22 de fevereiro de 2009

sobre a expressão "filosofia" e o seu uso

A filosofia lida frequentemente com aquele tipo de expressões que todos sabemos usar nos contextos triviais mas em que raramente pensamos com alguma coerência e sistematicidade. Entre elas conta-se expressões como "música", "arte", "direitos", "entidade" e, obviamente, "filosofia".

Na sua maioria, as pessoas usam a palavra filosofia para descrever aquilo a que um filósofo chamaria com maior propriedade «conjunto de crenças acerca de coisas intriviais». Contudo, não só a filosofia pode ser acerca das coisas mais triviais, como não consiste num conjunto de crenças. As crenças são aquilo com que o trabalho filosófico começa e são também parcialmente aquilo que resulta do trabalho filosófico. Assim, por exemplo, ao pensar filosoficamente na questão do livre-arbítrio, podemos alcançar a crença de que um universo indeterminista seria tão problemático para o livre-arbítrio como um universo determinista, mesmo que não resolvamos a questão do livre-arbítrio. Os filósofos adoptam estratégias diferentes na tentativa de lhes responder, estratégias que passam a testar usando argumentos, contra-argumentos, experiências mentais, contra-exemplos, etc.

No ensino tradicional com que todos os que de nós frequentaram cursos de filosofia em Portugal contactaram, nada se faz para corrigir esta tendência para identificar "uma filosofia" com "um conjunto de crenças sobre assuntos intriviais", deslocando a atenção dos argumentos, contra-argumentos, experiências mentais e contra-exemplos, como coisas menores, ou, no linguajar de alguns professores mais ideológicos: "metafísica de sapateiros" (esta foi de facto a expressão usada por um docente quando um aluno leitor da Crítica usou uma tradução minha do "Por Que Não Nada" de Earl Conee numa aula de "metafísica", ou melhor dizendo, numa aula de paráfrases fraseológicas para impressionar aqueles a quem se rotula como "sapateiros").

O resultado é que as pessoas pensam que qualquer conjunto de afirmações meio malucas, muito gerais, nunca sustentadas com argumentação cuidada, constituem "a filosofia" de Fulano ou Sicrano. Assim, as minhas ideias malucas acerca de educação musical, por exemplo, serão a minha "filosofia" da educação musical. Deste ponto de vista, qualquer religião, porque consiste num corpo de afirmações, tem uma "filosofia nuclear" ou seja, uma "cosmovisão", que se considera sinónima de "filosofia".

Outra consequência perversa deste estado de coisas é a consolidação do desprezo popular pela filosofia como coisa excêntrica e desligada da realidade. Preconceito que os praticantes da fraseologia barata para oprimir "sapateiros" em nada contribuem para diminuir e tudo fazem para perpetuar. Admirável é também que os alunos sejam obrigados a aceitar, numa aula de filosofia, que um professor rejeite o seu trabalho com base num gracejo arbitrário e elitista deste calibre, sem que sinta a necessidade de defender argumentativamente a sua posição ou por que raio de razão acha que fazer paráfrases incríticas de Heidegger é mais filosófico do que pensar disciplinadamente numa questão metafísica, sem demonstrações de erudição vazia para oprimir "sapateiros". O que acha o leitor?

3 comentários:

  1. O mais pernicioso desta tática psicológica é que ela faz o professor obscuro se passar por profundo e o aluno claro e argumentativo por superficial. Supondo que muitos destes alunos ainda são bem novos e talvez ainda sem experiência argumentativa para perceber o engodo destes mestres, a humilhação pela qual passam ao serem taxados de superficiais e se sentirem superficiais é simplesmente imoral.
    Eros Carvalho.

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  2. Vitor,
    fiquei curioso para saber mais sobre a tua definição de filosofia, pois, imediatamente depois de ler o primeiro parágrafo, pensei em um artigo do prof. Ernst Tugendhat, "Reflexões sobre o método da filosofia do ponto de vista analítico" (dá pra encontrar no eMule). Ali, ele esclarece que a filosofia lida (1) com clarificação de conceitos; e (2) com o todo de nossa compreensão, isto é, com o modo como compreendemos enunciados. Para esta tarefa, precisamos esclarecer determinados tipos de conceitos (e não qualquer um). Assim, Tugendhat distingue, inspirado pela frase de Sto. Agostinho sobre o tempo, entre: (1) conceitos que podemos pensar que não os possuímos, mas, se o temos, também sempre podemos explicá-los sem mais (p.ex., o conceito de "árvore"); e (2) conceitos que não podemos pensar que não os possuímos, pois o temos "já sempre", mas que não conseguimos os explicar sem hesitação (p.ex., o conceito de "tempo", de "compreensão", de "verdade"). Estes últimos conceitos seriam, então, imprenscindíveis (necessários) para nós e não seriam comprovados empiricamente. Assim, apenas estes últimos seriam conceitos filosoficamente relevantes.
    Por isso, queria saber mais sobre a tua concepção de filosofia, pois podemos ter diversos conceitos usados em contextos triviais, mas não pensados com coerência e sistematicidade. Por exemplo, o conceito de "estrela" ou "sol", para o trabalho de um astrônomo, precisa ser pensado coerente e sistematicamente - o que derrubaria a especificidade da filosofia. Que achas?
    A propósito: belo blog! Tenho um também sobre filosofia com dois amigos meus: distropia.wordpress.com - comentários são sempre bem-vindos! :)

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  3. Viva,

    Nem todo o trabalho conceptual é exclusivamente filosófico, é claro, pois também a ciência e as artes envolvem trabalho conceptual. Mas o trabalho conceptual da filosofia é um trabalho muito específico. Mas neste post eu quis apenas centrar-me na confusão que se faz entre "ter uma filosofia", "ter um conjunto de crenças" e "fazer filosofia". No meu curso de filosofia, o ensino era virado sobretudo para a história e para o comentário de texto, o clássico "traduza isto por palavras suas". Este ensino tende a considerar superficial e menor aquele que é o genuíno trabalho filosófico: testar as crenças através da argumentação, do discurso racional, levantando perguntas, contra-exemplos, etc. Claro que também a ciência faz trabalho conceptual, sustentação argumentativa de crenças, conjecturas, hipóteses, e tudo isso. Sinceramente, creio que a ciência e a filosofia não se distinguem nesse aspecto do exercício da razão mas apenas no tipo de recursos de que dispõem para responder a certos tipos de problema. Por exemplo, na ciência procuramos descobrir qual a estrutura química da água, em filosofia reflectimos em questões como saber se a água é um tipo natural, quais as categorias que podemos usar para descrever a estrutura da realidade - só existem particulares concretos, ou haverá algo como propriedades, universais, proposições, relações, acontecimentos... e por aí em diante? Ora, para saber se a realidade contém acontecimentos ou se os acontecimentos podem ser reduzidos a uma categoria mais básica, não podemos fazer experiências, simulações ou usar os recursos normais das ciências. Temos de pensar especulativamente, é a única maneira. Idem para questões como: como é possível o livre-arbítrio? ; o que é a arte? ; como é possível as palavras terem significado ; como é que a música transmite emoções, se é que o faz? ; o que é um estado mental? etc.

    Para uma apresentação mais cuidada deste tema, ver a minha tradução "O que é a Filosofia?" de John Shand, na Crítica:

    http://criticanarede.com/oqefilosofia.html

    Por outro lado, veja-se o texto mais recente que traduzi, do Julian Baggini. Reflectir nas ideias do multiculturalismo para captar um paradoxo que supostamente enferma a posição geral do multiculturalista. É este o tipo de trabalho que se espera da filosofia. A sociologia, com o seus recursos, não faria este tipo de coisa, por exemplo, mas estaria mais interessada em estudar as causas de o multiculturalismo se tornar uma doutrina tão popular. A filosofia interessa-se pela coerência interna do multiculturalismo como doutrina, avaliar os argumentos multiculturalistas, testar os limites da teoria, etc.

    Por exemplo, a psicologia e a sociologia podem explicar-nos por que razão as pessoas têm tanta dificuldade em fazer mudanças radicais, como tornar-se vegetarianas. Mas a filosofia está interessada noutras coisas: quais os argumentos éticos, se os há, a favor do vegetarianismo e se funcionam ou não.

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