1 de março de 2009

Há algo errado na pornografia?


Muitas pessoas acham que há algo moralmente errado na pornografia. Algumas vão mesmo mais longe a concluem que a pornografia devia ser proibida.

Quais são os seus argumentos? Encontro vários.

1. A pornografia leva à instrumentalização das pessoas envolvidas, tratando-as como meros meios para os nossos fins e não como pessoas dignas de consideração moral, o que é inaceitável. Há quem prefira dizer que a pornografia trata as pessoas como objectos e não como pessoas com os seus afectos, as suas aspirações e os seus direitos.

Este argumento parece-me muito fraco. Em primeiro lugar porque só há instrumentalização se não houver consentimento das pessoas envolvidas ou se estas forem forçadas pelas circunstâncias da sua vida a consentir. Uma pessoa que consinta livremente em ser tratada como um mero objecto físico, não está a ser instrumentalizada. E uma pessoa que consinta livremente em fazer algo em troca de dinheiro apenas para alguém retirar daí prazer sexual também não está a ser instrumentalizada.

Mas é falso que não haja pessoas que consintam livremente tal coisa. Logo, nesses casos não há instrumentalização.

Além disso, a instrumentalização não é, só por si, justificação para proibir seja o que for. Caso contrário, também teria de se proibir as pessoas de trabalhar em troca de dinheiro (quase todas). Uma pessoa que trabalhe a carregar tijolos numa obra, por exemplo, também está a vender o seu corpo e a sua força de trabalho. E é só porque lhe pagam que o faz. Mas não passa pela cabeça de alguém dizer que isso é errado ou que devia ser proibido.

Qual é, neste aspecto, a diferença entre um modelo fotográfico e um actor pornográfico? A diferença é que num caso se trata de actividades sexuais e no outro não; não é o facto de um estar a ser instrumentalizado e o outro não. Portanto, este argumento não colhe.

2. A pornografia leva à subjugação das mulheres. Este argumento é uma particularização do anterior e assenta na ideia de que as mulheres são levadas à pornografia empurradas, contra a sua vontade, pelas circunstâncias em que vivem.

Este argumento quase não merece ser discutido, dado ser tão obviamente fraco. Mesmo que fosse verdade que todas as mulheres fossem subjugadas contra a sua vontade (o que não é verdade), isso não seria suficiente para reprovar a pornografia, pois não se aplicaria aos filmes pornográficos só com homens.

Além disso, há muita pornografia que nem sequer usa homens nem mulheres, como é o caso das histórias pornográficas, das esculturas pornográficas ou da banda desenhada pornográfica. Posso pintar durante a noite um grande mural pornográfico na minha rua, sem sequer usar qualquer modelo.

A resposta a isto é, muitas vezes, que aí é a própria ideia de mulher como um ser submisso que está a ser promovida e que isso deve ser impedido. Mas, mais uma vez, a pornografia não envolve apenas as mulheres.

3. A pornografia incita à violência, dado que muita violência está ligada à pornografia. Ora o que incita à violência deve ser impedido. Logo, não devemos permitir a divulgação da pornografia.

Para avaliar este argumento precisamos de saber se a premissa que diz que a pornografia incita à violência é verdadeira. Isso é algo que só investigações empíricas podem mostrar. Li que houve estudos nesse sentido, em que se expôs à pornografia grupos de pessoas violentas (delinquentes, etc. ) e grupos de pessoas não violentas e que as violentas aderiam mais à pornografia e consumiam mais do que as outras.

Ma será que isto mostra que é a pornografia que leva à violência? Não será antes que essas pessoas consomem mais pornografia porque são violentas? De resto, há muitas outras coisas que até podem levar à violência, mas que não devem nem podem ser proibidos por isso. Por exemplo, o futebol leva muitas vezes à violência. Mas não passa pela cabeça das pessoas proibir o futebol.

4. Muitas pessoas sentem-se chocadas e ofendidas com a pornografia e têm o direito de não o ser, dado que é sentido por essas pessoas como um dano pessoal.

Este argumento também é mau, pois nesse caso poderíamos proibir seja o que for, dado que qualquer pessoa se pode sentir chocada e ofendida com qualquer coisa. Tudo o que uma pessoa que se sinta chocada com isso tem de fazer é evitá-lo; não é impedir de usufruir disso os outros que não se sentem chocados.


5. Se impedimos as nossas crianças de consumir pornografia, então é porque intuitivamente sabemos que a pornografia não é uma coisa boa.

Bom, eu não deixo o meu filho de 11 anos andar com mais de 5 Euros na carteira, nem conduzir automóveis, nem deitar-se às tantas da noite, nem ver horas seguidas de desenhos animados. Será que isso mostra que há algo errado em andar com mais de 5 euros na carteira, conduzir automóveis, deitar-se às tantas, etc.? Claro que não. Apenas significa que não é adequado para aquela idade, tal como não é adequado dizer ao meu filho para ler a Divina Comédia, de Dante. De resto, não me passa pela cabeça mudar de canal quando aparecem mulheres (ou homens) nuas na TV e o meu filho está a ver.

Aliás, mesmo que isso fosse moralmente errado, não seria razão suficiente para o proibir. Também achamos errado mentir e não nos passa pela cabeça proibir a mentira, embora seja recomendável evitá-la.

A pornografia pode ser uma coisa feia e de mau gosto. Mas daí a censurar a pornografia vai um passo enorme. As pessoas têm o direito de consumir coisas feias e de mau gosto.

Assim, não se vê o que há de errado em representar explicitamente actos sexuais com o fim exclusivo de provocar excitação sexual.

35 comentários:

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  2. Boa tarde, concordo genericamente com o que disse, contudo há um argumento contra a pornografia que não analisou e que me parece ser um pouco mais forte e coerente que esses que expôs.

    É ele o seguinte: a criminalização do lenocínio ou auxílio à prostituição deve-se, não à tutela da “moral sexual” mas à tutela da liberdade sexual da prostituta uma vez que há um perigo abstracto de violência sobre aquele que se prostitui e perigo, igualmente abstracto, de redução da sua liberdade. O meio da prostituição está, normalmente associado ao tráfico de pessoas e tenta-se evitar este dano com a proibição da prostituição organizada e auxiliada. Este argumento pode ser aplicado analogicamente por igualdade de razão à pornografia quando utiliza modelos Humanos uma vez que estamos perante estruturas empresariais semelhantes ou até melhor organizadas que no lenocínio.

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  3. Obrigado pelo comentário, J.M.P.O.,

    Se bem compreendo o seu argumento, o que diz é que a pornografia está muito ligada ao negócio da prostituição, que, por sua vez, assenta na violência sobre as prostitutas, reduzindo, assim, a sua liberdade sexual. É a ideia de que a pornografia se alimenta da escravatura sexual das mulheres.

    Este argumento é, digamos, um desenvolvimento do meu argumento 2, dando-lhe mais força.

    Mas repare que aí o que é censurável não é a pornografia em si, mas o negócio que a alimenta e suas consequências para a liberdade das mulheres.

    De qualquer modo, isso não se aplica a toda a pornografia. Há banda desenhada pornográfica, livros (para ler, não para ver) pornográficos e imagens pornográficas só com homens, por exemplo.

    O seu argumento deixa toda esta pornografia de fora.

    Já agora, se há práticas pornográficas violentas ou que limitam a liberdade dos intervenientes, o que é censurável é a violência e a limitação da liberdade, não a pornografia. Também há casamentos violentos e limitadores da liberdade das pessoas e não é por isso que censuramos o casamento.

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  4. A ideia é mais ou menos essa mas com alguns reparos. Desde logo é certo que, como disse, só se aplica quando há pessoas a fazer o trabalho. Este argumento parece-me merecer algum acolhimento pelo seguinte: não visa tutelar a moral sexual nem estética nem subjectivismos ou morais balofas (apesar de o fazer reflexamente) nem censurar a pornografia (como lhe disse no primeiro comentário) mas apenas prevenir uma situação de potencial e forte de coarctação da liberdade dos que a praticam.

    Um locus comum para explicar este raciocínio (dos, chamados pela doutrina do Direito, crimes de perigo abstracto, dos quais o auxilio à prostituição é um exemplo e a pornografia, não sendo, poderia ser por igualdade de razão) é o que se aplica nalguns crimes ou contra-ordenações rodoviárias como passar um semáforo vermelho ou conduzir sob efeito do álcool. O que se visa proteger é a vida e integridade física dos que circulam na via, no entanto, não é necessário que estes bens sejam efectivamente violados bastando o “risco intolerável” que surge para esses bens com essas actuações. Ou seja com a proibição de conduzir sob o efeito do álcool, visa-se impedir os acidentes e os danos causados na vida e na integridade física mas, mesmo que conduzindo alcoolizado não cause esse dano cometo um crime/ contra-ordenação (dependendo do grau de alcolémia) porque há uma forte probabilidade de isso, em abstracto, acontecer.

    O argumento parece-me bastante ponderoso (e não só a mim porque a criminalização do lenocínio (que deste tipo de crimes é capaz de ser, a par com o jogo ilícito, o mais contestado como crime de perigo) já foi ao Tribunal Constitucional e, apesar de oferecer dúvidas, foi declarado não inconstitucional apesar o acórdão ter sido redigido, salvo erro, pela, na altura, Conselheira Prof. Doutora Maria Fernanda Palma e ela para além de ter uma excelente formação filosófica é adepta fervorosa (como a maioria dos penalistas em portugal) do princípio do dano de Mill).

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  5. Mas volto a repetir, na senda do que também o senhor disse, há censurabilidade, não da pornografia mas da limitação da liberdade sexual e da dignidade da pessoa que sem o seu consentimento livremente formado ou seja, através de coacção, se vê explorada o que, em abstracto, pode ocorrer.

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  6. É instrumentalização se, e somente se, não houver consentimento ou for algo forçado.
    Mas, porque não é também intrumentalização o facto de não se atender à autenticidade do outro enquanto outro? Se queremos apenas egoticamente a conquista individualista prazer (sem considerar os outros aspectos do humano - como o amor), não estamos implicitamente tb a instrumentalizar, uma vez que estamos a castrar a totalidade daquilo que é o humano? Ou será que humano é apenas uma vertigem, um objecto entre objectos?

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  10. Aí está a confusão... fazer analogias absurdas e sem sentido. Como é que um jogo de xadrez poderia ser uma forma de comunicação com o totalidade que é o outro (não estou a falar de coisas transcendentes de cariz mágico ou até mítico como você diz que eu disse, mas afinal só está a colocar palavras indevidas na minha boca - algo que certamente você, supostamente filósofo [?] analítico está a falhar redondamente)? Como é que um jogo de xadrez pode comunicar e expressar o amor humano? Como é que uma pessoa num jogo de xadrez se pode doar ao outro, numa doação sem fim?

    Dizer todo contente que sexo = xadrez é um absurdo!
    Mesmo a pessoa mais simples sabe ver bem as diferenças.
    Porque é que os casais em núpcias não deveriam jogar xadrez em vez de fazer sexo?


    Diz que eu disse que "Será que fazer sexo com alguém sem imaginar essa pessoa e nós próprios como coisas transcendentes é instrumentalizar a pessoa?"
    Pois, mas a sua suposta analiticidade (?) anda a imaginar muita coisa mesmo.
    O que eu disse e você ignora (talvez porque esteja dogmaticamente confortável no seu paradigma que pensa que é o único certo e inabalável) é que "será que fazer sexo com alguém sem que o amarmos (e tudo o que isso implica) não estaremos a instrumentalizar?

    O sexo está num horizonte do amor humano, pois, é uma forma (entre outras) de expressar, comunicar e viver o amor humano. E querer castrar tudo, para ter apenas e só sexo (sem atender à pessoa do outro) numa satisfação individualista de prazer, penso que é mt redutor? De que vale estar empanturrado de "comer" objectos, se estás cheio de fome de sentido e realização plena?

    Se sexo for como tu dizer: apenas biologia; então porque não se dá nas aulas de educação sexual apenas e só matérias de biologia? É sexo se, e apenas se, é genital? Ou o horizonte sexual poderá englobar (não exclusivamente) outras dimensões como a amizade e o amor?

    O que tu dizes é simplesmente um absurdo para milhares e milhares de seres humanos que efectivamente vivem o dom de si, e se sentem realizados e com sentido ao fazerem isso.

    Existe lama e estrelas, se pretendes ficar na lama - és livre!

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  11. Caro J.M.P.O.,

    Ficou claro que estamos de acordo num aspecto fundamental: nada há de intrínsecamente censurável na pornografia. E também aceito a ideia de que, havendo perigo abstracto, e desde que esse perigo configure um risco intolerável, se deve intervir, aplicando o princípio do dano. Isto depende, contudo, de se mostrar que, além do perigo abstracto, esse perigo representa, de facto, um risco intolerável, isto é, até onde consideramos o risco tolerável e a partir de quando o consideramos intolerável.

    Apurar isto é não só uma questão empírica (que dados empíricos há que mostrem uma forte conexão entre a pornografia e a limitação da liberdade das mulheres) mas também de uma noção do que é tolerável, tendo em conta que se estaria a impedir a limitação de uma liberdade à custa da limitação de outra liberdade.

    Isto sugere que a analogia com os casos, por si referidos, dos crimes ou contra-ordenações rodoviárias, não é uma boa analogia. Nestes casos, a criminalização de certos comportamentos que envolvem perigo abstracto, não implica a limitação de qualquer liberdade, em sentido substancial (duvido até que se trate aqui da aplicação do princípio do dano, tal como formulado por Mill, apesar de habitualmente ser assim justificado). Que sentido substancial de liberdade está em causa quando o estado intervém para me impedir de circular pela esquerda?

    Trata-se simplesmente de uma regra de ordenação do trânsito, que praticamente toda a gente aceita à partida. Claro que, havendo uma regra aceite por todos, quem a viole, mesmo sem causar um dano concreto, tem de ser penalizado. Caso contrário a regra de nada serviria. Isto está mais próximo de uma espécie de acordo tácito do que de uma intervenção em nome do princípio do dano (eu sei que não é assim que se costuma ver a coisa, mas não tenho de concordar com a doutrina corrente).

    Claro que o risco abstracto de limitação da liberdade das mulheres subsiste. Mas impedir isso não passa necessariamente pela criminalização da pornografia ou algo parecido. Tal como se faz em muitas outras actividades, o estado deve desenvolver meios de fiscalização dessa actividade, de modo a garantir que se desenrole dentro dos limites da lei: punir a violência, a escravatura sexual, etc., não a pornografia.

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  12. Teófilo, deixe-me intrometer. A analogia do Vítor não só faz sentido, como é altamente esclarecedora.

    Podemos tornar as coisas ainda mais claras se pensarmos no seguinte diálogo:


    Vítor: Quando jogamos xadrez com alguém, estamos a "doar-nos ao outro numa doação sem fim"?

    Teófilo: Claro que não.

    Vítor: E há algum mal em jogar xadrez com alguém?

    Teófilo: Não.

    Vítor: No sexo pornográfico estamos a doar-nos ao outro numa doação sem fim?

    Teófilo: Claro que não.

    Vitor: Logo, por que razão é aceitável não nos doarmos ao outro numa doação sem fim quando jogamos xadrez com alguém e é inaceitável não nos doarmos ao outro numa doação sem fim quando fazemos sexo pornográfico?

    Está a ver? Não é uma questão de ter estas ou aquelas crenças, é só uma questão de lógica.

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  13. Aires,

    É obvio que tanto no xadrez como no sexo pornográfico não há uma doação sem fim; mas daqui não se segue como condição suficiente que por ser aceitável não nos doarmos ao outro numa doação sem fim quando jogarmos xadrez, seja também necessariamente aceitável não nos doarmos ao outro numa doação sem fim quando se estabelece com alguém uma relação sexual. Pois, são de naturezas (ou contextos; ou jogos de linguagem; ou formas de vida) diferentes: xadrez é apenas e só um jogo de divertimento. E o sexo será só e apenas um jogo de divertimento em todos os casos posssíveis? Não poderá englobar outras dimensões? E se concluirmos que sexo pode englobar muitas outras dimensões será aceitável reduzir apenas a uma das dimensões castrando dogmaticamente qualquer outra que seja concomitantemente também realizadora de sentido?

    A analogia é profundamente errada, pois, foca apenas um e só um aspecto do todo que é o xadrez e do todo que é o sexo. E com aceitação desse apenas único aspecto (e a castração dogmática de todos os outros) quer fazer-se condição suficiente de aceitabilidade moral do outro elemento da suposta analogia. Ora, isto não representa uma analogia suficiente forte. Portanto, é uma questão de lógica um bocado manca.

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  14. Com os seus argumentos "parece" segundo a minha interpretação (passivel de equivocidade) transmitir o seguinte:

    p1 - tudo o que não é imoral podemos ver, publicar, recomendar, sem qualquer problema, pois, é bom.
    p2- toda a pornografia não tem nada de imoral.
    C - logo, toda a pornografica podemos ver, publicar, recomendar, sem qualquer problema, pois, é bom.

    Em, suma: é isto que pretende transmitir?
    Se não, poderia explicar melhor qual é a sua conclusão?

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  16. Mas onde foi buscar a ideia estranha de eu ou o Vítor andamos a dizer que a pornografia é boa, Teófilo?

    Creio que está a baralhar tudo. O seu raciocínio não faz sentido:

    - Não faz mal jogar xadrez com alguém sem nos doarmos ao outro;

    - Não há mal conversar com alguém sem nos doarmos ao outro;

    - Não há mal em cumprimentar alguém sem nos doarmos ao outro;

    - Mas faz mal ter relações sexuais com alguém sem nos doarmos ao outro.

    Não acha que precisa de explicar porquê esta diferença. Limita-se a repetir que é diferente. Mas é diferente porquê. Jogar xadrez com alguém e passear com alguém também são coisas muito diferentes.

    Qual é afinal o problema de não me doar ao outro quando tenho relações sexuais? Quando beijo outra pessoa também tenho de me doar ao outro numa doação completa?

    Explique lá isto de uma vez por todas e para ajudar a compreender melhor, deixe-me imaginar a seguinte situação: duas pessoas conhecem-se e sentem-se mutuamente atraídas fisicamente. Imagine que uma toma a iniciativa e pergunta à outra: Olha, Francisca, queres ter relações sexuais comigo sem nos doarmos um ao outro numa doação completa? E a Francisca diz que sim. A minha perguntá é: há algum mal nisto? É isto errado? Porquê?

    Já nem lhe pergunto o que quer dizer com isso de nos doarmos ao outro numa doação completa. Dou de barato que isso tem um significado qualquer misterioso.

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  17. Os dualismos e dicotomias anda sempre a perseguir-te... Mas porque raios é contraditório uma pessoa dar-se sem fim e outras actividades? Afinal, como diz Blondel, não é tudo acção? E como nós somos uns seres finitos e limitados, ou uns "quase-ser", porque não haver uma acção de inter-doação (ou amor) entre toda a humanidade de modo a sermos mais ser com e nos outros? Ou se queremos caminhar para uma objectivação total de tudo e de todos, não será um caminho para o nada-ser e para uma degradação maior do quase-ser?
    (Não estou aqui a criar um dualismo entre, por um lado, objectualização e individualismo, e por outro, uma eterna doação, mas em saber utilizar concomitantemente ambas as atitudes como um todo de modo a não cair nos excessos).

    Vitor, sexo sem doação infinita teria de ser mau, ou melhor, sexo sem amor é apenas a expressão da genetalidade furtuíta onde tudo vale, onde não se presta atenção à totalidade da outra pessoa, mas apenas ao teu interesse individualista de fazeres o que quiseres com o outro. Assim, como usas uma caneta para escrever e podes manipula-la e deitar fora, também com uma pessoa que faças sexo podes usa-la, manipula-la e deitar fora (ou até podes fazer um contrato com essa pessoa [de compra-venda] como fazes quando compras uma casa ou um carro). Agora, se atendermos à totalidade da caneta e à totalidade da pessoa será aceitável ter a mesma atitude com as duas? Será que não há qualquer diferença entre usar, manipular e deitar fora uma caneta e fazer o mesmo com uma pessoa?
    Parece-me que a tua pseudo-antropologia é uma antropologia dos objectos que podem ser usados, manipulados e deitados fora com qualquer legitimidade e com toda a moralidade. Agora questiono seriamente: Será isso é veemente realizador do humano e de sentido último da sua existência?

    Por ventura, é moral se, e apenas se, esta te obriga a usar, manipular e deitar fora os seres humanos como se fossem canetas?

    Perante a realização existencial do homem existem dois caminhos que podes seguir: alguém ou o nada. És livre de preferires (ou estares todo quentinho) no nada (ou na lama); mas se todo o ser humano preferisse o nada, então, já não haveria humanos, nem mundo, nem vida, etc...

    Como Cunningham parece referir (na "Genealogy of Nihilism"), a pior ilusão do nada (ou da lama), é pensar que o nada é alguma coisa, e fazer desse nada alguma coisa, investindo afinal tudo para nada.

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  19. "Explique lá isto de uma vez por todas e para ajudar a compreender melhor, deixe-me imaginar a seguinte situação: duas pessoas conhecem-se e sentem-se mutuamente atraídas fisicamente. Imagine que uma toma a iniciativa e pergunta à outra: Olha, Francisca, queres ter relações sexuais comigo sem nos doarmos um ao outro numa doação completa? E a Francisca diz que sim. A minha perguntá é: há algum mal nisto? É isto errado? Porquê?"

    O exemplo que deu constitui um problema ou não consoante a antropologia sexual que você tiver. Não estou a advogar que a minha interpretação é a única e definitiva interpretação. Aliás, como tudo o que existe há vários jogos de linguagem e várias formas de olhar para uma mesma realidade. Só estou céptico perante uma concepção de sexualidade que se está a abordar neste blog.
    Será que não há diferença entre usar, manipular, deitar fora uma caneta e fazer o mesmo (sexualmente) com um ser humano?

    Penso (mas sem qualquer certeza) que a sexualidade é uma forma especial de comunicar e expressar o amor humano; algo que um jogo de xadrez, nem um passeio, etc, o conseguem plenamente.

    Você falsamente diz que doação completa ao outro é algo místico ou misterioso. Quem foi que lhe disse isto?
    Por acaso, esta "doação completa ao outro" é uma acção bem prática e concreta - sinteticamente consiste em "morrer" para o meu egoismo (total individualismo) para "nascer" no outro (no encontro e enriquecimento existêncial). Portanto, é uma dinâmica de poder invertida (como Nietzsche reconhece) - Em vez de ser "vontade de poder" interesseiro, representa a doação completa ao outro uma "vontade de poder" de compaixão e criação com. Agora pode-se questionar qual é o "poder" que mais realiza em últimidade (e não em penúltimidade) o humano: o individualismo interesseio ou a doação ao outro? O nada ou o alguém?

    Se a Francisca tem relações sexuais sem doar-se totalmente ao João, então, constitui uma forma de "poder" intereceiro e individualista, mas será que isto irá realizar plenamente e últimamente estes dois seres humanos? Ou será apenas uma forma de vertigem?

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  20. Só estou a dizer o que penso. E tudo o que penso pode estar errado como ser limitado que sou; bem como tudo o que tu dizes pode estar errado... Somos finitos!

    Mais uma questão:

    Qual é afinal o sentido último e radical do ser humano?

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  22. O QUE É a "doação infinita ao outro" então?
    - é colocar de lado o meu individualismo e o meu interesse, e fazer feliz o outro na sua diferença.
    Isto constitui uma proposta... não é uma imposição!

    - Ainda achas que a vida sexual é um brinquedo, um ursinho de peluche que possamos pegar quando quisermos para nos divertir um pouco e depois deixámo-lo tranquilo e bem comportado na sua caixinha?
    Se o humano é um todo, e quando tenho uma relação sexual em que apenas quero uma só e apenas uma parte (o prazer individualista e interesseiro), então, não será uma forma de redução?

    - Amar (ou doar-me totalmente a) uma pessoa abrange a totalidade da pessoa; até ao ponto de dizer, como bem elucida Gabriel Marcel, "Tu não morrerás nunca". No amor aceita-se a pessoa completamente no seu passado, presente e futuro, e não apenas num estante vertiginoso em que se extrai apenas e meramente o prazer pelo prazer pelo impulso pelo individualismo pelo interesse pelo usar, etc...

    - Amor constitui um projecto de vida para quem o aceitar. Dos relatos que já vi e li, mesmo a nível filosófico, surge para muitas pessoas como resposta ao sentido último da existência e realização humana.
    Mas todos nós somos relativamente livres para seguir outro caminho que não esta proposta.

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  23. Pois, "má vontade programada e pré-fabricada contra o que raios imagines seja "o analítico"".
    Não contra a "filosofia analítica", mas contra o tipo de filosofia analítica apresentada neste blog.
    Se supostamente tiver má vontade, certamente será porque não responde realmente às grandes perguntas existênciais do humano, preferindo ficar por explicações reducionistas, biológicas, imanentistas, que eliminam a partida toda e qualquer explicação transcendental como irracional, que não expresam realmente a totalidade do real.

    É um desabafo... mas é isto que eu sinto.
    prefiro uma filosofia mais aberta, mais livre...

    Eu sei, Vitor, tudo o que eu digo pode estar errado (é a nossa condição humana).

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  24. Caro professor A. Almeida,

    Obrigado pela sua exposição inicial dos argumentos.
    Dos argumentos que apresentou, talvez faltará algum:
    - De facto, como refere, não vejo que a pornografia seja um mal em si.
    Porém, poderá ter consequências positivas ou negativas:
    - positivas - se ajudar a fantasiar e a criar mais dinâmica na relação sexual (para não cair na rotina).
    - negativas - quando a pornografia leva à patologia (dependencia/viciação sexual/pornográfica) -
    http://diario.iol.pt/noticia.html?id=901737&div_id=4071
    http://diario.iol.pt/internacional/sexo-fetiche-mulheres-saude-portugaldiario/985639-4073.html

    Algumas citações:
    - "O questionário, levado a cabo pela BBC Radio 1, mostra que 74 por cento dos terapeutas afirmam que o uso abusivo de pornografia na Internet causa problemas no relacionamento e é uma realidade cada vez mais comum."
    - "Uma terapeuta comentou em entrevista que um dos piores casos que tratou foi um homem que fazia sexo de 10 a 12 vezes por dia, e afirmou que com a disponibilidade da pornografia na Internet, os homens parecem se viciar mais rápido em sexo"

    Até que ponto não será a porngrafia imoral por levar a certos casos de doença e patologia (sexo-dependentes)?

    O que pensa disto...

    Saudações cordiais,

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  25. «Você falsamente diz que doação completa ao outro é algo místico ou misterioso. Quem foi que lhe disse isto?»

    Esta pergunta inocente é esclarecedora, Teófilo. Alguém tem de me ter dito isso, porque não posso ser eu a pensá-lo. Aí está o seu problema: não haver um Blondel, um Nietzsche, um Gabriel Marcel a dizer estas coisas. Tem de haver sempre alguém a dizer-nos o que pensar, pois não podemos ou não conseguimos pensar pela nossa cabeça.

    Esqueça lá o Blondel, o Marcel e pense directamente no que lhe é dito, caso contrário é afirmações grandiloquentes que não ajudam a esclarecer seja o que for.


    Por acaso, esta "doação completa ao outro" é uma acção bem prática e concreta - sinteticamente consiste em "morrer" para o meu egoismo (total individualismo) para "nascer" no outro (no encontro e enriquecimento existêncial).


    Isto parece-me sinceramente discurso automático e vazio, com umas metáforas pelo meio. Teófilo, não sei o que é isso de morrer para o meu egoísmo nem de nascer para o outro. Seja mais claro, por favor. Como é que se morre para o seu egoísmo quando se está a ter relações sexuais?


    «Portanto, é uma dinâmica de poder invertida (como Nietzsche reconhece) - Em vez de ser "vontade de poder" interesseiro, representa a doação completa ao outro uma "vontade de poder" de compaixão e criação com. Agora pode-se questionar qual é o "poder" que mais realiza em últimidade (e não em penúltimidade) o humano: o individualismo interesseio ou a doação ao outro? O nada ou o alguém?»

    Não percebo. Está a falar de quê? De sexo? Olhe, um pénis a entrar numa vagina é sexo, não concorda? Vê algum mal nisso? O que tem isso que ver com penultimidades e antepenultimidades?

    «Se a Francisca tem relações sexuais sem doar-se totalmente ao João, então, constitui uma forma de "poder" intereceiro e individualist»

    E se o João não estiver interessado em que a Franscisca se doe totalmente a si; se ele estiver apenas interessado que lhe ofereça o seu corpo por uns momentos?

    «Mas será que isto irá realizar plenamente e últimamente estes dois seres humanos?»

    Eu sei lá se os irá realizar ou não. Isso é com eles. Eles é que sabem. O que me autoriza a decidir o que realiza ou não os outros?

    «Ou será apenas uma forma de vertigem?»

    E qual é o problema da vertigem?

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  26. Caro Domingos Faria,

    «Dos argumentos que apresentou, talvez faltará algum:
    - De facto, como refere, não vejo que a pornografia seja um mal em si.
    Porém, poderá ter consequências positivas ou negativas:»

    Falei de argumentos que referem certas consequências associadas à pornografia. Veja, por exemplo, a discussão com JMPO.


    «Algumas citações:
    - "O questionário, levado a cabo pela BBC Radio 1, mostra que 74 por cento dos terapeutas afirmam que o uso abusivo de pornografia na Internet causa problemas no relacionamento e é uma realidade cada vez mais comum."
    - "Uma terapeuta comentou em entrevista que um dos piores casos que tratou foi um homem que fazia sexo de 10 a 12 vezes por dia, e afirmou que com a disponibilidade da pornografia na Internet, os homens parecem se viciar mais rápido em sexo"»

    Bom, o tabaco também está na origem de muitos cancros do pulmão, a vida demasiado sedentária está na origem de muitos problemas de saúde. A cerveja provoca frequentemente problemas pessoais a quem a bebe em abundância. Etc, etc, etc.

    Acha que as pessoas deviam ser proibidas de fumar (não estou a falar de fumar junto de outras pessoas que não o queiram fazer), de ter uma vida sedentária e de beber cerveja?


    «Até que ponto não será a porngrafia imoral por levar a certos casos de doença e patologia (sexo-dependentes)?»

    Até que ponto não será o trabalho imoral por levar a certos casos de dependência patológica?

    Está a ver onde o pode levar o seu raciocínio? Nunca mais acaba...

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  29. É claro que a pornografia, o jogo, o chocolate e o Moet et Chandon, podem causar dependência.
    Isto não implica que se o seu consumo, moderado, seja mau.

    Se quiserem falr em primeira mão com alguém que faz pornografia profissionalmete, sem que haja lanificio, perdão lenocinio, coacção ou outras coisas negativas contactem:

    http://www.brunoymaria.com/

    A página não tem virus.

    A Maria e o Bruno são pessoas simpáticas. Como galegos entendem perfeitamente portugês escrito e falado.

    Eles, em primeira mão, podem perfeitamente esclarecer todas as dúvidas.

    Estou certo que eles terão toda boa vontade.

    Cumprimentos

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  31. Não sou a favor da pornografia por vários motivos...dizer que é algo de mal gosto é algo bastante simplista...em todo caso, como as drogas, a pornografia é um negócio muito mas muito lucrativo então não acredito que censurariam isso, pelo contrário..se puderem diminuir a maioridade ...os donos desse mercado ficariam felicíssimos afinal teriam mais consumidores e ganhariam mais dinheiro.

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  32. As únicas "morais" que existem são duas: a moral do achismo ( que no fim das contas, só é "verdadeira" para a pessoa rsrsrs ) e a "moral" do dinheiro ou melhor dizendo lei de mercado..contanto que o produto, seja qual for, dê muito lucro tá valendo... se não for legal, vai pela ilegalidade mesmo.

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  33. Sabe sempre bem comer a dama do outro.

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  34. A piada do sexo e quebrar com a moral, acho. Uma libertação dos costumes das regras da classe dominante. Tipo ilha dos amores.

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  35. Realmente, o sexo e a pornografia não resultam necessariamente em patologias. O gozo sexual é naturalmente algo bom, e não vejo como instrumentalizar o indivíduo num alívio da vontade separando a dimensão sexual da afetiva se isto for decidido por acordo mutuo entre as partes envolvidas. No entanto, uma relação sexual pode ser acrescida de afeto e intimidade que aumentam o prazer do gozo. Parece não ser apenas uma soma abstrata dos fatores (gozo e intimidade), mas ocorre um resultado no todo que não pode ser reduzido à soma das partes. Um sentido mais intenso e verdadeiro nasce daquele gozo, o fluxo de emoções é maior e mais duradouro, estendendo-se antes e após o gozo. Quero dizer que as emoções provenientes do sexo são resinificadas pelas emoções afetivas em relação, o cuidado, o carinho, o comprometimento, a intimidade. Se a relação é mais intensa, então ela é mais duradoura e satisfatória que uma relação puramente genital. Portanto, uma relação sexual que não envolva intimidade e afeto é menos preferível, não necessariamente errada. O que me parece realmente um erro da nossa cultura é uma supervalorização do pornográfico e uma banalização do sexo, que realmente o reduz e impede que as pessoas percebam a possibilidade de o intensificar numa relação com outras dimensões humanas. A romantização do sexo me parece preencher mais nossa busca pelo gozo, pois unifica a essa busca outras de dimensão afetiva e existencial.

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