15 de março de 2009

Suspensão do juízo à portuguesa

Recentemente ouvi um diálogo curioso entre duas raparigas (ambas alunas do 12º ano).

- O que pensas do casamento dos homossexuais?
- Sei lá! É uma coisa tão discutível…
- Mas és a favor ou contra?
- Já te disse: é discutível. Cada pessoa tem a sua opinião.
- Mas é isso mesmo que eu quero saber: a tua opinião. Acho que fazes mal em não tomar partido, pois…
- Isso é a tua opinião!

O leitor já assistiu certamente a conversas destas, em que se diz “isso é discutível” não para iniciar um debate mas para declarar o debate inútil e encerrar a conversa.
Não sei o que se passa noutros países, mas em Portugal é frequente encontrar pessoas que não percebem que “discutível” significa “pode ser discutido” ou mesmo “deve ser discutido”.
Serão essas pessoas filósofos cépticos que, perplexos com a diversidade de opiniões suscitada por muitos assuntos, concluem que nada se pode saber e que o mais avisado é suspender o juízo?
Apesar das inúmeras objecções em que o cepticismo incorre, essa seria uma explicação lisonjeira, mas é duvidoso que seja o caso. É que os cépticos não se calam e procuram argumentar, de modo a justificar a ideia de que o melhor é suspender o juízo. (Podemos acusá-los de se auto contradizerem mas não de preguiça mental.)
Pelo contrário, as pessoas que, como resposta à pergunta “Concordas com X?”, se limitam a dizer “isso é discutível” em vez de discutirem, calam-se e não argumentam. Não se dão ao trabalho de pensar. Têm, portanto, pouco a ver com o Sexto Empírico.
Talvez se consiga explicar melhor o seu comportamento relacionando-o com o relativismo. Tais pessoas (mesmo as que nem conhecem a palavra “relativismo”) parecem acreditar que o facto de, em relação a um assunto qualquer, existir mais do que uma opinião significa que todas as opiniões valem o mesmo e que é sintoma de arrogância tentar mostrar que uma é melhor que outra. Por isso, perante uma opinião divergente, acham que faz sentido retorquir apenas “isso é a tua opinião” – em vez de perguntar “porquê” e discutir as razões dadas na resposta.
Dessa atitude relativista até à ofensa ou aborrecimento quando alguém critica abertamente a sua opinião vai um pequeno passo. Um passo que é dado muitas vezes: em vez de discutirem as ideias envolvidas na crítica e de confrontá-las com a opinião criticada sentem-se pessoalmente postas em causa. É como se toda a argumentação fosse ad hominem.
O que torna difícil a discussão livre e imparcial, como se pode verificar em diversas áreas da sociedade portuguesa – nomeadamente nas escolas.

2 comentários:

  1. São as típicas inversões da imaginação popular.

    "De gustibus non disputandum"... pois claro! Depois passamos a vida a discutir preferências, o que é bom, o que é justo, o que é belo, o que é verdade, o que é moral ou imoral...

    Por outro lado, não há verdadeira discussão, as pessoas em geral limitam-se a replicar uma opinião canónica que escolheram algures, num programa televisivo, num jornal, no café, no raio que parta, sem dar dois dedos de pensamento à coisa. Escolhem aquilo que intuitivamente lhes parece ir ao encontro do que já sentiam antes de estarem cientes da "discussão". É por isso que a ideologia custa tanto a morrer e é por isso que os debates televisivos e políticos não se fazem com o objectivo de esclarecer e argumentar, mas de captar emoções, contar armas, recrutar consciências adormecidas que no fundo já concordam com a nossa ideia mas não sabem.

    Parece que só vale a pena falar nas coisas quando "não são discutíveis", isto é, vêm num manual americano ou numa série televisiva ou são repetidas por muita gente algures. Então aí repetimos os lugares comuns até à exaustão.

    Mas se elas são "discutíveis", então é porque não vêm num manual americano, numa série televisiva nem são subscritas por uma celebridade do futebol ou pelo cura da aldeia. Não vale a pena falar nelas.

    Contudo, o que penso é que as pessoas sentem que não vale a pena falar nestas coisas porque no fundo não sabem o que dizer quando não as apanham noutro lugar qualquer, na televisão, no jornal, na igreja ou na praça.

    Isto nada tem de estranho. Estamos biologicamente programados para caçar, comer, cagar, reproduzir... rebentar. O pensamento é um luxo.

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  2. Vítor, se o pensamento é um luxo...
    Como é que se compatibiliza isso com a democracia, em que é suposto toda a gente ser cidadão, escolher os seus governantes, etc? E com um sistema de ensino universal, com escolaridade obrigatória até x anos, etc.?

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