12 de março de 2009

frases musicais e proposições

Tome-se como exemplo as seguintes frases:

a) "a água é H2O"
b) "water is H2O"
c) "l'eau est H2O"
d) "Wasser ist H2O"

Todas exprimem a mesma proposição, quer dizer, todas são instanciações ou exemplificações da mesma proposição em línguas diferentes. Quando dizemos que "a água é H2O" é verdadeira, não pretendemos afirmar que a sequência particular de fonemas em língua portuguesa ou a sequência particular de caracteres gráficos é verdadeira. O que é verdadeiro é a proposição que a frase exprime. Enquanto as locuções e as inscrições são objectos irrepetíveis, as proposições são repetíveis.

Considere-se agora uma "frase" musical (o termo faz parte do léxico musical, embora seja claramente metafórico falar em "frases musicais"), por exemplo, os primeiros dois compassos do tema das Variações Goldberg (ou os primeiro quatro compassos, para encher mais o ouvido), chamemos-lhe «C2».

a) C2 executada em oboé.
b) C2 executada em clarinete.
c) C2 executada em piano.
d) C2 executada em bandolim.

Ora, se a proposição no exemplo anterior, o nosso objecto repetível, não se confunde com as sequências particulares de fonemas ou de caracteres gráficos, nem, por extensão, com as sequências particulares de acontecimentos cerebrais no sujeito que lê ou profere a frase, então parece que no exemplo da frase musical, tão-pouco esta se pode identificar com as sequências particulares de sons produzidos por este ou por aquele instrumento. Outra coisa tem de justificar o facto de se tratar da mesma frase musical em todos esses suportes. A solução parece estar em eliminar tudo aquilo que é irrepetível e manter apenas o que é repetível: a estrutura. Mas esta, bem vistas as coisas, não é algo que tenha propriedades audíveis, como o timbre (a «cor» de um instrumento particular). Assemelha-se mais a um objecto  do tipo a que uma proposição pertence. Mas também é muito diferente de uma proposição - nomeadamente, não tem uma relação especial com estados do mundo, não tem valor de verdade, etc.

1 comentário:

  1. Gostaria de deixar aqui algumas ideias sobre o assunto, na sequência do que disseram o Vítor e restantes comentadores nas várias caixas de comentários.

    Alguém sugeriu que uma dada obra musical é o que existe na mente do seu autor. Assim, a obra Variações de Goldberg é o que está na mente de Bach. Nesse caso, as Variações de Goldberg já não existem, dado que Bach já morreu (a mente onde elas existiam já não existe).

    Foram objecções como esta que levaram alguns filósofos e musicólogos a adoptar o platonismo musical, ou seja, a ideia de que uma dada obra musical é um universal eterno que existe, não na mente do compositor, mas numa espécie de terceiro reino platónico. Sendo assim, Bach não é o criador das Variações Goldberg, mas o seu descobridor e as Variações de Goldberg já existiam antes de Bach ter nascido.

    Ora, isto enfrenta o mesmo tipo de objecções que enfrenta o realismo platónico acerca dos universais e dificilmente é aceitável para quem gosta de ter a navalha de Ockham sempre à mão.

    Uma alternativa a isto não pode ser que as Variações Goldberg são a partitura escrita por Bach, dado que a partitura é papel com tinta e papel com tinta não é música. A música é essencialmente som organizado e uma obra musical é um evento sonoro.

    Também não é muito prometedor dizer que as obras musicais são particulares concretos. Se assim fosse, quais dos milhares de execuções particulares das Variações Goldberg seria a obra Variações Goldberg? Além disso, não faria sentido dizer que as Variações de Goldberg seriam da autoria de Bach, a não ser que estejamos a falar de uma execução da obra pelo próprio Bach, e só essa. Portanto, ninguém mais ouviu as Variações de Goldberg a não ser os felizes contemporâneos de Bach que assistiram a essa execução.

    Uma tentativa de evitar estes sarilhos é defender, como defende Goodman, por exemplo, que uma dada obra musical é a classe de execuções concordantes com a partitura. Esta é uma solução tipicamente nominalista (não há universais). Mas também aqui há problemas, pois não se sabe bem o que é isso de ser "concordante" com a partitura. Em que sentido duas execuções, uma mais lenta do que outra, são concordantes com a partitura? Será que uma execução com uma nota errada das Variações Goldberg é ainda uma execução das Variações Goldberg? E com dua notas erradas? E com três? E... com quantas? Isto já sem falar dos timbres e outros aspectos referidos pelo Vítor e alguns outros comentadores.

    Isto são só dificuldades, não receitas.

    Já agora, foi também feita a comparação entre a música e a literatura. Mas a música não dispõe de uma linguagem, ao contrário da literatura. Na música, tal como na literatura, há uma sintaxe. Mas não há uma semântica. E só com sintaxe não há linguagem. Por isso é ridículo afirmar, como muitas vezes se afirma, que a música é uma linguagem universal, através da qual pessoas de diferentes culturas se conseguem entender. É o tipo de conversa da treta, que nada tem que ver com reflexão séria.

    Em suma, temos aqui problemas dos bons, dos filosóficos.

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