18 de março de 2009

quebra-cabeças musicais 3

Imagine-se um modelo de relógio x. Haverá um número potencialmente infinito de exemplares desse modelo, ou seja, um número potencialmente indefinido de espécimes do mesmo tipo. Intuitivamente, se um relojoeiro pegar em partes diversas de diversos exemplares desse mesmo modelo, e as juntar de uma maneira funcional, obterá um novo exemplar do modelo de relógio, exactamente com o mesmo valor estético e prático que o de um exemplar acabado de sair da fábrica. Excluímos, para fins de argumentação, circunstâncias que não são relevantes para a analogia que vamos fazer, por exemplo, o facto de o “novo” exemplar ser “usado”, etc.

Imagine-se uma série de execuções diferentes da mesma sinfonia, por maestros e orquestras diferentes, todas satisfazendo os critérios de conformidade à partitura e exigências interpretativas. Por outras palavras, todas são execuções excelentes da mesma sinfonia, embora divergindo em muitos aspectos qualitativos.

Imagine-se agora que um engenheiro de som extremamente dotado consegue reunir diversas partes das diversas execuções, à semelhança do relojoeiro com as partes dos diversos exemplares de relógio, que também cumprem todos os critérios de pertença ao mesmo modelo ou tipo, obtendo uma nova execução, sem “costuras”, a partir das diversas execuções anteriores. Para fins de argumentação, vamos supor que a audição do resultado final se realiza em condições tão excelentes que o ouvinte não é capaz de a diferenciar de uma execução ao vivo.

Será que se pode considerar esta nova “execução” um exemplar ou espécime legítimo da sinfonia, em pé de igualdade com qualquer das execuções anteriores, de cujas partes foi feita? Se não, por que razão é intuitivo que no caso do relógio obtemos um novo exemplar ou espécime, mas não no caso da sinfonia? Se sim, quais serão as objecções mais fortes à ideia de que se trata de um espécime legítimo?

10 comentários:

  1. Caro Vitor,

    Parece-me que um ponto-chave neste caso é a relevância que o processo tem no conjunto do produto final. Explico: no relógio, o trabalho do relojoeiro influencia na qualidade do relógio, mas não é tomado como parte do próprio relógio. E a execução da sinfonia, pelo contrário, é o próprio processo, o que fica claro no nome "execução".

    O processo de montagem do técnico de som e o processo de execução ao vivo são diferentes, e por isso originam produtos que tendo a considerar diferentes porque o processo que leva a ambos é diferente, e parte do que se desfruta na música é o seu processo de execução, o que não ocorre com o relógio.

    Acho que o termo "legítimo", nesse caso, é uma armadilha, já que a obra do técnico de som não é ilegítima se for apresentada tal como é: uma montagem perfeita de diferentes execuções anteriores. Ilegítimo seria se fosse apresentada como algo diferente disso, como uma execução ao vivo, por exemplo. Mas aí o que está ilegitimando a obra não é nada intrínseco a ela, mas o que se diz dela.

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  2. Olá Elvis,

    O seu comentário, parece-me, está na pista certa para esclarecer a objecção mais poderosa a que a montagem seja um espécime "legítimo" da sinfonia.

    O sentido de legitimidade aqui é bastante trivial. Tem a ver com o facto de o espécime respeitar ou não as condições de identidade para ser um espécime do tipo x. Trata-se de saber se, em rigor, a montagem pode ou não ser um espécime da sinfonia.

    Quando digo que o Elvis está na pista certa refiro-me à sua inclusão do acto da execução. O termo "execução" é ambíguo. Tanto pode querer dizer o produto da execução como o acto de executar. No primeiro sentido, parece que a montagem é uma execução como qualquer outra, basta para isso adicionarmos o trabalho do engenheiro de som como parte "legítima" do processo de execução. No segundo sentido, captamos o aspecto que pode levar à invalidação da tese de que a montagem é um espécime legítimo: a unidade de estilo ou interpretação, por exemplo, como condição de identidade da execução. É que as partes dos diversos relógios não exibem as diferenças qualitativas que as partes das execuções da sinfonia exibem.

    Mas há muito mais a dizer acerca disto. Venham propostas.

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  3. A obra musical não existe fora da «performance»; a performance cria a própria obra musical. Compare-se qualquer arte performativa com as outras artes. Na pintura: uma reprodução exactamente igual de um Picasso é uma obra de arte? Porque não? ... estas questões não se colocam na música porque a obra nasce em cada «interpretação». O problema está mesmo no uso desta palavra: cada «interpretação» no fundo é criação.

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  4. Olá Rui,

    Se cada execução de uma sinfonia é uma criação da sinfonia, isso significa que a sinfonia está continuamente a ser composta. Mas isto contraria a intuição de que a Quinta Sinfonia de Beethoven foi composta pelo autor em 1807, fixada na partitura, e executada por músicos desde então.

    A sua solução limita-se a escapar lexicalmente ao problema, pois continuamos sem saber a) o que a obra «é», b) o que é «isso» que cada execução ou performance repete. Podemos afirmar isso mas não pensamos honestamente que cada execução da 5ª Sinfonia seja uma nova Sinfonia acabada de compor.

    Não é claro que uma falsificação não seja uma obra de arte. O que ela não é é uma obra genuína, no sentido de que o seu autor procura enganar o público no que diz respeito ao estado do mundo. O público supõe estar a ver uma obra particular quando na verdade não está. Mas as condições de identidade para a pintura não são as mesmas para a música. É impossível falsificar uma sinfonia, embora seja possível plagiar uma, de diversas maneiras, tal como um romancista pode plagiar ideias, temas, parágrafos inteiros, etc.

    Repare nas suas palavras: a obra não existe fora da performance. Mas se "algo" existe na performance que não se confunde inteiramente com a performance, ficamos na mesma com o problema de saber o que isso é. Ou então o Rui assume uma posição mais austera e diz: a performance É a obra. Ponto. - mas isso deixa-nos com um problema ainda pior: As variações Goldberg e a Quinta Sinfonia deixam de existir. Não nos estamos a referir a quaisquer entidades quando usamos essas palavras.

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  5. "Não é claro que uma falsificação não seja uma obra de arte. O que ela não é é uma obra genuína, no sentido de que o seu autor procura enganar o público no que diz respeito ao estado do mundo."

    Não fui claro aqui. O que quero dizer é que uma coisa é a questão de saber se uma falsificação pode ser arte, outra coisa é saber se a arte que procura enganar a respeito da sua própria identidade pode ser considerada boa arte. Não há dúvida de que uma sinfonia que difira apenas em alguns compassos de outra sinfonia é música. Não será uma falsificação, mas é um plágio, logo é má música, má arte. Mas é arte.

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  6. "Será que se pode considerar esta nova “execução” um exemplar ou espécime legítimo da sinfonia, em pé de igualdade com qualquer das execuções anteriores, de cujas partes foi feita?"

    Não vejo porque não. Se a música é executada por uma pessoa que junta as partes da música na ordem da música original, então ele está executando a música, tal como um pianista a estaria executando ao juntar as partes (neste caso, as notas e o tempo). Não entendo a diferença entre executar a música com um piano e executar a música com um computador. Estamos sempre fazendo o mesmo: juntando partes num todo organizado por meio de um instrumento.

    VITOR,

    Se a execução do engenheiro de som fosse ao vivo, qual diferença haveria? Imagine o engenheiro montando a música em várias parcelas (de execuções diferentes) de 10 segundos, e colocando-as para tocar uma após a outra, ao vivo. Qual a diferença entre isso e tocar ao vivo um piano?

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  7. Objeção ao que eu falei: se pensarmos no engenheiro de som montando o todo da sinfonia ao vivo a partir de partes de 10 segundos, parece que não haveria diferença entre ele e um pianista, a não ser o fato de que as "notas" do engenheiro são mais longas e produzem mais sons. Mas se pensarmos que o engenheiro de som monta a sinfonia a partir de somente 2 partes de X segundos, então ficamos na dúvida de se ele realmente é tão semelhante ao pianista.

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  8. Viva, Rodrigo

    Acho que alguns leitores não perceberam o objectivo da experiência, o que significa que eu não fui claro ao formulá-la.

    A objecção a que o resultado da montagem seja um espécime da obra não é o facto de ser montada através de meios electrónicos ou informáticos. O exemplo do engenheiro de som provoca ruído por distrair a atenção das pessoas para o tema da edição electrónica, ou uma variante da ideia de que as variações goldberg não podem ser executadas num sintetizador porque isso seria musicalmente pobre logo à partida. Não defendo esta ideia, nem a experiência tem a ver com isso.

    A ideia é a analogia com o relógio. A intuição que nos diz que o resultado do trabalho do engenheiro não é um espécime legítimo não tem a ver com a edição electrónica, mas com o facto de não haver unidade na interpretação. As partes que o engenheiro sonoro junta são qualitativamente diversas, são interpretações da mesma obra mas têm propriedades audíveis muitíssimo diferentes. O problema é que ao juntar peças de relógios diferentes a unidade do objecto final não é questionável, ao passo que no caso da sinfonia essa unidade é questionável.

    O que afirmo pode ser facilmente posto à prova comparando duas gravações de três ou quatro interpretações da Quinta Sinfonia por diferentes maestros e orquestras. Ou seja, para a experiência funcionar, os outros "espécimes genuínos" nem sequer precisam ser execuções ao vivo, podem também ser gravações.

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  9. Podemos reformular o puzzle assim:

    se 4 interpretações diferentes da mesma sinfonia são espécimes legítimos da mesma obra musical, embora tenham propriedades audíveis diferentes, isto é, embora sejam acontecimentos sonoros muito diferentes, por que razão uma interpretação resultante da mistura de diversas partes sortidas destas 4 interpretações, todas elas genuínas, não é também, ou pelo menos é essa a intuição que temos, um espécime legítimo?

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  10. Concordo com a intuição exposta por Vitor Guerreiro.

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