6 de março de 2009

Thomas Nagel

Admito sem questionar que a objectividade do raciocínio moral não exige que este tenha uma referência externa. Não há análogo moral do mundo exterior — um universo de factos morais que nos afecte causalmente. Ainda que tal suposição fizesse sentido não apoiaria a objectividade do raciocínio moral. A ciência, que este tipo de realismo reificador toma como modelo, não deriva a sua validade objectiva do facto de partir da percepção e de outras relações causais entre nós e o mundo físico. O verdadeiro trabalho vem depois disso, sob a forma de raciocínio científico activo, sem o qual nenhuma quantidade de impacto causal sobre nós com origem no mundo exterior geraria uma crença nas teorias de Newton ou de Einstein, nem na biologia molecular.

3 comentários:

  1. Olá Desidério,

    Thomas Nagel diz co capítulo ‘ética’ do “Última Palavra”:

    “A confirmação empírica desempenha um papel vital neste processo, mas não pode fazê-lo sem teoria.” Ele diz que o impacto causal do mundo exterior não passa do nível da percepção sensorial. Ora, a minha dúvida está na ‘teoria’. Nem sempre precisamos da ‘teoria’. Tudo depende do grau de complexidade.

    Mas depois concordo com ele na citação seguinte, porque é nesse sentido que vai o meu texto anterior:

    “Uma vez que o raciocínio moral é uma das espécies de raciocínio prático, as suas conclusões são desejos, intenções e acções, ou sentimentos e convicções que podem motivar o desejo, a intenção e a acção.”

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  2. Desidério, fui ler o resto do capítulo da Ética da “Última Palavra” de Thomas Nagel, de cujo segundo parágrafo da primeira página faz parte o texto que cita. Aqui fica um contributo como comentário, opinião atrevida de um não-filósofo quanto a alguns pontos fracos de Nagel:

    1 . Não se consegue descartar da dualidade objectivo/subjectivo que me parece ser desnecessário para a questão dos valores, no contexto do consequencialismo dos utilitaristas e do contratualismo kantiano que ele parece ter em conta na última secção.
    2 . Dá excessiva supremacia aos juízos de primeira ordem sobre os juízos de segunda ordem; não valoriza o papel biológico na base do altruísmo; na altura em que editou The Last Word, 1997, provavelmente ainda não tinha tido reparado no que “Damásios & Cª” vinham dizendo sobre o papel das emoções na razão, uma vez que diz que o normativo não pode ser desalojado pelo psicológico. Acha que o biológico só pode ser egoísta.
    3 . Baralha-se com a fenomenologia da primeira pessoa.

    Parece-me por isso dar excessivo peso ao seu particular racionalismo de primeira ordem, o que torna um pouco artificial a sua racionalização normativa. Se a racionalização de segunda ordem não tivesse tanta força na prática, então como explicar a persistência da pequena lástima ética no dia-a-dia, oscilações dos índices de criminalidade conforme as crises, e o recrudescimento de tempos a tempos de Auschvitzs ou Bósnias, digamos cinco mil anos volvidos após os primeiros códigos normativos escritos da humanidade? No contexto da evolução darwinista para o biológico é pouco tempo, mas para o normativo, que é cultural, parece muito…se compararmos a razão prática com outras coisas da razão teórica como a ida à lua ou a engenharia genética.

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  3. Por racionalização entende-se geralmente dar desculpas de mau pagador, e não raciocinar cuidadosamente sobre algo. Um raciocínio de segunda ordem é um raciocínio sobre raciocínios. Presumindo que quer defender que é porque as pessoas pensam sobre o pensamento que há horrores, não sei que razão poderá ter para pensar tal coisa, excepto a doutrina do Bom Selvagem, que enfrenta dificuldades provavelmente insuperáveis.

    Quanto ao resto das suas críticas, seria necessário dizer mais qualquer coisa sobre cada uma delas. Não reconheço o livro de Nagel em nenhuma das críticas que faz, mas pode ser limitação da minha parte.

    A ideia de Nagel é apenas que não há uma última palavra, que seja a justificação final, a razão última, o patamar para lá do qual não é possível levantar outra pergunta e pedir outra justificação. Isto significa, na ética, que não há um nível último -- como os impulsos emocionais, ou o contexto histórico, ou seja o que for -- pela simples razão de que podemos sempre pensar sobre esse nível e pedir justificações. E esta capacidade é inerente à racionalidade e inegável.

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