10 de março de 2009

Exigências éticas da filosofia

Fazer filosofia implica exigências éticas, ou é algo moralmente neutro? R. W. Hepburn argumenta que sim, no artigo "A Ética da Prática Filosófica". O que pensa o leitor?

5 comentários:

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  2. Desidério:

    Consideremos uma das muitas áreas da "prática filosófica" referida por Hepburn: o ensino da filosofia.

    O racismo é - creio convictamente - moralmente errado. Se um aluno defender nas minhas aulas posições racistas (mas nunca passando das palavras aos actos, ou seja, nunca insultando nem agredindo fisicamente colegas de outras raças) deverei penalizá-lo?
    Ou deverei manter a neutralidade moral e avaliar apenas os seus conhecimentos filosóficos e a sua capacidade crítica e argumentativa?
    Porque - não nos iludamos - é possível uma pessoa inteligente, com conhecimentos filosóficos e capacidade crítica e argumentativa ser racista.
    A posse dessas qualidades diminui a probabilidade disso acontecer, mas não a impossibilita - como a história demonstra.

    Tenho procurado manter essa neutralidade e tenho discordado de colegas que, ao abrigo de parâmetros equívocos como as famigeradas "atitudes e valores", defendem a penalização das opiniões racistas.
    (Tenho também verificado que tais colegas não conseguem evitar uma certa derrapagem: começam por penalizar e considerar anti-filosóficas coisas mais consensuais como o racismo, o sexismo e os preconceitos contra homossexuais mas depois estendem a penalização e o anátema de anti-filosófico àqueles que, por exemplo, discordam do aborto e da adopção de crianças por homossexuais.)

    Indo agora além do ensino da filosofia, julgo que o compromisso ético da filosofia diz respeito apenas àqueles aspectos básicos das relações humanas que são pré requisitos para que haja comunicação e argumentação. Mas, se bem percebi, é só a esses aspectos que Hepburn se refere: "honestidade e equidade para com os oponentes na argumentação", etc. Não diz respeito a muitos outros temas morais - como o aborto, a eutanásia, a pobreza, os direitos dos animais, etc.
    Por isso, tanto se pode filosofar a favor como contra o aborto - ou o racismo. E a qualidade dos argumentos avalia-se depois deles serem apresentados e não a priori, em função de quaisquer convicções morais.

    Cumprimentos

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  3. Concordo contigo. As exigências éticas da filosofia, e do seu ensino, não implicam penalizar as ideias que por acaso são vistas como obviamente falsas num certo momento histórico. Pelo contrário, as exigências éticas da filosofia implicam que não se penalize o estudante que defender ideias consideradas inaceitáveis no contexto histórico em que vivemos, pois exigem a avaliação cuidadosa de todas as ideias e argumentos, por mais politicamente incorrectos que sejam. E, claro, nenhuma argumentação a favor do racismo, por exemplo, será sólida. A ansiedade com que muitas pessoas querem penalizar quem pensa o que é politicamente incorrecto é por saber que, no fundo, não sabe explicar adequadamente o que há de errado com tais ideias.

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  4. É curioso as pessoas pensarem na moral como uma espécie de cão-de-guarda para as outras disciplinas, sempre que estas "ponham em causa" algum valor da moda ou ideia querida. É uma postura de ignorância militante.

    A noção de que questionar ideias é "perigoso" só pode fazer sentido no contexto em que sabemos que uma ideia querida é ou pode ser falsa e que descobrir a sua falsidade teria consequências desastrosas. Mas isto já implica a ideia de que o melhor é um mundo baseado na mentira política, que nos seduza com as ideias mais queridas, mas sem qualquer valorização da verdade.

    Isto em o efeito lateral de nos impedir de fundamentar apropriadamente crenças moralmente importantes. É o espírito da ideologia, da macacada e da guerra universal por fazer valer os meus preconceitos contra os preconceitos do vizinho.

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  5. Este é o novo link do artigo: http://criticanarede.com/fil_eticaefilosofia.html

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