11 de março de 2009

Quebra-cabeças musicais 2

Imagine-se que um músico compõe uma sinfonia, registando-a na partitura, e que esta é esquecida numa gaveta ou que se perde sem que alguém a venha a encontrar ou a executar.

Podemos afirmar que a sinfonia existe? Porquê? No caso de existir, em que consiste esta sua existência?

Repare-se que este quebra-cabeças se relaciona com algo afirmado pelo Sérgio num comentário ao último texto: ele é da opinião que as alterações de timbre, orquestração e tonalidade interferem na identidade da obra a ponto de não podermos afirmar que se trata da mesma obra. Assim, o Sérgio parece comprometido neste quebra-cabeças com a resposta negativa, de que a sinfonia não existe. Ou será? (Vamos supor, para fins de argumentação, que o autor da sinfonia não dá indicações de instrumentação estritas e que no seu tempo é prática comum executar as obras em diversos suportes instrumentais e, consequentemente, adaptando as tonalidades às exigências mecânicas dos instrumentos.)

Imaginemos agora uma variação do nosso puzzle: as Variações Goldberg de Bach perdiam-se e eram apenas redescobertas no século XIX, e a sua primeira execução pública dava-se nesta época. Seremos obrigados a concluir que a obra só começou a existir no século XIX?

O que pensa o leitor?

3 comentários:

  1. Uma árvore na floresta se cair e ninguém a ouvir faz som?

    Não vai tudo dar ao mesmo? Uma obra para existir basta existir na minha cabeça, existe no momento que a passo a partitura, ou no momento da sua primeira execução?

    Se eu me virar para um amigo e disser: «Olha lá, que te parece isto?» E assobio um tema. Isto é uma interpretação da obra? É um "rascunho" da obra que ainda estou a desenvolver? O que é um rascunho?

    E se o meu amigo perceber de música, eu lhe mostrar a pauta ele "ouvir na sua cabeça" a música que está na pauta e comentar: «Ah! Isto é muito giro!! Tens aqui uma modulação fantástica...». A obra já não existe só na minha cabeça, mas na realidade nunca foi executada. Ou será que foi? Qual a diferença entre som que atravessa o ar, ou o som que se forma na nossa cabeça sem recurso a vibrações?

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  2. A questão é precisamente saber que tipo de objecto a obra é. Será um estado mental no qual "ouvimos" internamente a obra? Mas isto não é diferente de afirmar que a obra coincide com uma execução ou uma classe de execuções da obra. Que ela só existe na medida em que é ouvida, executada, em que é objecto de uma experiência sonora.

    Mas isto não funciona muito bem, pois ficamos sem saber como dar plausibilidade à ideia de que duas execuções, dois acontecimentos diferentes, são exemplificações ou instâncias da mesmas obra. O que é que faz ao certo que duas execuções diferentes sejam execuções da mesma obra? Afirmar que o são é circular, pois é precisamente isso que queremos compreender.

    Uma hipótese de explicação é o chamado "platonismo musical" que afirma que a relação obra-execução é uma relação tipo-espécime, ou seja, que a "obra" é uma estrutura sonora, descrita pela partitura (ou não, caso não haja notação) cuja natureza é semelhante à dos objectos matemáticos, dos universais e das proposições: um objecto abstracto.

    O centro desta questão é a repetibilidade: vinte execuções da quinta sinfonia só podem ser execuções dessa mesma obra se a obra em si for uma entidade repetível. Mas as execuções são acontecimentos sonoros, ou seja, entidades irrepetíveis. Cada execução é uma entidade particular e não um universal.

    O problema então pode formular-se assim: como evitar a afirmação de que as obras musicais são tipos ou universais, mantendo ao mesmo tempo a intuição de que 20 execuções da quinta sinfonia são execuções da mesma obra?

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  3. repare-se que a audição interna ou mental não resolve a questão:

    a formação de uma ideia, na minha cabeça, de um intervalo de quarta aumentada, é um acontecimento mental, tal como a execução do intervalo no teclado é um acontecimento sonoro. Afirmar que a obra é um tipo ou universal não é o mesmo que dizer que é uma ideia. As ideias são acontecimentos mentais tão irrepetíveis como as execuções da sinfonia. Podemos perguntar, "o que faz com que dois estados mentais sejam acerca da mesma coisa?", ou seja, o que faz com que duas audições internas da mesma sinfonia sejam audições internas da mesma sinfonia?

    hipótese: o facto de a sinfonia ser uma entidade que se pode exemplificar ou "realizar" multiplamente numa infinidade de suportes ou sistemas, inclusive numa execução "interna" ou puramente mental?

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