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Mensagens

A mostrar mensagens de Março, 2009

Iluminismo Radical, de Jonathan I. Israel

Acabei de publicar aqui uma recensão de Weber Lima deste apetitoso livro.

Pensamento selvagem

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

O Apelo Selvagem (1903) e Canino Branco (1906), de Jack London (1876–1916), têm como protagonistas cães e lobos, mas dizem-nos qualquer coisa de fundamental sobre nós. Fazem-no porque dizem qualquer coisa de fundamental sobre o que é ser um animal e nós somos animais, tendendo no entanto a esquecer este facto básico por termos uma vida mental muito complexa — pelo menos alguns de nós.

Cativou-me a primeira surpreendente frase de O Apelo Selvagem:Buck não lia jornais, caso contrário teria sabido que se adivinhavam problemas não apenas para si, mas para todo o cão de Tidewater, de músculos fortes e com pêlo quente e longo, de Puget Sound a San Diego.Procurando não antropomorfizar Buck, London descreve com traços de mestre as suas aventuras. Brutalmente raptado para puxar trenós, Buck vai despertando os seus instintos, acabando por juntar-se a uma alcateia de lobos. As muitas provações e injustiças a que é sujeito são descritas sem…

Louise Antony - Opiniões

Há alguma razão lógica para que a maioria das pessoas prefira as suas próprias opiniões às de outra pessoa?

LOUISE ANTONY: Eis uma razão conceptual: se eu «preferisse» a sua opinião à minha, isto é, se eu entendesse que a sua opinião fosse mais susceptível de ser verdadeira do que aquela que eu defendo no momento presente, o que presumivelmente aconteceria seria eu alterar a minha opinião tal que ela passasse a coincidir com a sua, caso em que a sua opinião passaria a ser a minha opinão.

Theodore Sider

Os filósofos valorizam as antinomias porque temos decididamente algo a aprender com elas. Uma vez presos na antinomia, não nos podemos contentar com o estado de coisas existente; algo tem de ceder. Ou o raciocínio aparentemente sólido afinal não é sólido, ou a conclusão aparentemente absurda não é tão absurda como parece. A nossa tarefa é descobrir qual. Riddles of Existence

Kant sobre a religião

Acabo de receber notícia desta edição apetitosa da simpática Hackett: Religion within the Bounds of Bare Reason, de Immanuel Kant, com tradução e notas de Werner S. Pluhar e introdução de Stephen R. Palmquist.

A natureza do humor

O que é o humor? O que nos faz rir no humor? Vários filósofos tentaram responder a estas perguntas. Deixo aqui apenas um esboço de cada uma das três principais teorias filosóficas sobre a natureza do humor: a teoria da superioridade, a teoria da incongruência e a teoria da libertação.

Antes disso, uma nota: há filósofos que, em bom rigor, não falam do humor, mas do riso, que são coisas diferentes. Talvez não haja humor sem riso, mas há certamente riso sem humor, o que significa que o riso talvez seja uma condição necessária do humor, mas não suficiente. Por exemplo, podemos rir de alegria porque nos saiu a lotaria, o que não descreveríamos como uma situação humorística. De qualquer modo, muito do que se possa dizer acerca do riso também é aplicável ao humor.

A teoria da superioridade é a mais antiga. Começa a ser delineada por Platão e Aristóteles, mas é a Hobbes que costuma ser associada. Hobbes defende que o humor consiste na expressão de superioridade em relação ao objecto do nosso…

terminologia filosófica SOS

Procuro objecções à adaptação de um termo nozickiano para português: currenttime-sliceprinciplesof justice. A minha proposta de adaptação é princípios sincrónicos hac hora de justiça. Estes princípios opõem-se ao princípio nozickiano da titularidade, e a diferença entre ambos é, grosso modo, a seguinte: os princípios sincrónicos, para avaliar se uma dada distribuição de possessões é justa, atentam apenas no momento presente e perguntam se o perfil estrutural da situação é justo, por exemplo, se corresponde a um estado final prescrito por um princípio teleológico (a máxima igualdade) ou se realiza um padrão favorecido (o «a cada um segundo a necessidade», do socialismo, por exemplo, ou «a cada um segundo o mérito», etc.). Assim, se uma situação na qual um de nós tem 50 e o outro 10 é justa, outra situação na qual o outro tenha 50 e eu 10 também é justa, pois obedece ao mesmo perfil estrutural. Estes princípios são portanto sincrónicos e centrados no «agora» ou no momento presente. O princ…

Bertrand Russell

O verdadeiro mundo real, para Platão, é o mundo das ideias; pois seja o que for que tentemos dizer sobre as coisas no mundo dos sentidos, só podemos dizer que participam em tais e tais ideias que, consequentemente constituem todo o seu carácter. Por isso, é fácil avançar para um misticismo. Podemos ter a esperança de, numa iluminação mística, ver as ideias como vemos os objectos dos sentidos; e podemos imaginar que as ideias existem no Céu. Estes desenvolvimentos místicos são muito naturais, mas a base da teoria está na lógica, e é enquanto baseada na lógica que temos de a considerar.

léxico

À semelhança do que já vimos no caso do termo «fisicalismo», que é um anglicismo, visto que o nosso adjectivo é «físico» e não «fisical», contrariamente ao que sucede no inglês «physical», também os termos «externalismo» e «internalismo», em circulação no léxico filosófico, não passam de decalques impensados a partir do inglês, visto que nunca escrevemos «externalizar» ou «internalizar», e sim «internar / interiorizar» e «externar / exteriorizar». Tão-pouco «internal» ou «external» são adjectivos do português, contrariamente ao que sucede no inglês «internal» e «external», e sim «externo» e «interno». Por estas razões, sugiro que se páre de usar estes decalques e se use os termos «externismo» e «internismo». São razões suficientemente evidentes para obviar a objecções de fricção auditiva ou suposta «consagração» dos decalques, isto é, o facto de terem aparecido numa ou noutra publicação revista à pressa ou sem qualquer revisão decente, o que, reafirmo, nada tem a ver com a genuína cons…

Os sentidos das vidas

"Os Sentidos das Vidas" é o título do artigo de Susan Wolf que acabo de publicar, com tradução minha. Recorde-se que dela tínhamos já publicado "O Sentido da Vida", um pequeno artigo de enciclopédia que apresenta as várias perspectivas sobre o tema.

Este tema tem tido aliás uma presença assinalável na Crítica. Em "Confissão", de Leão Tolstoi, assistimos à formulação intuitiva do problema, e à sua resposta religiosa. Simon Blackburn apresenta por contraste, em "Desejo e Sentido da Vida", uma perspectiva que não é religiosa. A resposta de Peter Singer encontra-se no seu livro Como Havemos de Viver?

As minhas próprias ideias foram desenvolvidas nos textos "O Sentido da Vida", publicado na Intelectu, "O Problema Pessoal do Sentido da Vida" e "Sísifo e o Sentido da Vida", este último um capítulo do meu livro Pensar Outra Vez. Finalmente, está para breve a edição portuguesa da antologia Viver Para Quê?, organizada e traduzi…

Comprar e vender ideias em Belo Horizonte

o projecto abolicionista

Pode-se ler AQUI um texto de David Pearce, intitulado "O Projecto Abolicionista", do qual fiz uma revisão/retradução a pedido do autor. Graças a este trabalho, o glossário de inglês-português da Crítica ganhou mais alguns termos, como "círculo vicioso hedónico", "nível hedónico predeterminado" e "tonalidade hedónica". Já agora introduzimos esta distinção lexical: "hedónico" refere-se ao carácter agradável/desagradável das experiências, ao passo que "hedonista" é a posição que considera o prazer como o maior bem. Assim, as experiências dos puritanos têm valor hedónico mas essas pessoas não são hedonistas. O texto fala acerca da possibilidade técnica e do imperativo moral da abolição do sofrimento para todas as formas de vida senciente. Apresenta-se em três partes: 1) Por que razão o projecto abolicionista é tecnicamente possível; 2) por que razão deve acontecer (é moralmente desejável); 3) por que razão acontecerá. Aproveito para…

Moral sexual

Os pressupostos, posições e argumentos sobre os comportamentos e atitudes sexuais é objecto de estudo em ética aplicada. Algumas antologias da área, como a Ethics in Practice, de LaFollette, têm secções dedicadas ao tema. Na Crítica temos publicados três artigos didácticos dedicados ao tema, de Michael Tooley:Moral Sexual: Algumas perspectivasMoral Sexual: Algumas questões básicasMoral Sexual: Alguns métodos de discussãoA questão é saber se há realmente interesse em estudar o tema, ou se este é mais um daqueles casos em que o único interesse é fazer combate político e ideológico (sobre isto leia-se os meus artigos "Debate e Combate" e "Aborto, Argumentação e Política").

non me f**** o juízo

Uma objecção que talvez surja no que diz respeito a usar o prefixo latino "non" para formar palavras em português (como sucede em nonato, palavra que está dicionarizada) é a de que fazê-lo pode sugerir pedantismo por parte de quem o faz. Acho esta objecção muito fraca, por várias razões.

Consideremos as palavras inglesas "amoral", "immoral" e "nonmoral". Todas têm prefixo latino. As correspondentes portuguesas às duas primeiras, "amoral" e "imoral", têm igualmente o prefixo a partir do latim. Contudo, "nonmoral" é traduzido ou por "amoral" ou por "imoral" consoante o contexto, ou simplesmente por "não-moral".
amoral = o que é desprovido de critérios morais ou indiferente a critérios morais. immoral = o que é contrário à moral. nonmoral = o que é moralmente neutro em si mesmo, como as maçãs e as bicicletas.
Qual a desvantagem de traduzir por "não-moral"? É que na melhor das hipótese…

Filosofia e abertura de espírito

No excerto "Filosofia e Abertura de Espírito", de Daniel Kolak e Raymond Martin, retirado do livro Sabedoria Sem Respostas (Temas e Debates), os autores defendem a necessidade de ter abertura de espírito para fazer boa filosofia. Ou seja, trata-se de considerar seriamente, e com honestidade, ideias que nos podem parecer à partida falsas, inadequadas ou até ofensivas. Tendo a concordar com os autores, até por pensar que não há métodos que possam garantir por si a qualidade da argumentação, num qualquer debate: é preciso que quem está a argumentar esteja genuinamente interessado em procurar a verdade e não interessado em vindicar as suas ideias mais confortáveis e queridas. O que pensa o leitor?

quebra-cabeças musicais 3

Imagine-se um modelo de relógio x. Haverá um número potencialmente infinito de exemplares desse modelo, ou seja, um número potencialmente indefinido de espécimes do mesmo tipo. Intuitivamente, se um relojoeiro pegar em partes diversas de diversos exemplares desse mesmo modelo, e as juntar de uma maneira funcional, obterá um novo exemplar do modelo de relógio, exactamente com o mesmo valor estético e prático que o de um exemplar acabado de sair da fábrica. Excluímos, para fins de argumentação, circunstâncias que não são relevantes para a analogia que vamos fazer, por exemplo, o facto de o “novo” exemplar ser “usado”, etc.Imagine-se uma série de execuções diferentes da mesma sinfonia, por maestros e orquestras diferentes, todas satisfazendo os critérios de conformidade à partitura e exigências interpretativas. Por outras palavras, todas são execuções excelentes da mesma sinfonia, embora divergindo em muitos aspectos qualitativos.Imagine-se agora que um engenheiro de som extremamente dot…

Plágio

Por estranho que possa parecer, há professores que não sabem bem o que há de errado com o plágio. Diz-se por vezes que o problema é o aluno estar a enganar-se a si mesmo, ou a enganar o professor. Mas nenhum destes problemas é o problema. O problema é que o aluno está a enganar os colegas que não fazem plágio, porque vai obter um grau académico ou uma classificação que não é a dele. É passar à frente dos outros, ou pôr-se a par deles, de maneira ilegítima e indefensável. A indústria do plágio, contudo, floresce, sobretudo hoje, usando os meios da Internet. No artigo “Cheating Goes Global as Essay Mills Multiply” Thomas Bartlett faz o ponto da situação. O que pensa o leitor?

Falácia papal

Tenho prestado pouca atenção às notícias, por causa do sufoco dos testes. Mas um aluno (Rafael Vieira) chamou-me a atenção para esta.
O Papa Bento XVI, que se encontra em África, mostrou que não é uma autoridade qualificada no que diz respeito à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. Segundo Sua Santidade, a solução para o problema da sida não passa pela utilização de preservativos, mas sim por um "despertar espiritual e humano" e pela "amizade pelos que sofrem".
Recordo ao leitor que em África já morreram milhões de pessoas devido à SIDA e que segundo algumas estimativas existem actualmente 22,5 milhões de africanos seropositivos.
Quem invocar a opinião papal para justificar a recusa do preservativo incorre, portanto, na falácia do apelo à autoridade e infringe pelo menos uma das regras que asseguram a validade dos argumentos de autoridade: a autoridade invocada tem de ser realmente especialista na matéria. O que, manifestamente, não é o caso.

Impessoal ou reflexivo?

Na língua portuguesa gera-se muitas vezes uma confusão entre o reflexivo e o impessoal. Isto dá origem a alguma discussão entre os gramáticos, dado que supostamente os linguistas se limitam a registar o modo abandalhado como as pessoas realmente escrevem e falam. Já li algumas explicações que roçam o ininteligível, o que é surpreendente porque esta matéria deveria ser bastante simples.

Será correcto “deve-se falar com simpatia” ou “deve falar-se com simpatia”? A segunda alternativa é, na melhor das hipóteses, ambígua entre o uso do impessoal e do reflexivo, ao passo que a primeira é um uso claro do impessoal. Intuitivamente isso vê-se mudando do impessoal para a terceira pessoa do plural: “devemos falar com simpatia” e não “deve falarmos com simpatia”. Por outro lado, o reflexivo é adequado em casos como “O João veste-se com gosto”, pois é o João que se veste a si mesmo.

Nunca será possível destrinçar completamente o reflexivo do impessoal, excepto pelo contexto da restante frase ou fra…

Tento na língua

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

A correcção linguística é vista por vezes como uma questão de boas maneiras, entendidas não como um acto generoso de civilidade que tem como fim um convívio mais agradável entre todos, mas antes como uma marca de superioridade social que tem como fim oprimir os outros. É como ter vergonha de pronunciar “lête com caféi”, à alentejana, mas ter orgulho em adoptar a pronúncia de certas classes sociais prestigiadas. Isto prostitui a língua, que deixa de ser vista principalmente como um instrumento de comunicação e conhecimento, para se tornar um instrumento político para demarcar territórios sociais. Nesta mesma linha, encara-se muitas vezes a gramática, a sintaxe ou a ortografia como instrumentos de opressão social e não como um instrumento que devemos conhecer melhor, se o nosso trabalho ou interesse o exige.

Num campo oposto está uma atitude que vê todo e qualquer uso da língua como legítimo, recusando aceitar a tradicional distin…

A morte dos filósofos

O leitor Matheus Silva enviou-nos uma adaptação de "Causas de Morte de Alguns dos Grandes Filósofos", de Stiv Fleishman:

Tales: Afogamento
Parménides: Não era nada afinal
Ockham: Cortou-se ao fazer a barba
Russell: Cortou-se enquanto alguém que não se barbeia a si mesmo lhe fazia a barba
Descartes: Parou de pensar
Espinosa: Abusou da substância
Leibniz: Monadanucleose
Darwin: Causas naturais
Hume: Causas inaturais
Kant: Causas transcendentais (embora fosse a sua própria ideia)
Paley: Por desígnio
Heidegger: Por Dasein
Meinong: Acidente de alpinismo
Neurath: Acidente ao velejar
G. E. Moore: Às suas próprias mãos
Sheffer: Traço
Sartre: Náusea
Pascal: Ficou abatido depois de perder uma aposta
Wittgenstein: Tentou ver se a morte era uma experiência que se possa viver (alternativa: caiu de uma escada)
Hegel: Colisão com uma coruja ao anoitecer

E a esta selecta lista podemos acrescentar mais estes de nossa lavra:

Anaxágoras: Falta de ar
Heraclito: Efeito do devir
James: Quis acreditar que estava morto
Pla…

a limpeza linguística

A febre do politicamente correcto está a produzir um fenómeno a que podemos chamar «limpeza linguística». Hoje venho falar de uma polémica segundo me consta iniciada há dois anos no IV Congresso Internacional de Língua Espanhola a propósito da inclusão, na mais recente edição do Dicionário da Real Academia, de um sentido pejorativo da palavra «galego», como «tartamudo», «tonto» e «moço de fretes». Esta acepção da palavra está ausente no dicionário da Porto Editora, por exemplo, mas consta no Houaiss: «carregador de bagagens, frequentemente natural da Galiza», «indivíduo que trabalha arduamente, que realiza trabalho pesado», «indivíduo rude, grosseiro; labrego» e ainda «natural do Norte de Portugal». De facto, um hábito que mais ou menos se perdeu no Sul, análogo ao uso nortenho da expressão «mouros», de chamar «galegos» à malta do Norte.

Esta inclusão do sentido pejorativo da palavra no dicionário da Real Academia ofendeu muita gente no seu orgulho nacionalista, dando origem a um abaix…

Suspensão do juízo à portuguesa

Recentemente ouvi um diálogo curioso entre duas raparigas (ambas alunas do 12º ano).

- O que pensas do casamento dos homossexuais?
- Sei lá! É uma coisa tão discutível…
- Mas és a favor ou contra?
- Já te disse: é discutível. Cada pessoa tem a sua opinião.
- Mas é isso mesmo que eu quero saber: a tua opinião. Acho que fazes mal em não tomar partido, pois…
- Isso é a tua opinião!

O leitor já assistiu certamente a conversas destas, em que se diz “isso é discutível” não para iniciar um debate mas para declarar o debate inútil e encerrar a conversa.
Não sei o que se passa noutros países, mas em Portugal é frequente encontrar pessoas que não percebem que “discutível” significa “pode ser discutido” ou mesmo “deve ser discutido”.
Serão essas pessoas filósofos cépticos que, perplexos com a diversidade de opiniões suscitada por muitos assuntos, concluem que nada se pode saber e que o mais avisado é suspender o juízo?
Apesar das inúmeras objecções em que o cepticismo incorre, essa seria uma explicação li…

nonadas que fazem a diferença

I viventi non umani, escrevem os italianos para traduzir "nonhuman animals". E os nossos irmãos linguísticos da Galiza escrevem animais non humanos. Aqui há tempos interrogava-me por que razão poderiam os ingleses usar o prefixo latino "non" ao passo que em português nos limitamos a imitar com um equivalente a "not-human" em vez de "nonhuman" - "não-humanos". Hoje deparei-me com três palavras que muito me alegraram, pois emprestam a força do preconceito (a única que alguns reconhecem) ao que já podíamos sustentar com argumentos independentes.
As palavras"nonato", "nones" e "nonada", que significam respectivamente: "nascido por cesariana", "plural de "non", número ímpar, "pares e nones"(também o nome de um jogo tradicional: pares-e-nones)", e "ninharia, futilidade", constam tanto no dicionário de português da Porto Editora como no dicionário Houaiss. Todas tê…

Filosofia, ciência e cultura

Muitas pessoas traçam uma distinção radical entre as chamadas "ciências duras" (como a química e a física) e as chamadas "humanidades" (como a história e a teoria da literatura). Esta distinção pode em si ser posta em causa. Mas, além disso, essas mesmas pessoas tendem a considerar que a filosofia é uma das humanidades, o que é posto em causa no artigo "A Filosofia como Disciplina Unificadora", de Sven Ove Hansson. O que pensa o leitor?

O filósofo vivo mais influente

A votação do nosso mais recente inquérito terminou há uns dias e ainda nada tínhamos concluído sobre os resultados. Não há muito a dizer. De resto, esperávamos já um resultado destes. Portanto, não há surpresas a assinalar. Consideramos cada um dos nomes na lista relevantes na filosofia contemporânea, ainda assim é de assinalar que 14% das votações recaíram sobre “Outro” o que significa que uma número significativo de leitores pensaram em outros nomes que não os mencionados. Os mais votados são Habermas e Singer. Em parte o número de obras traduzidas destes autores pode explicar a razão da maior percentagem nos votos. Mas ao mesmo tempo temos Steiner com muitas obras traduzidas e só recolheu 3% dos votos, assim como Putnam, embora este não tenha tantas obras traduzidas como o primeiro. No caso de Peter Singer pode existir uma outra hipótese, que é o conjunto de problemas abordados pelo autor, provavelmente mais no centro das atenções dos meios de comunicação, o que lhe reserva alguma …

frases musicais e proposições

Tome-se como exemplo as seguintes frases:

a) "a água é H2O" b) "water is H2O" c) "l'eau est H2O" d) "Wasser ist H2O"
Todas exprimem a mesma proposição, quer dizer, todas são instanciações ou exemplificações da mesma proposição em línguas diferentes. Quando dizemos que "a água é H2O" é verdadeira, não pretendemos afirmar que a sequência particular de fonemas em língua portuguesa ou a sequência particular de caracteres gráficos é verdadeira. O que é verdadeiro é a proposição que a frase exprime. Enquanto as locuções e as inscrições são objectos irrepetíveis, as proposições são repetíveis.
Considere-se agora uma "frase" musical (o termo faz parte do léxico musical, embora seja claramente metafórico falar em "frases musicais"), por exemplo, os primeiros dois compassos do tema das Variações Goldberg (ou os primeiro quatro compassos, para encher mais o ouvido), chamemos-lhe «C2».
a) C2 executada em oboé. b) C2 executada em cl…

Quebra-cabeças musical 2 e 1/2

Umas das intuições respeitantes ao quebra-cabeças número 2 é a ideia de que as obras musicais, quando não são executadas, têm uma existência puramente mental, isto é, que apenas se pode afirmar que existem «na cabeça» do compositor como uma espécie de experiência sonora interna.

Um contra-exemplo que podemos congeminar para perturbar esta ideia é pensar num acorde de dó maior. A intuição diz-nos que os acordes não têm uma existência puramente mental. Escalas e acordes são aspectos objectivos do mundo sonoro que o músico usa no trabalho de composição. Mas qualquer peça musical pode ser encarada da mesma maneira, como uma estrutura ou sequência de intervalos contíguos (melodia) e simultâneos (harmonia). Contudo, isto deixa-nos numa situação espinhosa: se a intuição parece sustentar a ideia de que os acordes e as escalas são descobertos e não inventados, não só estes parecem ter uma existência que não é puramente mental, como não parece haver maneira de negar plausivelmente que as melodia…

Mentalidade, cultura e dinheiro

Na sequência dos meus artigos polémicos sobre a economia associada à Internet e as suas consequências negativas, acabo de publicar outro artigo com o título acima. Está aqui, e está aberto à refutação, contra-exemplos e contra-argumentos dos leitores.

Quebra-cabeças musicais 2

Imagine-se que um músico compõe uma sinfonia, registando-a na partitura, e que esta é esquecida numa gaveta ou que se perde sem que alguém a venha a encontrar ou a executar.
Podemos afirmar que a sinfonia existe? Porquê? No caso de existir, em que consiste esta sua existência?
Repare-se que este quebra-cabeças se relaciona com algo afirmado pelo Sérgio num comentário ao último texto: ele é da opinião que as alterações de timbre, orquestração e tonalidade interferem na identidade da obra a ponto de não podermos afirmar que se trata da mesma obra. Assim, o Sérgio parece comprometido neste quebra-cabeças com a resposta negativa, de que a sinfonia não existe. Ou será? (Vamos supor, para fins de argumentação, que o autor da sinfonia não dá indicações de instrumentação estritas e que no seu tempo é prática comum executar as obras em diversos suportes instrumentais e, consequentemente, adaptando as tonalidades às exigências mecânicas dos instrumentos.)
Imaginemos agora uma variação do nosso puz…

Quebra-cabeças musicais 1

Vou lançar uma série de pequenos desafios aos leitores, que consistem em quebra-cabeças musicais. A ideia é introduzir uma reflexão preparativa da divulgação de alguns textos de filosofia da música, em breve na Crítica. Incentivar um esforço autónomo no tipo de questões levantadas nesta área fará que estes textos sejam assim muito melhor apreciados, pois a sua leitura virá na sequência de um investimento cognitivo nosso, e não como puras curiosidades desconexas. Na verdade, este deve ser o processo de entrada na filosofia: ter interrogações e então ler os textos dos outros filósofos sobre o assunto, e não ler tudo sem ter interrogações e depois «traduzir por palavras nossas» em vez de pensar.
Considere-se o Concerto em Dó Maior para Oboé, de Haydn, e imagine-se as duas situações seguintes:
a) Um músico faz a transposição do concerto para a tonalidade de Lá Maior e executa a obra com instrumentação semelhante (oboé d'amor como instrumento solista e orquestra).
b) Um músico faz um arra…

Tempo, direcção e causalidade

Acabei de publicar uma recensão de Matheus Silva do livro Causalidade e Direção do Tempo, de Túlio Aguiar, assim como um excerto deste mesmo livro. Este é um tema central da filosofia, na intercepção entre a metafísica, a epistemologia e a filosofia da ciência. Em língua portuguesa, não há muitos trabalhos sobre este problema, que é com certeza também do interesse de cientistas.

Robotnik

Considere-se a seguinte lista de substantivos e adjectivos: amniota; anamniota; déspota; diortota; estradiota; gólgota; hidrópota; hilota; iota; patriota; sota; acraniota; agiota; poliglota; aloglota; cipriota; compatriota; eucariota; idiota; janota; monoglota; procariota; siciliota.
Todos têm em comum a propriedade de ou pertencer ao género masculino, ou, segundo o dicionário, poder pertencer simultaneamente ao género masculino e feminino.
Considere-se o termo inglês «robot». Substantivo formado a partir do termo checo «robota» (plural «roboti»), que significa «trabalhador», «servo» e ainda «autómato». A adaptação foi feita com a tradução do romance do checo Karel Capec, RUR (Rossumovi Universálni Roboti ou, na versão inglesa, Rossum's Universal Robots), de 1920.
Considere-se a seguinte ideia: se nos colocássemos no lugar do tradutor original que trabalhou na obra de Capec, o que faríamos seria adaptar o termo checo para português, segundo a nossa maneira natural de formar palavras.…

Oderberg e a reabilitação da velha ética

Há muito tempo que não tinha uma surpresa tão agradável ao olhar para as estantes de filosofia de uma livraria. Estava eu esta tarde na Fnac a olhar para os monos que estagiam naquelas estantes, quando reparo nestes dois volumes de David Oderberg, em português: Teoria Moral - Uma abordagem não consequencialista e Ética Aplicada - Uma abordagem não consequencialista. Uma das principais alternativas contemporâneas à ética consequencialista - que tem dominado de forma quase esmagadora o panorama filosófico das últimas décadas e de que Peter Singer é um dos mais ilustres representantes - está agora disponível em língua portuguesa, numa boa tradução de Maria José Figueiredo, para a editora Principia.

Oderberg é um filósofo de primeira linha, muitíssimo claro e persuasivo. O objectivo deste par de obras é mostrar que a moralidade tradicional não morreu. Como diz na contracapa «Em Teoria Moral, é apresentado o sistema de base que permite resolver os problemas morais, o sistema que os conseque…

Peter Singer e a pobreza

Se levarmos a sério a ideia de que o valor de uma vida humana não diminui
quando passamos fronteiras nacionais, então deveríamos dar uma muito maior
prioridade à redução da pobreza mundial. O que tenho em mente é uma reconcepção
do que andamos a ensinar nas escolas.Isto é o que afirma Peter Singer, entre outras coisas, no artigo "A Vergonha da América", acabado de publicar (em inglês) em The Chronicle of Higher Education, e no qual se cita Portugal. Concorda?

Thomas Nagel

Admito sem questionar que a objectividade do raciocínio moral não exige que este tenha uma referência externa. Não há análogo moral do mundo exterior — um universo de factos morais que nos afecte causalmente. Ainda que tal suposição fizesse sentido não apoiaria a objectividade do raciocínio moral. A ciência, que este tipo de realismo reificador toma como modelo, não deriva a sua validade objectiva do facto de partir da percepção e de outras relações causais entre nós e o mundo físico. O verdadeiro trabalho vem depois disso, sob a forma de raciocínio científico activo, sem o qual nenhuma quantidade de impacto causal sobre nós com origem no mundo exterior geraria uma crença nas teorias de Newton ou de Einstein, nem na biologia molecular.

Hilary Putnam

O respeito pelas pessoas como agentes morais autónomos exige que lhes concedamos o direito de escolher uma posição moral para si próprias, por mais repulsiva que possamos achar a sua escolha. Segundo a filosofia do liberalismo político, exige-se também que insistamos que o governo não comece por ocupar as escolhas morais individuais estabelecendo uma religião de estado ou uma moralidade de estado. Mas a oposição intransigente a todas as formas de autoritarismo político e moral não deve comprometer-nos com o relativismo moral ou com o cepticismo moral. A razão pela qual é errado o governo ditar uma moralidade ao cidadão individual não é que existam dúvidas acerca de quais são as formas de vida satisfatórias e quais são as formas de vida não satisfatórias, ou de algum modo moralmente erradas. (Se não houvesse tal coisa como o moralmente errado, então não seria errado o governo impor escolhas morais.) O facto de algumas pessoas recearem, ao admitirem abertamente algum tipo de objectivida…

Comprar e vender ideias

Em plena segunda guerra mundial, quando o governo britânico pedia aos seus cidadãos imensos sacrifícios económicos, Orwell ficou chocado com a incongruência de jornais em que os editorialistas davam voz aos pedidos do governo, ao mesmo tempo que publicavam anúncios de casacos de peles, na mesma página. Esta imagem memorável ilustra um problema de fundo que poucas pessoas parecem compreender, sobretudo porque albergam preconceitos ideológicos relacionados com o comércio: é o problema do financiamento da cultura, da ciência, das artes, da filosofia e da informação. Não é possível pensar claramente neste problema enquanto se continuar a pensar de um modo aristocrático. Para o aristocrata, toda a transacção comercial é vil, e as coisas superiores da vida, nomeadamente as ideias, têm de se manter recatadamente afastadas do dinheiro. Hoje, pessoas protegidas desde muito novas por instituições públicas ou por grandes multinacionais, que sem sobressaltos lhes pagam a vida há décadas, podem da…

O maior filósofo vivo

Parece que lhe tomámos o gosto. Por isso, voltamos a questionar os nossos leitores para saber o que pensam do estado actual da filosofia. Trata-se apenas de uma forma descontraída de lançar a discussão. Pouco mais do que isso. Assim, perguntamos no questionário que se encontra na coluna ao lado, qual é o melhor, mais importante, mais interessante, mais influente, ou simplesmente o vosso filósofo vivo preferido.

Como não podia deixar de ser, a lista reflecte as nossas escolhas pessoais e é, por isso mesmo, discutível. A caixa de comentários está aberta para isso mesmo. Se der origem a uma discussão fundamentada, melhor. A ideia é mesmo essa e não simplesmente expor os nossos preconceitos filosóficos.

Quem escolher "outro", pode dizer na caixa de comentários qual foi e, já agora, porquê.

Errata: enganámo-nos a escrever na lista dos filósofos o nome de Putnam. (aparece Putman e não Putnam) Não alteramos já que é impossível editar a lista após o primeiro leitor votar para não vici…

Frank Zappa - A Moldura

A coisa mais importante na arte é A Moldura. Para a pintura, literalmente; para as outras artes, figurativamente - porque, na ausência deste humilde utensílio, não podemos saber onde acaba A Arte e começa O Mundo Real. Temos de colocar a arte numa 'caixa' porque, de contrário, que merda é aquela na parede? Se, por exemplo, John Cage [compositor contemporâneo famoso pelo seu vanguardismo experimentalista] diz "Estou a colocar um microfone na garganta e vou beber sumo de cenoura e, assim, criar uma composição", o seu gorgolejar conta como uma composição sua, pois ele pô-la numa moldura e afirmou-o. "É pegar ou largar, eu quero que a partir de agora isto seja música." Daí em diante é uma questão de gosto. Sem a moldura, trata-se apenas de um tipo a beber sumo de cenoura.

Há algo errado na pornografia?

Muitas pessoas acham que há algo moralmente errado na pornografia. Algumas vão mesmo mais longe a concluem que a pornografia devia ser proibida.

Quais são os seus argumentos? Encontro vários.

1. A pornografia leva à instrumentalização das pessoas envolvidas, tratando-as como meros meios para os nossos fins e não como pessoas dignas de consideração moral, o que é inaceitável. Há quem prefira dizer que a pornografia trata as pessoas como objectos e não como pessoas com os seus afectos, as suas aspirações e os seus direitos.

Este argumento parece-me muito fraco. Em primeiro lugar porque só há instrumentalização se não houver consentimento das pessoas envolvidas ou se estas forem forçadas pelas circunstâncias da sua vida a consentir. Uma pessoa que consinta livremente em ser tratada como um mero objecto físico, não está a ser instrumentalizada. E uma pessoa que consinta livremente em fazer algo em troca de dinheiro apenas para alguém retirar daí prazer sexual também não está a ser instrument…

O que é a pornografia?

Estive arredado da discussão, que eu próprio iniciei, sobre a pornografia. Como diria um amigo meu, vai contra a minha religião intervir numa discussão que eu próprio iniciei. Uma vez que terminou, aqui estou para a relançar.

Agora a sério, não gostaria de deixar de dar o meu contributo para a animada discussão que dura há alguns dias. Daí (ou "donde"?) esta minha posta, insistindo no assunto. A esclarecedora imagem é um pormenor de um dos templos Kajuraho (Índia), classificado pela UNESCO como património mundial. Será esta imagem pornográfica?

A pornografia não é uma espécie natural, como água, ouro ou cisne. Para sabermos o que significa a palavra “pornografia”, temos de estar atentos ao modo como ela é usada, sendo certo que não é usada sempre da mesma maneira: as pessoas costumam divergir acerca do que é ou não é pornográfico. Isto significa que qualquer definição de pornografia é altamente discutível.

Mesmo assim, talvez haja algumas características necessárias para que al…