25 de março de 2009

A natureza do humor

O que é o humor? O que nos faz rir no humor? Vários filósofos tentaram responder a estas perguntas. Deixo aqui apenas um esboço de cada uma das três principais teorias filosóficas sobre a natureza do humor: a teoria da superioridade, a teoria da incongruência e a teoria da libertação.

Antes disso, uma nota: há filósofos que, em bom rigor, não falam do humor, mas do riso, que são coisas diferentes. Talvez não haja humor sem riso, mas há certamente riso sem humor, o que significa que o riso talvez seja uma condição necessária do humor, mas não suficiente. Por exemplo, podemos rir de alegria porque nos saiu a lotaria, o que não descreveríamos como uma situação humorística. De qualquer modo, muito do que se possa dizer acerca do riso também é aplicável ao humor.

A teoria da superioridade é a mais antiga. Começa a ser delineada por Platão e Aristóteles, mas é a Hobbes que costuma ser associada. Hobbes defende que o humor consiste na expressão de superioridade em relação ao objecto do nosso riso. A ideia é que o humor elege sempre alguma vítima ou aponta para algum defeito alheio, como é o caso das anedotas sexistas e racistas. Um exemplo disso são as anedotas sobre alentejanos, como a seguinte:

Sabes quantas vezes um alentejano se ri de uma anedota? Três vezes: a primeira é quando lha contam, a segunda é quando lha explicam e a terceira é quando a compreende.

Mesmo quando o humor, como frequentemente acontece, funciona como uma espécie de denúncia social ou política, se está a exprimir alguma forma de superioridade moral, intelectual ou outra.

Há várias objecções a esta teoria. Uma das mais fortes é que, se a teoria fosse verdadeira, não faria sentido rirmo-nos de nós próprios. Mas há humor em que nos rimos de nós próprios ou do grupo a que pertencemos.

A teoria da incongruência, associada a Kant e a Schopenhauer, defende que o riso é a expressão de uma incongruência percepcionada por aquele que ri. Isto acontece, por exemplo, quando somos surpreendidos com alguma impossibilidade lógica que tomamos como natural; ou quando somos tentados por ideias irrelevantes; ou quando são geradas expectativas que conduzem a um impasse; ou quando somos persuadidos a aceitar o que aparentemente é inaceitável. Uma boa ilustração é a anedota, bem conhecida entre filósofos, do amante adepto da teoria comportamentalista (ou behaviourista, como também se diz):

Depois de ter acabado de ter relações sexuais com a sua namorada, o comportamentalista diz: tu gostaste, e eu?

Uma objecção a esta teoria é que há incongruências que não são percepcionadas como humorísticas. Assim, a incongruência só por si não explica porque razão certas histórias ou situações são humorísticas.

A terceira teoria, a da libertação de tensão, é desenvolvida pelo filósofo evolucionista Herbert Spencer e sobretudo por Freud. Eles defendem que o humor é um escape libertador de tensão. Para Freud, o humor tem uma função muito semelhante à dos sonhos: libertar instintos e desejos sexuais e agressivos socialmente reprovados e reprimidos. Assim, a tensão gerada pela repressão social desses instintos é simbolicamente libertada através das piadas e anedotas. Daí o facto de as anedotas de cariz sexual serem tão populares:

- Então o meu caro amigo o que faz na vida?
- Olhe, trabalho onde os outros se divertem.
- O quê, num parque de diversões?

- Não só num, mas em vários: sou ginecologista.


Freud admite que há outro tipo de piadas, que dependem apenas da técnica como são construídas ou apresentadas. Mas chama "inocentes" a essas piadas, prestando-lhes pouca atenção.

A teoria de Freud parece ser refutada pelos factos. De acordo com Freud, as pessoas que gastam mais energias a reprimir os seus instintos e desejos agressivos e sexuais seriam as que mais deviam rir com as anedotas. Contudo, há investigações empíricas que apontam precisamente no sentido contrário: as pessoas com uma educação mais austera e punitiva em termos sexuais não são os que mais sentido de humor costumam ter.

Será que há mesmo uma essência ou natureza do humor?

7 comentários:

  1. É curioso constatar como H.Bergson, epígono contemporâneo da teoria da superioridade, identifica a rigidez (raideur) física e caracterial (das pessoas, instituições, normas e costumes), como sendo a essência do risível. O homem que, mecânica e rigidamente, transpõe para o gelo a locomoção bípede comum e acaba por se estatelar é o arquétipo-tipo-subjectum do risível, porque representa a inépcia adaptativa à complexidade social. Como marionetas a desenvolverem acções mecanicamente estereotipadas (há uma correlação entre o estereótipo e o risível, entrevista já, por exemplo, na Poética de Aristóteles) os sujeitos rígidos patenteiam a sua inépcia cómica. Para o anglófono, como diz F. H. Buckley no seu livro The Morality of Laughter, a concepção Bergsoniana parece ser uma hommage anacrónica a Jerry Lewis, Charlie Chaplin e Mister Bean, tipos caracteriais desta rigidez,mas que, naturalmente, não esgota a natureza multiforme do risível.

    Paulo Ferreira

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  2. Das três teorias que apresenta parece-me que a única que dá conta da estrutura ou natureza do humor é a da incongruência,as outras duas apontam mais para a função do humor do que propriamente para a sua estrutura. Claro que a teoria da incongruência ou quebra do determinismo, como também já vi referida, não explica porque é que em certas situações há incongruências mas estas não são percebidas como humorísticas; ora o facto é que o humor não depende apenas do objecto que é percebido, mas também do sujeito que o percebe e do estado de espírito em que se encontra. Podemos rir do indivíduo que, todo aperaltado e composto, escorrega numa casaca de banana,ele até pode perceber a incongruência, mas não a percebe com certeza como uma incongruência agradável ou sequer neutra e isso faz toda a diferença.

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    1. Uma casaca de banana, como diz, é já por si uma incongruência, não acha?

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  3. Olá Aires Almeida, tudo bem?

    Cara, estou fazendo uma monografia sobre o humor nos jornalistas antigos da minha cidade, Campos dos Goytacazes, e achei muito interessante essas teorias, pensando até em aprofundá-las para usar na pesquisa. Poderia, por gentileza, citar em quais obras posso procurá-las? Agradeceria muito!

    Um abraço!

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  4. Caro Damaceno,

    Acho que a melhor referência na matéria (em que se apresentam e discutem as teorias mais importantes) são os seguintes livros de John Morreall:

    http://www.amazon.co.uk/Philosophy-Laughter-Humor-SUNY/dp/0887063276/ref=sr_1_2?ie=UTF8&s=books&qid=1252003438&sr=8-2

    http://www.amazon.co.uk/Taking-Laughter-Seriously-John-Morreall/dp/0873956435/ref=sr_1_3?ie=UTF8&s=books&qid=1252003438&sr=8-3

    Está lá tudo o que importa. Espero ter ajudado.

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  5. Aires de Almeida, parabéns por seu artigo. Faço uma pesquisa a respeito do humor nas tiras de Bill Watterson (Haroldo e Calvin) e gostaria de citá-lo. Por isso, pergunto:
    - qual o seu nome completo/
    - Qual/Quais teóricos que expõem essas três teorias?
    Espero sua resposta.
    Diva Lea
    e-mail de contato- divajornal@femanet.com.br

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  6. Olá. Em que obras exatamente estão as teorias de Kant e Schoppenhauer a respeito disso? Grato.

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