15 de março de 2009

a limpeza linguística

A febre do politicamente correcto está a produzir um fenómeno a que podemos chamar «limpeza linguística». Hoje venho falar de uma polémica segundo me consta iniciada há dois anos no IV Congresso Internacional de Língua Espanhola a propósito da inclusão, na mais recente edição do Dicionário da Real Academia, de um sentido pejorativo da palavra «galego», como «tartamudo», «tonto» e «moço de fretes». Esta acepção da palavra está ausente no dicionário da Porto Editora, por exemplo, mas consta no Houaiss: «carregador de bagagens, frequentemente natural da Galiza», «indivíduo que trabalha arduamente, que realiza trabalho pesado», «indivíduo rude, grosseiro; labrego» e ainda «natural do Norte de Portugal». De facto, um hábito que mais ou menos se perdeu no Sul, análogo ao uso nortenho da expressão «mouros», de chamar «galegos» à malta do Norte.

Esta inclusão do sentido pejorativo da palavra no dicionário da Real Academia ofendeu muita gente no seu orgulho nacionalista, dando origem a um abaixo-assinado e a uma série de exigências à Real Academia para que elimine do seu dicionário este sentido listado sob a palavra «galego». Nomeadamente, o filólogo galego, Roman Raña, afirmou ao DN que «é algo execrável e insultuoso o que estão a fazer a toda a gente desta terra.»[…]«A academia tem de eliminar de imediato essa acepção, usada em termos históricos e sociais, motivo de grande indignação para a Galiza.» reivindica o filólogo. O poeta Salvador Garcia Bodaño acrescenta «É uma injustiça histórica […] do tempo em que os nobres de Castela desprestigiavam a Galiza e o seu povo.» O artigo no DN pode ser lido AQUI.

Pergunto se vamos chegar ao ponto de retirar dos dicionários todas as palavras que possam ser ofensivas para alguém, em alguma circunstância ou lugar, ou se vamos perscrutar os romances para verificar se os autores conferem atributos negativos a personagens desta e daquela nacionalidade, se escrevem algo susceptível de ofender os sentimentos políticos, religiosos, nacionalistas, ou de qualquer outro tipo, que alguém possa ter. E depois? Vamos aos museus tirar das paredes todos os quadros que possam ofender alguém? E a seguir? A música?

As pessoas que se deixam levar por esta retórica da ofensa, inclusive aquelas que ficam muito inflamadas a pensar que estão a combater o «fascismo» castelhano, não param para pensar que a sua atitude é uma atitude fascista, de supressão da informação que lhes desagrada. Supõe que só há fascismo quando as suas próprias opiniões são suprimidas, não quando se usa o poder do estado para suprimir a opinião daqueles cujas opiniões nos chateiam e que preferiríamos que estivessem muito calados, para assim dar a impressão de que essas opiniões e essas pessoas até nem existem. Torna-se ainda mais ridículo pelo facto de que, mesmo do ponto de vista de um nacionalista galego, seria desejável que a Academia mantivesse o sentido pejorativo, porque pelo menos isso dar-lhe-ia algo de que se queixar e com que impressionar os destinatários do seu discurso. Além disso, aqui não se trata sequer de censurar uma opinião, mas de censurar informação, factos. É um facto que a palavra «galego» é ou foi usada com essa acepção que desagrada a alguns galegos. E depois? É informação. Alguns criacionistas também gostariam de suprimir a Origem das Espécies e outras publicações. Vamos fazer-lhes a vontade?

Por outro lado, imagine-se o caso de um romance em que a palavra «galego» é usada com esse sentido pejorativo, sem que o autor abra uma nota de rodapé para explicar ao leitor em que sentido usa o termo. Qualquer tradutor inglês ou português ou outro, irá consultar o dicionário da Real Academia e não verá aí o sentido relevante da palavra. O que não fala castelhano ou não tem idade para se recordar do uso pejorativo da palavra, fica à nora, tentando compreender o que pretende o autor.

Tento imaginar o que seria fazer-se uma manifestação porque num romance catalão, uma personagem portuguesa é representada como um indivíduo de carácter moral duvidoso. Mais triste do que imaginar isto é ver que os poderes políticos acabam por ser arrastados por este tipo de retórica e acabam por ceder às exigências populares de policiamento do pensamento, de censura, de imposição do politicamente correcto.

Termino esta posta com uma referência clássica, de um tempo em que a pressão para o politicamente correcto não era tão asfixiante, talvez pela razão de os livros terem uma circulação mais restrita e a probabilidade de indignar multidões que exigem a mentira política ser menor. Ao que parece, a democratização da informação ainda não conseguiu tornar os seres humanos um pouco melhores. A citação é de William Clifford, A Ética da Crença, a publicar em breve na Bizâncio, no âmbito de uma antologia sobre epistemologia da crença. Será que os nacionalistas galegos vão reivindicar que se apague este parágrafo? Talvez apenas os castelhanos o façam. E os portugueses? Será que se sentirão ofendidos por arrasto?

Não se pede ao estudante, que começa a sua aprendizagem na electricidade, que acredite na lei de Ohm; fazem-no compreender a pergunta, colocam-no diante dos instrumentos e ensinam-no a verificá-la. Aprende a fazer coisas, e não a pensar que sabe coisas; a usar os instrumentos e a fazer perguntas, não a aceitar uma afirmação tradicional. A pergunta que para ser apropriadamente colocada exigiu um génio, é respondida por um principiante. Se a lei de Ohm subitamente se perdesse e fosse esquecida por todos os homens, mas preservando-se a pergunta e o método de solução, o resultado podia ser redescoberto numa hora. Mas o resultado por si só, se conhecido por um povo que não pudesse compreender o valor da questão ou os meios de a resolver, seria como um relógio nas mãos de um selvagem que não lhe soubesse dar corda ou um navio a vapor manobrado por maquinistas espanhóis.


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