2 de março de 2009

Comprar e vender ideias

Em plena segunda guerra mundial, quando o governo britânico pedia aos seus cidadãos imensos sacrifícios económicos, Orwell ficou chocado com a incongruência de jornais em que os editorialistas davam voz aos pedidos do governo, ao mesmo tempo que publicavam anúncios de casacos de peles, na mesma página. Esta imagem memorável ilustra um problema de fundo que poucas pessoas parecem compreender, sobretudo porque albergam preconceitos ideológicos relacionados com o comércio: é o problema do financiamento da cultura, da ciência, das artes, da filosofia e da informação. Não é possível pensar claramente neste problema enquanto se continuar a pensar de um modo aristocrático. Para o aristocrata, toda a transacção comercial é vil, e as coisas superiores da vida, nomeadamente as ideias, têm de se manter recatadamente afastadas do dinheiro. Hoje, pessoas protegidas desde muito novas por instituições públicas ou por grandes multinacionais, que sem sobressaltos lhes pagam a vida há décadas, podem dar-se ao luxo de ter, com a mesma hipocrisia dos aristocratas de antigamente, a mesma atitude de nojo perante o comércio. Ler mais...

10 comentários:

  1. “A resposta dos religiosos é que isso só acontece porque o Windows já vem instalado nos computadores que as pessoas compram.”

    Essa pode ser de facto a resposta dos religiosos de Linux (“GNU/Linux” se quisermos ser precisos e referir um sistema operativo completo baseado no núcleo Linux), que é equiparada em precipitação e simplismo à motivação dos religiosos do Windows para não usarem Linux – que este é só para grandes carolas informáticas, difícil de usar e porque, como diz o Desidério, “quase não há software para o Linux”. Mas não é a resposta dos utilizadores de Linux que não são religiosos acerca do assunto.

    Esqueçamos por ora o valor de verdade de “quase não há software para o Linux” (algo altamente disputável se isto significar que há pouco software para Linux análogo ao software comummnente utilizado em Windows). Há muitas outras razões, para além de o Windows vir instalado nos computadores novos, que os utilizadores de Linux podem aduzir para que as pessoas continuem a pagar pelo Windows. Uma delas é precisamente a de que muitas distribuições de Linux exigem mais conhecimentos do utilizador comum (para uma utilização comum) do que o Windows. E assim, muitas pessoas preferem pagar para não terem de perder a cabeça a aprender a usar um novo sistema operativo (SO).

    Acontece é que muitas destas pessoas que pagam pelo Windows para fugir à aprendizagem de um novo SO, provavelmente não teriam de perder a cabeça com aquela aprendizagem se experimentassem um SO que fosse acessível ao utilizador de Windows. E hoje em dia existem distribuições de Linux claramente acessíveis ao utilizador normal de Windows (algumas até se esforçam por ser cópias do Windows no que diz respeito ao ambiente gráfico). Claro que há sempre coisas que vão ser difíceis na transição, pois até os nomes diferentes para as coisas análogas no Windows podem dificultar o uso. Mas a velhinha ideia de que as distribuições de Linux são SO's onde temos de fazer tudo por linha de comandos ou que para fazer as tarefas mais banais é preciso ler um manual de não sei quantas páginas, já não tem razão de ser.

    Por exemplo, uma recente distribuição de Linux chamada “Ubuntu” está já a ser a mais utilizada de todas nos seus poucos anos de existência. Isto dever-se-á em grande parte ao facto de ser acessível ao utilizador comum do Windows, permitindo-lhe uma migração sem grandes dores de cabeça, sem, contudo, perder as outras boas qualidades que fazem com que até muitos dos religiosos de Linux também a prefiram (o Ubuntu não teve só um grande boom devido a novos utilizadores de Linux, mas também devido a utilizadores de outras distribuições mais antigas).
    Aliás, outro efeito notável do Ubuntu ser uma distribuição de Linux acessível é estar já a vir instalado em alguns computadores novos de marcas reconhecidas no mercado, como é o caso da Dell.


    “...em muitos países, como no Brasil, já se compram há bastante tempo computadores mais baratos, com o Linux instalado — e as pessoas levam-nos para casa, desinstalam rapidamente o Linux e instalam o Windows.”

    Caro Desidério, isto acontece muito mas não é certamente um ponto a favor do seu argumento, pois a maioria dessas pessoas que desistalam rapidamente o Linux e instalam o Windows não vão pagar por este último: vão instalar cópias piratas. Essas pessoas muito provavelmente preferiam logo à partida ter o Windows, mas compraram um computador com Linux para pouparem uns trocos. Ou seja, contra o seu argumento, estas pessoas não preferem comprar o Windows em vez de usar um SO gratuíto; preferem é usar gratuitamente um SO que não é grátis.


    “Ao fim ao cabo, se eu estou a vender computadores, consigo vender mais barato um computador com Linux do que o mesmo computador com Windows, porque não tenho de pagar o Linux, mas tenho de pagar o Windows.”

    Isso seria de facto um motivo apelativo para que as lojas tivessem mais computadores à venda com Linux, mas só se o Windows e o Linux fossem igualmente populares e utilizados. Ora, como a procura de Windows é muito maior, é natural que os vendedores a queiram satisfazer em consonância (a não ser que sejam uns maus vendedores ou religiosos de Linux).
    Portanto, a pouca existência de computadores com Linux à venda em lojas não é tanto um efeito de as pessoas preferirem Windows a Linux como o de realmente as pessoas procurarem mais Windows. E as pessoas procurarem mais Windows não implica sem mais que prefiram este SO a outro qualquer (para o preferirem têm, antes de mais, que ter conhecimento de pelo menos outro SO, ou seja, a procura por Windows pode ser maior mesmo que as pessoas desconheçam a existência de alternativas).

    Sem negar que muitas pessoas preferem Windows a Linux (têm conhecimento da existência deste SO e preferem aquele, seja por que razão for), estou a afirmar que muitas mais nem sequer têm conhecimento de que existem outros SO's. O domínio do Windows é tão grande que para a maior parte dos seus utilizadores falar de SO é falar de Windows (se se consideram utilizadores normais de computadores pensem no seguinte: há quanto tempo têm conhecimento de existirem alternativas ao Windows? E há quanto tempo têm conhecimento de que algumas dessas alternativas não são MAC e são gratuítas? Agora veja-se há quanto tempo elas existem e se distracção foi a razão pela qual não estavam conscientes delas).

    Voltemos agora à afirmação de que “quase não há software para o Linux”. Para começar, esta afirmação é bastante ambígua, e não só por causa da vagueza da palavra “quase”. Antes de mais, há que distinguir entre software exclusivo de Linux e software que funciona em Linux. Por razões óbvias, o primeiro raramente está acessível fora da internet. Como a maior parte dele é gratuíto (sim, há software para Linux que não é gratuíto, tal como há software gratuíto para Windows), geralmente não se encontra em lojas; ao passo que o segundo pode muito bem estar nas lojas mais comuns, mas as pessoas só se interessam em ver se funciona nos seus computadores, ou seja, maioritariamente, em Windows e MAC. Note-se ainda que cada vez há mais software que era exclusivo para Windows e que está a ser agora tornado compatível com Linux.

    Assim, é natural que as pessoas pensem que há pouco software para Linux, pois ao contrário das suas contra-partes para Windows, que estão disponíveis na internet e fora dela, o software para Linux não é visto por aí nas montras (ora por distracção, no segundo caso acima, ora porque não está lá mesmo, no primeiro caso).

    Depois, para clarificar aquela afirmação há que especificar melhor que distribuição de Linux é que está em causa (ou se estão todas em causa), pois há muito software que está acessível para umas distribuições e não para outras.

    Se, contudo, aquela afirmação significar que o software que há para as distribuições de Linux no geral não é suficiente para satisfazer as necessidades dos utilizadores normais de Windows, então, porque é uma questão de facto, julgamo-la uma crença injustificada até serem apresentados exemplos que a suportem (por exemplo o sítio http://www.linuxalt.com/ pode ajudar a ver alguns análogos em Linux para certos softwares de Windows).

    Por outro lado, se aquela afirmação for para ser entendida em contraste com a quantidade de software que há para Windows, então é claro que é verdadeira. A diferença quantitativa entre software existente para Windows e software existente para Linux deve ser enorme. Mas daqui só se segue que os utilizadores de Windows têm muito mais por onde escolher e não que os utilizadores de Linux tenham dificuldades porque não têm tal e tal software para desempenhar tal e tal tarefa que em Windows fariam facilmente.


    “No meu trabalho, por exemplo, uso crucialmente vários programas de software que comprei e que não existiria se outras pessoas não os comprassem, porque nesse caso os engenheiros não os poderiam fazer.”

    Já agora, podes enumerar esses programas? Mesmo sem saber quais são também acredito que eles não existiriam se as pessoas não os comprassem, mas talvez viessem a existir (ou existam) outros programas análogos que as pessoas não precisariam (ou não precisam) de comprar, por serem gratuítos.


    De resto, estou de acordo que

    “A ideia de que a humanidade é uma maravilha se não fosse os comerciantes que estragam tudo é uma das maiores mentiras da humanidade. Quem vende só vende porque as pessoas compram o que ele vende, e se as pessoas preferissem a biologia à Coca-Cola, os livros de física aos bonés americanos e a poesia às festas de bêbados, quem vende venderia mais biologia, mais física e mais poesia, e menos das outras coisas.”

    Sou um optimista em relação à ideia de que o financiamento produz no geral melhores resultados. Mas há sempre a hipótese do financiamento continuar a produzir obra pobre. Não há necessidade alguma em se ter um jornal na internet de qualidade só porque os seus subscritores pagam seja lá quanto for que permite pagar aos jornalistas que estão por detrás do jornal.

    Há certamente muitas “pessoas iludidas com as cantigas de bandido da mentalidade Linux”, mas muitas outras só fazem software livre e gratuíto pelas mesmas razões que, por exemplo, alguns autores pretendem disponibilizar o acesso a artigos gratuitamente numa publicação que não é toda ela de acesso gratuíto (como por exemplo na Crítica). A mais comum delas acredito ser a de que essas pessoas querem que outras possam de alguma forma beneficiar com o acesso ao seu trabalho ao mesmo tempo que também elas podem beneficiar pelo menos no que diz respeito ao reconhecimento.

    Tal como há na filosofia, e especificamente no caso da Crítica, pessoas genuinamente interessadas em adquirir conhecimento, discutí-lo e partilhá-lo, assim também acontece na informática. Mas, do meu ponto de vista, felizmente não há na filosofia algo análogo à Microsoft, apesar de haver também várias “distribuições” de filosofia, algumas pagas, outras gratuítas, mas em ambos os casos não há impermeabilidade ao mau “software” (mas como disse acima, acredito que nos casos financiados a qualidade pode no geral ser maior, e acho a crítica um bom exemplo disso, apesar de que já tinha muito conteúdo de qualidade quando ainda era totalmente gratuíta...até sem publicidade!)

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  2. r

    Há algum programa equiparável ao photoshop, para linux, que ao contrário do gimp não funcione exclusivamente em modo RGB?
    Quantos livros são paginados por ano usando o Scribus?

    As pessoas procuram o windows porque percebem que isso lhes dá menos chatices. Eu fui resistente utilizador do Mac OS X durante dois anos a fio, até ficar simplesmente farto de ter de saltar de um lado para o outro do meu disco, em dual boot, para usar programas que não funcionavam no mac. Usei o OpenOffice mas fartei-me de não poder usar outros programas integrados e, sinceramente, com o dinheiro a mais que me custou o mac antigo por comparação com o laptop actual... prefiro dar o raio dos 100 euros para ter o Office mesmo que tenha de esperar algum tempo para o poder comprar.
    A ideia de que o Steve Jobs é mais benévolo do que o outro por ter uma parcela menor do mercado parece-me tola.

    As pessoas não preferem o windows por causa de diferenças que só interessem a engenheiros. As pessoas preferem o windows porque só precisam do windows para correr os outros programas que lhes interessam. Quase toda a gente se está nas tintas se o windows é melhor ou pior do que os outros. Querem é poder trabalhar sem estar a usar emuladores ou dual boots, como eu.

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  3. Eu não estive a defender que os análogos de Windows em Linux eram todos tão bons ou melhores que as suas contra-partes. Ou estive? Muito menos estive a defender que encontramos em Linux programas para fazer tudo o que fazemos com programas em Windows.

    Quanto às pessoas não preferirem "o windows por causa de diferenças que só interessem a engenheiros", concordo plenamente. Eu continuo a usar Windows precisamente porque há programas em Windows que me facilitam a vida quer apenas por ainda não me ter habituado às contra-partes, quer porque estas ainda não funcionam tão bem como gostaria. Mas em relação à utilização comum, não vejo o que possa faltar em muitas distribuições de Linux (no Ubuntu em especial, porque também é a que conheço melhor).

    No teu caso pessoal, sou da opinião que as pessoas que sabem o que são emuladores ou dual boots já estão num outro nível de utilizador de computadores (é difícil definir limites precisos no espectro de utilizador comum, mas uma vez que acredito que o utilizador mais comum nem sabe que há mais SO's para além de Windows, também não vai saber provavelmente o que é um dual boot - apesar de se poder ter dual boots entre vários windows).

    Quanto às pessoas preferirem "o windows porque só precisam do windows para correr os outros programas que lhes interessam", acho que isto não é verdade. Como disse acima, grande parte das pessoas não prefere Windows a coisa alguma simplesmente porque não conhece alternativas. E das que preferem podem ter tido azar de experimentar SO's com uma curva de aprendizagem grande para quem está habituado a Windows.

    Eu próprio, quando conheci, não há muitos anos algumas distribuições Linux, experimentei umas que achei bem complicadas e logo lhes virei as costas e esqueci Linux durante aí um par de anos. E só à cerca de dois anos é que voltei a experimentar uma distribuição linux porque ouvi dizer que era uma transição simples. E foi o que achei. Desde então que uso Ubuntu.

    Em relação ao OpenOffice, quais foram mesmo as tuas dificuldades? Eu uso-o quer no Windows, quer no Ubuntu. Adorava o Office 2003 e achava complicado o Office 2007 que nunca me conseguiu fazer abandonar o 2003, mas agora estou satisfeito com o OpenOffice.

    ah...e que as pessoas se estão nas tintas se o Windows é melhor ou pior que outras alternativas, isso é verdade, pois querem é que as coisas vão funcionando. Mas não nos esqueçamos da quantidade de cópias piratas do Windows que estão instaladas por esse mundo fora. É natural que as pessoas usem algo a que estão habituadas a usar se esse uso é para elas igualmente gratuíto. Tivessem elas de pagar e muitas iam começar a usar as alternativas.

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  4. Basicamente, tratava-se de integrar o Flip e outros dicionários que funcionam em conjunto com o Office. Na área das ferramentas há duas coisas muito úteis que sinceramente não sei se o OpenOffice faz: comparar entre documentos e gerar um ficheiro com as diferenças, e o track changes, mas suponho que tenha. Não cheguei a ver.

    Nos programas de paginação e imagem, uma limitação terrível é todos os open source não trabalharem, tanto quanto sei, com CMYK e apenas com RGB. Isto é irrelevante para quem faz coisas para a web, mas não para impressão.

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  5. A questão é que o sistema borlista é insustentável, excepto quando é financiado pela publicidade, como é o caso do Firefox, o que significa que estamos a 1) encher o mundo com mais lixo publicitário e 2) a promover a concentração de capitais e inviabilizar pequenos mercados, porque a publicidade só é viável comercialmente quando atinge muitos, mas mesmo muitos milhares de pessoas (por exemplo, o New York Times pode viver da publicidade exclusivamente, mas nenhum jornal português consegue essa proeza).

    Eu não trabalho com o Linux porque não tenho o software que uso, mas eu não sou um utilizador típico (não posso abandonar o Office, por causa do FLiP, preciso do Aurélio, do Houaiss, da Britânica, do Collins, e nada disto existe em Linux, nem coisas equivalentes). Contudo, a generalidade das pessoas pouco mais usa além de email, Web, um processador de texto para os trabalhos da faculdade, quando é estudante -- e jogos (bom, em termos de jogos, o Linux quase não os tem... mas esqueçamos os jogos). Se o Linux até tem o suficiente para satisfazer o utilizador intermitente, ainda que seja de má qualidade, com o Open Office, e dado que é gratuito, por que razão não é ubíquo como o Windows? Por que razão não consegue destronar o Windows, ou pelo menos ficar-lhe com uma boa fatia de mercado, como aconteceu com o Firefox relativamente ao Internet Explorer? Esta é a pergunta crucial.

    E a resposta é: porque o Linux é economicamente inviável, no mundo dos desktops e dos notebooks caseiros; só é viável em empresas, para gerir servidores e redes, porque nesse caso as empresas pagam directamente aos programadores que mexem no Linux. Mas as pessoas comuns não querem nem podem mexer em linhas de código; logo, não vão contratar um engenheiro para lhes ir lá a casa às terças-feiras; logo, quando instalam o Linux ninguém vê dinheiro algum, pelo que isso torna o Linux inviável economicamente. O que tem por resultado a sua invisibilidade pública.

    E este é o problema: como tornar economicamente viável a produção de software? Eu gostaria de ter mais de dois sistemas operativos fiáveis em competição que pudessem correr no meu computador, assim como tenho inúmeras marcas de carros e de chocolates. Mas não tenho, e nunca terei, porque a indústria do software é concentracionária, corporativista, favorece as grandes concentrações de capitais e inviabiliza a iniciativa independente. E isto é assim por causa do Linux também, e não apenas por causa das práticas monopolistas da Microsoft. Responder às práticas monopolistas da Microsoft com software gratuito é como responder com pedras à bomba atómica: não funciona.

    O erro dos evangelistas do Linux é pensarem só numa direcção. Pensam só no consumidor e dizem: "vamos bater os gigantes porque estamos a oferecer uma coisa de borla, como é que as pessoas vão preferir outra que têm de pagar?" Só que não estão a ver a outra direcção: se nós não fazemos dinheiro, como teremos poder para aparecer junto das pessoas? Como vamos pagar a webdesigners para fazerem sites profissionais e não porcarias feitas em cima do joelho? Como vamos fazer contratos com grandes vendedores de computadores? Para fazer publicidade em jornais e na Internet? A resposta é: não podemos fazer nada disso apesar de termos uma legião de supostos seguidores, porque estes supostos seguidores não sabem pensar economicamente.

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  6. Desidério,

    A minha réplica ao teu texto não teve origem na defesa de uma pretensa possibilidade da comunidade Linux se apresentar como uma resposta ao problema do financiamento honesto da cultura, das artes e das ciências. Teve origem nos preconceitos sobre Linux e nas confusões sobre software gratuito e software de código aberto que enunciaste. Concordo que o sistema borlista seja insustentável, não concordo é que a comunidade Linux se tenha erguido e se mova principalmente para termos por aí borlas informáticas em vez de gigantes como a Microsoft.

    Esquecendo o Linux, quanto ao problema do financiamento da cultura, das artes e das ciências, deixo abaixo a minha opinião, partindo de um parágrafo de um comentário teu no De Rerum Natura (como a discussão sobre este assunto esteve muito mais acesa neste último blog do que aqui, na crítica, resolvi vir para aqui lançar uma acendalha).

    “A vida social seria mais bonita se tivesse menos mentiras e mais honestidade. Ninguém sabe como resolver o problema da viabilidade económica daquilo que o grosso da população não valoriza, mas uma minoria valoriza. Então, essa minoria usa o poder político que tem e tira dinheiro às pessoas para financiar o que elas não querem financiar. Ninguém concebe outra maneira de financiar estas coisas, além da publicidade.”


    A minha opinião é que o modo mais honesto, evitando publicidade, de financiar as coisas que só uma minoria está disposta a pagar para delas podermos usufruir é essa mesma minoria arregaçar as mangas e fazer como a maioria: trabalhar e depois gastar o dinheiro naquilo que bem entende. A maioria pode então continuar a gastar o seu dinheiro nos bilhetes para o futebol, nas televisões para verem as novelas e essas tangas todas, enquanto que a minoria pode assim gastar o seu dinheiro no financiamento da cultura, das artes e das ciências.

    É certo que uma consequência daquele financiamento recair apenas sobre uma minoria seria a de ser muito mais fraco do que o é actualmente, mas era honesto e ao menos assim tal minoria não podia justificadamente ser acusada de viver da carteira dos outros.

    Outra consequência é que aqueles que produzem as coisas que só uma minoria valoriza iam ter muito menos tempo para tal, pois iam ter de vergar a mola como a maioria. O que implica que, muito provavelmente, a cultura, as artes e as ciências iam acabar por ter menos qualidade do que a que têm quando aqueles que estão por detrás delas não precisam de ter outra ocupação para ganharem dinheiro e podem por isso dedicar-lhes todo o seu tempo.

    A ser assim, o modelo actual de financiamento da cultura, das artes e das ciências deve ter como fundamento a ideia de que é melhor no geral que se tenha uma certa desonestidade neste financiamento do que permitir a extinção, ou pelo menos a redução de qualidade, das coisas que assim se financia. Ou seja, é a ideia de que assim é melhor não só para a minoria, que está por detrás daquelas coisas e até está disposta a pagar por elas, mas também para a maioria, que ou muito pouco quer saber delas ou se quer pelo menos não está muito interessada em financiá-las.

    Portanto, talvez se possa dizer que uma tal minoria está a agir como uma espécie de filósofo-rei, que sabendo (ou julgando saber) o que é melhor, trata de o impingir aos outros, criando um sistema no qual as pessoas não têm como não financiar aquelas coisas, mesmo que o não queiram (como último recurso só podem colocar-se à margem do sistema se não o quiserem financiar).

    O estranho disto tudo é pensar-se que isto possa ser assim quando na verdade, numa sociedade dita democrática, as decisões para o todo deviam ter apoio nas vontades da maioria das pessoas e não nas de uma minoria delas. Talvez esta estranheza derive de ou sermos demasiado hipócritas para aceitar, ou então demasiado inocentes para não perceber, que termos uma democracia não implica não termos um ou mais 'reis' com poderes notáveis.

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  7. Concordo com isto:

    “A minha opinião é que o modo mais honesto, evitando publicidade, de financiar as coisas que só uma minoria está disposta a pagar para delas podermos usufruir é essa mesma minoria arregaçar as mangas e fazer como a maioria: trabalhar e depois gastar o dinheiro naquilo que bem entende. A maioria pode então continuar a gastar o seu dinheiro nos bilhetes para o futebol, nas televisões para verem as novelas e essas tangas todas, enquanto que a minoria pode assim gastar o seu dinheiro no financiamento da cultura, das artes e das ciências.”

    Concordo completamente. Só que não funciona.

    Não funciona por duas razões. Primeiro é que a minoria que realmente aprecia as coisas da cultura é menor do que parece: apenas é prestigiante falar de literatura, ciência, filosofia, artes. A segunda é que a esmagadora maioria da pessoas que até apreciam essas actividades não estão dispostas a pagá-las, e caras. Porquê? Por duas razões. Por um lado, porque são hipócritas e não as apreciam assim tanto como gostam de dizer. Por outro, porque têm a ideia absurda de que essas coisas devem ser gratuitas. Se forem gratuitas, são de aplaudir; se forem pagas, ficam conspurcadas pelo comércio e devem ser evitadas. Ora, eu vejo a mentalidade borlista que existe na Internet e nas comunidades de software como uma extensão desta mentalidade geral. Daí eu chamar-lhe aristocrática: é a ideia de que os sofistas eram uns idiotas porque pediam dinheiro pelas aulas que dava, ao passo que Platão, por ser rico, podia viver se pedir dinheiro aos seus alunos (se é que não pedia, coisa que não acredito).

    O seu último parágrafo põe o dedo na ferida. Ninguém quer reconhecer isso, mas o que se passa é que uma minoria de intelectuais impõem escolhas que a maioria jamais aceitaria se pudesse votar nelas. Parabéns por colocar a hipocrisia de modo tão claro.

    Mas há um passo que me parece errado no seu comentário. Depois de reconhecer que o sistema mais honesto implicaria existir menos artes, ciências e cultura, burila então uma espécie de argumento a favor do sistema de financiamento público. Mas o argumento não funciona. Só seria defensável o financiamento público se uma parte significativa da população valorizasse coisas com a astronomia ou a filosofia, e isso é puramente simplesmente falso — na melhor das hipóteses, valorizam a ciência que permitir descobrir tecnologias de entretenimento ou médicas. Nada mais. E portanto só isso poderia legitimamente ser financiado com o dinheiro das pessoas, através de impostos.

    Repare, eu não estou a dizer que devemos acabar com o actual sistema público de financiamento, até porque eu vivo dele e não vejo alternativa que funcione. Tudo o que quero é chamar a atenção para esta verdade desagradável, para trazer algum ar puro a muitas das conversas parvas que se ouve por aí sobre jornais, comércio, Internet, livre acesso e as maravilhosas borlas digitais.

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  8. Caro Desidério,

    O meu último comentário não teve qualquer intenção de defender o sistema actual de financiamento público. Algumas coisas que disse podem é ser o modo como o defendem (ou defenderiam, se precisassem) aqueles que têm algum interesse em que ele persista tal como está. Era um possível argumento, não a minha defesa.

    Quanto à questão de aquele modo honesto de financiamento não funcionar, isso também eu concordo, mas o problema é justamente esse: por que tem de funcionar? Por que temos de ter um artes, ciência e cultura de qualidade (supondo que o financiamento promove a qualidade)? É que a maioria não tem financiamento análogo para as suas frivolidades (apesar de por vezes se poderem regozijar com grandes financiamentos, como para estádios de futebol e outras tantas merdas). E isto também pareces estar consciente, pois vai de encontro ao que disseste:

    "Só seria defensável o financiamento público se uma parte significativa da população valorizasse coisas com a astronomia ou a filosofia, e isso é puramente simplesmente falso — na melhor das hipóteses, valorizam a ciência que permitir descobrir tecnologias de entretenimento ou médicas. Nada mais. E portanto só isso poderia legitimamente ser financiado com o dinheiro das pessoas, através de impostos."

    Ou seja, há um financiamento para certas actividades que apenas uma minoria valoriza e que funciona pelo menos no sentido em que (1) permite o sustento daqueles que estão por detrás delas e (2) não só não as deixa cessar como até as fomenta. Mas, por outro lado, não há um financiamento público para dar de comer a quem só quer ficar em casa a ver futebol e novelas (e já agora numa televisão ultra fina HD de 108 cm).

    A minha intuição diz-me que isto só pode ter acabado por vir a ser assim porque de alguma forma se julgou que aquelas coisas merecem ser financiadas para lá dos bolsos dos seus intervenientes directos, enquanto que com as outras se deve aplicar o autofinanciamento.

    No meu ententer, o que falta então para começarmos a ter mais honestidade no sistema de fincanciamento público é, por um lado, mostrar à maioria o que justifica tal merecimento de financiamento para as actividades da minoria e, por outro, o que invalida que haja semelhante financiamento para as actividades da maioria.

    Sem que isto se mostre, acho que nem vale a pena procurar um sistema diferente, mais honesto em si mesmo, pois nem há honestidade suficiente para se tentar justificar o actual (com todas as deficiências que possa ter), preferindo-se antes a fruição injustificada do sistema e a acomodação da maioria.

    Chamar a atenção para a verdade desagradável do actual sistema de financiamento público parece-me um bom começo; contudo, o problema está em que esta verdade só é desagradável ou para algumas poucas pessoas honestas no meio daquela minoria, ou então para a maioria que, se consciente, se vê de algum modo prejudicada.

    Mas não são nenhumas destas que precisam de ser mais honestas para trazer honestidade ao sistema. As primeiras porque já são honestas (prova disso é que podiam ser simplesmente egoístas e no entanto acham esta verdade desagradável mesmo quando dela beneficiam); as segundas porque honestas ou não, são elas as prejudicadas, financiando algo sem o quererem.

    Aqueles que fazem parte daquela minoria e que, pelo contrário, vêem neste sistema algo agradável, é que precisavam de ser mais honestos. Enfim, talvez com uma boa quantidade de "ar puro" se consiga fazer com que a maioria deixe de se acomodar a esta verdade desagradável.

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  9. Estamos de acordo no essencial, parece-me.

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  10. Transcrição do post http://kntz.com.br/archives/1920

    A ignorância pessoal e o papel higiênico da publicidade.

    "Mas qual é o problema de depender da publicidade, afinal? A maior parte das pessoas prefere usar o GMail gratuitamente, vendo publicidade todos os dias, do que pagar uns míseros 20 euros por ano pelo serviço — ao mesmo tempo que paga 50 euros por mês para ter acesso à Internet em casa. Num certo sentido, a publicidade é até benéfica: obriga os produtores de bens e serviços a fazer o que as pessoas realmente querem. Ou seja, obriga as televisões a fazer informação fantasiosa, populista e de má qualidade, porque é isso que as pessoas preferem; obriga as empresas de revistas e jornais a publicar cinco revistas de palermices, para ganhar dinheiro e conseguir financiar uma revista com informação de qualidade, e obriga os jornais de qualidade, como o Público, o Expresso, o Sol ou o Diário de Notícias, a publicar na sua maior parte palermices, para poderem chegar a um número maior de pessoas. Qual é o problema? A publicidade é o grande soro de verdade da humanidade, corroendo todas as hipócritas declarações de amor fiel às artes, à informação de qualidade, à filosofia e às ciências."

    Comprar e vender ideias
    Desidério Murcho. Universidade Federal de Ouro Preto.



    Se não entendeu o título acima, você é uma das causas do caos. E precisa fazer um esforço intelectual para ler este texto e entender. Obviamente que seu interesse em chegar até esta linha já é bem louvável. Há esperança em sua vida. E saiba que poucos irão além, partindo desinteressados para outros entretenimentos menos exigentes. Mas você continua aqui, firme. E merece ser considerado pela tentativa de saber, por si mesmo, um pouco mais do que o pouco que lhe dizem.

    Sim, este é um texto pessoal e parecerá louco aos desacostumados com a sanidade.

    A estrutura social em que vivemos, este ambiente de compra e venda que as filosofias aceitam chamar de capitalismo, tem a sua manutenção e permanência garantidas pelos sistemas de comunicação existentes. Os principais são nossas relações pessoais: as famílias e as relações de vizinhança - aqueles com quem compartilhamos espaços físicos ou virtuais - em que símbolos e valores são passados de geração para geração e de convivência para convivência, oralmente, visualmente, sinestesicamente. Principais por serem imediatos, isto é, não possuem uma mídia conceitual diferente que nossos próprios sentidos, mesmo que intercalados por instrumentos de comunicação, seja um telefone ou um messenger. Enfim, além desses principais, temos a presença de sistemas de comunicação impessoais, aqueles que os ideólogos chamam de comunicação de massa, comunicação industrial ou indústria cultural.

    Acostumados às relações pessoais desde a infância, poucos conseguem discernir entre um discurso pessoal e um discurso personalizado, e a observação do amigo ao lado concorre em desvantagem com a dica astrológica impressa no jornal. Essa deficiência de percepção valorativa, entre uma mensagem contextualizada e outra descontextualizada é que permite a transformação de significados em mercadoria e, ao mesmo tempo, torna as vidas pessoais desprovidas de sentido se não sujeitas à massificação da moda, isto é, passíveis de classificação tipológica.

    E antes que me chamem de dualista, explico, esses dois sistemas de comunicação são identificados como "realidades" em outros discursos filosóficos. Chamam de real/virtual, material/espiritual, oral/escrito, mundo da vida/sistema, estrutura/infraestrutura etc. Mas ficamos aqui com a alternativa mais pragmática, identificamos apenas os modos pessoal e impessoal. Não como realidades distintas, mas como sistemas de interlocução e, por isso mesmo, mixados em nossas consciências vivas, indistintamente. E não vou me aprofundar aqui em nenhuma viagem antropológica existencial ou fenomenológica. A questão ainda é a inicial, a relação entre a ignorância pessoal e as falhas da higiene cultural distribuída pelos meios de comunicação comerciais, tudo incluído, jornalismo, publicidade e relações públicas (compreenda que o livro, o teatro, o cinema, a tv, o museu e a música não são propriamente meios de comunicação, mas portadores de mensagens dentro dos meios conhecidos como escrita, imagem e som).

    O título deste texto, entenda agora, se refere justamente à distância entre o conhecimento socialmente compartilhado a partir da referência pessoal parcializada e o conhecimento socialmente compartilhado a partir da referência impessoal totalizada.

    Eis as perguntas que surgem: Por que somos tão burros individualmente se a sociedade produz tanto conhecimento, livre, público e fartamente distribuído? Por que a publicidade da cultura humana para si mesma é falha? Por que o bom senso é substituído pelo contrassenso?

    A primeira resposta é que essas acima são perguntas falseáveis, já respondendo antecipadamente o que questionam. Pois não somos tão burros e o conhecimento não é tão livre, nem a publicidade é absolutamente falha e muito menos falta de bom senso é sempre contrassenso. Elas têm aparência de perguntas importantes, não são.

    Essas perguntas, entretanto, servem de exemplo sobre o problema que tratamos, a supervalorização do dado como dado em detrimento do dado percebido, a preferência pelo discurso reproduzido ao discurso produzido individualmente. Preferimos a publicidade à arte. Fato. E fazemos de conta que é o contrário disso. Fato. Qual o problema dos dois comportamentos? Nenhum. Funcionamos biologicamente assim, gostamos de açúcar porque nos dá energia e não pelo fato de ser doce. Se não fosse doce, gostaríamos mesmo assim. O doce é a publicidade do açúcar. O marrom é a publicidade do chocolate. A simulação é a publicidade da religião. A bunda é a publicidade da mulher. Por essa razão, o papel higiênico da publicidade é limpar o grosso e deixar o fino, a referência subjetiva mínima necessária para atrair multidões, pessoa a pessoa. E essa aposta higiênica é causa e consequência da ignorância pessoal disseminada. A angústia do diferencial exigido enclausurado no previsto. Superficial e higienicamente aceito. Simulacro da simplificação.

    Mas a vida não é simples. A publicidade não precisa ser simples. Você não precisa ser ignorante. E anunciantes precisam da consciência de que idiotizam seus produtos e serviços se tratam seus consumidores como idiotas. Mas essa consciência só seria possível se anunciantes não fossem humanos socialmente integrados e criados debaixo dos mesmos sistemas de comunicação que já citamos.

    A solução passa pela destruição de uma encruzilhada. Uma solução política com atuação econômica. E a idéia é muito fácil de executar. Da mesma forma que a indústria de cigarros foi obrigada a avisar dos malefícios do tabaco em suas embalagens e comerciais, deveríamos incentivar que todas as peças de comunicação, sem exceção, fossem também peças educacionais. Assim, todos os comerciais de automóveis deveriam conter dicas de segurança no trânsito, ou ser completamente apenas tutoriais de como dirigir bem; todos os comerciais de varejo deveriam conter dicas de economia doméstica, ou ser completamente tutoriais de como fazer contas e viver bem; e assim por diante. Não preciso aqui dar uma centena de exemplos. Mas ao contrário da obrigatoriedade do aviso sanitário para os cigarros, os anunciantes poderiam ser incentivados com descontos em impostos por anunciar com didática e não mais precisariam se restringir a apoios ou doações a entidades beneficentes. Assim, todo material de comunicação comercial teria dois compromissos, um de venda e outro de cultura.

    Anuncie mais, pague menos impostos, divulgue sua marca, distribua cultura.

    Além de ser uma solução cultural, eliminando o círculo vicioso da distribuição de bobagens, cria-se um contexto ideal para geração de conteúdo interessante em todos os canais de comunicação. Poderemos ter centenas de canais de TV e milhares de sites de internet devidamente remunerados. Assim teremos os mecenas de volta, talvez em maior número que o de artistas e jornalistas, e os sistemas de comunicação impessoal se tornarão qualitativamente mais úteis.

    E o detalhe, não se trata de idealismo, é uma alternativa social e economicamente possível. Melhor ainda, viável. Não precisamos ser utópicos, apenas devemos colocar a cenoura diante dos focinhos certos. Uma vez as verbas publicitárias tenham isenção de impostos quando direcionadas pedagogicamente, as criatividades e as novidades culturais teriam maior valor no mercado. A demanda pela produção de cultura inédita aumentaria. Softwares, audiovisuais e traquitanas diversas teriam patrocinadores felizes, na fila, esperando a oportunidade de associar suas marcas à produção e distribução de conhecimento.

    Ah, você duvida. Que bom.

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