22 de março de 2009

Os sentidos das vidas

"Os Sentidos das Vidas" é o título do artigo de Susan Wolf que acabo de publicar, com tradução minha. Recorde-se que dela tínhamos já publicado "O Sentido da Vida", um pequeno artigo de enciclopédia que apresenta as várias perspectivas sobre o tema.

Este tema tem tido aliás uma presença assinalável na Crítica. Em "Confissão", de Leão Tolstoi, assistimos à formulação intuitiva do problema, e à sua resposta religiosa. Simon Blackburn apresenta por contraste, em "Desejo e Sentido da Vida", uma perspectiva que não é religiosa. A resposta de Peter Singer encontra-se no seu livro Como Havemos de Viver?

As minhas próprias ideias foram desenvolvidas nos textos "O Sentido da Vida", publicado na Intelectu, "O Problema Pessoal do Sentido da Vida" e "Sísifo e o Sentido da Vida", este último um capítulo do meu livro Pensar Outra Vez. Finalmente, está para breve a edição portuguesa da antologia Viver Para Quê?, organizada e traduzida por mim.

Os leitores de língua portuguesa dispõem já de bons pontos de partida para reflectir informadamente sobre este tema. E o que pensa afinal o leitor sobre este problema?

4 comentários:

  1. O sentido da vida

    Uma vez que não sabemos (com certeza absoluta e sem margem para dúvidas) e não podemos provar de modo seguro que deus (não) existe (ou qualquer força, ser, entidade ou princípio análogo, independentemente do nome que lhe dermos), e que, por consequência, (não) existe um desígnio inteligente universal que, à escala cósmica, biológica e/ou humana tenha simultaneamente criado a estrutura e oriente a evolução do universo, da vida e do homem para uma(?) qualquer finalidade transcendente que confira valor e significado a tudo o que existe (há factos e argumentos pró e contra esta perspectiva, embora não necessariamente equivalentes e, logo, indecidíveis), a tese que vou propor e defender é independente disto se verificar ou não, tornando essa questão parcialmente irrelevante para o caso. A resposta simples e directa à questão de saber se a vida tem ou não um sentido seria simultaneamente sim e não, dependendo da forma como vivemos! Pensando só na vida humana, talvez a vida possa fazer sentido (na tripla acepção de conter um valor, um significado e uma finalidade) quando realizamos aquilo que potencialmente somos como indivíduos e como seres humanos, e não tenha qualquer sentido quando não conseguimos ou sequer tentamos fazê-lo! Assim, a questão do sentido da vida depende directamente daquilo que somos e do conhecimento que temos disso, da nossa natureza e condição! Ora, se aceitarmos, como os clássicos fizeram, que o homem é (pelo menos à face da terra, e o único conhecido) um animal racional e o definirmos como homo sapiens sapiens (e quanta pretensão, arrogância e vaidade se escondem nesta “simples” definição científica, não é verdade?!), então aquilo que devemos ser consiste em realizar esse potencial natural, essa diferença específica da nossa espécie (passe a redundância) e tornarmo-nos aquilo que somos em potência, isto é, sábios e racionais, conscientes e inteligentes, no pensamento e na acção, no conhecimento e na vida, visando o aperfeiçoamento e o desenvolvimento da nossa natureza, tanto individual, como colectiva, como da espécie. “Torna-te naquilo que és”, diziam os antigos (e Nietzsche repetia e fazia sua); ”conhece-te a ti mesmo”, dizia Sócrates, fazendo sua a inscrição do templo a Apolo em Delfos; “todo aquele que realiza a sua natureza, atinge a perfeição “, diz o Baghavad-Gita; a compreensão e o cruzamento destas três máximas indica o caminho para uma resposta à questão do sentido da vida: devemos conhecer-nos a nós mesmos porque, não só somos os únicos seres conhecidos capazes de o fazer, mas porque só sabendo quem somos e o que somos, donde vimos, para onde vamos, onde estamos e o que fazemos aqui (como indivíduos e como humanidade) podemos ser verdadeiramente aquilo que somos e quem somos, tornando-nos efectivamente conscientes, inteligentes e racionais, em suma, sábios! Mas como a sabedoria, a virtude e a perfeição humanas são virtualmente impossíveis de alcançar na plenitude, resta-nos amar, procurar e tentar infinitamente realizar esses ideais reguladores, cada um de nós à sua maneira própria, relativa e diferenciada, atendendo à identidade singular de cada um no seio de humanidade comum a todos, mas orientados pelos únicos princípios e fins absolutos que podem verdadeiramente dar um sentido à vida humana: a verdade, o bem, a justiça, a beleza e a sabedoria! Para além disso, como somos simultaneamente partes e produto do universo, parte e produto da vida (partes na estrutura e produto na evolução), nós somos e representamos a possibilidade e a capacidade que o universo, a natureza, a matéria e a vida têm de se auto-conhecerem, de se tornarem inteligentes e conscientes de si; nós somos (até prova em contrário, os únicos) a consciência e inteligência do universo, no seu processo de auto-descoberta e auto-compreensão! Realizar esta vocação é cumprir o sentido da nossa vida; não o fazer, desperdiçando-o, é um pecado contra nós próprios e a “ordem natural das coisas”, é falhar o alvo, é não cumprir a nossa função e papel – que derivam da nossa natureza e posição no cosmos (como mente(s) consciente(s) do cosmos), e aí, sim, a vida não faz qualquer sentido!

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  2. como cristão o sentido da vida está associado naturalmente ao carácter transcendente desta pois Deus é o alfha e o ómega , o princípio e o fim, viemos de Deus e vamos para Deus, na terra vivemos apenas um iter, como peregrinos.
    o ser humano ao longo da sua já longeva história, uns 4 milhões de anos! foi também evoluindo na compreensão da realidade que o circunda, se originariamente vivia num panteismo puéril e se se assumiu ulteriormente como politeista, henoteista e finalmente monoteísta, numa gradual redução do sagrado que envolve o homem. Esteve contudo sempre presente a perspectiva da imortalidade, o homem sempre procurou supeerar- se ás suas limitações físicas crendo que a alma permanece viva.
    ora para mim como cristão, a esperança radica na ressurreição sendo revestido de um corpo místico, após o juízo final, mas após o juízo particular imediatamente após a morte física esperam me os novíssimos. por isso a vida humana é sagrada em caso algum podemos dispor dela por isso não aceito nem o aborto nem a eutanásia, exactamente pela perspectiva de que a vida não nos pertence mas sim a Deus.
    Esse que nos dá liberdade de agirmos segundo o nosso arbítrio, enfim para não me alongar mais fico por aqui.

    João Fortuna

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  3. Terá a vida um sentido ou vários ? Ou não terá nenhum ? Ou falamos de sentido, quando queremos designar direcção ou destino ? Até hoje , o poder cognitivo, foi incapaz de descobrir, inequivocamente, o princípio e o fim, ou mesmo se estes tem realidade objectiva . Descartes na defesa da tese “ si cogito ergo sum “ , apenas tinha como referência o intervalo matemático entre o zero ( ou o nada ) e o infinito ( ou a indeterminação ). O nada ou o infinito ( seja ele infinitamente pequeno ou infinitamente grande ), continuam a ser mistérios para a compreensão humana, mesmo que esses velhos paradigmas, viabilizassem e viabilizem, especulações diversas, nomeadamente no domínio da metafísica ou mesmo da teologia, entre outras. Longe vão os anos do determinismo de Newton. As experiências de Einstein sobre a relatividade e de Plank sobre o buraco negro, levaram-nos à indeterminação quântica, à incerteza no próprio intervalo ( na acepção matemática ) em que pensamos, que nos movemos .
    A procura de significados, valores e finalidades da vida, ou dos fenómenos da natureza “ latus sensus “ revelaram-nos alguns raciocínios tão pragmáticos, dogmáticos e de pensamento tão absoluto e objectivo, que duvidamos , se não estaremos perante tolices. “Há duas coisas infinitas : o universo e a tolice dos homens . Mas não tenho a certeza do que afirmo sobre a questão do universo” ( Albert Einstein ).
    A tolice poderá ser um valor absoluto , provavelmente mensurável, mas o universo continuará, como o sentido da vida, uma indeterminação.
    Necessitamos dessa subjectividade para podermos ter discernimento, e já agora , porque não , alguma noção mesmo que hibrida e desconfigurada do ínfimo que representamos , com seres, no universo.
    Assim é preferível designarmos “ sentidos da vida “ ao “ sentido da vida “ .
    “ A vida é como jogar uma bola na parede
    se for jogada azul, voltará azul
    se for jogada verde, voltará verde
    se for jogada fraca, voltará fraca
    se for jogada com força, voltará com força
    A vida não se dá nem se empresta
    não se comove nem se apieda.
    Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos.”
    ( Albert Einstein )
    Mesmo no que concerne, não ao sentido da vida , mas como vivê-la, há duas formas:
    ou lamentá-la; ou achar que ela é já “ per si “ um milagre;
    A necessidade humana em explicitar o implexo, em descobrir ou reinventar novos espaços cognitivos, em melhorar os seus desempenhos, quer fisicos quer mentais, será o sentido da vida ?

    Será o sentido da vida a procura de sabedoria ?
    Será o sentido da vida a “ excelência “ ?

    Todavia, há um denominador comum, a todas as nossas interrogações:
    a procura de algo ... Não saberei afirmar peremptóriamente e sem condicionalismos que a procura é o sentido da vida, mas reconheço-a como essência desses sentidos .
    E se não é necessário apelarmos à razão, para provarmos a nossa existência, como o António Damásio alegou , porque existe um primado da emocionalidade sobre a racionalidade, também não será obrigatório apelar ao “ cogito “ para problematizar o sentido da vida .
    Se nós existimos porque temos emoções, a procura destas pode ser um dos sentidos da vida, que não a procura de sabedoria .
    Confesso , que tenho algum cepticismo em avocar o papel do conhecimento, como instrumento da felicidade ( aqui interpretado como uma emoção agradavel ). A procura em ser feliz ( emoção ) é um “ sentido da vida “ e não a excelência .
    Viver é pois , também não conseguir .

    Basta pensar em sentir
    Para sentir em pensar.
    Meu coração faz sorrir
    Meu coração a chorar.
    Depois de parar de andar,
    Depois de ficar e ir,
    Hei de ser quem vai chegar
    Para ser quem quer partir.

    Viver é não conseguir.

    Fernando Pessoa, 14-6-1932

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  4. Alguns dos novos links:
    "Os Sentidos das Vidas": http://criticanarede.com/sentidosdasvidas.html
    "O Sentido da Vida": http://criticanarede.com/met_sentidodavida.html
    "Desejo e Sentido da Vida": http://criticanarede.com/eti_desejosentido.html
    Como Havemos de Viver?: http://criticanarede.com/howtolive.html

    O problema pessoal do sentido da vida: http://criticanarede.com/fil_sentidodavida.html

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