginase têm uma intenção exclusivamente cognitiva, características sobremaneira desinteressantes para quem procura apaziguar a alma com discursos inspiradores. Mas, claro, por isso mesmo é que muitos outros leitores preferem estes pensadores aos bons maus pensadores da moda.

O autor do melhor comentário, neste post, à psicofoda dos bons maus pensadores recebe gratuitamente em casa um exemplar deste livro. Este passatempo é apenas para moradores em Portugal, termina no próximo dia 20 às 23:50, e é promovido pela Bizâncio.

21 comentários:

  1. ************************************************************************************************************************************************************************************************

    ResponderEliminar
  2. É com imensa alegria que recebo a publicação deste livro.

    Pode ser que o Grande Filósofo Desidério Murcho serene e assim nós, pobres mortais, possamos entrar no De Rerum Natura sem medo que o Grande Filósofo declare guerra a Espanha ("país ridiculamente pequeno" é uma ameaça subliminar ao nosso vizinho)e coloque os madrilenos a falar inglês, o que seria uma catástrofe conhecida a sua incapacidade para falar línguas estrangeiras.

    Pode ser que a saída deste livro acalme o Filósofo Tradutor Vitor Guerreiro e o faça regressar ao Grande Caminho da Sensatez.

    P.S.1 - Este comentário não é candidato ao Grande Prémio referido no post dado que já comprei o livro.

    P.S. 2 - Para o Vitor Guerreiro: já há um livro do Miguel Esteves Cardoso com "fodido" no título e sem estrelinhas.

    P.S. 3 - Parece-me que a opção da editora, na questão do título foi genial: toda a gente se vai lembrar do livro. Se a palavra fosse escrita por extenso ainda ia parar à prateleira dos livros de auto-ajuda.

    ResponderEliminar
  3. ainda bem que a palavra foi escrita em numerário então.

    ResponderEliminar
  4. Nossa. Que virulência do Parente. Vitor é Guerreiro, mas em grande parte é tratável, creio.

    E que pena que o livro não possa vir para São Paulo. Talvez a editora tenha feito isso com o pobre Brasil para psicof**** o brasileiro.

    ResponderEliminar
  5. Caro Adriano

    Não é nada de pessoal contra o Desidério nem contra o Vitor Guerreiro. Gosto dos dois.

    Caro Vitor Guerreiro

    Comprei a edição portuguesa. Encomendei pelo correio e hoje foi entregue. Um dia disse-lhe que ia comprar a edição inglesa porque estava irritado consigo mas sempre tive a intenção de ajudar a editora, o tradutor e o revisor científico. Viver e deixar viver é um lema bem cristão.

    Um abraço e até à próxima vez que embirrarmos um com o outro ;-)

    ResponderEliminar
  6. Há duas áreas da filosofia que são imediatamente convocadas quando reflectimos sobre "mindfucking": a filosofia da linguagem e os efeitos ilocucionários e perlocucionários do psicofoder; a filosofia da mente e o dualismo corpo-mente (numa perspectiva não eliminativista, portanto), sublinhado muito bem por Víctor Guerreiro no neologismo “psicofoda” (“…um termo "mental" e um termo "físico", cuja união tem uma ressonância quase oximórica”).

    Envio-vos, a propósito, dois trocadilhos filosóficos consabidos destas disciplinas, bons exemplos de psicofodição imaginosa:

    . 'Don't ask for the meaning, ask for the mindfucking”

    . What is Mindfucking? No matter. What is Matter? Never Mindfucking.”


    Paulo Rui Ferreira

    ResponderEliminar
  7. Entro neste desafio do Desidério como se ele nos interpelasse assim: “Queres ser filósofo hoje? Aspiras a uma alma generosa com espírito ávido de saber? Desejas que os homens te tenham como um Deus que alivia a ignorância e afugenta o medo? Já pensaste bem no que há-de ser a tua vida?”

    Não vou necessitar de recorrer a pareceres de outras luminárias, nem invocar o Rei Hamurabi e o seu Código, os Conselhos de Esculápio ou a Oração de Maimónides, para diagnosticar sem hesitação que as psicofodas fazem muito mal ao fígado. Mas quem sou eu para dizer isto? Bom, o que me motivou participar neste repto foi uma carta que transcrevo no fim.

    Penso que a qualidade de homens livres, uma riqueza de muito maior valor do que qualquer acervo patrimonial do intelecto, que em todo caso nunca se deve desdenhar, nos permite deixar aqui e ali de vez em quando as nossas postas de pescada.

    O filósofo da carta, mesmo dizendo palavrões insultuosos, e pelos quais tem de responder em tribunal cível por ofensa ao bom nome do Senhor Reitor, tem boas razões na sua defesa perante acções judiciais e outras, na medida em que utilizou os palavrões no contexto de uma indignação. As virgens ofendidas estão a prestar um mau serviço aos seus concidadãos, pois sem qualquer mérito inequívoco de fazer justiça, acabam por se render apenas a sensacionalismos, notícias infundadas e alarmismos na praça pública.

    Não é pelo facto de a retórica ser arte polémica e o mesmo caso suscitar interpretações várias por parte de ilustres causídicos – conforme a profundidade, honestidade ou emoção de quem judicia – que nos devemos inibir de afirmar que não se é muito feliz quando se tenta proibir o uso de palavrões só para salvar os bons costumes. Aos costumes disse nada. Só disse: “Que absurdo! Como a serenidade hierática de uma cariátide helénica deu lugar à inquietação contorcionada de uma figura humana em baixo relevo, possessa não sei de que delírio gestual!?”

    A carta,

    «Ex.mo Senhor Reitor,

    Quando no dia vinte e 8, era mês de janeiro, estava frio e chovia, e tive que ir na minha cadeira de rodas à sua Universidade, a seu convite, para assistir a um Honoris Causa, deparei-me com os elevadores, que dão para o auditório, fechados, porque, segundo me disseram, o Senhor estava em falta no pagamento do contrato de manutenção. Lembro-me nitidamente de umas escadas de pedra e de uma sensação de psicofoda quando apanhei uma chuvada de água fria no percurso alternativo. Ao passar pela rua, tive de galgar um passeio com um colarinho de gola alta, para entrar na porta que ficava logo ali na curva, onde passam as ambulâncias a espavorir a caminho do hospital. Claro que não era uma carga de água nem as acrobacias que me iam demover de entrar por aquela porta, por onde também tinham entrado alguns basbaques: professores, doutores, bispos, monsenhores, directores disto e daquilo, e quejandos.

    Espero que V.Exa., não deixando de prestar atenção aos papeis que só psicofodem os destinos da Universidade que dirige, passe a dar mais importância a pequenas coisas, às ninharias do dia-a-dia das pessoas.

    Receba da minha parte este sincero bem-haja por ter poupado na merda dos elevadores.»

    Datada e
    Assinada

    ResponderEliminar
  8. As 5 lições para se ser um bom mau pensador estão muito bem sim senhor. No entanto, a questão é saber como é que alguém que não é versado nas matérias em que o bom mau pensador "trabalha" consegue identificá-lo.

    O que acho interessante nas regras para se ser um bom mau pensador (bmp) é que, mesmo sabendo o que tenho que fazer para ser um bmp, não sei como identificar um bmp. Na realidade, apenas um bom pensador consegue identificar um bmp. O mesmo não se passa com a generalidade das áreas de conhecimento: se eu sou bom a matemática, facilmente identifico um bom matemático; se eu sou bom em natação, facilmente identifico um bom nadador; se eu sou bom em música, …
    Mas se eu sou um bmp, continuo sem conseguir identificar um bmp!

    Como distingo eu alguém realmente versado em roquet cience de alguém que apenas se faz passar por tal? Como distingo eu alguém realmente versado na nidificação das andorinhas de alguém que apenas se faz passar por tal?
    Acontece que a filosofia pode parecer à primeira vista que é acessível a todos: trata-se simplesmente de pensar e argumentar, e pensar e argumentar é algo que todos sabemos fazer. Assim, teoricamente não haveria lugar na filosofia para bmps, pois um leigo rapidamente os identificaria. Mas tal é meramente ilusório, todos sabemos jogar à bola (entendendo-se aqui por jogar à bola dar uns chutos na dita) mas muito poucos o sabem fazer decentemente. Todos sabemos pensar, mas poucos o sabem fazer decentemente também. Recordo-me aqui de uma troca de emails que tive uma vez com o Desidério a respeito de modalidade: bem que podia ser um bmp que eu não daria pela diferença… :-)
    Assim, o repto que eu lanço é que alguém prepare um curso, se possível em 5 lições também, de “Como identificar um bom mau pensador for dummies”. Atenção que a parte do “for dummies” é crítica! Será fácil para qualquer um de vós (e aqui estou a pensar no Desidério, Victor, Aires, Rolando e restantes filósofos) identificar um bmp, já para um leigo isso é muito difícil.
    Desde já refiro que uma lição do tipo “estude o assunto até ao ponto de ficar a saber tanto como o bmp pretende saber, pois assim será fácil identificá-lo”. Tal como num bom livro de auto-ajuda, as lições têm que ser simples, fáceis de aplicar e que não dêem muito trabalho…

    ResponderEliminar
  9. O bom mau pensador ou o psicofodilhão:

    · não é um homem – é um ente;
    · não tem uma vida – tem uma existência;
    · não tem perguntas – tem questionamentos;
    · não tem ideias – tem perspectivas;
    · não tem problemas – tem angústia;
    · não tem argumentos – tem metáforas;
    · não observa – contempla;
    · não descobre – desvela;
    · não sente – frui;
    · não explica – comenta;
    · não conversa – discorre;
    · não relaciona – associa;
    · não trabalha – cria;
    · não pensa – intui;
    · não é feio – é sublime;
    · não é amigo – é um ser-com;
    · não morre – deixa de ser-aí.

    ResponderEliminar
  10. não faz perguntas - sugere problemáticas
    não resolve problemas - descortina implicações
    não come - assimila
    não bebe - sorve
    não fode - copula

    mas há uma coisa que não podemos afirmar que não faz, pois em tudo o que faz não faz outra coisa:

    masturba-se (esta não tem par contrário)

    E talvez a principal diferença entre o bom mau pensador e o bom pensador seja que o primeiro vive num estado de permanente gratificação consigo próprio, ao passo que o bom pensador (melhor ou pior) vive em permanente insatisfação com o que faz.

    (esta não é para concorrer, só uma reacção favorável e divertida ao último comentário)

    ResponderEliminar
  11. No conceito de psicofoda há espaço para um sentido positivo. Nestes casos a estranheza mental característica da psicofoda pode acontecer, por exemplo, numa experiência estética. E 'acontecer' parece ser o verbo mais indicado a usar para descrever estas ocorrências de psicofodas; acontece sermos psicofodidos sem que nos tenham querido psicofoder; não há intencionalidade em psicofoder, ou pelo menos pode não haver intencionalidade por detrás daquilo que provoca psicofoda. Assim, pode haver psicofoda no sentido positivo sem que alguém pretenda psicofoder.

    Ora a nossa questão é se os bons maus pensadores (bmp) simplemente por serem bmp pretendem ou não psicofoder negativamente. Iremos defender que não; contudo, não vamos negar que muitos sejam psicofodidos pelos seus pensamentos. A ideia é que se os bmp pretenderem psicofoder com os seus pensamentos e, claro, se admitirmos que psicofodem de facto alguém, então eles têm pensamentos eficazes ou úteis na medida em que o fim pretendido é alcançado.

    Não será isto contraditório? É certo que os bmp são bons, mas são bons a serem maus pensadores. Ao mau pensador ainda admitimos umas doses de pensamentos eficazes que servem para aquilo que eles pretendem, mas como é um mau pensador, no geral, o que acontece é o inverso. Analogamente, o mau cientista pode apresentar por vezes bons resultados, mas no geral ele é um fracasso. Então, se alguém for mesmo bom a ser mau deverá ser sempre um fracasso nisso em que é bom a ser mau. Logo, o bmp não pode psicofoder intencionalmente. Ou seja, se alguém psicofode intencionalmente, então não é mesmo um bmp.

    Parece-nos haver duas conclusões pertinentes a extrair do que ficou dito. A primeira é que os bmp serão em menor número do que de início se poderia julgar, visto que excluímos do conceito de bmp todos aqueles que psicofodem intencionalmente. A segunda, e relacionada com a primeira, é que aqueles que talvez julgássemos como responsáveis de muita psicofoda negativa são, afinal, apenas uns fracassos. Isto porque ainda que provoquem psicofoda, provocam-na por acaso ou devido a outros factores que se relacionam mais com o psicofodido do que com eles (tal como poderá ser o caso de um indivíduo psicofodido enquanto observa uma obra de arte sem que o artista tenha tido a intenção de provocar tal estado mental).

    Poderemos responsabilizar os bmp por psicofoderem quando não têm essa intenção? A nossa sugestão aqui é que os bmp, por serem bmp, têm ideias confusas, inarticuladas e contraditórias; logo, os seus efeitos são inesperados, fortuitos e dependentes das disposições subjectivas daqueles que lhes prestam atenção mais do que a necessária para o deixarem de fazer. Isto parece-nos intuitivo, pois a típica diarreia verbal dos bmp, se de todo permitir alguma interpretação, dificilmente afastará, de um modo razoável, interpretações contraditórias, muito diferentes e irrelacionadas. Aliás, no geral, o discurso dos bmp é incentivo ao pensamento livre, senão explicitamente – pois até nisto serão normalmente obscuros –, pelo menos em exemplo.

    Desta forma, um pensador que psicofode intencionalmente não pode, portanto, ser um mau pensador, muito menos um bmp. O que nos leva por fim a concluir que são os bons pensadores que psicofodem intencionalmente; são estes que, afinal, são bons com os pensamentos e, por isso mesmo, capazes de com eles manipularem as mentes mais incautas ou susceptíveis a este tipo de influência. Portanto, no nosso entender, a psicofoda no sentido negativo não é uma consequência tão temível nos bmp como o é nos bons pensadores.

    Poderão contradizer o nosso argumento aduzindo que ser bmp admite graus e que, portanto, só os bmp de mais alto nível – talvez lhes queiram chamar “super bons maus pensadores” (sbmp) – é que não podem psicofoder intencionalmente. Isto tanto nos serve para a nossa conclusão, pois continuamos a poder afirmar que aqueles que à partida julgaríamos os mais perigosos quanto à manipulação mental (agora os sbmp) são, afinal, os mais azelhas a provocá-la: se a provocam é sem querer.

    Outra crítica que nos podem apontar é que se os bmp (ou os sbmp) apenas provocam psicofoda inintencionalmente, daí não se segue que não sejam perigosos na mesma, dado que ainda assim podem ser origem de muita manipulação mental mesmo sem o pretenderem. A nossa resposta aqui é que ainda que se admita que passávamos melhor sem qualquer psicofoda no sentido negativo, mesmo a inintencional, e que, assim, também vemos nesta última algum perigo, este é inimputável. Nesta medida, vamos querer concentrar os nosso esforços a evitar e a combater a manipulação mental intencional, ou seja, devemos atentar nos bons pensadores. Não é que os bmp não constituam um perigo no que diz respeito à psicofoda negativa; antes, estes são é menos perigosos do que aqueles, ao contrário do que se poderia inicialmente pensar.

    Resta saber se desta nossa sugestão se segue que então muitos daqueles que estávamos desde logo dispostos a considerar como bmp são afinal bons pensadores mas com más intenções (“más” tem aqui sentido moral e não de ineficiência). Mas isto só o podemos conjecturar, até porque mesmo que pudéssemos ter acesso às intenções de outrem, provavelmente os bons pensadores mal intencionados iriam conseguir psicofoder-nos ao ponto de não percebermos as suas más intenções. Porém, a nossa intuição é que há mais psicofoda negativa inintencional do que intencional, simplesmente porque acreditamos que os bmp são muitos mais do que os bons pensadores mal intencionados (será mais fácil estarem reunidas as características para se ser um bmp do que para se ser um bom pensador, e mais ainda do que para se ser um bom pensador mal intencionado).

    ResponderEliminar
  12. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  13. Olá Vitor,

    Nice;)Quando estava na faculdade costumava queixar-me por levar na cara com mais que muitas dessas e isso é coisa que, quando nao se escolhe, é um bocadinho desagradável.

    Abraço!

    ResponderEliminar
  14. acho que há aí um equívoco: na verdade, o bom mau pensador psicofode outrem na razão directa em que se psicofode a si próprio. Um bom mau pensador pode ter inteligência, não precisa de ser um burro irrecuperável, mas é vítima de algumas características da sua personalidade, que o levam a ficar cativo de fantasias idiotas, imaginações, fantasmas... ou então é simplesmente um pulha que gosta de manipular os outros para obter admiração, quer dizer... o bom pensador não pode ser um fode-juízos porque a característica que define o bom pensador é ter:

    a) preocupações essencialmente cognitivas e não angústias da alma e outras palermices.
    b)preocupação com a qualidade do que faz e não com a gratificação daquilo que os outros pensam que ele faz, ao contrário do fode-juízos ou bom mau pensador.

    É preciso não confundir o mau pensador com o bom mau pensador. Este último tem uma qualidade sinistra que o anterior não precisa de ter. Maus pensadores há muitos, mas ser bom mau pensador exige treino. Nem todos os baldas são bons maus pensadores, mas todos os bons maus pensadores têm de ser atletas profissionais da balda.

    (esta também não é para concorrer - não seria justo pois já tenho direito ao meu exemplar gratuito)

    ResponderEliminar
  15. por outras palavras: um "bom pensador com más intenções" não tem tempo para se ocupar com pensamentos de jeito. Está demasiado ocupado com preocupações que não são cognitivas e tem necessariamente de se dispersar em coisas que não têm qualquer valor. Por outro lado, só pode ter "más intenções" se estiver preocupado com o fruto das acções motivadas pelas más intenções, ou seja: com as preocupações simiescas da superioridade intelectual e demarcação de territórios perante os outros, influência, etc. Se é um bom pensador, tem de ter preocupações que impedem estas más intenções, pois é impossível ser um bom pensador sem ter preocupações cognitivas genuínas e estar-se a cagar para preocupações simiescas de superioridade ou inferioridade, quer dizer, marcar territórios, exorcizar fantasmas, acalmar as dores da alma, etc.

    Assim, o bom mau pensador pode ser um indivíduo inteligente mas com a cabeça cheia de fantasmas e imaginações, que o afastam de preocupações estritamente cognitivas e assim é levado a psicofoder outros para manter essa delusão. Este começo mais ou menos inocente pode levá-lo a profissionalizar-se e a tornar-se um pulha exímio na arte de foder o juízo aos outros. Normalmente, como estes pouco têm de interessante para dizer aos outros, acabam mais cedo ou mais tarde na política profissional. Podem até começar de pepinos, nas juventudes partidárias, que são uma boa escola de psicofoda.

    ResponderEliminar
  16. Ó Vitor, isso é o que tu dizes! (refutação universal)

    Agora a sério. A tua réplica é aceitável, penso eu, se estivermos comprometidos com alguma conotação moral nos conceitos de mau pensador, bom mau pensador e bom pensador. Contudo, inteligência é coisa que não parece implicar qualquer moralidade. Ou seja, não basta que se seja inteligente ao ponto de se ser um bom pensador para que não se tenha, ainda assim, más intenções.

    Pensei naqueles conceitos como se fossem pré-morais; quando falei em pensamentos bons referi-me a pensamentos eficazes ou úteis. E não vejo como é que podemos admitir que pensamentos relacionados com más intenções (aqui entra a moralidade) não podem ser eficazes ou úteis. Ou seja, bons num sentido amoral.

    Admito contudo, que talvez tenha pensado nestes conceitos um pouco à margem de algum preconceito dos mesmos que no geral não se queira negar (talvez à margem de "Como ser um bom mau pensador em cinco lições e meia"). Tudo bem. À primeira vista também acho que os bons maus pensadores são uns grandes fode-juízos e que os bons pensadores não o podem ser. Mas não parece haver aqui qualquer coisa demasiado romântica para ser o caso? Achei que sim e resolvi ver até onde se podia ir...

    ResponderEliminar
  17. viva,

    não é romântico nem é fundamentalmente moral. Repara, não podes confundir a inteligência, a aptidão e a eficácia com o bom pensamento. Aquilo a que eu estou a chamar "bom pensamento" não é um pensamento eficaz, como o de um gajo que fica sentido todo o dia a pensar como vai enganar o vizinho e é muito bom nisso, e ainda por cima tem um grande QI e é um mestre de sudoku. Nada disso!

    O que estou a dizer é que um bom pensamento é aquele que faz realmente avançar um campo teórico qualquer, a filosofia por exemplo, porque estamos mais familiarizados com ela. Se eu quero ser um bom pensador em filosofia, ou um bom pianista, um bom músico, ter um bom pensamento musical, por assim dizer, vou ter de me concentrar de tal maneira em coisas que têm um valor exclusivamente cognitivo que simplesmente não tenho tempo a perder com macacadas. Mais: as macacadas eficazes não são bom pensamento. Não são pensamento de todo em todo. Um gajo que esteja constantemente a ver a sua disciplina como um valor meramente instrumental para fins que não são cognitivos, tem de estar constantemente a pensar em coisas que nada têm a ver com resolução de problemas reais. E nenhum problema da filosofia ou da música, por exemplo, se resolve com manhoseiras eficazes, só com puro interesse cognitivo. E o treino que exige ser um bom músico por exemplo, não dá tempo para outras coisas. Um gajo que não tenha um interesse puramente cognitivo na música simplesmente NÃO vai ter um pensamento musical interessante, tal como em filosofia, etc.

    Ora bem, o bom pensador define-se por fazer o contrário do que o fode-juízos faz: porque tem interesses puramente cognitivos, o seu trabalho consiste parcialmente em despsicofoder. O que faz a filosofia? Torna explícito o que está implícito, questiona, objecta, levanta contra-exemplos, testa as teorias.
    O esforço essencialmente cognitivo é um esforço de falsificação e não de confirmação. E aqui toco na ferida e dou-te uma distinção ainda mais fundamental:

    o bom pensador procura activamente aquilo que refuta as suas crenças, para testar a sua solidez. Está demasiado ocupado com experiências mentais, argumentos e contra-exemplos, para poder pensar em enganar os outros. Porquê? Mesmo que publiques um argumento falacioso, outros podem testá-lo, tal como se pode averiguar se uma obra musical não é um plágio ou se é musicalmente má. É por isso que a razão e a objectividade são libertadoras: são a única arma que temos contra a arbitrariedade. Caso contrário bastava pensar para ser bom pensador.

    O bom mau pensador não procura activamente aquilo que potencialmente o refuta. Evita-o. Só assim pode levar a cabo as tais "más intenções", de enganar, deludir, etc. É impossível fazer isto sem perverter aquilo que o bom pensamento basicamente é, mesmo sem invocar razões morais. É que o bom pensamento pura e simplesmente só é bom por estar interessado na verdade, primariamente. Quando o foco de interesse se desloca da verdade para outra coisa, o pensamento passa a ser outra coisa qualquer, por muito eficaz, espertalhão, etc, que seja.

    ResponderEliminar
  18. Resumindo:

    não podes pensar bem sem ter um interesse primário na verdade. Se tens um interesse primário na verdade, então o resultado do teu pensamento é, por necessidade de definição, despsicofódico e não psicofódico.

    A verdade, por definição, despsicofode.

    Como por definição não pode haver bom pensamento que não seja acerca da verdade ou um esforço de a obter... QED

    ResponderEliminar
  19. Se a verdade não fosse por definição despsicofódica, a distinção entre a psicofoda e a filosofia genuína seria ilusória, como querem alguns pós-modernóides, para quem tudo, inclusive a verdade, é uma gigantesca psicofoda inventada por uns gajos muito beras para explorar o proletariado intelectual, relativista e patriótico. hehehhe

    Ou seja, o facto de a verdade ser despsicofódica é a condição de se poder discernir sequer algo como uma "psicofoda". A fronteira entre o que é psicofoda e o que não o é depende disso.

    ResponderEliminar
  20. Desta nossa discussão resultou uma característica curiosa do pós-moderno: o pós-moderno é aquele para quem a própria realidade é uma psicofoda, não havendo fronteiras entre o que é e o que não é psicofoda. Para ele, todo o discurso que procura demarcar as psicofodas do resto não passa também de uma tentativa de psicofoder os outros. Ele não procura despsicofoder mas apenas vender a sua psicofoda como sendo mais "fixe" do que a psicofoda realista.

    Misteriosamente, o pós-moderno supõe que só o seu próprio diagnóstico das coisas não é psicofodido, num mundo onde supostamente não há verdade, isto é, não há fronteira entre a psicofoda e o que não o é. Mas se é assim, a sua psicofoda vale tanto como outra psicofoda qualquer, por exemplo, a psicofoda realista, objectivista, etc.

    Isto é que é curioso, porque na verdade, o pós-moderno continua a servir-se do conceito de verdade, o que ele não quer é que os outros o usem contra ele e não quer chamar-lhe "verdade" porque isso estragava a ideia tão fixe de que tudo são psicofodas e o que a pessoa tem a fazer é escolher a psicofoda mais "fixe" em vez de se libertar dos estados mentais psicofódicos através do rigor intelectual, da lógica, da procura da verdade, etc.

    O pós-moderno, o nosso bom mau pensador de serviço, é o melhor exemplo para ilustrar o meu ponto de vista: eles de facto são bons, porque conseguem recrutar a malta e pôr toda a gente a vibrar com os disparates da moda. Mas não têm pensamento porque tudo aquilo não passa de uma cortina de fumo. Ele até pode ter momentos de inteligência e sagacidade, tal como o bom pensador tem momentos de idiotia e má argumentação... mas não está primariamente interessado na verdade, e o pensamento não é pensamento neste sentido mais estrito a menos que esteja interessado na verdade.

    ResponderEliminar
  21. O vencedor do passsatempo é Cátia Faria, pelo comentário de 19 de Fevereiro de 2009 (16:17). A Cátia deve enviar-me um email para desiderio@ifac.ufop.br com o seu endereço para a Bizâncio lhe enviar o livro.

    ResponderEliminar