31 de Março de 2009

Pensamento selvagem


Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

O Apelo Selvagem (1903) e Canino Branco (1906), de Jack London (1876–1916), têm como protagonistas cães e lobos, mas dizem-nos qualquer coisa de fundamental sobre nós. Fazem-no porque dizem qualquer coisa de fundamental sobre o que é ser um animal e nós somos animais, tendendo no entanto a esquecer este facto básico por termos uma vida mental muito complexa — pelo menos alguns de nós.

Cativou-me a primeira surpreendente frase de O Apelo Selvagem:
Buck não lia jornais, caso contrário teria sabido que se adivinhavam problemas não apenas para si, mas para todo o cão de Tidewater, de músculos fortes e com pêlo quente e longo, de Puget Sound a San Diego.
Procurando não antropomorfizar Buck, London descreve com traços de mestre as suas aventuras. Brutalmente raptado para puxar trenós, Buck vai despertando os seus instintos, acabando por juntar-se a uma alcateia de lobos. As muitas provações e injustiças a que é sujeito são descritas sem pieguice mas com um realismo que me deixou ansioso pelo seu destino e me trouxe lágrimas aos olhos em vários momentos. Não foi tanto o apelo selvagem que Buck começa a sentir paulatinamente que me cativou, mas antes o modo primevo (mas não primitivo nem primário) como vive as coisas: raiva, vingança, amor e lealdade estão nele em estado bruto e sem ornamentos.

As cenas iniciais de Canino Branco descrevem magistralmente dois homens experientes que atravessam as grandes superfícies geladas do Alasca, perseguidos por uma alcateia de lobos esfomeados e peculiarmente sagazes. Depois de algumas páginas tensas em que tudo parece perdido — e depois de um deles já ter sucumbido — vem o truque: afinal, o protagonista não é esse incrível sobrevivente, nem sequer a loba que chefia a alcateia de lobos, e que nem sequer é uma loba — é uma cadela meio loba — mas antes o seu filho. Perdoa-se esta deselegância literária porque depois somos brindados com a mais inacreditável descrição do que será um lobinho que descobre lentamente o mundo, a partir do seu covil. A interpretação das sensações visuais, tácteis e auditivas, o domínio da gravidade e das distâncias e a descoberta de que a entrada do covil não é uma parede luminosa mas antes uma passagem para outro mundo é muitíssimo mais pungente do que a conhecida alegoria da caverna, de Platão, como descrição da descoberta da diferença entre a aparência e a realidade.

Uma questão filosófica central sobre as artes é saber que valor têm. Estas duas narrativas tornam evidente que, pelo menos em alguns casos, um dos valores da arte é o alargamento cognitivo que possibilitam. A literatura parece dar-nos uma espécie de conhecimento quase por contacto, diferindo do conhecimento proposicional fornecido pelas ciências. Tal como é muito diferente saber muitas verdades acerca de Marte de ter a experiência de ter estado em Marte, também é muito diferente saber muitas verdades sobre lobos e a vida selvagem de quasi-viver na pele de um deles durante as horas em que lemos uma narrativa bem urdida como as do grande Jack London.
Fotografia de Imapix

9 comentários:

  1. Não conheço o "Canino Branco", mas tão bom como o "Apelo da Selva" é o "Lobo do Mar".
    A descrição da doença de Lobo Larsen, por exemplo, é impressionante. E, de facto, a arte de Jack London é tão grande que parece que temos conhecimento por contacto de algo que só conhecemos proposicionalmente: a experiência de ir perdendo o contacto sensorial com o mundo.

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  2. Será que são independentes? Isto é, poderá o conhecimento por contacto prescindir do conhecimento proposicional? Se assim for, não estaremos a afirmar que a ciência, o modo como reconhecemos conhecer as coisas como elas são, está a ser complementada quando a realidade se actualiza a nível corpóreo - quando estamos lá?

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  3. Pode-se ter um imenso conhecimento proposicional acerca da pobreza sem alguma vez ter tido conhecimento por contacto da pobreza, ou seja, ter tido a experiência da pobreza.

    Na sua maioria, as pessoas que têm experiência da pobreza mais extrema não têm praticamente conhecimento proposicional acerca da pobreza, pela razão óbvia de que a extrema pobreza comporta normalmente extremas carências culturais, por dificuldades de acesso não só à informação como aos meios de a tratar e separar o trigo do joio.

    Parece evidente que são duas coisas diferentes. O conhecimento por contacto não implica a presença de qualquer conhecimento proposicional particular e vice-versa. Pode-se ter imenso conhecimento proposicional de um assunto qualquer sem alguma vez ter tido experiência dele. Os casos mais evidentes são as experiências de dor e prazer, mas não é só.

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  4. Um caso bem evidente é a história: uma disciplina que consiste em conhecimento proposicional acerca de algo do qual não podemos ter conhecimento por contacto, o passado. A não ser em janelas como as que a literatura, neste caso, proporciona. A literatura transmite um conhecimento que não é do tipo proposicional embora seguramente contenha conhecimento proposicional.

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  5. Bons exemplos mas mantenho a minha dúvida. Ao olharmos para uma paisagem, por exemplo, a do Cabo Espichel, em que medida é que a nossa ignorância dos factores de erosão e da história geológica do local é suficiente para a que apreciemos? Como se articula o conhecimento - universal - do local com a experiência particular de estarmos lá? Será que sem o conhecimento universal da paisagem aprecio outra coisa qualquer?

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  6. Talvez TMC queira defender o seguinte: o conhecimento proposicional enriquece o conhecimento por contacto, e vice-versa. Por exemplo, visitar e contactar com as pirâmides do Egipto é claramente diferente quando temos conhecimento proposicional da história do egipto de quando nada ou quase nada sabemos. E um vasto conhecimento proposicional da geografia de Marte é sem dúvida enriquecida com um conhecimento por contacto de Marte.

    Contudo, destas duas observações não se segue que o conhecimento por contacto implique o conhecimento proposicional, nem que este implica aquele.

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  7. O que é curioso é que ao transmitir-se conhecimento proposicional, podemos dizer, uma vez recebido, que estamos na posse desse conhecimento, sem mais qualificações. Aprender a história e geografia não exige nada mais para se considerar que o conhecimento foi transmitido.

    No caso da literatura, transmite-se conhecimento por contacto (ou algo próximo), mas não podemos afirmar, depois de transmitido, que estamos na posse de conhecimento por contacto da coisa acerca da qual versava o romance ou conto, etc. Continua a ser diferente ter conhecimento por contacto ou ler a prosa de quem o teve ou que soube dar expressão correcta âs experiências de pessoas que o afectaram.

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  8. será que isto fala a favor da irredutibilidade do conhecimento por contacto a conhecimento proposicional?

    Embora seja letra comum que aquele é irredutível ao segundo, há quem defenda que isto não é assim.

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  9. E haverá conhecimento por contacto? Não é o conhecimento algo que pode ser transmitido e admitido através da razão, granjeando assim universalidade?

    Nesse caso, Jack London, apesar de ter vivido no Alasca, ao escrever sobre a experiência de ser um lobo transmite metáforas verossímeis, e não o conhecimento por contacto. Transmite os acontecimentos de um corpo não humano e atrai leitores porque torna essas possibilidades credíveis.

    Diria portanto que não há conhecimento por contacto, mas sim uma experiência com o meio que não é transmissível, apenas comunicável.

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