21 de março de 2009

non me f**** o juízo

Uma objecção que talvez surja no que diz respeito a usar o prefixo latino "non" para formar palavras em português (como sucede em nonato, palavra que está dicionarizada) é a de que fazê-lo pode sugerir pedantismo por parte de quem o faz. Acho esta objecção muito fraca, por várias razões.

Consideremos as palavras inglesas "amoral", "immoral" e "nonmoral". Todas têm prefixo latino. As correspondentes portuguesas às duas primeiras, "amoral" e "imoral", têm igualmente o prefixo a partir do latim. Contudo, "nonmoral" é traduzido ou por "amoral" ou por "imoral" consoante o contexto, ou simplesmente por "não-moral".

amoral = o que é desprovido de critérios morais ou indiferente a critérios morais.
immoral = o que é contrário à moral.
nonmoral = o que é moralmente neutro em si mesmo, como as maçãs e as bicicletas.

Qual a desvantagem de traduzir por "não-moral"? É que na melhor das hipóteses aquele "não" é decalcado do operador lógico da negação. Mas esse operador serve para dividir o universo em coisas que são x e coisas que não são x. Não serve para comunicar as inflexões da linguagem natural que estão associadas aos prefixos latinos que usamos para construir palavras como as três referidas. Ou seja, "não-moral" é compatível com os três sentidos referidos acima, pois designa o conjunto de todas as coisas que não são morais, independentemente dos matizes semânticos. Ou como um inglês diria, usando o operador lógico da negação: "not-A"!

Assim, usar a partícula latina "non" para prefixar palavras não só não é pedante, porque então também "amoral" e "imoral" seriam pedantes, tendo ao invés de se escrever "não-moral" para todos os sentidos, só para evitar o pedantismo de usar prefixo latino, o que é manifestamente idiota; como também o uso desse prefixo é uma questão de liberdade linguística: não há qualquer argumento que permita aos utentes do inglês usar prefixos latinos mas que proíba aos portugueses o mesmo uso com o mesmo grau de liberdade. Além disso, esta liberdade linguística não é apenas moralmente desejável, como também é necessária para tornar a língua portuguesa um instrumento mais preciso, mais cultivado.

Isto, todavia, é muito complicado entre nós, por causa da inversão das coisas à portuguesa, ou seja, para muitos portugueses, não é a falta de liberdade linguística que ameaça a qualidade da produção literária, filosófica, etc. A presença desta liberdade é que é sentida como ameaçadora. É como somos em tudo o mais: onde seria normal pensar que tudo aquilo que não é expressamente proibido fosse permitido, o racionínio à portuguesa é "tudo o que não é expressamente admitido é proibido." É fascinante.

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