24 de Março de 2009

Língua pátria

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

Paira em quase todos os povos uma mentalidade desarrazoada a que se chama nacionalismo ou patriotismo. Uma característica central desta mentalidade é a separação entre “nós” e “eles”, sendo que nós somos evidentemente especiais e eles sub-humanos. Os norte-americanos, por exemplo, ficam invariavelmente espantados quando invadem um povo quase sem recursos militares, e que no entanto resiste à invasão nas piores condições — mas eles fariam precisamente o mesmo caso fossem os invadidos. A ideia do patriota é que não faz sentido que “eles” sejam patriotas porque a pátria deles não é... a nossa. E só a nossa é gloriosa.

Porque os portugueses não podem já ter veleidades imperiais, transferiram para a língua estes sentimentos. Trata-se então de defender que a língua portuguesa tem de ser preservada a qualquer custo, incluindo contra a vontade das pessoas que a falam, porque tem uma essência única. A este propósito costuma-se citar sem contexto uma frase de Fernando Pessoa, que parece vindicar esta mentalidade nacionalista: “A minha pátria é a língua portuguesa.” Não só Pessoa nunca escreveu esta frase, exactamente assim, como queria dizer o oposto do que parece querer dizer. Citemos Pessoa tal como ele escreveu e no contexto em que o escreveu:
Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.
Interpreta-se quase sempre Pessoa como se estivesse a defender a língua portuguesa por razões nacionalistas. Todavia, o que Pessoa está realmente a dizer é que reage com o mesmo horror ao português mal escrito que um patriota à invasão do seu país. E acrescenta que se está nas tintas para que lhe invadam o país; o que implica que se está nas tintas para que os portugueses passem a falar sueco. O horror de Pessoa é puramente linguístico: odeia o português mal escrito porque é escritor, exactamente como um bom pintor odeia um quadro mal pintado. E odeia a simplificação ortográfica imposta pelas reformas ortográficas.

É significativo que se interprete em termos patrióticos e nacionalistas uma passagem de Pessoa que é o contrário disso. Além de ilustrar precisamente o desmazelo intelectual que Pessoa deplorava, exibe a mentalidade salazarista que, anterior a Salazar, persiste muito depois dele.

3 comentários:

  1. O que é engraçado é que a leitura macaca desse verso foi-me inclusive propagandeada na escola, o que nos leva à pergunta, tendo também em conta a situação que mencionei com o Nozick no texto anterior: quantas obras é que só conhecem pelo título ou pela citação descontextualizada tanta gente que se encarrega de propagandear lugares comuns?

    ResponderEliminar
  2. Hoje estou de mau humor para aturar tretas. Comentários com objecções têm de ser objectivos e imparciais. O leitor pode reintroduzir as mesmas objecções, e até dar referências, denunciar os erros que bem entender, mas sem conversa fiada ou burburinhos.

    ResponderEliminar
  3. Professor,
    qual é a classificação morfossintática de "assim" e "feio e asqueroso" em :
    Vicente é assim: feio e asqueroso.

    ResponderEliminar