8 de março de 2009

Oderberg e a reabilitação da velha ética



Há muito tempo que não tinha uma surpresa tão agradável ao olhar para as estantes de filosofia de uma livraria. Estava eu esta tarde na Fnac a olhar para os monos que estagiam naquelas estantes, quando reparo nestes dois volumes de David Oderberg, em português: Teoria Moral - Uma abordagem não consequencialista e Ética Aplicada - Uma abordagem não consequencialista. Uma das principais alternativas contemporâneas à ética consequencialista - que tem dominado de forma quase esmagadora o panorama filosófico das últimas décadas e de que Peter Singer é um dos mais ilustres representantes - está agora disponível em língua portuguesa, numa boa tradução de Maria José Figueiredo, para a editora Principia.

Oderberg é um filósofo de primeira linha, muitíssimo claro e persuasivo. O objectivo deste par de obras é mostrar que a moralidade tradicional não morreu. Como diz na contracapa «Em Teoria Moral, é apresentado o sistema de base que permite resolver os problemas morais, o sistema que os consequencialistas designam, com indisfarçável desprezo, por «moral tradicional», e que consideram estar «morto». Aqui se explicam e se defendem os conceitos, os princípios e as distinções centrais da moral tradicional: os direitos, a justiça, o bem, a virtude, a distinção intenção/previsão, a distinção actos/omissões, bem como o valor fundamental da vida humana, que constitui um aspecto fulcral de todo o sistema.
Ao porem em causa o pensamento contemporâneo, Ética Aplicada e Teoria Moral contribuem de forma clara e provocatória para o actual debate ético, e serão de grande utilidade tanto para os estudantes, como para os filósofos profissionais.»

5 comentários:

  1. Jamais imaginaria que estes livros fossem traduzidos. Li-os há muitos anos em inglês. Não fiquei particularmente impressionado pela qualidade, mas é sem dúvida uma boa notícia. Está de parabéns a Principia e a tradutora, e todos os leitores, que agora dispõem de mais uma obra. Vou encomendar.

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  2. Desidério, o tipo de abordagem não consequencialista de Oderberg também não me convence. Aliás, ele fala da recuperação da velha moral, mas está sobretudo a pensar numa moral de inspiração judaico-cristã; não na velha teoria das virtudes grega, que é mais antiga. Essa já tinha começado a ser recuperada por Anscombe e por Foot.

    Mas, além de serem escritos num estilo muito claro, a tradução destes livros para português tem outra vantagem muito importante: mostrar ao público de língua portuguesa que Singer não está a falar sozinho, quando se trata de discutir questões éticas.

    É bom para o público português interessado nestas questões filosóficas.

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  3. Um dos feitos filosóficos espantosos de Singer é ter organizado todo um sistema de ética completamente à margem de qualquer religião. Só conheço indirectamente a obra de Oderberg, através de citações. Vamos ver como se argumenta uma ética deontolgista (não sei se Oderberg é propriamente deontologista) sem estar agarrado às peias da religião.

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  4. "Vamos ver como se argumenta uma ética deontolgista (não sei se Oderberg é propriamente deontologista) sem estar agarrado às peias da religião" R. A.

    Não conheço o livro de Oderberg, mas a tese de que há algum tipo de implicação entre deontologia e religião, parece-me frágil. Pergunto: de que forma uma concepção ética pode estar comprometida com uma religião ou com um pensamento religioso? A idéia do imperativo categórico está comprometida com o pensamento religioso? De certa forma, podemos dizer se Deus é racional, então deve obedecer o imperativo categórico. Neste caso, é a capacidade de decidir racionalmente que determina a obediência ao imperativo e não algum fato ou propriedade divina ou sagrada. Outro ponto é que é possível ter motivações religiosas, mas, em filosofia, motivações não são razões, e razões não podem ser dogmaticamente apresentadas, como acontece no pensamento religioso. Logo, é possível que se tenha motivações religiosas, mas resultados não-religiosos e universais, isto é, tão abrangentes que ultrapassam a esfera de uma religião em particular e até mesmo da religião.

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