17 de Março de 2009

Tento na língua

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:

A correcção linguística é vista por vezes como uma questão de boas maneiras, entendidas não como um acto generoso de civilidade que tem como fim um convívio mais agradável entre todos, mas antes como uma marca de superioridade social que tem como fim oprimir os outros. É como ter vergonha de pronunciar “lête com caféi”, à alentejana, mas ter orgulho em adoptar a pronúncia de certas classes sociais prestigiadas. Isto prostitui a língua, que deixa de ser vista principalmente como um instrumento de comunicação e conhecimento, para se tornar um instrumento político para demarcar territórios sociais. Nesta mesma linha, encara-se muitas vezes a gramática, a sintaxe ou a ortografia como instrumentos de opressão social e não como um instrumento que devemos conhecer melhor, se o nosso trabalho ou interesse o exige.

Num campo oposto está uma atitude que vê todo e qualquer uso da língua como legítimo, recusando aceitar a tradicional distinção entre a língua culta e a língua popular, ou entre o registo oral informal e o registo escrito formal. Num certo sentido, é verdade que a língua é exactamente o que as pessoas quiserem fazer dela: é o modo como as pessoas falam ou escrevem que determina o que é a língua, e não qualquer entidade linguística abstracta e normativa que determina como as pessoas devem usar a língua.

Ironicamente, esta perspectiva acaba por ter como resultado o mesmo tipo de opressão política de quem encara a língua como um instrumento de demarcação social. Pois ao vender a mentira de que todos os modos de falar a língua são iguais, só por se recusar correctamente a ver uns como superiores aos outros, esta posição fecha num gueto quem não tem amplos recursos de comunicação, reflexão e raciocínio, vendendo-lhes a mentira de que todos os modos de usar a língua se equivalem. É verdade que nenhum modo de usar a língua é superior ou inferior a qualquer outro, mas isso não é por não haver diferenças imensas de sofisticação, subtileza e poder expressivo entre diferentes modos de usar a língua, mas porque a classificação de tais diferenças em termos de superioridade e inferioridade é inapropriada por recorrer a conceitos adequados apenas às desassisadas hierarquias sociais.

O nosso objectivo educativo e público deve ser dar mais recursos linguísticos a quem os quiser, mas procurando desligar isso definitivamente da apropriação social e política costumeira. As pessoas não devem ser inferiorizadas ou oprimidas, na escola ou em qualquer outra parte da vida, por pronunciar palavras deste ou daquele modo, por dar erros de ortografia ou por não dominar sintaxes complexas ou léxicos sofisticados. Devem é ter a oportunidade, se o quiserem, de conhecer melhor o seu instrumento linguístico, para que sirva melhor as suas necessidades. E não devemos esquecer que a língua aprimora-se, alarga-se e torna-se mais sofisticada exclusivamente pelo uso que fizermos dela, pelo que qualquer atitude purista — recusando a integração de palavras de outras línguas, por exemplo — pode impedir o enriquecimento da língua, em vez de o incentivar.

8 comentários:

  1. Cumprimentos!

    Gostei do texto e das suas conclusões com as quais concordo.

    Mas discordo do 3º parágrafo.

    "É verdade que nenhum modo de usar a língua é superior ou inferior a qualquer outro, mas isso não é por não haver diferenças imensas de sofisticação, subtileza e poder expressivo entre diferentes modos de usar a língua, mas porque a classificação de tais diferenças em termos de superioridade e inferioridade é inapropriada por recorrer a conceitos adequados apenas às desassisadas hierarquias sociais."

    Bem, o Desidério admite que há diferentes modos de utilização da língua. Assim, uns permitirão mais expressividade, sofisticação, etc, do que outros. Ora, um modo de usar a língua que permita tudo isto relativamente a outro que não o permita será melhor. Não percebo em que sentido esta classificação "é inapropriada por recorrer a conceitos adequados apenas às desassisadas hierarquias sociais."

    Repare que eu concordo que muitas vezes se liga demasiado a frases "à DREN" que nada têm em conteúdo, mas muito aparentam em sofisticação línguística.

    Exemplificando:
    Saramago exprime-se melhor do que eu. Domina melhor a língua. Assim, o seu modo de a usar é superior. Não vejo o que há de aristocrático nisto.

    Em suma, diferentes línguas e seus modos de utilização são diferentes em qualidade. Qual é o mal nisso?

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  2. Caro Desidério Murcho:
    "As pessoas não devem ser inferiorizadas ou oprimidas, na escola ou em qualquer outra parte da vida, por pronunciar palavras deste ou daquele modo, por dar erros de ortografia ou por não dominar sintaxes complexas ou léxicos sofisticados."
    Um aluno que erre uma multiplicação não deve ter a mesma classificação, a Aritmética, que outro que a acerte; um aluno que dê cinco erros num ditado, em Português ou noutra língua qualquer, não deve ter a mesma classificação que outro que não dê nenhum. O seu texto parece infirmar estas proposições simples. Porquê?

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  3. Uma espécie de escritora que ao que parece vende muito declarou recentemente que tem horror a quem diz "vermelho" em vez de encarnado. Desta declaração concluo duas coisas: que a senhora não é escritora (um verdadeiro escritor não teria preferências, antes tiraria partido das diferentes conotações de "vermelho" e "encarnado" para ajudar, por exemplo, a caracterizar as suas personagens); e que o uso da língua pode servir, com efeito, para marcar pretensas superioridades sociais.

    Do mesmo modo as boas maneiras. Eu costumo distinguir entre boas maneiras e etiqueta, sendo que na minha acepção as boas maneiras excluem a a opressão social. A etiqueta pode, assim, ser contrária às boas maneiras.

    Isto não significa que um uso da língua não possa ser superior ao outro, nem que na escola não se exija o uso mais adequado a cada intenção comunicativa. O que não se pode, é confundir esta superioridade com superioridade social, especialmente quando as marcas desta pretensa superioridade não só não enriquecem a língua, como a empobrecem.

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  4. Adenda: "legoergosum" não é pseudónimo, é o endereço do meu blogue. Quando cliquei no "open ID" pensei que ia aparecer no comentário o meu nome, que é José Luiz Sarmento.

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  5. Olá, João Pedro

    Depois de se reconhecer que o Jacinto tem maior poder expressivo do que o Vilaça, por dominar melhor a língua, conhecer mais vocabulário e poder recorrer a construções sintácticas mais sofisticadas, o que se acrescenta dizendo que o Jacinto é superior ou que o seu uso da língua é superior? Apenas isto: uma classificação social, que identifica maior sofisticação da linguagem com Mercedes, casas de férias e colégios caros onde se põe os filhos, além de roupas das mais caras e telemóveis a condizer. Ou seja, apenas se acrescenta uma classificação social ou macacóide — ainda por cima historicamente falsa, pois não é verdade que quem usa mais sofisticadamente a língua tem sido ao longo da história socialmente superior aos outros: Fernando Pessoa é um dos inúmeros casos óbvios.

    As classificações em termos de inferior e superior são geralmente impróprias porque nada acrescentam a uma classificação socialmente neutra recorrendo a outros termos, excepto preconceitos sociais. E têm a desvantagem de afastar a atenção do essencial: o que há de lamentável em quem tem um domínio menos sofisticado da língua não é o facto falso de ser socialmente inferior, pois não o é, mas apenas o facto de não ter ao seu dispor a riqueza expressiva, a capacidade de abstracção e o rigor de raciocínio que poderia ter.

    Claro que a língua, como quase tudo na vida, é prostituída socialmente tornando-se mero adereço de imaginadas superioridades macacóides, e é precisamente por só verem esse aspecto do domínio da língua que quem pensa mal e se considera de esquerda e muito progressista defende que as crianças não devem ser ensinadas rigorosamente, porque afinal elas já sabem falar quando vão para a escola.

    Daí a importância política de separar firmemente dois aspectos: a superioridade ou inferioridade social de quem fala de modo insofisticado, e a própria sofisticação linguística ou a sua ausência. Os desassisados progressistas actuais não querem admitir que há pessoas com um uso insofisticado da língua porque temem que isso seja admitir que há pessoas socialmente inferiores, coisa que recusam. Os processos mentais destas pessoas são fascinantes, porque é mais ou menos como recusar-se a admitir que devemos dar a todas as pessoas boas condições sanitárias, porque consideramos que não as ter denota inferioridade social e como não queremos reconhecer tal coisa desatamos a dizer que deitar a urina pela janela até é fixe, se deixássemos para trás os nossos preconceitos elitistas.

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  6. Caro JMG

    Fascinante. Ou seja, para si, dar uma má classificação a um aluno é necessariamente oprimi-lo ou inferiorizá-lo. Como eu defendo que as pessoas não devem ser oprimidas nem inferiorizadas por dar erros de ortografia, por exemplo, segue-se que devemos dar a todos as mesmas classificações para não os oprimir. E que tal dar a todos os atletas a medalha de ouro, para não oprimir nem inferiorizar quem não a consegue obter? Dar piores classificações do que se dá a outro aluno não é oprimir e inferiorizar; oprimir e inferiorizar é ridicularizar, discriminar e apoucar quem erra ou quem tem mais dificuldades numa ou noutra matéria. Duas das virtudes centrais do professor são a paciência e a ternura para ensinar e voltar a ensinar o mesmo, corrigir e voltar a corrigir o mesmo, sem apoucar o aluno, sem o ridicularizar, sem o discriminar, pois esta é a única maneira conhecida de aprender. Usar a escola e o poder do professor para oprimir alunos é uma das formas mais baixas de cobardia moral.

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  7. Sarmento: concordo que bom trato, simpatia, cordialidade e agradabilidade são coisas desejáveis e muito diferentes de etiquetas sociais que visam primariamente a opressão social. Um dos males contemporâneos é a confusão entre as duas coisas, pensando-se então que exigir bom trato, simpatia, cordialidade e agradabilidade é o mesmo do que oprimir as pessoas e discriminá-las socialmente, ao passo que deixá-las cuspir-nos em cima é sinal de libertação social.

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  8. é formidável como na imaginação das pessoas "errar" e "descer no escalão da humanidade" se equivalem. O erro não é uma parte normal e natural na aquisição de conhecimento, é um pecado que tem de ser expiado através da penitência, da vergonha, de suportar pacientemente a chacota e a irrisão dos superiores, que então se congratulam pela sua própria superioridade, ao defecar banalidades pela boca, mas com muitos "soi disants" e "tout courts" e "pensar o mundo e a vida" pelo meio.

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