11 de março de 2009

Quebra-cabeças musical 2 e 1/2

Umas das intuições respeitantes ao quebra-cabeças número 2 é a ideia de que as obras musicais, quando não são executadas, têm uma existência puramente mental, isto é, que apenas se pode afirmar que existem «na cabeça» do compositor como uma espécie de experiência sonora interna.

Um contra-exemplo que podemos congeminar para perturbar esta ideia é pensar num acorde de dó maior. A intuição diz-nos que os acordes não têm uma existência puramente mental. Escalas e acordes são aspectos objectivos do mundo sonoro que o músico usa no trabalho de composição. Mas qualquer peça musical pode ser encarada da mesma maneira, como uma estrutura ou sequência de intervalos contíguos (melodia) e simultâneos (harmonia). Contudo, isto deixa-nos numa situação espinhosa: se a intuição parece sustentar a ideia de que os acordes e as escalas são descobertos e não inventados, não só estes parecem ter uma existência que não é puramente mental, como não parece haver maneira de negar plausivelmente que as melodias e harmonias das obras musicais não tenham o mesmo tipo de existência objectiva que as escalas e os acordes, sendo descobertas pelos músicos, anotadas na partitura e executadas (ou não) num instrumento ou conjunto de instrumentos, mas não se confundindo com a partitura ou com as execuções ou com os estados mentais do compositor ou qualquer leitor da partitura.

Outra pergunta que podemos levantar é: como pode a sinfonia ter existência puramente mental? Nesse caso, como é possível que dois indivíduos diferentes tenham dois estados mentais diferentes e no entanto esses estados mentais serem acerca da mesma sinfonia se esta tiver uma existência puramente mental? Como é possível que esses estados mentais sejam a sinfonia? Parece mais plausível afirmar que ambos os estados mentais são acerca de um objecto que não tem uma existência puramente mental. Mas isto deixa-nos com a desconfortável ideia de que as sinfonias existem antes de serem compostas e que são independentes quer dos estados mentais dos músicos quer das execuções que se faz das sinfonias.

8 comentários:

  1. Isso não cairá um pouco na ideia de que qualquer livro já existe antes de estar escrito? As letras já existem, apenas "aquela" combinação de letras nunca fora tentada antes. Da mesma forma, as notas já existem, apenas "aquela" combinação de notas nunca fora imaginada (ou concretizada) antes.

    E será que a primeira vez que alguém reivindica determinada combinação está ao mesmo tempo a "descobrir" a música? Ou é preciso isso ser partilhado por alguém? E por quantas pessoas? E tem de ser partilhado sobre a forma de vibrações físicas obrigatoriamente?

    Qual a diferença entre eu entregar um exemplar físico de um livro a um amigo meu ou lhe contar a história oralmente?
    Parece que na literatura se passa exactamente o problema inverso: um livro ser suporte escrito e um audio-livro não ser "bem um livro". Então a música ser som e uma partitura "não ser bem música"... será assim?

    Tentando focar-me no último parágrafo do texto: na minha tese de mestrado fiz uma afirmação acerca da obra de Essl, a Lexikon Sonate. Disse algo como "A Lexikon sonate é um exemplo de um Tudo na música. Ele é em potência todas as músicas naquele estilo". Isto porque é um programa de computador que gera música cada vez que é corrido. Ora, teoricamente, com todo o tempo do mundo, ela acabaria por gerar todas as combinações sonoras possíveis dentro daqueles algoritmos. Então será que o programa contém TODAS as músicas desse estilo dentro de si? Ou só realmente as que ele "debitar" e forem ouvidas por alguém serão música e todas as outras serão "música em potência" como todos os livros que estão por escrever ainda?...

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  2. Sem querer responder já à tua questão na totalidade, aponto apenas um aspecto: o exemplar impresso do romance, a gravação do mesmo em mp3, não são o romance, e a partitura também não é música. A partitura descreve uma estrutura sonora, tal como as palavras no livro descrevem uma estrutura narrativa, mas são objectos diferentes. A narração oral do romance é um espécime perfeitamente válido do romance, tal como o livro áudio ou a cópia em papel.

    Acho que uma via a explorar na comparação com a literatura é o estatuto dos objectos ficcionais. Quando descrevo um unicórnio azul, estou a descrever um objecto ficcional. Mas a intuição dos platonistas musicais é a de que a estrutura sonora a que chamamos "sinfonia nº22" não é um objecto ficcional descrito pela partitura. É um objecto tão real como as mesas e os lápis do nosso dia-a-dia, só que não é um objecto físico (partitura) nem um acontecimento (execução orquestral), nem uma audição "puramente interna" (acontecimento mental).
    Isto é importante porque intuitivamente não damos o mesmo estatuto aos unicórnios azuis que damos aos objectos matemáticos, às propriedades e às proposições. De algum modo, queremos (isto é, se formos realistas acerca de objectos abstractos) que o teorema de Pitágoras não tenha o mesmo estatuto que um unicórnio azul. Queremos que o teorema de Pitágoras seja um aspecto objectivo do mundo.

    Uma experiência interessante seria pensar se a tradução de um romance é comparável às modificações de orquestração, timbre, tonalidade, etc, nos arranjos musicais.

    O exemplo do lexikon não altera muito o nosso cenário. A quinta sinfonia, se existe antes de Beethoven a compor, um pouco como na intuição de que o teorema de Pitágoras "já existia" antes de Pitágoras o formular, ela não "existe em potência", ela existe efectivamente, tal como o teorema de Pitágoras não existe "potencialmente" antes de Pitágoras o formular (se formos realistas acerca de objectos abstractos). O que o lexikon faz é substituir um elemento, o compositor humano, substitui os processos psicológicos tradicionais da composição por outro tipo de processo, mas nada de novo se introduz na ontologia musical. Por exemplo, podemos discutir se o processo criativo tem ou não qualquer coisa de sobrenatural sem que isso afecte a nossa discussão acerca da ontologia da música. Ou seja, tanto a ideia de que o compositor é divinamente inspirado, como a ideia de que não o é, como a ideia de um compositor não biológico, são compatíveis quer com a platonismo musical, quer com o antiplatonismo musical.

    Tenho de pensar muito mais neste assunto. A questão que levantas sobre a literatura é um excelente desafio. Será que uma estrutura musical é análoga a uma estrutura narrativa ou a uma combinação particular de palavras? As frases musicais são ficções análogas às personagens e cenários de um romance? A tradução é análoga à orquestração / transposição musicais?

    Já cá voltamos...

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  3. Um dado intrigante acerca da literatura e da música é o seguinte:

    Nem todas as combinações de palavras resultam num romance e nem todas as combinações de notas e pausas resultam numa sinfonia. Mas num romance nem todas combinações de palavras que estejam sintacticamente correctas são narrativas. Na música, parece que a "sintaxe" é suficiente para ter uma sinfonia, quer dizer, aquilo que permite diferenciar as "boas soluções" das "más soluções" na construção de frases musicais parece completamente indiferente a considerações semânticas. Este é aparentemente um ponto a favor do platonismo musical. As estruturas narrativas são indissociáveis da semântica mas parece que as estruturas musicais são. Isto faz que o romance dependa em muito maior grau das "paisagens mentais" que é capaz de evocar ao leitor, ao passo que podemos perfeitamente ter uma noção valorativa de "música" sem ter qualquer teoria da evocação ou qualquer semântica das frases musicais.

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  4. também não é claro que um romance e uma sinfonia sejam o mesmo tipo de objecto. Por exemplo, uma pintura é um tipo de objecto diferente de uma sinfonia, porque é claramente irrepetível. Uma falsificação da Mona Lisa não é uma "execução" da Mona Lisa, ao passo que é impossível "falsificar" uma sinfonia, embora seja possível plagiar uma. Uma audição puramente mental da quinta sinfonia continua a ser uma exemplificação da quinta sinfonia, mas uma visualização puramente mental da Mona Lisa não é uma visualização da Mona Lisa. A experiência da pintura é uma experiência de coisas particulares e irrepetíveis. O que é curioso é que a música parece ser uma experiência mista: por um lado, cada acontecimento musical é irrepetível, por outro lado, todos os acontecimentos musicais que são execuções da Quinta Sinfonia são exemplificações da mesma entidade.

    Agora... o romance é mais como a pintura ou mais como a sinfonia, ou será diferente de ambas? Que tipo de "coisa" é um romance?

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  5. A pintura que dizes ser irrepetível é a Monalisa dos pincéis de Da Vinci. A imagem da Monalisa, o que dá sentido à pintura, não só não é irrepetível como é reproduzida por diversos meios e cada "falsificação" cumpre perfeitamente o papel de trazer a imagem da Monalisa. O irrepetível deste caso é apenas o Da Vinci manipulando os pincéis, não o sentido da pintura. Se o próprio Da Vinci pintasse uma segunda, seria uma falsificação da primeira? Teríamos duas originais, não?

    Perguntar o que é a sinfonia me parece o mesmo que perguntar o que é o sentido de uma frase. Quero dizer, se tomamos qualquer arte como linguagem, e a própria linguagem ordinária, temos esse estranho objeto que é o sentido.

    Na linguagem ordinária são três âmbitos: o código, o sentido, o objeto a que se refere. Num romance, há o código (pode ser escrito, oral, o que for), há o sentido, mas não há um conjunto de objetos que corresponda ao sentido, se houvesse seria História e não romance.

    Na música o que penso que é o sentido e o objeto são o mesmo. O sentido do código é a própria execução. A música seria uma linguagem de apenas 2 estágios nesse caso. Por isso a música funciona apenas com sintaxe, enquanto a literatura precisa de semântica.

    Se pudermos pensar dessa forma, talvez a pergunta possa ser:
    O que faz com que vejamos o sentido de um romance como algo diferente do sentido de uma frase da linguagem ordinária? Por que ele teria um status de existência diferente?
    O que faz com que vejamos o conjunto de sons X como objeto com um status diferente de outros conjuntos de sons?

    Alguns candidatos a explicação podem ser a intencionalidade do autor, uma definição arbitrária qualquer, ou talvez simplesmente estejamos iludidos a respeito.

    E a pergunta espinhosa seria sobre a existência do sentido. Qual o status ontológico do sentido?

    Que achas disso tudo?

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  6. Li agora o seu problema e pareceu-me que há uma certa tendência para levar à exemplificação através de assuntos que podem levar a uma certa confusão e por sua vez a um afastamento de uma resposta imparcialmente racional. Creio que o seu problema "musical" reside numa questão, que eu considero metafísica, que é a existência, "o que é a existência?"; "Onde (em que plano(s)) é que se dá a existência?". 1-A existência tem uma relação íntima com o ser, logo para haver existência tem que haver ser; um ser para ser tem que não-ser, logo algo para existir tem que ter tido uma não-existência. Uma das existências do ser dá-se no plano mental, isto é, um ser sabe que existe e exerce parte da sua existência pensando, e o objecto pensado passa a existir neste plano a partir do momento em que é pensado, quer esta existência seja individual ou colectiva, no caso do ser humano, ou então, relativa ou absoluta (tendo em conta que a existência absoluta é incognoscível e portanto é preciso não-ser). Aplicando estas ideias à sua questão tem-se que: uma obra musical tem a sua primeira existência no momento em que é pensada como um todo, ou seja, "depois do parto". Um acorde, uma escala, só existe depois de terem sido pensados ou concebidos como tal, por exemplo antes de Rameau um acorde perfeito maior era visto como três notas simultâneas, antes de ter sido criada a escala maior esta era vista como uma sucessão de notas de graus conjuntos, etc. Logo a sua existência conjunta (escala, acorde, obra) não era vista pelo ser, e portanto não existia. Vendo desta forma, os acordes, escalas, tem uma existência puramente mental, apenas existindo para aqueles que sabem o que é, e uma sinfonia, quando pensada, existe apenas para aqueles que a pensam.

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  7. Li só hoje o seu artigo... e sobre a música considero-a a "arte portátil" por excelência! Um músico com bom ouvido "transporta" a música para qualquer lado. E não precisa de ser compositor! Sou pianista desde tenra idade e "ouço" música muitas vezes só lendo partituras, sendo elas de piano ou orquestra! A música, como arte, existe, a meu ver, mesmo não sendo executada! Concorda? Teresa Brandão

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